Archive for julho \25\UTC 2013

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Os Amantes Passageiros

julho 25, 2013

los-amantes-pasajeros-cartel1NOTA: 10

Existe gente que é obcecado pela Apple, ou pelo Tarantino, ou por filmes da Disney. Eu sou obcecada com Almodóvar (mentira, sou por todos). O diretor espanhol causa, curiosamente, muito mais fascínio sobre os brasileiros do que sobre os espanhóis e – não de se estranhar – muito mais fascínio sobre mulheres do que sobre homens. Se em seus dramas Almodóvar consegue clímax impressionantes e revelações de seus personagens – como o belíssimo Fale com Ela e seu último, o perturbador A Pele que Habito – em suas comédias ele beira o absurdo, sem jamais deixar de dar atenção à história que está contando.

É isso que ocorre com Os Amantes Passageiros, mais nova comédia do cineasta. Trazendo novamente um elenco de peso, com o qual costuma trabalhar sempre, Almodóvar elabora uma fábula: um grupo de trabalhadores do aeroporto de Madrid – entre eles, Penélope Cruz e Antonio Banderas, com um afetado sotaque andaluz – se distrai e se esquece de tirar o calço de um dos trens de pouso do avião, que vai para dentro da aeronave, impossibilitando uma aterrissagem segura.

Tão logo percebem a cagada dos colegas, o piloto, o co-piloto e o comissário-chefe decidem sedar os passageiros da classe turista – incluindo as comissárias de bordo – para que não entrem em pânico, enquanto sobrevoam a cidade de Toledo em círculos, e não sintam o impacto do pouso.

Até então, nada mais do que uma fábula, não fossem os caricatos personagens, todos eles acomodados na primeira classe, que permaneceu acordada: a velha maníaca (Cecilia Roth), a vidente santa (papel da ótima Lola Dueñas), o empresário fugitivo, o amante arrependido, o casal em lua de mel… E como em todas as suas comédias – ou todos seus filmes, melhor dizendo – há muitos homens gays, que transformam seus papeis em mais do que simples sketches de humor. A interpretação do sempre magnífico Javier Cámara rouba todas as cenas, e até os menos conhecidos se saem muito bem.

Ao mesmo tempo em que mostra as pessoas em seu estado mais animalesco – evocando o maravilhoso O Anjo Exterminador, do conterrâneo Luis Buñuel – Almodóvar não se limita a apenas expor o que há de mais bizarro e maluco na natureza humana, como desenvolve as histórias de maneira extraordinária, buscando respostas para os enigmas pessoais de cada um, e nunca deixando de depositar certa fé – embora a ideia pareça engraçada – de que esses dramas serão resolvidos até o final do filme.

Apostando, como já era de se esperar, em cores berrantes, diálogos mordazes, proferidos com rapidez estonteante, e situações burlescas, caricatas e engraçadas – já disse que são absurdas? –, o cineasta não desaponta. Embora os mais críticos possam dizer que é “mais do mesmo Almodóvar”, não há como negar que ele tem um estilo próprio, celebrado e aclamado – e que foi justamente esse estilo cativante, tão almodovariano, que cativou e continua atraindo tantas e tantas pessoas ao longo de sua vasta carreira cinematográfica.

Título Original: Los Amantes Pasajeros
Direção: Pedro Almodóvar
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (Espanha): 2013
Roteiro: Pedro Almodóvar
Trilha sonora: Alberto Iglesias
Fotografia: José Luis Alcaine
Tempo de duração: 90 minutos
Com: Javier Cámara (Joserra), Raúl Arévalo (Ulloa), Lola Dueñas (Bruna), Hugo Silva (Benito Morón), Antonio de la Torre (Álex Acero), José Luis Torrijo (Sr. Más), José María Yazpik (Infante), Cecilia Roth (Norma Boss), Guillermo Toledo (Ricardo Galán), Carlos Arecers (Fajas), Blacna Suárez (Ruth), Paz Vega (Alba), Penélope Cruz (Jessica), Antonio Banderas (León), Carmen Machi (portera).

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Universidade Monstros

julho 16, 2013

universidade-monstros-poster2NOTA: 9,5

Já faz muito tempo que a Pixar se firmou como um dos estúdios mais bem-sucedidos do mercado cinematográfico. Os sucessos lançados ao longo de 25 anos de carreira falam por si só e, embora haja um ou outro escorregão nessa trajetória, o fato é que suas animações são esperadas por um público tão vasto que abrange pessoas de todas as idades (o que não deixa de ser surpreendente). Por isso, mesmo não superando os grandes clássicos como Toy Story e Procurando Nemo, a nova produção da Disney-Pixar é admirável.

A história de Universidade Monstros é absolutamente previsível, uma vez que todos os eventos desse filme devem levar àquilo que vimos no adorável Monstros S.A., de 2001. E ainda que o roteiro possa lembrar qualquer outro filme norte-americano de high school, confesso que fiquei bem impressionada. Acompanhamos – do jardim de infância à universidade – a vida do jovem Mike Wazowski, um monstrinho verde, com um único olho e muito pequeno se comparado aos colegas de sala. Sua única ambição na vida é se tornar um assustador da fábrica Monstros S.A.

Mas Mike tem um problema: ele não é assustador. Sua aparência fofinha, a voz esganiçada (em português ou no original) e seu tamanho diminuto fazem de Mike motivo de riso quando decide entrar no curso para formação de assustadores na universidade. Lá ele conhece e rivaliza com o grandalhão James T. Sullivan, filho do grande (e assustador) Sullivan, cuja reputação é levada em alta conta pelos professores e demais alunos. Mas ninguém é mais assustador ali do que a diretora Dean Hardscrabble (um trocadilho interessante, inclusive).

Uma disputa faz com que Mike e Sulley sejam expulsos das aulas de susto e, juntos, devem fazer o impossível para reconquistar sua credibilidade com a diretora. Eles se aliam ao grupo nerd, o mais improvável, para vencer uma dura competição. Se ganhar todas as provas, usando suas habilidades e inteligência, o grupo ganha prestígio na universidade e Mike e Sulley podem voltar às aulas de susto.

Sim, esse é o enredo (escrito a seis mãos por Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird), e as possibilidades do que pode ou não acontecer se estreitam a ponto de se tornarem transparentes como água. Mas só até certo ponto. Estamos, afinal, falando da Pixar (embora haja muito de Disney). Ainda que contenha uma história cujo final já sabemos, o que os leva até lá é interessante. É previsível na medida em que sabemos que tudo vai dar certo, já que eles eventualmente conseguem empregos como assustadores na fábrica. Mas surpreende pelo como.

Sem contar que, tratando-se do estúdio em questão, não esperava mais do que gráficos magníficos. Texturas quase palpáveis, ambientes grandiosos (como a sala dos sustos, que mais parece uma catedral) e, o mais importante, personagens com características e personalidades únicas. Além disso, há inúmeras referências ao longa anterior – como era de se esperar. Mas são referências divertidas e inusitadas (como o primeiro companheiro de quarto de Mike, ou a peça de teatro, encenada ao final de Monstros S.A., que aqui aparece em frases e de maneira muito sutil).

A história é mirabolante, mas adorável como seus personagens. A mensagem também é bonita e positiva, de que devemos aceitar quem somos e nossas habilidades, sem nos preocuparmos com o que os outros vão pensar de nós – um dilema eterno para todos, creio eu.

Título Original: Monsters University
Direção: Dan Scanlon
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird
Trilha sonora: Randy Newman
Tempo de duração: 107 minutos
Com: Billy Cristal/Sérgio Stern (Mike Wasowski), John Goodman/Mauro Ramos (James Sullivan), Steve Buscemi/Márcio Simões (Randall), Helen Mirren/Mariangela Cantú (Dean Hardscrabble), Joel Murray/Samir Murad (Don Carlton), Sean Hayes/Marcos Souza (Terri Perry), Dave Foley/Sérgio Cantú (Terry Perry), Julia Sweeney/Aline Ghezzi (Sherri Squibbles), Alfred Molina/Reinaldo Pimenta (professor Knight), Bob Peterson/Manolo Rey (Roz), John Ratzenberger/ Cláudio Galvan (Yeti), Frank Oz/Marco Ribeiro (Jeff Fungus).

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Homem de Aço

julho 2, 2013

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Versão de Super-Homem de Zack Snyder traz uma nova visão sobre o herói, que aqui surge mais realista em um mundo cada vez menos inocente

NOTA: 8

Nunca gostei do Super-Homem. Um herói datado, que nasceu dos estúdios da DC Comics em 1938 para simbolizar a hegemonia dos Estados Unidos nos momentos cruciais que antecederam a Segunda Guerra Mundial, quando as nações dos países aliados precisavam de um herói ao qual se agarrar. Hoje, a hegemonia norte-americana está em decadência, e o Super-Homem se transformou – apesar de todos os seus poderes – no típico herói “coxinha” (o mesmo aconteceu com o Capitão América, da Marvel).

Claro que algumas histórias mais recentes, como “A Morte do Super-Homem”, “Crise Infinita” e a nova leva dos New 52 – repaginação de todos os heróis e histórias da editora – trazem um lado do herói que pouca gente conhecia, com angústias, medos e desejos reais, embora continue sempre sendo o “boy scout” pelo qual ficou conhecido. E por mais que eu não seja tão fã do personagem, devo admitir que o Homem de Aço dirigido por Zack Snyder encarna esses sentimentos humanos de maneira bastante satisfatória.

Como não poderia deixar de ser, é um filme de origem, que mostra desde a destruição do planeta Krypton – e os dilemas finais daqueles habitantes – até o surgimento definitivo do herói. Assim, conhecemos as motivações de Jor e Lara-El que reconhecem na instabilidade do núcleo de Krypton sua destruição, e decidem mandar Kal-El, o filho recém-nascido, para uma estrela distante, para que pudesse reviver os ideias de sua terra natal e ser o melhor dos dois mundos. A estrela é, como todos sabemos, a Terra.

O antagonista de Jor-El é o general Zod, destinado a lutar pela sobrevivência de seu povo. Zod é um vilão menos conhecido nas histórias do herói, mas que ganha enorme destaque aqui. Após a destruição de Krypton, saltamos diretamente para o jovem Clark Kent que, logo em sua primeira cena, é responsável por salvar um grupo de pessoas em perigo (é também em sua primeira cena, para a alegria geral da mulherada, que o vemos sem camisa, com direito a um nada modesto close em seu menos-modesto-ainda tanquinho).

Descobrindo aos poucos sobre si mesmo e seus poderes, Clark está sempre pronto para ajudar os outros. Passando por uma série de subempregos – em um deles, em companhia da namorada de adolescência, Lana Lang – suas tentativas de se encaixar no mundo obviamente fracassam. É em um desses bicos que ele, por incidente, conhece a jornalista Lois Lane, do jornal Planeta Diário. É nesse lugar que ele também descobre, em cenas repletas de simbolismos, sobre sua origem, e toma decisões importantes que definirão sua personalidade adulta, bem como sua vida.

Retratado com uma certa tristeza no olhar, o Clark Kent de Henry Cavill é convincente e plausível. Mesclando vulnerabilidade sentimental com imenso poder físico, o Super-Homem de Cavill mostra que aprender a controlar os poderes não foi fácil, e que fazer certas coisas ainda é doloroso – reparem na cara de esforço que ele faz a cada vez que levanta voo, outra habilidade que também aprendeu com treino. Ele é, enfim, bem sucedido ao indicar o ponto fraco do herói. E observar o Super-Homem completamente caracterizado voando sobre a Terra, ultrapassando a velocidade do som e da luz, é de arrepiar! Essas cenas remetem, inevitavelmente, àquelas contemplativas de Árvore da Vida, de Terrence Malick – só que sem os dinossauros.

Aliás, todo o elenco faz um excelente trabalho. Russel Crowe transmite com excelência a sabedoria e o calculismo de Jor-El, enquanto Kevin Costner faz um maravilhoso Jonathan Kent – e protagoniza uma das cenas mais emocionantes do longa. Michael Shannon, como o general Zod, encarna toda a fatalidade de seu destino que, diferente do de Kal-El, não houve uma opção. O papel de Lois é pouco explorado, mas Amy Adams faz aquilo que pode (e faz tão bem) com o que tem em mãos. Ela demonstra sua personalidade forte aqui e ali, mas suas cenas não são suficientes para criar uma “mocinha” marcante, o que é natural.

Embora tenha gostado bastante de Homem de Aço, preciso reconhecer que há falhas que atrapalham, em certa medida, a evolução da historia. A principal talvez seja o excessivo uso de flashbacks, recurso utilizado por Snyder para contextualizar a infância de Clark, que sofria todo tipo de ofensa sem poder revidar com medo de se expor ao mundo e ser tratado como um estranho – ele não podia prever como as pessoas reagiriam na presença de um alien, uma temática já explorada nos filmes dos X-Men, e que comento em X-Men First Class. Ainda que sejam necessários em determinados momentos, o excesso de quebras na narrativa torna o filme um pouco confuso.

Algumas cenas também me pareceram problemáticas, em especial aquela na qual Lois decide seguir Clark por um penhasco de gelo sem qualquer explicação lógica – e aqui a curiosidade jornalística não me convence. Nesta mesma sequência, Clark decide usar o uniforme que o pai havia guardado para ele sem que jamais fique porque ele entra barbado e sai de cara limpa. Se não for um grotesco erro técnico, fica faltando uma explicação sobre o próprio uniforme – se ele concedia novos poderes (o de fazer a barba?) ou potencializava aqueles que Clark já possuía.

Mas é preciso também ressaltar as qualidades, já que os efeitos especiais são excepcionais e aqui, como em Star Trek – Além da Escuridão, o 3D funciona na medida certa. É curioso notar, por exemplo, os computadores ultramodernos que têm um interessante aspecto de chumbo líquido. Além disso, há algumas boas transições de cenas, como o botão de alerta da impressora piscando na sequência de uma importante revelação. É interessante notar, também, a voz robótica e fria dos kryptonianos liderados por Zod.

Outras coisas que me chamaram a atenção: a referência aos caminhões da LexCorp – indicando uma provável continuação –, as cenas de luta tiradas de videogames, mas que funcionam de maneira espetacular (os fãs do herói entrarão em júbilo) e a magnitude de uma máquina de guerra, instalada para assolar a Terra, que alia um ruído a cenas de destruição assombrosas. A trilha sonora composta por Hans Zimmer não se parece em nada com a original, escrita por John Williams para os filmes de Christopher Reeve. É muito mais densa e sombria, por assim dizer, e tem sua marca registrada no forte tema criado para o vilão.

Sem jamais chamar Clark de Super-Homem, o filme de Zack Snyder constrói um novo ícone, que respeita o cânone, mas inclui pitadas de seu estilo e a visão de Christopher Nolan – a fotografia dessaturada e realista, por exemplo. Assim, Homem de Aço se firma como uma ótima adaptação da DC, nos moldes da trilogia Batman – embora não tão boa quanto o primeiro longa do morcego, mas distanciando-se com louvor do pavoroso Lanterna Verde. E se uma reunião da Liga da Justiça parece improvável, este Super-Homem deixou gostinho de quero mais.

Titulo Original: Man of Steel
Direção: Zack Snyder
Gênero: Ação
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: David S. Goyer e Kurt Johnstad
Trilha sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Amir M. Mokri
Tempo de duração: 143 minutos
Com: Henry Cavill (Kal-El/Clark Kent), Russell Crowe (Jor-El), Ayelet Zurer (Lara-El), Amy Adams (Lois Lane), Michael Shannon (General Zod), Kevin Costner (Jonathan Kent), Diane Lane (Martha Kent), Antje Traue (Faora-Ul), Harry Lennix (General Swanwick), Richard Schiff (Dr. Emil Hamilton), Christopher Meloni (Coronel Nathan Hardy), Laurence Fishburne (Perry White), Jadin Gould (Lana Lang).

(deixo aqui um petisco para as meninas)