Archive for janeiro \08\UTC 2015

h1

Ninfomaníaca volume I

janeiro 8, 2015

nymphomaniac-posterNOTA: 10

Depois de anos de carreira e uma espetacular filmografia, achei que Lars Von Trier não seria capaz de me fazer sentir novamente como o Cinema é uma arte fabulosa. Surpreendente como ele só, Ninfomaníaca volume I já conquistou um lugar especial na lista de favoritos do diretor – embora essa seja só a primeira parte de um filme que, em conjunto, promete ser ainda mais ambicioso.

Ambicioso, pois Von Trier decidiu entrar mais uma vez em terras áridas e temas tabus (ele já passou por depressão, loucura, escravidão e cristianismo, entre outras coisas) e falar de maneira explícita sobre sexo. Não só isso: é um filme de sexo, taras, manias, relações – sob a ótica cínica, crítica e muitas vezes deturpada do cineasta.

Extremamente visual e permeado por metáforas filosóficas sobre o amor e o conceito de ninfomania no mundo moderno, durante todo o filme acompanhamos a confissão de Joe – encontrada caída no chão e toda machucada – a Seligman, um homem aparentemente simples e de bom coração. Se faz necessário dizer que o personagem é judeu, já que essa informação é revelada ao espectador em meio a referências “gratuitas” – sem dúvida alguma por conta dos comentários anteriores do cineasta sobre o tema – a respeito da diferença entre antissemitismo e antissionismo.

Com linguagem direta e evidenciando os cortes de edição, Von Trier insere o espectador na história da jovem Joe, contada através de capítulos que tem relação direta com a conversa, desde quando ela começou a perceber sua sexualidade na adolescência e a maneira como lidou com isso. Diríamos nós, moralistas, que ela teve uma infância problemática e por isso desenvolveu essa característica maníaca com relação ao sexo. Para Seligman, no entanto, não há ação capaz de condenar Joe, embora ela não consiga justificar muitas das coisas que fez e relate sua história com culpa.

Permeando a complexa narrativa da moça com comparações absurdas sobre pesca, música clássica e aviação – enquanto mostra, visualmente, imagens, gráficos divertidos e inesperados –, o diretor desenvolve um roteiro soberbo, polêmico, extravagante e incômodo na maior parte do tempo. O Cinema serve, afinal, para ser uma pedra no sapato. Claro que, em se tratando de Von Trier, profundo conhecedor da Sétima Arte, todas as inserções e simbolismos têm um porquê de estarem ali – embora alguns soem um pouco artificiais, como o gato e o aeromodelo.

Há momentos sensacionais, que levam ao riso pelo simples absurdo, como a sequência do trem e a explicação sobre o clube que pregava contra o amor (mea vulva, mea maxima vulva) e cujo tom demoníaco tem relação direta com o sentimento de aversão do grupo. Mas, na maior parte da projeção, toda a vida da jovem Joe é propositalmente sexualizada, já que ela usa o sexo como válvula de escape e refúgio para seus problemas.

E é tocante observar, por exemplo, como ela se ressente de não conseguir sentir nada quando sabe que deveria, ao estar com o homem amado. Ou, então, a belíssima sequência – chamada de A Queda da Casa de Usher, em homenagem a Allan Poe e em p&b – na qual ela deixa escorrer uma “lágrima” por seu pai no hospital. Pai que é, por sinal, interpretado com muita delicadeza por Christian Slater.

Há outros momentos maravilhosos, como a sequência dos três amantes ou como, de maneira melancólica, Joe comenta: “sempre exigi muito mais do pôr do sol”, revelando mais de sua personalidade sofrida do que suas cenas de sexo desenfreado. Conduzindo a história sempre para a frente com o roteiro bem dividido, Von Trier cria, novamente, um filme único, cheio de personalidade, e ao mesmo tempo totalmente original. E, afinal, como não amar um diretor que começa e termina o filme com Rammstein?

*Texto originalmente escrito em 27/02/2014

Título Original: Nymphomaniac p.1
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca/Alemanha/França/Bélgica/UK): 2013
Roteiro: Lars Von Trier
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Charlotte Gainsbour (Joe), Stellan Skarsgård (Seligman), Stacy Martin (jovem Joe), Shia LaBeouf (Jerome), Christian Slater (pai de Joe), Uma Thurman (Mrs. H), Sophie Kennedy Clark (B), Connie Nielsen (mãe de Joe).

h1

Trapaça

janeiro 7, 2015

American-HustleNOTA: 7

Depois do enorme êxito com o excelente O Vencedor, de 2011, o diretor David O. Russell volta a trabalhar com Christian Bale e Amy Adams em um projeto ousado, cuja história se desenrola em uma década já caricata por si só, mas que Russell consegue deixar ainda mais extravagante. Logo após assistir ao também extravagante (mas infinitamente melhor O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese), fica claro ao espectador que o cineasta mais jovem buscava uma homenagem a um dos mestres do Cinema.

Acompanhamos a história inspirada em fatos reais de Irving Rosenfeld, um trapaceiro de primeira que se alia à bela e igualmente trapaceira Sydney para aplicar o golpe da pirâmide: empreste-me dinheiro e eu te tornarei rico. O emprestador, obviamente, jamais via um centavo novamente. Eles iam relativamente bem até toparem com o agente do FBI, Richie DiMaso que, em troca da liberdade, obriga o casal a ajudarem-no a pegar peixes maiores, como mafiosos e o bondoso prefeito de New Jersey, Carmine Polito.

O problema de Irving realmente começa quando ele é obrigado a colocar no mesmo cenário de Sydney sua histérica e ignorante esposa, Rosalyn, e precisa aguentar tanto a arrogância quanto a própria corrupção do agente para o qual agora trabalha. Forçando na caracterização de seus personagens, Russell transforma a todos em palhaços extravagantes. Desde os cabelos exagerados do elenco aos risos forçados de Bradley Cooper como DiMaso fazem de Trapaça um filme ambíguo.

Embora demonstre técnica e precisão ao tentar “imitar” o estilo de Scorsese – narrações em off, movimentos de câmera com closes em objetos específicos, planos-sequência e uma trilha sonora que ajudam a compor a história – Russell acaba pecando justamente no exagero de alguns momentos. O mais problemático deles é, sem dúvida, a escalação do elenco.

Por um lado, Christian Bale e Amy Adams dão mais do que conta do recado, trazendo personagens complexos e interpretados com maestria por ambos. Juntos, eles e o carismático prefeito de Jeremy Renner compõem o melhor do longa. Por outro lado, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, como Rosalyn, apresentam o mesmo comportamento histérico exibido no regular O Lado Bom da Vida. Ambos, com uma característica que tende ao absurdo por natureza, forçam suas atuações de tal maneira que não soam orgânicas. A sensação que tive foi que Cooper gostaria de ser exageradamente natural como Jack Nicholson, falhando estrepitosamente no meio do caminho.

Já no caso de Lawrence – que é uma atriz que admiro muito – o problema parece ainda mais grave. Obviamente escalada para um papel no qual a personagem deveria ser muito mais velha, Lawrence parece desconfortável o tempo todo, como se a própria Rosalyn estivesse atuando. Suas cenas são esteticamente perfeitas, mas emocionalmente vazias. Para finalizar, admito que foi um pouco decepcionante ver o grande comediante Louis C. K. interpretar um personagem tão insípido como o chefe de DiMaso.

Como disse acima, o filme se salva pelas atuações de Bale, Adams e Renner e por sua história convincente, no qual os “mocinhos” do FBI se transformam em vilões, demonstrando ambição além do limite e buscando destruir a vida de políticos e mafiosos a qualquer custo em troca de reconhecimento e fama. Mas, mesmo tendo uma premissa interessante, o excesso de explicações para que o espectador entenda a história demonstra não só a fragilidade do roteiro, escrito por Russell e Eric Singer, mas a insegurança do próprio Russell ao tentar assumir uma posição scorseseana.

Título Original: American Hustle
Direção: David O. Russell
Gênero: Crime/Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Eric Singer e David O. Russell
Trilha sonora: Danny Elfman
Fotografia: Linus Sandgren
Tempo de duração: 138 minutos
Com: Christian Bale (Irving Rosenfeld), Bradley Cooper (Richie DiMaso), Amy Adams (Sydney Prosser), Jennifer Lawrence (Rosalyn Rosendfeld), Jeremy Renner (Carmine Polito) e Louis C. K. (Stoddard Thorsen).