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Lady Bird – A hora de voar

março 23, 2018

NOTA: 10

Ainda bem que existem as segundas opiniões e as obras que nos levam a tê-las. Pois, embora tenha detestado Frances Ha – do diretor Noah Baumbach – e simpatizado menos ainda com sua personagem-título, interpretada por Greta Gerwig, me apaixonei irresistivelmente pelo filme que esta criou recentemente, e tem na irlandesa Saoirse Ronan sua adorável e complexa protagonista Christine – digo, Lady Bird.

Com meu pré-conceito formado a partir de meu prévio encontro com Gerwig, achava que ela, assim como Sofia Coppola, era uma figura superestimada em Hollywood – mas, ao contrário da filha do famoso cineasta, Gerwig é muito mais interessante como diretora do que Coppola, que tenta ser cool e só consegue soar presunçosa. Fato que não consigo me identificar com Gerwig como atriz em seu début, mas como diretora ela se saiu excepcionalmente bem.

Criando uma aura realista em torno da jovem – que insiste em ser chamada pelo apelido por absolutamente todos que conhece, inclusive os modestos pais e professores – a diretora estreante constrói uma rede de emoções e situações tão plausíveis que, para mim, foi possível me transplantar para a tela e sentir-me exatamente como a moça em questão. Primeiro, porque Lady Bird – A hora de voar fala, exclusivamente, desse período conturbado e bizarro que é a adolescência, o formar-se na escola e entrar na faculdade, e tudo que esses acontecimentos e decisões acarretam.

Segundo, pois é um filme familiar, que trata do relacionamento de altos e baixos entre mãe e filha, principalmente. Mas é, também, um chamado a Terra para o fato de que os adolescentes sonham e esperam com coisas que são muito diferentes na realidade, e que nada acontece como se espera ou ninguém é aquilo que planeja. Extremamente pé no chão e honesto; até mesmo nas cenas mais absurdas tudo é plausível, ainda que cômico ou triste – dualidade que acontece com frequência singela.

Para completar, Gerwig ainda consegue inserir um milhão de subtemas que fogem à trama mas, no contexto, são extremamente válidas e interessantes, pois servem não só para trazer a discussão para o primeiro plano, como também para arranhar, com unhas afiadas, alguns tabus: a diferença dos norte-americanos ricos e da classe média baixa do subúrbio; a melhor amiga gordinha que é boa em absolutamente tudo e, mesmo sofrendo preconceitos, é tratada como uma pessoa digna como qualquer outra; os meios-irmãos mestiços que são – provavelmente, já que nunca se chega realmente a dizer – adotados e, novamente, tratados com preconceito mas nunca deixam de ser pessoas louváveis; a escola católica cuja diretora é uma freira aberta e simpática, talvez uma das figuras mais interessantes na vida de Lady Bird; o ex-namorado que descobre que é gay, a primeira transa, colar na prova, brigar e se reconciliar com a mãe o tempo todo…

Mais do que tudo isso, o clima que Gerwig cria para contar sua história é soberbo. Em tom fluido e coeso, ela perpassa a vida de Lady Bird durante seu último ano no Ensino Médio até o começo da faculdade em Nova York. O longa facilmente poderia se chamar The Perks of Being a Teenager – fazendo um paralelo com o maravilhoso As Vantagens de Ser Invisível -, já que trata de todas as coisas adolescentes. Ser bem-sucedido não significa que somos ou seremos felizes, e o pai de Lady Bird, personagem por quem sentimos enorme compaixão, é uma personificação do fracasso e do sucesso, tudo ao mesmo tempo.

Realista a ponto de colocá-la em seu próprio lugar, Lady Bird tem plena consciência de que é de classe média baixa, rouba revistas porque não pode comprá-las e usa o pretexto de morar em uma casa boa para se aproximar de uma garota popular – que é obviamente rica. Engraçado e tocante nas horas certas, o brilhante roteiro – também da cineasta – não deixa nada para trás. Preciso e redondo, seu filme é um resumo fiel e divertido de várias vidas de garotas que conhecemos. Inclusive quando estas crescem, amadurecem e descobrem que não são um completo fracasso em tudo – muito pelo contrário.

E enquanto temos uma atuação perfeita de Saoirse Ronan, principalmente por ser jovem (ela completa 25 em abril) e talvez se ver representada na personagem, temos um elenco de apoio formidável, que certamente merecia ter sido lembrada pela Academia. Laurie Metcalf está espetacular como a mãe, Marion, e protagoniza algumas das cenas mais emocionantes do filme ao lado do pai, interpretado por Tracy Letts (roteirista de Álbum de Família).

A boa trilha sonora de Jon Brion é hábil o suficiente para embalar os personagens com as roupagens certas, enquanto a fotografia de Sam Levy, embora não seja excepcional, nos dá os tons precisos para entendermos qual a pegada do filme: quente, divertido e gostoso. Para aqueles que não conseguem se identificar com Lady Bird, eu até entendo. Gerwig mirou em um público (talvez ela mesma) e acertou em cheio. Este é tudo o que Brooklyn tentou ser e não conseguiu.

A delicadeza de Gerwig vai junto a todos os personagens, até mesmo quando a trama não está focada em Lady Bird. A cena do aeroporto, quando ela – ao invés de seguir a menina – acompanha a mãe dentro do carro, é um clímax catártico para as filhas e, imagino, para os pais também. Está tudo ali. É uma ode à adolescência, à paciência dos pais, à rebeldia necessária dos filhos e, tal qual Woody Allen e sua Nova York, a Sacramento, Califórnia.

Título Original: Lady Bird
Direção: Greta Gerwig
Gênero: Comédia, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Greta Gerwig
Trilha Sonora: Jon Brion
Fotografia: Sam Levy
Tempo de Duração: 1h34
Com: Saoirse Ronan (Lady Bird McPherson), Laurie Metcalf (Marion McPherson), Tracy Letts (Larry McPherson), Lucas Hedges (Danny O’Neill), Timothée Chamalet (Kyle Scheible), Beanie Feldstein (Julie Steffans), Lois Smith (irmã Sarah Joan), Odeya Rush (Jenna Walton), Jordan Rodrigues (Miguel McPherson), Marielle Scott (Shelly Yuhan).

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