Archive for the ‘Notas’ Category

h1

Lady Bird – A hora de voar

março 23, 2018

NOTA: 10

Ainda bem que existem as segundas opiniões e as obras que nos levam a tê-las. Pois, embora tenha detestado Frances Ha – do diretor Noah Baumbach – e simpatizado menos ainda com sua personagem-título, interpretada por Greta Gerwig, me apaixonei irresistivelmente pelo filme que esta criou recentemente, e tem na irlandesa Saoirse Ronan sua adorável e complexa protagonista Christine – digo, Lady Bird.

Com meu pré-conceito formado a partir de meu prévio encontro com Gerwig, achava que ela, assim como Sofia Coppola, era uma figura superestimada em Hollywood – mas, ao contrário da filha do famoso cineasta, Gerwig é muito mais interessante como diretora do que Coppola, que tenta ser cool e só consegue soar presunçosa. Fato que não consigo me identificar com Gerwig como atriz em seu début, mas como diretora ela se saiu excepcionalmente bem.

Criando uma aura realista em torno da jovem – que insiste em ser chamada pelo apelido por absolutamente todos que conhece, inclusive os modestos pais e professores – a diretora estreante constrói uma rede de emoções e situações tão plausíveis que, para mim, foi possível me transplantar para a tela e sentir-me exatamente como a moça em questão. Primeiro, porque Lady Bird – A hora de voar fala, exclusivamente, desse período conturbado e bizarro que é a adolescência, o formar-se na escola e entrar na faculdade, e tudo que esses acontecimentos e decisões acarretam.

Segundo, pois é um filme familiar, que trata do relacionamento de altos e baixos entre mãe e filha, principalmente. Mas é, também, um chamado a Terra para o fato de que os adolescentes sonham e esperam com coisas que são muito diferentes na realidade, e que nada acontece como se espera ou ninguém é aquilo que planeja. Extremamente pé no chão e honesto; até mesmo nas cenas mais absurdas tudo é plausível, ainda que cômico ou triste – dualidade que acontece com frequência singela.

Para completar, Gerwig ainda consegue inserir um milhão de subtemas que fogem à trama mas, no contexto, são extremamente válidas e interessantes, pois servem não só para trazer a discussão para o primeiro plano, como também para arranhar, com unhas afiadas, alguns tabus: a diferença dos norte-americanos ricos e da classe média baixa do subúrbio; a melhor amiga gordinha que é boa em absolutamente tudo e, mesmo sofrendo preconceitos, é tratada como uma pessoa digna como qualquer outra; os meios-irmãos mestiços que são – provavelmente, já que nunca se chega realmente a dizer – adotados e, novamente, tratados com preconceito mas nunca deixam de ser pessoas louváveis; a escola católica cuja diretora é uma freira aberta e simpática, talvez uma das figuras mais interessantes na vida de Lady Bird; o ex-namorado que descobre que é gay, a primeira transa, colar na prova, brigar e se reconciliar com a mãe o tempo todo…

Mais do que tudo isso, o clima que Gerwig cria para contar sua história é soberbo. Em tom fluido e coeso, ela perpassa a vida de Lady Bird durante seu último ano no Ensino Médio até o começo da faculdade em Nova York. O longa facilmente poderia se chamar The Perks of Being a Teenager – fazendo um paralelo com o maravilhoso As Vantagens de Ser Invisível -, já que trata de todas as coisas adolescentes. Ser bem-sucedido não significa que somos ou seremos felizes, e o pai de Lady Bird, personagem por quem sentimos enorme compaixão, é uma personificação do fracasso e do sucesso, tudo ao mesmo tempo.

Realista a ponto de colocá-la em seu próprio lugar, Lady Bird tem plena consciência de que é de classe média baixa, rouba revistas porque não pode comprá-las e usa o pretexto de morar em uma casa boa para se aproximar de uma garota popular – que é obviamente rica. Engraçado e tocante nas horas certas, o brilhante roteiro – também da cineasta – não deixa nada para trás. Preciso e redondo, seu filme é um resumo fiel e divertido de várias vidas de garotas que conhecemos. Inclusive quando estas crescem, amadurecem e descobrem que não são um completo fracasso em tudo – muito pelo contrário.

E enquanto temos uma atuação perfeita de Saoirse Ronan, principalmente por ser jovem (ela completa 25 em abril) e talvez se ver representada na personagem, temos um elenco de apoio formidável, que certamente merecia ter sido lembrada pela Academia. Laurie Metcalf está espetacular como a mãe, Marion, e protagoniza algumas das cenas mais emocionantes do filme ao lado do pai, interpretado por Tracy Letts (roteirista de Álbum de Família).

A boa trilha sonora de Jon Brion é hábil o suficiente para embalar os personagens com as roupagens certas, enquanto a fotografia de Sam Levy, embora não seja excepcional, nos dá os tons precisos para entendermos qual a pegada do filme: quente, divertido e gostoso. Para aqueles que não conseguem se identificar com Lady Bird, eu até entendo. Gerwig mirou em um público (talvez ela mesma) e acertou em cheio. Este é tudo o que Brooklyn tentou ser e não conseguiu.

A delicadeza de Gerwig vai junto a todos os personagens, até mesmo quando a trama não está focada em Lady Bird. A cena do aeroporto, quando ela – ao invés de seguir a menina – acompanha a mãe dentro do carro, é um clímax catártico para as filhas e, imagino, para os pais também. Está tudo ali. É uma ode à adolescência, à paciência dos pais, à rebeldia necessária dos filhos e, tal qual Woody Allen e sua Nova York, a Sacramento, Califórnia.

Título Original: Lady Bird
Direção: Greta Gerwig
Gênero: Comédia, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Greta Gerwig
Trilha Sonora: Jon Brion
Fotografia: Sam Levy
Tempo de Duração: 1h34
Com: Saoirse Ronan (Lady Bird McPherson), Laurie Metcalf (Marion McPherson), Tracy Letts (Larry McPherson), Lucas Hedges (Danny O’Neill), Timothée Chamalet (Kyle Scheible), Beanie Feldstein (Julie Steffans), Lois Smith (irmã Sarah Joan), Odeya Rush (Jenna Walton), Jordan Rodrigues (Miguel McPherson), Marielle Scott (Shelly Yuhan).

Anúncios
h1

Trama Fantasma

março 15, 2018

NOTA: 10

Já disse algumas vezes aqui no blog o quanto me parece difícil falar de filmes que são transcendentais ou, em outras palavras, filmes que são tão bons que é complicado escrever sobre eles, pois falam sobre a própria existência humana. Foi assim com Árvore da Vida, e é o caso do novo longa de Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma – e o último da próspera e brilhante carreira do (gatíssimo) ator britânico Daniel Day-Lewis.

Considerado um diretor extremamente meticuloso com suas produções – vide o caso dos fabulosos Sangue Negro e O Mestre – Paul Thomas Anderson está se consagrando como um dos melhores diretores não só de sua geração, mas também na ativa atualmente. Pouco ligando para as convenções ou temas que norteiam os demais colegas de Hollywood, o norte-americano prefere se manter à margem e contar, com seu estilo elegante e tranquilo, suas histórias através de recortes nas vidas de pessoas comuns – ou quase.

Sabemos, no entanto, que pouco há de comum nos personagens de Daniel Plainview (vivido também por Day-Lewis com tamanha potência que assombrou a todos e lhe rendeu o segundo Oscar) ou de Freddie Quell – um Joaquim Phoenix como jamais se viu antes, que na época de seu lançamento, em 2012, me fez crer que seria ele a levar o Oscar de melhor ator (entregado novamente a Day-Lewis por sua interpretação como Lincoln). Tampouco há nada de ordinário no personagem de Reynolds Woodcock.

Consagrado estilista na década de 50, Woodcock poderia ser um pintor, escultor ou escritor: ele trata suas criações como obras de arte – que vestem socialites e princesas – e, mais do que isso, precisa da constante presença de musas inspiradoras que lhe sirvam de modelo. Dividindo um casarão com sua irmã e administradora, Cyril, as musas pouco têm a fazer a não ser satisfazê-lo pontualmente, e somente quando solicitadas. No mais, elas devem ser o menos intrusivas possível. Isso tudo sabemos em uma das primeiras cenas do filme mas tudo o que será dito daqui em diante pode conter revelações sobre a trama. Se ainda não assistiu ao longa, corra lá e depois volte aqui!

A dinâmica da casa Woodock muda quando Reynolds conhece Alma, uma garçonete estrangeira, e decide dela fazer sua nova musa – a outra, pobrezinha, é despachada com um prêmio de consolação (um vestido, claro). O primeiro encontro dos dois é intenso, com trocas de olhares de partir montanhas, declarações com caráter de sentenças (“sou um solteiro incurável”, diz ele, quando ela questiona porque nunca se casou) e estabelece-se a dinâmica que permeará o futuro casal: Reynolds leva Alma a seu ateliê e pega todas as medidas de seu manequim, ressaltando como qualidades aquilo que a moça considerava seus defeitos – seios pequenos, quadris largos e barriguinha.

Levada ora como uma dança elegante, ora como um esporte competitivo, a relação do casal é constantemente posta à prova, principalmente pela figura de Alma, que se recusa a ser só mais um fantasma na casa. Estabelecendo um curioso triângulo com os irmãos Woodcock, ela tenta se impor a toda custa, e se recusa a permitir que Reynolds se feche como uma ostra, recorrendo a meios pouco convencionais para tal, provando que sua presença não só era útil, como necessária. Não é a toa que a personagem tenha o nome de Alma, tampouco.

Paul Thomas Anderson cria não somente personagens complexos, mas também um ambiente propício para que exploremos a vida dessas pessoas de perto, para que sintamos suas dores e angústias. Nisso, o trio de atores principais faz um trabalho extraordinário. A caracterização de Day-Lewis como Reynolds vai além da meticulosidade. O ator declarou ter aprendido a costurar e chegou até mesmo a reproduzir do zero um vestido Balenciaga para entender a complexidade da alta-costura. É, então, com absoluta fluidez e comodidade que ele segura linha e agulha ou mede com fita métrica o corpo de Alma.

Como em seus anteriores trabalhos, ele se metamorfoseia, desta vez em um homem extremamente metódico, egocêntrico, ferino, praticamente um socipoata, e de presença avassaladora: todas as mulheres ao seu redor se sentem vulneráveis, incômodas e instigadas. Exceto sua irmã, vivida brilhantemente por Lesley Manville. Igualmente forte, Cyril tem tanta dó de Reynolds como este tem de suas musas.

Mas quem realmente se sobressai é a luxemburguesa Vicky Krieps, uma atriz praticamente desconhecida que carrega o peso emocional do filme. Atuando ao lado de gigantes veteranos, a atriz consegue infundir personalidade e até mesmo contexto a Alma. Tudo que precisamos saber da jovem garçonete é dito com algum olhar significativo, que dá sutileza e peso às suas ações. Imatura a princípio, mas depois uma mulher de posicionamento e caráter forte, Alma não se deixa intimidar por Day-Lewis, digo, Reynolds. E é interessante saber que uma das cenas mais intensas, a da discussão no jantar, foi praticamente improvisada. Estaria Krieps falando com o ator ou o personagem?

Pois, certamente, o sucesso deste filme se deve não somente à meticulosidade tanto do ator como do diretor, mas à dedicação que cada um tem com seu próprio trabalho, e a relação que ambos têm com Reynolds. O personagem é, de certa maneira, uma faceta de ambos artistas. Realmente me faltam adjetivos para elogiar tanto um como outro, e Trama Fantasma é a culminação de duas carreiras no apogeu absoluto.

Com atuações tão esplêndidas, uma trilha sonora pontual e belissimamente composta por Johnny Greenwood, design de som incrível – reparem como todos os barulhos estão propositalmente mais altos, fazendo com que cada coisa soe extremamente incômoda, do passar manteiga no pão aos passos que parecem infinitos dentro do casarão – e fotografia sublime feita pelo próprio genial cineasta, o longa se sobressai da média de filmes dos últimos anos. Mais do que um filme sobre pessoas, é um filme de amor. Sobre amor. Sobre o amor difícil, diferente e peculiar de cada casal. De como se constrói e se sustenta cada dinâmica. É tudo que Me Chame Pelo Seu Nome e A Forma da Água (para mencionar somente os que concorriam este ano) tentaram/buscaram ser e não conseguiram.

Utilizando toques de humor imprevisíveis – o que nos parece engraçado para os personagens pode ser perturbador e vice-versa – e concentrando os momentos de tensão especialmente nas refeições, o roteiro, também do diretor, nos leva a caminhar sobre pedras, sobre ovos ou nas nuvens, acompanhando a montanha-russa de emoções que é estar em uma relação, como se nos obrigasse a reviver o relacionamento entre Alma e Reynolds (e Cyril) como o nosso próprio. Como é fantástica a sequência do Ano Novo, na qual Reynolds reluta em permitir-se, em entender e, finalmente, em aceitar. Quando o faz, é de braços, boca e coração abertos, compreendendo que, para amar e deixar-se ser amado exige sacrifícios – psicológicos e até mesmo físicos.

Como se manifesta o amor? Como podemos demonstrar ou medir o amor que uma pessoa sente pela outra? É dando flores, preparando jantares? É defendendo a obra de arte do companheiro? É envenenando-o, curando-o ou virando-o do avesso, a ponto de tudo ser uma tempestade antes de ser calmaria? É fascínio ou é tensão? Mais: como podemos julgar os sacrifícios que os amantes fazem uns pelos outros, se a dinâmica funciona? Quem somos nós para dizer qual a dinâmica correta, se é que existe uma?

Paul Thomas Anderson criou mais uma obra-prima. E eu que achava que isso nem era possível.

Título Original: Phantom Thread
Direção: Paul Thomas Anderson
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (EUA): 2018
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Trilha Sonora: Johnny Greenwood
Fotografia: Paul Thomas Anderson
Tempo de Duração: 2h10
Com: Daniel Day-Lewis (Reynolds Woodcock), Vicky Krieps (Alma), Lesley Manville (Cyril Woodcock) e Brian Gleeson (Dr. Robert Hardy).

h1

Me Chame Pelo Seu Nome

março 10, 2018

NOTA: 6

É muito difícil começar a falar de um filme que todo mundo amou – foi considerado por muitos como o melhor de 2017 – sendo que, para mim, não é nem o melhor do ano passado e muito menos o melhor do gênero. Porque, essencialmente, Me Chame Pelo Seu Nome é um filme de amor entre duas pessoas. Aqui, no caso, elas não se definem nem como gays, bissexuais e nem como heterossexuais.

Passada nos anos 80 em um pequeno vilarejo da Itália, a trama gira em torno de como Elio e Oliver se conheceram. Elio passava as férias de verão com a família em um antigo casarão e seu pai, um acadêmico, contrata Oliver, um estudante de letras americano, para vir ajudá-lo com a pesquisa. Tendo que conviver por seis semanas confinados em um lugar remoto, Elio e Oliver estreitam relações de maneira que nenhum dos dois esperava.

Esse é o enredo principal, e tentarei não entrar em muitos detalhes. Porque, realmente, pouco acontece. Tal qual um narrador onipresente, acompanhamos a evolução de uma relação que não chega a ser bem amizade. Enquanto Elio é um garoto de 17 anos que está descobrindo a própria sexualidade e desabrochando para o mundo, Oliver é um homem mais velho, de presença forte e confiante. Alto e bonito, ele encanta a todas as meninas do vilarejo – uma em especial.

O diretor Luca Guadagnino quer nos mostrar que existe uma atração inevitável entre os dois. Ao mesmo tempo em que Elio se sente atraído e hipnotizado, a presença de Oliver também o intimida e o afugenta – o que é evidente na cena em que Oliver está jogando vôlei e tenta tranquilizar o menino. Então, ainda que sinta certo ciúme desse porte belo e forte, Elio se aproxima aos poucos do rapaz. Sua fascinação, ainda que repentina, é compreensível.

A relação de ambos é retratada, para mim, de maneira tão abrupta quanto a montagem – e há uma cena em especial que mostra um claro erro, na qual Elio está ao piano tocando Bach e Armie Hammer abre a boca para falar e é literalmente cortado. Ui! A sutileza com a qual Guadagnino tenta mostrar esse romance é tão tênue que não há clima de romance nenhum até a cena de sexo entre os dois. A aparente obsessão de Elio por Oliver aparece de maneira repentina, como se perder a virgindade com uma menina não tivesse significado nada.

Já o que Oliver sente é uma absoluta incógnita. Na dinâmica bate-e-assopra, ele representa a grande falha dos dois personagens: a falta de profundidade emocional. Ainda que acompanhemos tudo através dos olhos de Elio, nem mesmo a boa atuação de Timothée Chamalet consegue dar a intensidade necessária para a relação. Tudo soa frio, distante e sem emoção, em parte pela atuação morna de Armie Hammer.

E ainda que para mim as referências históricas – resgate de estátuas antigas, passagens de Heráclito e Heptameron, etimologia e catalogação de arquivos sobre esculturas – sejam puro deleite, o resto da história infelizmente não se sustenta sozinho. Não sei se preciso dizer, mas claramente não é por se tratar de um amor gay. Já vi filmes gays mais sensíveis (o próprio Brokeback Mountain é um deles) e mais fortes (o maravilhoso Shortbus), e esse não consegue se decidir por nenhum lado, ficando em cima do muro entre um romance apaixonado e um caso de verão que não sobe a serra.

Inclusive, a escolha de mostrar o sexo heterossexual entre Elio e a garota é muito mais desnecessariamente expositivo do que o sexo entre Elio e Oliver. Enquanto no heterossexual há peitos, a câmera em cima do ato acompanhando cada respiro dos meninos, no homossexual há torsos e nádegas, mas nada da relação em si. Não que eu estivesse esperando um pornô, mas acredito que esconder a câmera em um momento de intimidade como esse (corta o sexo e volta para a cena com ambos deitados na cama, abraçados) tira todo o peso da relação, que já era frágil narrativamente falando.

Como se o sexo deles fosse menos apaixonado ou menos digno de ser mostrado sem pudores. Não é uma questão de sutileza, tampouco. Como disse acima, a linha entre sutileza e obviedade ficou tênue demais, não permitindo, para mim, uma aproximação real do romance. Não me senti conectada com aquele par. Há, também, um sério problema de continuidade que me fez questionar o tempo inteiro se os dois já se conheciam antes daquele episódio, ou porque se tratavam de maneira tão esquisita. Só pude supor que a falha é do roteiro de James Ivory.

Me perguntei porque a princípio eles pareciam competir por atenção ou porque não podiam falar do amor um pelo outro – se era uma limitação do próprio tempo em que viviam, aquele era o lugar perfeito para construir algo novo. Além disso, com um roteiro fraco e cheio de buracos – não consegui sentir força na frase que dá título ao filme – Ivory evoca poucos momentos realmente memoráveis, como a cena do pêssego e a própria relação dos dois quando já estão juntos no terceiro ato. No mais, falta intensidade, paixão e medo diante do desconhecido.

Mas o filme não é uma decepção completa. Além das referências históricas, a fotografia de Sayombhu Mukdeeprom é cálida e agradável, aproveitando as paisagens idílicas e criando uma espécie de fábula de verão. A relação entre Elio e sua família é, também, um dos pontos altos – e a melhor cena do longa é a conversa final que o menino tem com o pai. Mas, como história de amor, Me Chame Pelo Seu Nome – assim como A Forma da Água – deixa muito a desejar.

Título Original: Call Me By Your Name
Direção: Luca Guadagnino
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: James Ivory
Trilha Sonora: Sufjan Stevens
Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom
Tempo de Duração: 2h12
Com: Armie Hammer (Oliver), Timothée Chalamet (Elio), Michael Stuhlbarg (Mr. Perlman), Amira Casar (Annella Perlman), Esther Garrel (Marzia), Victoire Du Bois (Chiara).

h1

Corra!

março 5, 2018

NOTA: 8

Desde sua estreia, houve um grande hype ao redor de Corra!, novo filme de Jordan Peele – responsável pelo bonitinho Cegonhas. Primeiro tratado como filme de terror e depois desmistificado para a categoria de thriller psicológico – o que já me chama bem mais a atenção – o longa é um aceno interessante ao gênero, trazendo aquilo que há de melhor nos filmes do tipo: acontecimentos inesperados.

Acompanhamos a história de Chris Washington, um jovem fotógrafo que começa a namorar uma menina inteligente e doce, Rose Armitage. E se em outros filmes um amor interracial não necessariamente precisaria ganhar destaque, aqui é fundamental que pontuemos que Chris é negro e Rose é branca, pois o racismo será a força motriz de toda a narrativa.

Quando o casal planeja uma viagem para passar um fim de semana na isolada casa dos Armitage, Rod, o amigo policial (e também negro) de Chris o avisa contra, dizendo que brancos e negros não se misturam. Mas como Rose garante que não haverá nenhum tipo de preconceito por parte de seus pais – uma vez que o pai é grande fã de Barack Obama –, Chris concorda em ir. Lá chegando, os pais de Rose parecem se esforçar para não soar estranhos ou fazer comentários esquisitos – o que invariavelmente falha.

Por coincidência, naquele mesmo fim de semana os pais de Rose receberiam os amigos da família para celebrar uma festa que os avós sempre fizeram. Uma festa, obviamente, onde todos são brancos. Mas há outras pessoas negras no filme: a empregada Georgina e o jardineiro Walter são os dois únicos funcionários da mansão.

Sem querer revelar muito do filme – portanto, se ainda não assistiu, talvez seja melhor não continuar lendo – a grande sacada de Corra! é a ambientação e construção de frame. Desde a primeira cena, o diretor nos coloca em uma posição de observadores intrusos, como se não devêssemos estar vendo aquilo. A sensação de que algo ruim vai acontecer é marcante desde o princípio – e a trilha sonora, um pouco óbvia, de Michael Abels também colabora com esse sentimento.

Em essência, Corra! é um filme sobre racismo e sobre como os negros estão constantemente se protegendo da sociedade. A cena na qual o policial pede a habilitação de Chris mesmo sabendo que ele não estava dirigindo é um exemplo breve e simplista, mas bem claro. E apesar da aparente sensatez dos Armitage, a aura de estranheza que envolve a família e os empregados é palpável – e, aqui, todos os atores dão um show de interpretação, fazendo com que fiquemos ansiosos sem saber o porquê.

Destaque especial para Betty Gabriel, que interpreta Georgiana e que está fantástica, e ao próprio Daniel Kaluuya, cuja nomeação ao Oscar de Melhor Ator foi mais do que merecida. Ele é hábil em transmitir a inquietação do personagem, ou de simplesmente reagir ao encontro com a mãe de maneira verossímil.

Assim, se passamos quase metade da projeção nos perguntando “mas que diabos?”, essa é justamente a intenção de Peele, que constrói uma mise-en-scène de tensão e revelações à altura. Da iluminação até a edição de som, o ambiente é feito para que nos sintamos extremamente incômodos, tais como Chris. É uma excelente experiência psicológica, que me lembrou bastante o conto de H. G. Wells, “A história do falecido Sr. Elvesham”.

Ainda que o final seja um pouco óbvio e não dê aquela sensação de vingança que sentimos em Django, por exemplo, este é um ótimo exemplo de como tratar questões difíceis para uma comunidade – o racismo sutil ou escancarado – de maneira eficaz, colocando todos os personagens no centro de uma trama inquietante e bem elaborada. O cineasta foi laureado neste último domingo com o Oscar de Melhor Roteiro Original.

Título Original: Get out!
Direção: Jordan Peele
Gênero: Horror, mistério, thriller
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Jordan Peele
Trilha Sonora: Michael Abels
Fotografia: Toby Oliver
Tempo de Duração: 1h44
Com: Daniel Kaluuya (Chris Washington), Allison Williams (Rose Armitage), Catherine Keener (Missy Armitage), Bradley Whitford (Dean Armitage), Caleb Landry Jones (Jeremy Armitage), Betty Gabriel (Georgina), Marcus Henderson (Walter), Lakeith Stanfield (Andre Logan King).

h1

A Forma da Água

março 2, 2018

NOTA: 6

Quando vi que o novo filme de Guillermo del Toro estava concorrendo a diversos prêmios do Oscar, pensei em duas alternativas: ou ele mudou seu estilo tão próprio para algo mais comerciável, ou ele fez um novo O Labirinto do Fauno – uma fábula maravilhosa sobre perda, vida e morte durante a Guerra Civil espanhola. Infelizmente, a primeira alternativa é a que mais se aproxima da realidade, embora ele certamente tenha buscado o mesmo tom de poesia de sua obra-prima.

A história gira em torno de Elisa Esposito, uma moça muda e solitária, que trabalha de faxineira em um laboratório do governo nos anos 60 e tem como melhores amigos seu vizinho gay, Giles, e Zelda, sua colega de trabalho. E, ainda que seja muda, Elisa não parece perder as boas coisas da vida. Além de ter como hábito diário fazer ovos cozidos de lanche, ela se masturba todos os dias – o que é mostrado em cena numa tentativa de quebra de tabu – e frequentemente visita Giles em seu apartamento. Os dois dividem a paixão por musicais e até tem um número adorável no qual sapateiam juntos no sofá. A única coisa que lhe falta é o amor.

Utilizando o contexto da Guerra Fria, a vida de todos muda quando os cientistas trazem uma criatura-peixe misteriosa, uma espécie de deus reverenciado na Amazônia latina. Elisa, imediatamente fascinada, estabelece um contato amistoso, primeiro oferecendo comida e, depois, colocando músicas e dançando para “ele”. Assim, com estilo que me lembrou Peixe Grande, o longa tem tom fabulesco desde o início, ajudado em grande parte pema fotografia de Dan Laustsen e pela bela trilha de Alexandre Desplat. A “princesa muda” aparece logo na primeira sequência dormindo na sua própria sala de estar, mas debaixo d’água, já dando indícios do que vai acontecer.

Obviamente nem tudo são flores, pois obviamente há um novo chefe de segurança que obviamente não se dá bem com a criatura e a maltrata sem motivo aparente (vivido por Michael Shannon, obviamente). Percebem? É um roteiro que já vimos mil vezes e, a partir do momento no qual Elisa decide ajudar a criatura, sabemos de praticamente tudo que vai acontecer a seguir. É uma mistura bizarra entre Pocahontas e Ela, na qual Elisa se apaixona por uma “pessoa” tão diferente e precisa salvá-la de seus pares malvados.

Uma das coisas que mais me incomodou em A Forma da Água (como podem ter percebido) foi a obviedade no geral, a começar por Strickland, vivido por Michael Shannon como todos os vilões que este já fez. Sua ambição é vaga – ele é um veterano que trabalha para o governo – e sua maldade injustificável ou incompreensível. A princípio, pensei que poderia ser por ciúmes, mas ao longo de toda a projeção, ele se comporta de maneira igual, antes ou depois de se interessar por Elisa.

Além do que, há demasiadas cenas envolvendo sua família e momentos mais íntimos de sua vida particular como se isso fosse indicar alguma mudança de caráter, e não indica. O personagem de Michael Stuhlbarg, que parece estar ali só para contextualizar a trama política que está por trás, também tem uma trajetória bastante óbvia, por todos os sinais que vai dando ao longo do filme. Aqui ele não se sai tão bem como o pai de Elio em Me Chame Pelo Seu Nome.

Mas o filme não é só obviedades. A direção é muito boa, e há cenas interessantes, como a da transição de sonho para musical ou a realização do sonho de toda criança: transformar o banheiro em uma piscina gigante. A fotografia também é muito boa, bem como a trilha, e as atrizes se saem maravilhosamente bem. Octavia Spencer protagoniza alguns dos melhores momentos do filme. Sua personagem, cheia de sarcasmo, é o oposto daquele vivido no bom Estrelas Além do Tempo, já que no último ela é uma mulher que se impõe e neste ela é apenas uma faxineira assustada. E é muito curioso reparar como as cenas nas quais ela aparece limpando foguetes ou a sala de controles fazem uma rima com o longa de Theodore Melfi. O diretor de elenco, Robin Cook, está de parabéns pela escolha.

Já Sally Hawkins encarna Elisa com doçura e confiança, embora a falta de complexidade da personagem impede que se sinta aquilo que ela sente: o amor passional, incondicional. No entanto, preciso ressaltar que o filme é passado na década de 60, e as pessoas com as condições de Elisa eram frequentemente marginalizadas. De qualquer maneira, mesmo sabendo disso, o personagem não parece nada infeliz. Sua incompletude me foi estranha e sua curiosidade tão intensa pela criatura me soou forçada – embora eu entenda que ela estava em busca de um amor simples e verdadeiro. Não julgo as formas de amor como elas se expressam, seja por homens-peixe ou por robôs. Só não consegui me conectar no mesmo nível quem em Ela, por exemplo.

Acontece que A Forma da Água, por mais poético que seja, jamais chega a alcançar o nível de carisma necessário para que nos apaixonemos pela criatura como Elisa o faz. É um ser humanóide, com alguma inteligência (já que consegue reproduzir a língua de sinais que a moça lhe ensina) e zero aparência. É um peixe. Não há como tirar dali qualquer reação amorosa. Quase não dá para tirar nada, já que o ser nem sequer transparece emoções e faz barulhos bizarros de monstro marinho. Aliás, a criatura se parece muito com uma coisa específica: o personagem Abe de Hellboy, um dos primeiros filmes do cineasta mexicano O ator é o mesmo Doug Jones de sempre, e a semelhança física entre este e aquele é patente.

Resumindo, A Forma da Água é um filme gostoso e visualmente bonito, mas que tirou o lugar de filmes melhores na competição por sua ambição de retratar um amor inusual mas que, para mim, peca por falta de carisma e paixão.

Título Original: The Shape of Water
Direção: Guillermo del Toro
Gênero: Aventura, drama, fantasia
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Fotografia: Dan Laustsen
Tempo de Duração: 2h03
Com: Sally Hawkins (Elisa Esposito), Michael Shannon (Richard Strickland), Richard Jenkins (Giles), Octavia Spencer (Zelda Fuller), Michael Stuhlbarg (Dr. Robert Hoffstetler), Doug Jones (homem-peixe), Nick Searcy (general Hoyt).

h1

Três Anúncios para um Crime

fevereiro 28, 2018

NOTA: 9

Talvez um dos menos ambiciosos e mais polêmicos dessa temporada do Oscar 2018, o novo filme escrito e dirigido por Martin McDonagh é também um dos mais honestos e engraçados. Passado em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos (Ebbing, no Missouri), Três Anúncios para um Crime retrata o típico norte-americano – do qual já falei também em Eu, Tonya -, aquele que é tão fora da casinha que dá até medo.

Mãe e vendedora em uma loja, Mildred Hayes decide alugar por um ano três outdoors que ficam nas aforas da cidade (daí o nome do filme em inglês). O conteúdo dos anúncios, entretanto, nada tem a ver com a venda de produtos. Mildred decide chamar na chincha a polícia de Ebbing por ter supostamente abandonado o caso de estupro e assassinato de sua filha. Enfurecidos, o policial Jason Dixon e o xerife William Willoughby tentam convencer a mulher a retirar os anúncios, uma vez que conseguiram ganhar publicidade da mídia local e causar sensação entre os habitantes do povoado – criando rixas entre quem está a favor de quem.

Mas o que se segue é uma sequência de gente maluca fazendo maluquices, uma mais bizarra do que a outra. A capacidade de McDonagh de contar uma boa história aqui se faz clara, uma vez que ele nos apresenta situações realistas e cheias de ironia que, além de me perguntar se esse tipo de gente realmente existe a cada instante, me deixavam sentada na ponta da cadeira.

Não é um thriller ou um filme de ação emocionante, mas o diretor consegue nos deixar suspensos a cada sequência, imaginando o que irá acontecer a seguir – e, para mim, a grata surpresa é que eu nunca conseguia adivinhar. Essa característica de brincar com o absurdo, mesclando um humor ímpar com situações improváveis é uma receita de sucesso que ele já havia explorado no ótimo Na Mira do Chefe, e aqui se faz ainda melhor. E por mais louca que toda aquela gente pareça ser, o elenco formidável consegue transmitir uma miríade de sentimentos que tornam aqueles personagens totalmente verossímeis.

Então temos a mãe, enlouquecida pelo luto e pelo descaso da polícia, o ex-marido violento e sua nova namorada que parece mais perdida que cachorro em dia de mudança, o filho retraído, o dono da agência de publicidade que desafia a autoridade, a autoridade composta por um idiota e um homem sensato que logo sai de cena e alguns outros personagens curiosos que compõem um leque de complexidade humana vasto e rico.

Enquanto entendemos a dor de Mildred, sofremos com ela e por ela, mas também pelo filho que lhe restou, devastado também pela perda da irmã e tendo que lidar com uma mãe fora do controle. E se em um primeiro momento era difícil compreender os dois policiais, ao longo da projeção suas ambições e características psicológicas se vão revelando pouco a pouco, de maneira brilhante e objetiva. O final aberto também é um recurso utilizado com eficácia aqui, já que, como disse, tudo pode acontecer.

O arco mais notável é, certamente, o do personagem mais odiável, vivido por Sam Rockwell com carisma e (nem acredito que estou dizendo isso) muita eficiência. Nunca fui fã do ator pois ele sempre interpreta o mesmo tipo (ele mesmo) e o seu Dixon não é muito diferente dos demais. A diferença é que o policial foi escrito de maneira magistral, com nuances que desvelamos devagar, acompanhando a trajetória daquele homem como quem vê as peças de um relógio se encaixando. Passamos por todas as fases: ódio por sua estupidez, pena de sua óbvia incapacidade mental e júbilo porque talvez todas as observações feitas anteriormente fossem somente um pré-conceito. O mais interessante do longa é isso: os personagens, como nós, têm espaço para rir, chorar, sentir pena, compaixão, medo etc.

Mais do que apenas uma figura extremamente poderosa, a estrela do filme, Mildred, é um personagem tridimensional, e Frances McDormand está absolutamente fantástica. Usando sempre moletons – talvez algo que já seja sua marca característica – ela não tem medo do olhar público e vai até o fim para defender sua causa. Uma das cenas mais tocantes, contudo, é aquela na qual Mildred é interrogada por William na delegacia e ambos são interrompidos por um forte acesso de tosse do xerife. E se McDormand certamente merece o prêmio de Melhor Atriz, fica difícil escolher entre o carisma do William de Woody Harrelson ou a estupidez fingida de Sam Rockwell. Ambos estão excelentes (mas Rockwell um pouco mais).

Aliás, Três Anúncios para um Crime levanta uma série de assuntos em pauta atualmente, que com certeza terão destaque durante as premiações da Academia. Os temas de estupro e abuso são o que engatam o longa, sim, mas há também uma clara colocação contra o racismo, infelizmente ainda presente na sociedade. Então, ver um dos atores da magnífica série The Wire participar como o novo chefe de polícia é uma sacada não só genial de escolha de elenco, mas da própria construção do personagem. O nome dele? Abercrombie. Maravilhoso! (lembrando que a marca homônima vira e mexe é acusada de racismo).

É a presença e força de Mildred, no entanto, que guiam toda a narrativa. Uma mulher forte e independente, que sabe colocar todos os pingos nos “is”, e que não tem pudores de recorrer ao que quer que seja para lidar com abusadores escrotos – sejam eles homens ou mulheres. É um personagem que fala diretamente com as mulheres de hoje, e é impossível não mencionar o movimento que está acontecendo em Hollywood desde outubro passado, o #metoo – hashtag utilizada por celebridades e agora pelo mundo todo para expôr situações de abusos e assédio sexual.

É de uma contemporaneidade incrível e é por essa razão que Três Anúncios para um Crime é a minha aposta para Melhor Filme do Oscar deste ano. Um timing mais do que perfeito para a Academia apoiar a causa, e não sem razão. Um filme ótimo com um contexto atual é tudo que se precisa para ser um vencedor, apesar daquele CGI de veado.

Título Original: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Direção: Martin McDonagh
Gênero: Crime, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Martin McDonagh
Trilha Sonora: Carter Burwell
Fotografia: Bem Davis
Tempo de Duração: 1h55
Com: Frances McDormand (Mildred Hayes), Sam Rockwell (Jason Dixon), Woody Harrelson (William Willoughby), Lucas Hedges (Robbie Hayes), Caleb Landry Jones (Red Welby), Kerry Condon (Pamela), Amanda Warren (Denise), Peter Dinklage (James), John Hawkes (Charlie), Samara Weaving (Penelope), Zeljko Ivanek (sargento), Darrell Britt-Gibson (Jerome), Sandy Martin (Dixon mãe), Clarke Peters (chefe Abercrombie).

h1

Viva! – A vida é uma festa

fevereiro 28, 2018

NOTA: 9

Ao longo de sua próspera trajetória, cada vez que a Pixar decidia fazer um filme era comum esperarmos histórias absolutamente inusitadas, de brinquedos, monstros, carros, peixes, ratos e robôs humanizados. Chegamos ao ponto dos sentimentos com sentimentos no inigualável Divertidamente. Uma das maiores contadores de estórias de todos os tempos e responsável por recriar universos realistas dos humanos com toques fantásticos – como Valente, passado na Escócia, Frozen, nos países nórdicos, e o mais recente Moana, sobre uma princesa polinésia – decidiu agora falar sobre um universo geograficamente muito mais próximo: o México. Finalmente!

Embora não seja a especialidade da Pixar falar sobre pessoas, a união com a Disney tornou isso possível. Quando retratando culturas diferentes, o estúdio se esforçou em buscar elementos característicos de cada povo retratado, por mais fantasiosa que fosse a história, provendo detalhes específicos que tornassem os filmes em únicos. É o caso deste novo Viva! A Vida é uma Festa.

Passado em alguma cidade mexicana durante as festividades do Dia dos Mortos, o longa conta a história do pequeno Miguel e sua paixão proibida pela música – qualquer coisa relacionada havia sido estritamente banida da vida familiar quando sua ancestral, Imelda, foi abandonada pelo marido e se responsabilizou sozinha pela criação da filha pequena, Coco – a avó de Miguel. É esta, inclusive, que dá nome ao filme no título original.

Mas Miguel não quer ser um sapateiro, como todo o resto da família. Ele quer ser como seu ídolo, o falecido Ernesto de la Cruz. Desesperado para provar seu valor como músico, Miguel invade a casa mortuária onde de la Cruz descansa – junto com sua famosa guitarra – e tenta roubar o instrumento para participar de um concurso. É aí que as coisas fogem de seu controle, pois roubar algo no Dia dos Mortos tem consequências gravíssimas.

Encantando com a quantidade de detalhes sobre a vida daquelas pessoas, Viva! se sobressai ao não criar uma caricatura dos personagens – exceto, talvez, do cachorro –, expondo qualidades, defeitos e características de cada personagem sem soar forçado ou ridículo. Assim, as mulheres mais velhas da família são presenças extremamente fortes, criando um círculo matriarcal interessante. Quem manda, ali, são elas.

Visualmente, também, o longa é um espetáculo, no melhor sentido da palavra. Brilhante e colorido, o mundo do lado de lá é rico em cores, texturas e vivacidade, embora tudo ocorra sugestivamente na penumbra da noite. É interessante ver, também, como os atores incluem nas frases expressões e palavras espanholas, o que torna tudo muito mais familiar. E reconhecer o queridinho Gael García Bernal entre aquelas vozes não só é um prazer como um descobrimento, já que o ator mexicano, encarnando um dos personagens mais complexos do longa, também dá uma palhinha como cantor.

Porque, afinal de contas, sendo um filme sobre música, Viva! tem bons números musicais, a maioria interpretados pelo jovem e talentoso Anthony Gonzalez, canções contagiantes, algumas tristes e bonitas, outras animadas que dão tom e contextualizam, mas não necessariamente fazem a história andar, mostrando um trabalho sólido de Michael Giacchino. São um complemento interessante – mais interessante, diga-se, do que as músicas usadas em La La Land. Inclusive, ouso dizer que ficará mais na memória do que o suposto musical de Chazelle. Uma das cenas mais fantásticas do longa é, justamente, uma na qual Miguel toca violão apaixonadamente em frente à televisão. Lindo demais!

Viva! É um dos melhores filmes do estúdio, embora não seja o meu favorito. Algumas escorregadas no roteiro (escrito a oito (!) mãos pelos diretores Lee Unkrich e Adrian Molina ao lado de Jason Katz e Matthew Aldrich) poderiam ter deixado a história mais enxuta – em alguns momentos, senti que o enredo se enrolava um pouco, criando mais clímax do que o necessário, e deslizando em anticlimax óbvios. Mas isso não empalidece de maneira nenhuma a importância do longa. Pois, tirando as óbvias questões visuais e tecnológicas, Viva! é uma história tocante sobre o valor da família.

Mas mais do que isso, fala sobre como manter a família por perto, sempre, pois eles são nosso maior alicerce, não importa quão loucos, esquisitos ou diferentes de nós mesmos. Ele são parte da nossa história e aqueles que teremos para o resto da vida, por mais distantes ou desconectados que estejamos no presente. É, também, a primeira animação do estúdio com um protagonista latino, falando sobre sua cultura e a imoportância de temas universais como as recordações, a memória e a importância de relembrar o passado para entendermos o agora.

É um combo irresistível de personagens carismárticos, visuais grandiosos e músicas tocantes. Ou, em outras palavras, sobre como a Disney novamente vai te fazer chorar. Prepare-se.

Título Original: Coco
Direção: Lee Unkrich e Adrian Molina
Gênero: Animação, aventura e comédia
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Lee Unkrich, Adrian Molina, Jason Katz e Matthew Aldrich
Trilha Sonora: Michael Giacchino
Fotografia: Matt Aspbury (câmera) e Danielle Feinberg (iluminação)
Tempo de Duração: 1h45
Com: Anthony Gonzalez (Miguel), Gael García Bernal (Hector), Benjamin Bratt (Ernesto de la Cruz), Alanna Ubach (mamá Imelda), Renee Victor (abuelita), Jaime Camil (papá), Alfonso Arau (papá Julio), Herbert Siguenza (tio Oscar e tio Felipe), Gabriel Iglesias (padre), Ana Ofelia Murguia (mamá Coco), Natalia Cordova-Buckley (Frida Kahlo), Selene Luna (tia Rosita), Edward James Olmos (Chicharrón), Sofía Espinosa (mamá), Dyana Ortelli (tia Victoria).