Archive for maio \16\UTC 2013

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Elena

maio 16, 2013

elenaA insuportável existência do ser

Delicadeza e melancolia permeiam a primeira produção da diretora Petra Costa, que abre o coração e a infância para falar da morte da irmã

NOTA: 10

Câmera na mão. Imagens difusas de Nova York. Uma suave voz feminina envolve o espectador, explicando porquê de estarmos acompanhando a caminhada pelas ruas caóticas da cidade. Ela logo explica: procuramos Elena. Essa moça, que desapareceu do mundo aos 21 anos, deixando marcas quase irreversíveis nos corações daqueles que ficaram, buscando-a.

A atriz e diretora estreante, Petra Costa, é a narradora desse emocionante documentário, que leva o nome de sua irmã: Elena. Revivendo o comecinho de suas vidas – desde o encontro dos pais aos nascimentos uma da outra. “No meio desse redemoinho você nasce, meio clandestina, sem poder contar pra ninguém onde morava.” Por meio de arquivos históricos, vídeos gravados em casa e áudios de fita cassete, podemos observar a relação das duas irmãs, cujos catorze anos de diferença não impediram que ali brotasse confiança e muito amor.

A jovem diretora mineira demonstra imensa segurança e senso estético. A beleza para narrar sua intensa relação com a primogênita parte, não só do belo roteiro – também escrito por ela, em parceria com Carolina Ziskind – ou da trilha sonora cuidadosamente escolhida, mas de toda a criação de uma aura pura e quase onírica, ao mesmo tempo sensível e extremamente angustiante.

Acompanhamos a trajetória de Elena desde quando Petra pode recordar-se – com ou sem a ajuda dos vídeos que elas gravavam para se divertir – e entendemos que, quando chegou aos 15, a separação dos pais talvez tenha afetado seu lado mais inconsciente de preservação. Apesar de não demonstrar tristeza, Elena se distancia da família, e decide que quer ser atriz – mas fora do Brasil. Linda e talentosa, ela vai para Nova York e logo descobre ter aptidão para mil tarefas: dança, canto, escrita e, claro, teatro. Faz inúmeros testes e audições, e chega a conhecer Francis Ford Coppola – que, inocente, a convida para assistir as gravações de O Poderoso Chefão 3.

Mas, no meio do caminho, alguma coisa aconteceu com Elena. Algo que não podemos entender – e que Petra tampouco consegue explicar. De natureza aberta, ela se fechou. Seguindo os emocionados depoimentos da mãe e cartas, em forma de diário, que a própria menina escrevia, descobrimos que por trás de toda aquela alegria e leveza se escondia uma tristeza e um vazio imensuráveis. Ela se achava sozinha, incapaz de fazer arte. E se não conseguisse fazer arte, preferia morrer.

Petra tinha apenas sete anos. “Nossa mãe vira saudade, sempre com o olhar distante.” Sua dúvida é a mesma que a nossa: por quê? Como uma pessoa iluminada pode achar que as trevas são mais profundas que o brilho da luz? As memórias da diretora doem na mãe e refletem em nós. Um histórico de depressão que seguiu a família e atingiu até mesmo a mais nova, que só conseguiu superar de vez a trágica perda agora.

Petra se funde, aos poucos, com a memória da irmã – nos vídeos, no teatro, nas dúvidas de adolescente – pode dizer, com alívio, que a superou. “Enceno a nossa morte para poder viver.” Em anos e em vida. As memórias do que ficou para trás vão passando, como um rio cujas águas caudalosas já não têm mais tempo de parar nas margens e perguntar à procura de alguém. As marcas vão se tornando menos visíveis, até que passam, bem como as dores.

“Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e sombra. E é dela que tudo nasce, e dança.”

Titulo Original: Elena
Direção: Petra Costa
Gênero: Documentário
Ano de Lançamento (Brasil): 2012
Roteiro: Petra Costa e Carolina Ziskind
Fotografia: Janice d’Avila, Will Etchebehere e Miguel Vassy
Tempo de Duração: 82 minutos

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Em Transe

maio 2, 2013

trance-poster-new-movie (2)A falha da psicanálise

Com roteiro confuso e atores mal-utilizados, novo filme de Danny Boyle quer ser algo mas não consegue

NOTA: 7,5

Danny Boyle é um diretor competente. Seus últimos longas, embora não sejam considerados excelentes, têm seu estilo e personalidade. São produções são de qualidade, ainda que muita gente possa não gostar. Os dois últimos filmes para cinema foram concorreram ao Oscar – sendo que Quem Quer Ser Um Milionário venceu na categoria de melhor filme.

A mais nova película do cineasta, Em Transe, é uma mistura de thriller de ação com mistério psicanalítico. O protagonista Simon, vivido pelo sempre ótimo James McAvoy, é um viciado em quadros e jogos de cartas. O primeiro vício lhe deu um emprego, de leiloeiro. O segundo, uma dívida. Para conseguir pagá-la, ele recorre ao charmoso bandido Franck.

No meio do ato, Simon sofre uma amnésia e, quando acorda no hospital, a pintura em questão havia sumido. Para poder recuperá-la, Franck decide submeter Simon a um tratamento de hipnose com a Dra. Elizabeth, que logo nas primeiras sessões descobre a encrenca na qual se havia metido.

Entrando cada vez mais na mente de Simon, a médica começa a descobrir segredos da gangue, e a realidade começa a se confundir com as experiências psíquicas. Em momentos que remetem à filmes como A Origem e Amnésia – ambos do diretor Christopher Nolan –, mas sem jamais conseguir atingir clímax ou intensidade parecidos, Boyle mergulha sem muito sucesso em um mundo de imaginação, fantasia e desejo.

Uma confusão de cenas que jogam o espectador de um lado a outro sem chegar a lugar algum, tensão quase inexistente e diálogos um tanto constrangedores marcam os dois primeiros terços da produção. Felizmente – para nós e para Boyle – o terceiro ato recupera o fôlego e consegue esclarecer todos os pontos que haviam ficado soltos durante a primeira hora de projeção. Confuso, o roteiro de Joe Ahearne e John Hodge só se faz entender nos minutos finais, o que não necessariamente melhora a trama. É um filme de ação disfarçado terrivelmente de drama.

As atuações tampouco são notáveis, ainda que McAvoy mostre seu talento sempre que o personagem permite – pouco. O que é surpreendente, já que o enredo deveria levar o espectador a sentir a intensidade e fatalidade na vida daquelas pessoas, e até mesmo raiva por algumas delas. Mas nem isso. A única coisa que Boyle arranca da plateia é uma exclamação de alívio, por ter conseguido sair do cinema com a sensação de que entendemos algo.

Titulo Original: Trance
Direção: Danny Boyle
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (UK): 2013
Roteiro: Joe Ahearne e John Hodge
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Tempo de Duração: 103 minutos
Com: James McAvoy (Simon), Vincent Cassel (Franck), Rosario Dawson (Elizabeth), Danny Sapani (Nate), Matt Cross (Dominic), Wahab Sheikh (Riz), Mark Poltimore (Francis Lemaitre), Tuppence Middleton (mulher ruiva do carro vermelho).