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Me Chame Pelo Seu Nome

março 10, 2018

NOTA: 6

É muito difícil começar a falar de um filme que todo mundo amou – foi considerado por muitos como o melhor de 2017 – sendo que, para mim, não é nem o melhor do ano passado e muito menos o melhor do gênero. Porque, essencialmente, Me Chame Pelo Seu Nome é um filme de amor entre duas pessoas. Aqui, no caso, elas não se definem nem como gays, bissexuais e nem como heterossexuais.

Passada nos anos 80 em um pequeno vilarejo da Itália, a trama gira em torno de como Elio e Oliver se conheceram. Elio passava as férias de verão com a família em um antigo casarão e seu pai, um acadêmico, contrata Oliver, um estudante de letras americano, para vir ajudá-lo com a pesquisa. Tendo que conviver por seis semanas confinados em um lugar remoto, Elio e Oliver estreitam relações de maneira que nenhum dos dois esperava.

Esse é o enredo principal, e tentarei não entrar em muitos detalhes. Porque, realmente, pouco acontece. Tal qual um narrador onipresente, acompanhamos a evolução de uma relação que não chega a ser bem amizade. Enquanto Elio é um garoto de 17 anos que está descobrindo a própria sexualidade e desabrochando para o mundo, Oliver é um homem mais velho, de presença forte e confiante. Alto e bonito, ele encanta a todas as meninas do vilarejo – uma em especial.

O diretor Luca Guadagnino quer nos mostrar que existe uma atração inevitável entre os dois. Ao mesmo tempo em que Elio se sente atraído e hipnotizado, a presença de Oliver também o intimida e o afugenta – o que é evidente na cena em que Oliver está jogando vôlei e tenta tranquilizar o menino. Então, ainda que sinta certo ciúme desse porte belo e forte, Elio se aproxima aos poucos do rapaz. Sua fascinação, ainda que repentina, é compreensível.

A relação de ambos é retratada, para mim, de maneira tão abrupta quanto a montagem – e há uma cena em especial que mostra um claro erro, na qual Elio está ao piano tocando Bach e Armie Hammer abre a boca para falar e é literalmente cortado. Ui! A sutileza com a qual Guadagnino tenta mostrar esse romance é tão tênue que não há clima de romance nenhum até a cena de sexo entre os dois. A aparente obsessão de Elio por Oliver aparece de maneira repentina, como se perder a virgindade com uma menina não tivesse significado nada.

Já o que Oliver sente é uma absoluta incógnita. Na dinâmica bate-e-assopra, ele representa a grande falha dos dois personagens: a falta de profundidade emocional. Ainda que acompanhemos tudo através dos olhos de Elio, nem mesmo a boa atuação de Timothée Chamalet consegue dar a intensidade necessária para a relação. Tudo soa frio, distante e sem emoção, em parte pela atuação morna de Armie Hammer.

E ainda que para mim as referências históricas – resgate de estátuas antigas, passagens de Heráclito e Heptameron, etimologia e catalogação de arquivos sobre esculturas – sejam puro deleite, o resto da história infelizmente não se sustenta sozinho. Não sei se preciso dizer, mas claramente não é por se tratar de um amor gay. Já vi filmes gays mais sensíveis (o próprio Brokeback Mountain é um deles) e mais fortes (o maravilhoso Shortbus), e esse não consegue se decidir por nenhum lado, ficando em cima do muro entre um romance apaixonado e um caso de verão que não sobe a serra.

Inclusive, a escolha de mostrar o sexo heterossexual entre Elio e a garota é muito mais desnecessariamente expositivo do que o sexo entre Elio e Oliver. Enquanto no heterossexual há peitos, a câmera em cima do ato acompanhando cada respiro dos meninos, no homossexual há torsos e nádegas, mas nada da relação em si. Não que eu estivesse esperando um pornô, mas acredito que esconder a câmera em um momento de intimidade como esse (corta o sexo e volta para a cena com ambos deitados na cama, abraçados) tira todo o peso da relação, que já era frágil narrativamente falando.

Como se o sexo deles fosse menos apaixonado ou menos digno de ser mostrado sem pudores. Não é uma questão de sutileza, tampouco. Como disse acima, a linha entre sutileza e obviedade ficou tênue demais, não permitindo, para mim, uma aproximação real do romance. Não me senti conectada com aquele par. Há, também, um sério problema de continuidade que me fez questionar o tempo inteiro se os dois já se conheciam antes daquele episódio, ou porque se tratavam de maneira tão esquisita. Só pude supor que a falha é do roteiro de James Ivory.

Me perguntei porque a princípio eles pareciam competir por atenção ou porque não podiam falar do amor um pelo outro – se era uma limitação do próprio tempo em que viviam, aquele era o lugar perfeito para construir algo novo. Além disso, com um roteiro fraco e cheio de buracos – não consegui sentir força na frase que dá título ao filme – Ivory evoca poucos momentos realmente memoráveis, como a cena do pêssego e a própria relação dos dois quando já estão juntos no terceiro ato. No mais, falta intensidade, paixão e medo diante do desconhecido.

Mas o filme não é uma decepção completa. Além das referências históricas, a fotografia de Sayombhu Mukdeeprom é cálida e agradável, aproveitando as paisagens idílicas e criando uma espécie de fábula de verão. A relação entre Elio e sua família é, também, um dos pontos altos – e a melhor cena do longa é a conversa final que o menino tem com o pai. Mas, como história de amor, Me Chame Pelo Seu Nome – assim como A Forma da Água – deixa muito a desejar.

Título Original: Call Me By Your Name
Direção: Luca Guadagnino
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: James Ivory
Trilha Sonora: Sufjan Stevens
Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom
Tempo de Duração: 2h12
Com: Armie Hammer (Oliver), Timothée Chalamet (Elio), Michael Stuhlbarg (Mr. Perlman), Amira Casar (Annella Perlman), Esther Garrel (Marzia), Victoire Du Bois (Chiara).

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