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Django

janeiro 23, 2013

django-unchained-international-posterThe “d” is silent

Novo filme de Quentin Tarantino mistura elementos das suas maiores influências e se transforma em um dos melhores da carreira do diretor

NOTA: 10

Poucos meses após a estreia norte-americana de Lincoln, cinebiografia dirigida por Steven Spielberg, Quentin Tarantino estreou – coincidentemente ou não – seu mais novo filme, Django Livre, que tem sua história centrada em 1858, justo alguns anos antes da posse do presidente (e da Guerra da Secessão). A informação sobre ambos os filmes está relacionada já que o Texas foi um dos maiores estados escravistas dos EUA, e é onde se passa a história de Django.

Comprado e alforriado pelo caçador de recompensas, o Dr. King Schultz, o escravo Django “Freeman” (que fica sendo, ao mesmo tempo, sobrenome e apelido) tem um passado marcado por torturas, abusos e uma fuga mal-sucedida, na qual ele e sua mulher são punidos com a separação. A oferta de Schultz é que Django lhe ajude a capturar uns bandidos procurados em troca de localizar o paradeiro de sua esposa, Brunhilde Von Shaft (!!).

Misturando todos os elementos que o consagraram (diálogos brilhantes, uma trilha sonora excepcional, fotografia incrível, design de som impecável etc.), girando em torno de um tema comum à sua filmografia (a vingança), o diretor conseguiu produzir uma obra-prima. O cinema do absurdo de Tarantino, aqui exibido em sua forma plena e mais evoluída, mistura violência desenfreada com toques de humor inigualáveis – o dente balançando em cima da carroça de Schultz arrancou risadas em todas as aparições, mesmo sendo um objeto inanimado – e ainda homenageando filmes que o próprio cineasta venera. Fica evidente a paixão de Tarantino por alguns clássicos do western spaghetti: famosas melodias de Ennio Morricone, paisagens que lembram aquelas de Sergio Leone e até mesmo o personagem do Dr. Schultz tem um quê do Clint Eastwood do velho-oeste, mesclando com sabedoria a boa educação e o sangue frio.

O mérito do cineasta está, contudo, em fazer uma mescla inteligente de todos esses elementos, no qual os nomes de Siegfried e Brunhilde apareçam lado a lado com um personagem como Django sem destoar. E, ao contrário, fazendo muito sentido. Ainda que a película possa soar como uma paródia (o que não deixa de ser verdade), a dureza da escravidão e dos proprietários de terra sulistas é exposta de maneira explícita, sem esconder o terror que os negros viveram naquela época.

Alguns momentos brutais – como a da luta dos mandingos ou a de um escravo com os cachorros – são absolutamente verdadeiros. Mas para suavizar essas cenas mais chocantes, Tarantino intercala com outras de absoluta genialidade: é noite, e um grupo de cavaleiros encapuzados a lá Ku Klux Klan desce uma encosta com tochas nas mãos, gritando quais animais, e embalados por uma trilha sonora que, não coincidentemente, lembra a Cavalgada das Valquíras, de Richard Wagner. A cena seguinte mostra esse grupo de cavaleiros discutindo sobre a deficiência do tal capuz, como se fosse uma cena tirada de um dos filmes do Monty Python. Não por acaso, é evidente.

O diretor tem a oportunidade de inserir alguns elementos característicos de seus filmes, como os letreiros (iniciais, um corte com uma explicação acerca do paradeiro dos personagens e outro letreiro de Mississipi que, tal qual o rio, flui de maneira elegante pela tela), a estética sempre apurada de alguém que entende muito de cinema (o sangue voando nas flores brancas, estilo O Tigre e o Dragão), a inserção de vários idiomas em um filme passado em um único lugar, ou a cena final, que mais lembra os últimos momentos de Scarface, tudo compactados em um roteiro redondo e sem falhas.

Mas se o cineasta pode aproveitar essas chances, ele também dá a enorme oportunidade aos seus atores de expressarem os personagens da maneira mais visceral que puderem. Escolher um melhor ator entre os ali selecionados é complicado, especialmente Waltz, sempre ótimo, e Leonardo DiCaprio, que vem crescendo de maneira ascendente há muito tempo. A surpresa fica por conta do personagem de Samuel L. Jackson, que de um momento para o outro deixa de ser uma figura submissa e Calvin Candie e assume um papel muito mais ativo do que qualquer um ali poderia imaginar – e a cena na qual os dois se encontram sozinhos na biblioteca é magnífica.

Bem, não é a toa que o próprio Tarantino, em uma entrevista, tenha dito que este era “o Monte Everest” da sua carreira. Concordo 100%, Quentin.

Titulo Original: Django Unchained
Direção: Quentin Tarantino
Gênero: Faroeste
Ano de Lançamento (EUA): 2012
Roteiro: Quentin Tarantino
Trilha sonora: Mary Ramos
Fotografia: Robert Richardson
Tempo de Duração: 165 minutos
Com: Jamie Foxx (Django), Christoph Waltz (Dr. King Schultz), Leonardo DiCaprio (Calvin Candie), Kerry Washington (Brunhilde Von Shaft), Samuel L. Jackson (Stephen), Walton Goggins (Billy Crash), Dennis Christopher (Leonide Moguy), David Steen (Mr. Stonesipher), Dana Michelle Gourrier (Cora), Nichole Galicia (Sheba), Laura Cayouette (Lara Lee Candie-Fitzwilly), Ato Essandoh (D’Artagnan), Don Johnson (Big Daddy), Franco Nero (Amerigo Vessepi), James Russo (Dicky Speck), Don Stroud (xerife Bill Sharp), Bruce Dern (velho Carrucan), M. C. Gainey (Big John Brittle), Cooper Huckabee (Lil Raj Brittle), Doc Duhame (Ellis Brittle).

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