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Manderlay

junho 2, 2014

manderlay_posterNOTA: 9

É natural que algumas continuações não sejam tão boas quanto os filmes “originais”. Mas não podemos dizer o mesmo de Manderlay. Apesar de ter sido inicialmente concebido para ser uma espécie de sequência de Dogville – tanto em tema (o da escravidão) quanto na evolução da personagem – o filme não é, em nada, uma continuação. Se realmente o fosse, não teria sido feito por Lars Von Trier.

Analisando cada peça como única e com sua própria dinâmica, o cineasta volta ao tema mais problemático dos Estados Unidos recente e deixa claro suas opiniões a respeito, através de muita ironia e sadismo – o que explicam os absurdos créditos finais. O filme é, em sua essência, exatamente aquilo que esperamos das produções de Von Trier – e, justamente por isso, é compreensível até certo ponto porque as pessoas achem esse um de seus filmes mais estranhos. Mas já chego lá.

A história ainda é sobre Grace, uma menina que, ao sair de Dogville ao lado do pai distante, para na frente de uma grande propriedade de algodão no Alabama, chamada Manderlay. Entrando para defender ativamente um escravo que estava a ponto de ser punido, Grace interpela por ele, proíbe a punição – ao lado de seus fiéis gângsteres – e vê a dona da propriedade morrer.

Ao saber que sua ação foi muito além da esperada ou desejada, ela decide ficar e observar a evolução daquela pequena comunidade, a princípio com distanciamento, e em seguida ativamente. Suas ações começam a ter cada vez mais impacto na vida daquelas pessoas, até o momento em que ela se transforma na peça-chave para o funcionamento da nova sociedade que criou.

Embora se aproxime dos filmes mais hollywoodianos de Von Trier – como Ondas do Destino e Melancolia – continua tendo a mão de seu criador. O espaço físico também segue a lógica de Dogville: a maioria dos cenários é imaginado ou pintado no chão, favorecido apenas por iluminação, design de som e pela narração de John Hurt.

A jovem Bryce Dallas Howard – substituta de Nicole Kidman como Grace – se encaixa perfeitamente no papel. Seu jeito de menina inocente e ingênua colabora para as cenas de maior intensidade dramática – e, embora a escolha não tenha sido de Von Trier, é completamente convincente. Alguns atores que participaram do “primeiro” filme também aparecem em outros papeis, ao mesmo tempo diferentes e semelhantes.

Apesar da iniciativa democratizante de Grace, o filme faz algumas magníficas referências – a que hora jantam os homens livres? Ou aquela que compara escravos a passarinhos em gaiolas – e perpassa por questões imorais e de resolução pouco (ou quase nada) democráticas. A democracia, em si, é aplicada sob o ponto de vista único da personagem, que dita as regras com um absolutismo monárquico.

Ao fim do filme, as tentativas antiescravistas são colocadas em xeque pelo diretor, que questiona diretamente – através do personagem de Danny Glover que, me parece, foi uma das inspirações para o velho escravo Stephen, de Django – se elas realmente foram boas ou se foram apenas uma aplicação prática daquilo que Grace considerava bom na teoria. É uma crítica brutal e visceral não só ao escravismo americano, mas ao que foi feito após a abolição.

Provocador, Von Trier conhece seu público, mas não tem medo ou vergonha de tocar em questões delicadas. Assistir qualquer um de seus filmes significa estar com a cabeça aberta para receber as chicotadas sociais e as críticas ao nosso próprio estilo de vida de sociedade. É (mais) um filme obrigatório na carreira desse brilhante diretor.

*Texto originalmente publicado no Salada de Cinema

Título Original: Manderlay
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca): 2005
Roteiro: Lars Von Trier
Trilha sonora: Joachim Holbek
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Tempo de duração: 139 minutos
Com: Bryce Dallas Howard (Grace Margaret Mulligan), Isaach De Bankolé (Timothy), Danny Glover (Wilhelm), Willem Dafoe (pai de Grace), Michael Abiteboul (Thomas), Lauren Bacall (madame), Jean-Marc Barr (Mr. Robinsson), John Hurt (narrador), Zeljko Ivanek (Dr. Hector), Udo Kier (Mr. Kirspe), Chloë Sevigny (Philomena).