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A Grande Beleza

fevereiro 27, 2014

grandebellezza-Poster01NOTA: 10

Feito para ser apreciado a partir da contemplação, já que esse é o estado que permeia a película, este novo filme de Paolo Sorrentino ainda é um dos meus favoritos de toda a temporada. Embora esteja indicado somente à categoria de filme estrangeiro, A Grande Beleza reúne tantos elementos que justificam e apoiam o título que é difícil me conter nos elogios.

A história acompanha um período na vida do escritor romano Pep Gambardella, que começa em sua festa de aniversário, com clima hedonista, repleta de bizarrices e que tem como objetivo introduzir as figuras (ou, melhor dizendo, a fauna) que é o círculo social do protagonista em Roma. Seus amigos apresentam um certo grau de desajuste: um homem apaixonado por uma mulher que o despreza, uma mulher cujo filho enlouqueceu com os ensinamentos de Proust, e outra que se sente intelectualmente superior aos outros. A única que parece manter a sanidade é Dadina, uma editora anã com plena consciência de sua condição física.

Esse grupo de pessoas, em constantes elucubrações e debates filosóficos e políticos, representa a nata da alta sociedade que, em decadência, tende a entrar em um círculo vicioso de auto-indulgência e que, para sair da mesmice da vida, precisa ser louca e rebelde. As aparências são, aqui, um dos temas centrais. O próprio Pep, apesar de se dizer mal das pernas, mora em uma cobertura com vista de tirar o fôlego para nada menos que o Coliseu. Mesmo criticando acertadamente todos ao seu redor com um língua ferina, ele atua como uma espécie de deus que se acha distante das máculas terrenas, numa atitude quase eclesiástica.

É curioso, ainda, como o diretor coloca a sensação de velhice iminente do personagem em contraste com uma das cidades mais velhas do mundo. O roteiro, extremamente crítico ao estilo de vida da classe média moderna, foi escrito por Sorrentino e Umberto Contarello, e brinca com as religiões, explicita a decadência da nobreza europeia, além da burguesia, eleva conceitos difundidos sobre arte ao próximo nível – tornando aquela sensação de “meu filho pode fazer melhor” em uma cena que beira o surrealismo. A arte é, também, um dos elementos narrativos pelo qual os personagens tentam aplacar os anseios dessa vida sem sentido. De gosto claramente duvidoso, os movimentos artísticos tornam esses personagens blasées ao ponto do socialmente insustentável, e faz com que atuem de maneira arrogante diante de assuntos desconhecidos.

Cheio de simbolismos, A Grande Beleza transita entre o estilo de Federico Fellini e as cenas contemplativas de Terrence Mallick, com fotografias esplêndidas da bella Roma, com paisagens bucólicas e jogos de luz e sombra que remetem, em determinado momento, a um mundo medieval, quase onírico. A trilha sonora, especialmente cuidadosa, vai do clássico (como a belíssima cena inicial com um coro feminino) ao eletrônico com facilidade – e a música da festa (feita por Bob Sinclair), a princípio ensandecida, logo cede espaço a uma batida contagiante que não consigo parar de escutar.

Apear de um pouco longo, Sorrentino parece não fazer nada despropositado. Este é, certamente, um daqueles filmes que poderei assistir repetidas vezes sem cansar. E se Pep parou de escrever porque não encontrava a grande beleza da vida, esse filme poderia facilmente servir como fonte de inspiração.

Título Original: La Grande Bellezza
Direção: Paolo Sorrentino
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália): 2013
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Trilha sonora: Lele Marchitelli
Fotografia: Luca Bigazzi
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Toni Servillo (Pep Gambardella), Carlo Verdone (Romano), Sabrina Ferilli (Ramona), Carlo Buccirosso (Lello Cava), Iaia Forte (Trumeau), Pamela Villoresi (Viola), Galatea Ranzi (Stefania), Franco Graziosi (Conde Colonna), Sonia Gressner (condessa Colonna), Giorgio Pasotti (Stefano), Massimo Popolizio (Alfio Bracco), Vernon Dobtcheff (Arturo).

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O Lobo de Wall Street

fevereiro 25, 2014

21061632_20131127212143127.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxNOTA: 9,5

Quando Martin Scorsese se propõe a fazer algo, seja qual for o tema, sempre presto atenção, pois ele raramente me decepciona – até agora, o único filme que não me enganchou foi A Invenção de Hugo Cabret, mas talvez por preguiça minha. Assim, ao saber de seu novo projeto, mais uma vez ao lado de Leonardo DiCaprio, tive a sensação de que seria um dos grandes filmes do ano.

E eu estava certa: O Lobo de Wall Street é um filmaço, cheio de nuances, personalidades fortes e cenas extravagantes – para dizer o mínimo. Não deixa de ser um filme característico do diretor, que conta a história de um personagem principal problemático e que, estranhamente, consegue nos cativar de maneira irresistível. Leonardo DiCaprio interpreta Jordan Belfort, um homem simples que transforma sua carreira em um case de sucesso.

Belfort começou a vida como corretor em Wall Street e, como era um homem extraordinariamente articulado, em pouco tempo fundou a própria empresa, enriquecendo às custas do dinheiro alheio e sobrevivendo à base de muitas drogas e bebidas. Essa história, verídica e baseada na autobiografia do próprio Belfort – traduzida a roteiro por Terrence Winter –, é o retrato da quadrilha americana da década de 90. Belfort e sua gangue de corretores não usavam violência para desbancar os concorrentes, mas não deixavam a antiga máfia que dominou o país (e os filmes de Scorsese) para trás.

Sádicos e pouco preocupados com o próximo – coisa que a máfia italiana nunca deixou de ser –, os personagens têm diálogos vivazes e rápidos, cheios de uma motivação feroz, instigada por “Wolfie”, ou como os amigos chamavam Belfort. Interpretado por Leonardo DiCaprio de maneira intensa – perdendo em genialidade apenas para o Calvin Candie, de Django – e ao lado do comparsa Donnie Azoff (em outra atuação inspiradíssima do comediante Jonah Hill), Belfort é um homem sem limites.

Seguindo à risca os ensinamentos do ex-chefe, Mark Hanna – um Matthew McConaughey que, embora não apareça por mais de 15 minutos, rouba quase o filme inteiro para si –, ele leva a vida ao extremo, usando drogas desenfreadamente e fazendo a melhor reinterpretação do personagem de Ray Liotta de Os Bons Companheiros que eu já vi. Fica difícil imaginar que a Academia não vá presenteá-lo com o Oscar de melhor ator este ano.

De qualquer maneira, Scorsese faz um filme divertido, engraçado e ao mesmo tempo com a constante lembrança de que Belfort não pode sair impune pela série de crimes que comete por onde passa. A fotografia clara, brilhante e alegre de Rodrigo Prieto – antigo colaborador do cineasta – parece contradizer de propósito essa mensagem negativa expressada pela trilha sonora, composta por Howard Shore. O design de som aparece, também, de maneira orgânica e muito bem pensada – há uma cena em que Belfort está fazendo um discurso, por exemplo, e a trilha, o silêncio e o design de som se intercalam, criando uma atmosfera vibrante. Coisa de gênio.

Calejado, Scorsese sabe como conduzir o filme de maneira que reconheçamos o carisma de Belfort tanto quanto seus colegas o reconhecem – venerando-o como a um líder religioso – e, ao mesmo tempo, possamos dar risada de seu papel muitas vezes ridículo. E aquela cena em que ele está em um telefone público num hotel é das mais cômicas da carreira do cineasta. O fio narrativo também é conduzido de maneira espetacular, introduzindo elementos que ajudam na compreensão da história – como corrigir elementos da narrativa no momento em que ela está sendo contada – e chamando o espectador de idiota sem o menor pudor, como o próprio Belfort faz questão de fazer, por exemplo, ao interromper uma fala complexa por acreditar que nós, que estamos de fora do mundo financeiro, acharíamos aquilo chato e confuso.

Embora use alguns links mais óbvios, como o do iate afundando, Scorsese jamais deixa de ser convincente e verossímil ao contar a história. Com uma narrativa subversiva e escancarada, o filme não se dá ao trabalho de dizer que Belfort é um canalha. Nós mesmos deduzimos isso ao longo das quase três horas de projeção. O Lobo de Wall Street é, enfim, mais um dos inúmeros méritos do diretor.

Título Original: The Wolf of Wall Street
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Terrence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort
Trilha sonora: Howard Shore
Fotografia: Rodrigo Prieto
Tempo de duração: 179 minutos
Com: Leonardo DiCaprio (Jordan Belfort), Jonah Hill (Donnie Azoff), Margot Robie (Naomi Lapaglia), Matthew McConaughey (Mark Hanna), Kyle Chandler (agente Patrick Denham), Rob Reiner (Max Belfort), Jon Bernthal (Brad), Jon Favreau (Manny Riskin), Jean Dujardin (Jean-Jacques Saurel), Joanna Lumley (tia Emma), Cristin Milioti (Teresa Petrillo).