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O Mestre

fevereiro 1, 2013

20337730.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxOrigens

Interessante e bem feito, novo filme de Paul Thomas Anderson trata das origens da Cientologia baseando-se na história de dois extraordinários personagens

NOTA: 10

A religião tem suas maneiras de aparecer ao longo da história. Algumas acontecem de maneira lenta e gradual (como a religião, hoje mitologia, do panteão olímpico), enquanto outras surgem de maneira espontânea, como é o caso de determinadas crenças modernas. Embora não seja possível identificar o “criador” de todas, é inegável que sempre houve (e sempre haverá) um homem/mulher por trás desses preceitos. Neste caso, a Cientologia – fundada em 1952 por L. Ron Hubbard – é o ponto de partida para a reflexão de O Mestre, novo e belo filme de Paul Thomas Anderson.

Mas, ao invés de cometer o grave erro de contar a história da religião desde seus princípios, forçando o espectador a acompanhar uma saga provavelmente entediante, o diretor foi capaz de inserir o contexto da religião na vida do perturbado Freddie Quell, marinheiro durante a Segunda Guerra Mundial e, após o fim do conflito, uma pessoa claramente perturbada pela experiência que viveu.

Interpretado com maestria por Joaquim Phoenix, Quell é um homem visivelmente complicado: alcóolatra , obcecado por sexo, agressivo e com um certo grau de loucura. A carga de problemas na vida do personagem são reveladas quando o personagem subitamente dá risada em momentos impróprios. Isso, somado a sua fisionomia frágil (reparem como ele frequentemente usa as mãos na cintura, como se tentasse sustentar o próprio corpo) e a boca ligeiramente torta – outro truque bem utilizado pelo ator – dão a impressão de que Freddie é uma pessoa prestes a entrar em colapso.

Apesar de ter uma linha cronológica confusa e não muito clara, o roteiro mostra a breve vida de Quell logo após o término da guerra. Enquanto tenta se reajustar, ele trabalha como fotógrafo em um centro comercial e, no tempo livre, cria novos drinques a partir de solventes e outras substâncias químicas. Frustrado por não conseguir se relacionar com as pessoas, Freddie abandona sua cidade e sai em busca de uma “verdade maior” – resolvi chamá-la assim, ainda que não se diga isso no filme em momento algum.

É assim que acaba conhecendo Lancaster Dodd, o “mestre”. Infiltrado em um barco, onde ocorria um casamento, Freddie acaba ficando amigo daquelas pessoas, que o acolhem como mais um dos seus. O Mestre – como é chamado por todos – adota Freddie como cobaia para seus testes e, logo, como protegido. Assim, sem saber, Quell é apresentado à “causa” e às doutrinas de Dodd, sendo submetido diversas vezes à sessões de hipnose e o que o próprio Dodd chama de “viagem no tempo”.

Viajando de cidade em cidade, os membros da causa pregam as teorias inventadas e implementadas por Dodd, e muito cuidado àqueles que ousarem discordar! Sempre baseando seus argumentos nas experiências que realizou com as pessoas, parece ser impossível contradizer o Mestre. Embora fosse odiado pela família de Dodd – cuja esposa Peggy acaba mostrando-se a figura central e a verdadeira mestra de operações –, Freddie deixa-se manipular pelas invecionices de seu mestre, acreditando que aquilo seria capaz de curá-lo e quem sabe trazer de volta a garota que um dia ele amou. A cena mais impactante entre os dois acontece na prisão, quando ambos são separados apenas por grades, e vemos o contraste entre o gênio temperamental de Quell a passividade forçada de Dodd.

Aproveitando muito bem a interação entre os dois personagens, Anderson constrói a trama de modo que o filme nunca se converta em uma pieguice sobre como a religião pode salvar a vida das pessoas, mas sobre estas mesmas pessoas, suas relações e influências. Assim, quando acreditamos que Freddie está sob o jugo dos ensinamentos de Dodd, é curioso observar como este também se deixa levar pelo temperamento explosivo de seu protegido – e as cenas nas quais responde com impaciência aos seus seguidores é um bom exemplo disso.

É um filme intenso, que trata da relação entre estes dois homens, embalado por uma trilha sonora fantástica que soube mesclar temas místicos e perturbadores com melodias nostálgicas, como se tudo aquilo não passasse do maior mistério da vida. O grande mérito do cineasta é jamais nomear a religião ou taxá-la explícitamente de maneira negativa, deixando a cargo do espectador encaixar as atitudes daquelas pessoas da maneira como lhes convier. E se alguém me perguntar quem deveria levar o Oscar de Melhor Ator este ano, não hesitaria em dizer que, por mais que ache Daniel Day-Lewis brilhante, Joaquim Phoenix está imbatível.

Titulo Original: The Master
Direção: Paul Thomas Anderson
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2012
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Trilha sonora: Jonny Greenwood
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Tempo de Duração: 138 minutos
Com: Joaquim Phoenix (Freddie Quell), Philip Seymour Hoffman (Lancaster Dodd/O Mestre), Amy Adams (Peggy Dodd), Jesse Plemons (Val Dodd), Ambyr Childers (Elizabeth Dodd), Rami Malek (Clark), Madisen Beaty (Doris Solstad), Laura Dern (Helen Sullivan).

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