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Álbum de Família

fevereiro 27, 2015

august_osage_countyNOTA: 8

Quando finalmente decidi assistir Álbum de Família, do diretor John Wells, fui preparada para amar e odiar todos os personagens, já que nem mesmo o pôster de divulgação do longa ajuda a manter a discrição do conteúdo de violência verbal-familiar. E eu tenho um problema com personagens que criam problemas por conta de suas personalidades ridículas, ainda mais com as próprias famílias. Lembram de A Culpa é do Fidel? Foi a primeira vez na minha vida que tive vontade de matar uma criança (mentira, gente, mas agh que menina insuportável).

Enfim, o fato é que o elenco de peso foi o fator decisivo para assisti-lo, já que, além de Meryl Streep, ainda conta com Julia Roberts, Ewan McGregor, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch e Dermot Mulroney. Acompanhamos a história hipocondríaca e alcóolatra Violet Weston, mãe de três filhas, que desenvolveu recentemente um câncer na boca.

Com uma personalidade de cão, o marido a abandona após anos de um casamento conturbado, no qual ele também havia exagerado nos entorpecentes. Com pena da mãe solitária, as filhas (e os respectivos) e a irmã decidem visitá-la para tentar atenuar sua dor. No entanto, Violet é uma velha cheia de ressentimentos, sem papas na língua e que não tem o menor pudor de dizer coisas inapropriadas para quem quer que seja.

Problemas de família todo mundo tem, e Wells faz questão de apontar cada um deles, partindo de uma mãe cujo complexo de inferioridade faz com que ela se faça de vítima e reaja de maneira dramática em todas as situações. Abordando uma família na qual todos parecem ter algum problema mental – alguns literalmente –, o roteirista Tracy Lets não perdoa nas caricaturas.

Assim, Karen é a fútil que quer se casar em Miami; Ivy é a mais fechada e aparentemente sã, pois não era a favorita dos pais; Barbara, apesar de não suportar as tagarelices da mãe, é igualmente amarga e tende a se parecer cada vez mais com Violet; o pequeno Charles Aiken (um ótimo Cumberbatch) é o filho infantilizado pela mãe, irmã de Violet; Charlie é o pai/irmão/tio que oferece maconha aos mais jovens; e Jean é a adolescente que sofre bullying da família inteira por ser vegetariana.

Revelando segredos que deveriam ficar ocultos por motivos óbvios, Violet consegue estragar cada momento com os entes, como se a necessidade de falar a verdade fosse necessária para que eles a deixassem sozinha. E quando enfim ela consegue, percebemos qual era a real intenção de Wells, ao demonstrar a fragilidade de uma pessoa mais velha e que se sentiu desprezada a vida inteira.

Com uma trilha sonora ótima que contribui para o clima de tensão crescente e uma fotografia de paletas cinzas e escuras, que realçam a própria alma negra da personagem principal, Álbum de Família – cuja tradução é ainda melhor do que o título original – tem o mérito de não se estabelecer como “uma lição de moral aos mais jovens”. É o retrato de pessoas próximas e distantes demais. É a minha família, a sua e a de todos nós, quando observadas sob uma lente de aumento.

As atuações, no entanto, são o que realmente fazem o filme brilhar. Meryl Streep não é chamada de “a diva de Hollywood” por nada. Cada performance sua é de uma entrega absoluta. Odiamos sua personagem, ao mesmo tempo em que amamos como ela tem a capacidade camaleônica de se transformar em cada filme que faz. E fiquei particularmente tocada com as atuações de Julia Roberts e Benedict Cumberbatch, que conseguem brilhar ao lado de Streep.

Título Original: August: Osange County
Direção: John Wells
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Tracy Lets, baseado em sua peça homônima
Fotografia: Adriano Goldman
Trilha sonora: Gustavo Santaolalla
Tempo de duração: 121 minutos
Com: Meryl Streep (Violet Weston), Sam Shepard (Beverly Weston), Julia Roberts (Barbara Weston), Ewan McGregor (Bill Fordham), Abigail Breslin (Jean Fordham), Chris Cooper (Charlie Aiken), Margo Martindale (Mattie Fae Aiken), Benedict Cumberbatch (pequeno Charles Aiken), Julianne Nicholson (Ivy Weston), Juliette Lewis (Karen Weston), Dermot Mulroney (Steve Huberbrecht) e Misty Upham (Johnna Monevata).

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American Sniper

fevereiro 26, 2015

american-sniper-poster-internationalNOTA: 6,5

Considerando a filmografia mais recente de Clint Eastwood, é possível perceber um padrão temático do cineasta. As histórias de cidadãos americanos que se transformam em grandes heróis para salvar o país da ameaça iminente dos inimigos do mundo ocidental. É assim em American Sniper, seu mais novo longa.

O foco é a vida do franco-atirador de elite Chris Kyle, um homem simples que desiste de ser caubói e se alista no exército após o ataque às torres gêmeas de Nova York. Mais do que apenas mostrar os feitos do militar no exterior – ele foi o maior franco-atirador da história dos Estados Unidos, com 160 mortes – Clint se preocupa em expor a vida amorosa e as questões morais que permeavam a mente de Kyle.

Vemos como um homem amoroso e alegre se casa com Taya (a sempre belíssima, e em excelente atuação, Sienna Miller) e, após quatro anos viajando para o Oriente Médio, se transforma em um robô sem sentimentos, preocupado apenas com as pessoas que deixou para trás e não conseguiu salvar naquela que foi (e ainda é) considerada a guerra mais sem sentido dos últimos séculos.

É interessante observar como Eastwood se preocupa em mostrar mais do que apenas o serviço excepcional do atirador – excepcional se considerarmos que ele estava lá para abater “inimigos”, e o faz com êxito absoluto. Percebemos as dúvidas durante suas missões e, embora hesite, vemos como ele sente o peso e a responsabilidade de suas ações quando, por exemplo, tem de decidir exterminar uma criança armada com um míssil ou não.

Assim, é um mérito do diretor conseguir retratar a dubiedade da guerra americana contra o Oriente a partir de um personagem tão patriota como Kyle que, estando em casa com a mulher e os filhos, não consegue tirar a cabeça das terras áridas do Iraque. É preciso reconhecer, também, a atuação precisa de Bradley Cooper que encara Kyle como um homem de convicções definidas. Isso dito, é preciso pontuar algumas coisas que vêm me incomodando nas últimas produções de Eastwood.

À parte o patriotismo exacerbado (embora reconheça o esforço de equilibrar esse sentimento), parece que Clint se esquece que está lidando com um público acostumado a obras-primas como As Pontes de Madison e Os Imperdoáveis. Com uma direção esquemática, Eastwood não faz o menor esforço em esconder alguns planos óbvio e a fala imbecilizada de Kyle (mas suponho que isso seja um erro da natureza ao concebê-lo).

A trilha sonora, igualmente óbvia, sequer precisa indicar ao espectador o que virá a seguir. Alguns recursos de câmera – como as duas mãos que se encontram durante a tempestade de areia e a da cena final – são patéticas e demasiadamente expositivas. O design de som é eficiente ao evocar sons da guerra enquanto Kyle está em casa, mas jamais consegue fazer com que sintamos pena dele pelo estresse pós-traumático pelo qual está passando.

Sem contar na aberração que é o bebê-boneco, que aparece em determinada cena entre Kyle e Taya. Uma das cenas mais dramáticas do filme é completamente arruinada pelo absurdo que é ver um bebê claramente artificial em cena. Compreendo que dificuldades no set acontecem, mas utilizar um boneco com os bracinhos soltos pelo corpo – indicando sua antinatural natureza – e ainda fazer com que Cooper brinque com uma mãozinha inanimada é uma das coisas mais anticlimáticas que vi nos últimos tempos. O resto do cinema parecia concordar comigo, já que causou uma crise de riso totalmente fora de contexto e que quebrou o momento da atuação emocionada de Miller.

Repetitivo e excessivamente longo, American Sniper – traduzido de maneira estúpida como Sniper Americano em português, já que deveria ser “Franco-atirador Americano” – é o filme que me fez decidir não querer mais assistir a Clint Eastwood no cinema até o momento em que ele decida parar de falar sobre a guerra dos Estados Unidos com o mundo. Por favor, Clint, apenas pare.

Título Original: American Sniper
Direção: Clint Eastwood
Gênero: Ação, biografia e drama
Ano de Lançamento (EUA): 2014
Roteiro: Jason Hall, baseado no livro de Chris Kyle, Scott McEwen e James Defelice
Fotografia: Tom Stern
Tempo de duração: 132 minutos
Com: Bradley Cooper (Chris Kyle), Sienna Miller (Taya), Jake McDorman (Biggles), Sammy Sheik (Mustafa), Tim Griffin (Colonel Gronski), Navi Negahban (Sheikh Al Obodi), Mido Hamada (“Açougeiro”).

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Blue Jasmine

fevereiro 9, 2015

55043_CTHE_AmarayKeepcaseCoverNOTA: 8,5

O cineasta Woody Allen ficou conhecido, ultimamente, por levar seus personagens a lugares turísticos apresentando-os de uma maneira idílica, quase como se aquelas cidades fossem outras. Depois de nos levar a Paris e a Roma, Allen retorna a sua amada Nova York para contar a história de Jasmine, uma socialite mimada, acostumada às regalias, cuja vida é despedaçada ao descobrir que seu marido, Hal, a traía.

Em um momento de desespero, ela decide contar tudo aquilo que sabia acontecer debaixo de seu teto – mas nunca havia questionado – ao FBI. Dizendo que havia sido cega pelas falcatruas de Hal, Jasmine decide deixar Nova York para morar com Ginger, a irmã igualmente adotada – e que não poderia ser mais diferente – em São Francisco.

Enquanto Ginger se contenta com o pouco, mostrando ser uma pessoa simplória, Jasmine não se conforma com o estilo de vida medíocre da irmã e faz de tudo para demonstrá-lo. Embora se encontre na mais absoluta miséria, Jasmine não faz questão de ser simpática ou cordial. Ao contrário: sentindo-se vítima das ações do marido (mesmo sendo cúmplice), a ex-socialite recusa-se a trabalhar com qualquer coisa que seja “muito servil” – como a secretária de um dentista.

Claramente entrando em um colapso nervoso, Jasmine é uma figura tragicômica. Suas preocupações são tão pequenas se comparadas aos problemas do “mundo real” – a começar por sua irmã – que o riso vem, inevitavelmente. Mas Blue Jasmine está longe de ser uma comédia.

Um dos poucos filmes pesados e dramáticos da carreira de Allen, este longa concentra-se nas loucuras da personagem central, sua paranoia, hipocondrismo e sinceridade cruéis. E Cate Blanchett se sai maravilhosamente bem ao encarnar essa figura excêntrica e triste, beirando à demência. Tanto que só conseguimos dimensionar o tamanho de sua dor quando percebemos que ela não só fala sozinha como revive, em diálogos, as brigas com o ex-marido, chora ao telefone com uma possível paquera – como se fosse incapaz de ser amada – etc.

Mostrando-se ser um interessante estudo de caso do diretor, Blue Jasmine ainda faz brilhar o talento dos atores coadjuvantes, a começar por Sally Hawkings, mas também os comediantes Louis C. K. e Andrew Dice Clark. E embora as atuações sejam impecáveis, há alguns elementos do longa que deixam um pouco a desejar.

A trilha sonora, como de costume, é um jazz triste e melancólico que casaria bem com a personagem-título se não nos remetesse diretamente aos longas mais recentes e alegres de Allen. Esse contraste acaba prejudicando um pouco o clima, mas de maneira alguma a experiência final. Há, também, um personagem colocado no roteiro quase exclusivamente para criar o elemento discórdia entre as irmãs, já que seu papel é pouco relevante para as personagens em si.

Mesmo sendo um dos pontos altos na carreira de Blanchett, não tenho dúvidas de que prefiro o Woody Allen feliz e irônico de Meia-Noite em Paris.

Título Original: Blue Jasmine
Direção: Woody Allen
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Woody Allen
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Tempo de duração: 98 minutos
Com: Cate Blanchett (Jasmine), Alec Baldwin (Hal), Sally Hawkins (Ginger), Daniel Jenks (Matthew), Andrew Dice Clay (Augie), Louis C. K. (Al), Peter Sarsgaard (Dwight).