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Lincoln

janeiro 27, 2013

movies_lincoln_posterOh, say, can you see?

Cinebiografia de Abraham Lincoln, que estreia no Brasil dia 25/02, é uma versão desnecessariamente ufanista da história de um dos maiores presidentes dos Estados Unidos

NOTA: 7

Aproveitando o momento de assistir filmes ultra-americanos, Lincoln é a nova película dirigida por Steven Spielberg para contar a história (ou, como veremos, parte dela) do mais famoso presidente dos Estados Unidos. Mas, ao invés de começar do começo, o cineasta prefere escolher o momento mais marcante da breve carreira política de Abraham: 1865, com a aprovação pela Câmara dos Senadores da 13ª Emenda da Constituição, que aboliu a escravidão no país.

Para um filme histórico conseguir se sustentar até o fim – já que teoricamente sabemos tudo o que vai acontecer – não basta ter um elenco de (excelente) qualidade, como é este o caso. É necessário um roteiro forte e convincente, que não conte a trajetória do personagem como está escrito nos livros de história. Infelizmente, Lincoln não é assim. Apesar de seu elenco, o único que consegue brilhar é Daniel Day-Lewis.

E não que isso seja mal: sua atuação é sublime. Muito parecido fisicamente graças a um trabalho de maquiagem bem feito e opções de câmera que favorecem o aspecto longilíneo de Lincoln – que era um homem bastante alto –, o ator se entrega, como sempre, de corpo e alma ao personagem. Assustadoramente parecido ao verdadeiro presidente, assisti-lo usando a longa cartola é quase como assistir a uma incorporação espírita.

Brincadeiras a parte, Day-Lewis consegue demonstrar toda a inteligência, eloquência e carisma do presidente. Quando fala, todos escutam, e suas histórias com muito senso de humor divertem não só ao público, mas a ele mesmo, mostrando certa astúcia que podia não ser visível a olho nu. O diretor é hábil ao mostrar uma faceta mais humana do presidente, colocando-o para acender a própria lareira agachado no chão, ou engraxando os próprios sapatos. Interpretada por Sally Fields, a esposa Mary Todd Lincoln demonstra também a fragilidade da personagem, com voz trêmula diante do marido, mas ousada diante do público.

O problema deste longa reside, entretanto, nas várias falhas do roteiro, que insiste em não conseguir explicar metade daqueles personagens ou suas ambições e, em especial, suas relações uns com os outros. Se o exagero de tratar o espectador como um imbecil, explicando cada detalhe ao longo da projeção, é um erro fatal, Spielberg também se equivoca ao retratar personagens dúbios com obviedade – que, na maioria dos casos, não tem nada de óbvio.

É o caso da maioria das figuras políticas, entre democratas e republicanos, que mantém contatos, relações e favores que não ficam claros em nenhum momento. É o caso, por exemplo, de Thaddeus Stevens, republicano que foi publicamente contra a Emenda até o momento da votação final, no qual ele se revela essencial para a aprovação do projeto. Mais do que isso, só descobrimos que Willie é um dos filhos de Lincoln mortos na (e pela) guerra depois de sua primeira menção (no início, achei que ele fosse um escravo ou até mesmo o cachorro da família!).

Apesar do aparente paradoxo que possa ser hoje em dia que os republicanos votassem a favor de uma medida tão liberal quanto a abolição da escravidão – coisa que os democratas foram radicalmente contra – o momento fatídico da eleição foi criado de maneira inteligente, com tensão e emoção. Ainda assim, não foi o suficiente. A trilha sonora de John Williams é quase nula, sem nenhuma nota marcante, e o falatório e as politicagens deixam todo o resto – exceto Day-Lewis – quase obscurecido. A fotografia tem um ou dois momentos interessantes (como a que o presidente aparece com o filho na janela escutando a celebração), e só.

No geral, Lincoln é somente mais um filme clichê, de um homem só. Carregado inteira e exclusivamente por Daniel nas cenas em que aparece, Spielberg consegue reforçar (ainda mais, se é que é possível) a imagem do norte-americano baba-ovo em seus próprios heróis. Não acho errado, e é importante que a nação reconheça o valor deste grande homem. Mas estou cansada do patriotismo estadunidense, e achei esta uma versão bastante piegas dos fatos.

Titulo Original: Lincoln
Direção: Steven Spielberg
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA/Índia): 2012
Roteiro: Tony Kushner
Trilha sonora: John Williams
Fotografia: Janus Kaminski
Tempo de Duração: 153 minutos
Com: Daniel Day-Lewis (Abraham Lincoln), Sally Field (Mary Todd Lincoln), Joseph Gordon-Levitt (Robert Lincoln), Gulliver McGrath (Taddie Lincoln), David Strathairn (William Seward), James Spader (W. N. Bilbo), Hal Holbrook (Preston Blair), Tommy Lee Jones (Thaddeus Stevens), john Hawkes (Robert Latham), Jackie Earle Haley (Alexander Stephens), Bruce McGill (Edwin Stanton), Tim Blake Nelson (Richard Schell), Joseph Cross (John Hay), Jared Harris (Ulysses S. Grant), Lee Pace (Fernando Wood), Peter McRobbie (George Pendleton), Gloria Reuben (Elizabeth Keckley), Michael Stuhlbarg (George Yeaman), Boris McGiver (Alexander Coffroth), David Costabile (James Ashley).

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