Archive for the ‘10’ Category

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Lady Bird – A hora de voar

março 23, 2018

NOTA: 10

Ainda bem que existem as segundas opiniões e as obras que nos levam a tê-las. Pois, embora tenha detestado Frances Ha – do diretor Noah Baumbach – e simpatizado menos ainda com sua personagem-título, interpretada por Greta Gerwig, me apaixonei irresistivelmente pelo filme que esta criou recentemente, e tem na irlandesa Saoirse Ronan sua adorável e complexa protagonista Christine – digo, Lady Bird.

Com meu pré-conceito formado a partir de meu prévio encontro com Gerwig, achava que ela, assim como Sofia Coppola, era uma figura superestimada em Hollywood – mas, ao contrário da filha do famoso cineasta, Gerwig é muito mais interessante como diretora do que Coppola, que tenta ser cool e só consegue soar presunçosa. Fato que não consigo me identificar com Gerwig como atriz em seu début, mas como diretora ela se saiu excepcionalmente bem.

Criando uma aura realista em torno da jovem – que insiste em ser chamada pelo apelido por absolutamente todos que conhece, inclusive os modestos pais e professores – a diretora estreante constrói uma rede de emoções e situações tão plausíveis que, para mim, foi possível me transplantar para a tela e sentir-me exatamente como a moça em questão. Primeiro, porque Lady Bird – A hora de voar fala, exclusivamente, desse período conturbado e bizarro que é a adolescência, o formar-se na escola e entrar na faculdade, e tudo que esses acontecimentos e decisões acarretam.

Segundo, pois é um filme familiar, que trata do relacionamento de altos e baixos entre mãe e filha, principalmente. Mas é, também, um chamado a Terra para o fato de que os adolescentes sonham e esperam com coisas que são muito diferentes na realidade, e que nada acontece como se espera ou ninguém é aquilo que planeja. Extremamente pé no chão e honesto; até mesmo nas cenas mais absurdas tudo é plausível, ainda que cômico ou triste – dualidade que acontece com frequência singela.

Para completar, Gerwig ainda consegue inserir um milhão de subtemas que fogem à trama mas, no contexto, são extremamente válidas e interessantes, pois servem não só para trazer a discussão para o primeiro plano, como também para arranhar, com unhas afiadas, alguns tabus: a diferença dos norte-americanos ricos e da classe média baixa do subúrbio; a melhor amiga gordinha que é boa em absolutamente tudo e, mesmo sofrendo preconceitos, é tratada como uma pessoa digna como qualquer outra; os meios-irmãos mestiços que são – provavelmente, já que nunca se chega realmente a dizer – adotados e, novamente, tratados com preconceito mas nunca deixam de ser pessoas louváveis; a escola católica cuja diretora é uma freira aberta e simpática, talvez uma das figuras mais interessantes na vida de Lady Bird; o ex-namorado que descobre que é gay, a primeira transa, colar na prova, brigar e se reconciliar com a mãe o tempo todo…

Mais do que tudo isso, o clima que Gerwig cria para contar sua história é soberbo. Em tom fluido e coeso, ela perpassa a vida de Lady Bird durante seu último ano no Ensino Médio até o começo da faculdade em Nova York. O longa facilmente poderia se chamar The Perks of Being a Teenager – fazendo um paralelo com o maravilhoso As Vantagens de Ser Invisível -, já que trata de todas as coisas adolescentes. Ser bem-sucedido não significa que somos ou seremos felizes, e o pai de Lady Bird, personagem por quem sentimos enorme compaixão, é uma personificação do fracasso e do sucesso, tudo ao mesmo tempo.

Realista a ponto de colocá-la em seu próprio lugar, Lady Bird tem plena consciência de que é de classe média baixa, rouba revistas porque não pode comprá-las e usa o pretexto de morar em uma casa boa para se aproximar de uma garota popular – que é obviamente rica. Engraçado e tocante nas horas certas, o brilhante roteiro – também da cineasta – não deixa nada para trás. Preciso e redondo, seu filme é um resumo fiel e divertido de várias vidas de garotas que conhecemos. Inclusive quando estas crescem, amadurecem e descobrem que não são um completo fracasso em tudo – muito pelo contrário.

E enquanto temos uma atuação perfeita de Saoirse Ronan, principalmente por ser jovem (ela completa 25 em abril) e talvez se ver representada na personagem, temos um elenco de apoio formidável, que certamente merecia ter sido lembrada pela Academia. Laurie Metcalf está espetacular como a mãe, Marion, e protagoniza algumas das cenas mais emocionantes do filme ao lado do pai, interpretado por Tracy Letts (roteirista de Álbum de Família).

A boa trilha sonora de Jon Brion é hábil o suficiente para embalar os personagens com as roupagens certas, enquanto a fotografia de Sam Levy, embora não seja excepcional, nos dá os tons precisos para entendermos qual a pegada do filme: quente, divertido e gostoso. Para aqueles que não conseguem se identificar com Lady Bird, eu até entendo. Gerwig mirou em um público (talvez ela mesma) e acertou em cheio. Este é tudo o que Brooklyn tentou ser e não conseguiu.

A delicadeza de Gerwig vai junto a todos os personagens, até mesmo quando a trama não está focada em Lady Bird. A cena do aeroporto, quando ela – ao invés de seguir a menina – acompanha a mãe dentro do carro, é um clímax catártico para as filhas e, imagino, para os pais também. Está tudo ali. É uma ode à adolescência, à paciência dos pais, à rebeldia necessária dos filhos e, tal qual Woody Allen e sua Nova York, a Sacramento, Califórnia.

Título Original: Lady Bird
Direção: Greta Gerwig
Gênero: Comédia, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Greta Gerwig
Trilha Sonora: Jon Brion
Fotografia: Sam Levy
Tempo de Duração: 1h34
Com: Saoirse Ronan (Lady Bird McPherson), Laurie Metcalf (Marion McPherson), Tracy Letts (Larry McPherson), Lucas Hedges (Danny O’Neill), Timothée Chamalet (Kyle Scheible), Beanie Feldstein (Julie Steffans), Lois Smith (irmã Sarah Joan), Odeya Rush (Jenna Walton), Jordan Rodrigues (Miguel McPherson), Marielle Scott (Shelly Yuhan).

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Trama Fantasma

março 15, 2018

NOTA: 10

Já disse algumas vezes aqui no blog o quanto me parece difícil falar de filmes que são transcendentais ou, em outras palavras, filmes que são tão bons que é complicado escrever sobre eles, pois falam sobre a própria existência humana. Foi assim com Árvore da Vida, e é o caso do novo longa de Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma – e o último da próspera e brilhante carreira do (gatíssimo) ator britânico Daniel Day-Lewis.

Considerado um diretor extremamente meticuloso com suas produções – vide o caso dos fabulosos Sangue Negro e O Mestre – Paul Thomas Anderson está se consagrando como um dos melhores diretores não só de sua geração, mas também na ativa atualmente. Pouco ligando para as convenções ou temas que norteiam os demais colegas de Hollywood, o norte-americano prefere se manter à margem e contar, com seu estilo elegante e tranquilo, suas histórias através de recortes nas vidas de pessoas comuns – ou quase.

Sabemos, no entanto, que pouco há de comum nos personagens de Daniel Plainview (vivido também por Day-Lewis com tamanha potência que assombrou a todos e lhe rendeu o segundo Oscar) ou de Freddie Quell – um Joaquim Phoenix como jamais se viu antes, que na época de seu lançamento, em 2012, me fez crer que seria ele a levar o Oscar de melhor ator (entregado novamente a Day-Lewis por sua interpretação como Lincoln). Tampouco há nada de ordinário no personagem de Reynolds Woodcock.

Consagrado estilista na década de 50, Woodcock poderia ser um pintor, escultor ou escritor: ele trata suas criações como obras de arte – que vestem socialites e princesas – e, mais do que isso, precisa da constante presença de musas inspiradoras que lhe sirvam de modelo. Dividindo um casarão com sua irmã e administradora, Cyril, as musas pouco têm a fazer a não ser satisfazê-lo pontualmente, e somente quando solicitadas. No mais, elas devem ser o menos intrusivas possível. Isso tudo sabemos em uma das primeiras cenas do filme mas tudo o que será dito daqui em diante pode conter revelações sobre a trama. Se ainda não assistiu ao longa, corra lá e depois volte aqui!

A dinâmica da casa Woodock muda quando Reynolds conhece Alma, uma garçonete estrangeira, e decide dela fazer sua nova musa – a outra, pobrezinha, é despachada com um prêmio de consolação (um vestido, claro). O primeiro encontro dos dois é intenso, com trocas de olhares de partir montanhas, declarações com caráter de sentenças (“sou um solteiro incurável”, diz ele, quando ela questiona porque nunca se casou) e estabelece-se a dinâmica que permeará o futuro casal: Reynolds leva Alma a seu ateliê e pega todas as medidas de seu manequim, ressaltando como qualidades aquilo que a moça considerava seus defeitos – seios pequenos, quadris largos e barriguinha.

Levada ora como uma dança elegante, ora como um esporte competitivo, a relação do casal é constantemente posta à prova, principalmente pela figura de Alma, que se recusa a ser só mais um fantasma na casa. Estabelecendo um curioso triângulo com os irmãos Woodcock, ela tenta se impor a toda custa, e se recusa a permitir que Reynolds se feche como uma ostra, recorrendo a meios pouco convencionais para tal, provando que sua presença não só era útil, como necessária. Não é a toa que a personagem tenha o nome de Alma, tampouco.

Paul Thomas Anderson cria não somente personagens complexos, mas também um ambiente propício para que exploremos a vida dessas pessoas de perto, para que sintamos suas dores e angústias. Nisso, o trio de atores principais faz um trabalho extraordinário. A caracterização de Day-Lewis como Reynolds vai além da meticulosidade. O ator declarou ter aprendido a costurar e chegou até mesmo a reproduzir do zero um vestido Balenciaga para entender a complexidade da alta-costura. É, então, com absoluta fluidez e comodidade que ele segura linha e agulha ou mede com fita métrica o corpo de Alma.

Como em seus anteriores trabalhos, ele se metamorfoseia, desta vez em um homem extremamente metódico, egocêntrico, ferino, praticamente um socipoata, e de presença avassaladora: todas as mulheres ao seu redor se sentem vulneráveis, incômodas e instigadas. Exceto sua irmã, vivida brilhantemente por Lesley Manville. Igualmente forte, Cyril tem tanta dó de Reynolds como este tem de suas musas.

Mas quem realmente se sobressai é a luxemburguesa Vicky Krieps, uma atriz praticamente desconhecida que carrega o peso emocional do filme. Atuando ao lado de gigantes veteranos, a atriz consegue infundir personalidade e até mesmo contexto a Alma. Tudo que precisamos saber da jovem garçonete é dito com algum olhar significativo, que dá sutileza e peso às suas ações. Imatura a princípio, mas depois uma mulher de posicionamento e caráter forte, Alma não se deixa intimidar por Day-Lewis, digo, Reynolds. E é interessante saber que uma das cenas mais intensas, a da discussão no jantar, foi praticamente improvisada. Estaria Krieps falando com o ator ou o personagem?

Pois, certamente, o sucesso deste filme se deve não somente à meticulosidade tanto do ator como do diretor, mas à dedicação que cada um tem com seu próprio trabalho, e a relação que ambos têm com Reynolds. O personagem é, de certa maneira, uma faceta de ambos artistas. Realmente me faltam adjetivos para elogiar tanto um como outro, e Trama Fantasma é a culminação de duas carreiras no apogeu absoluto.

Com atuações tão esplêndidas, uma trilha sonora pontual e belissimamente composta por Johnny Greenwood, design de som incrível – reparem como todos os barulhos estão propositalmente mais altos, fazendo com que cada coisa soe extremamente incômoda, do passar manteiga no pão aos passos que parecem infinitos dentro do casarão – e fotografia sublime feita pelo próprio genial cineasta, o longa se sobressai da média de filmes dos últimos anos. Mais do que um filme sobre pessoas, é um filme de amor. Sobre amor. Sobre o amor difícil, diferente e peculiar de cada casal. De como se constrói e se sustenta cada dinâmica. É tudo que Me Chame Pelo Seu Nome e A Forma da Água (para mencionar somente os que concorriam este ano) tentaram/buscaram ser e não conseguiram.

Utilizando toques de humor imprevisíveis – o que nos parece engraçado para os personagens pode ser perturbador e vice-versa – e concentrando os momentos de tensão especialmente nas refeições, o roteiro, também do diretor, nos leva a caminhar sobre pedras, sobre ovos ou nas nuvens, acompanhando a montanha-russa de emoções que é estar em uma relação, como se nos obrigasse a reviver o relacionamento entre Alma e Reynolds (e Cyril) como o nosso próprio. Como é fantástica a sequência do Ano Novo, na qual Reynolds reluta em permitir-se, em entender e, finalmente, em aceitar. Quando o faz, é de braços, boca e coração abertos, compreendendo que, para amar e deixar-se ser amado exige sacrifícios – psicológicos e até mesmo físicos.

Como se manifesta o amor? Como podemos demonstrar ou medir o amor que uma pessoa sente pela outra? É dando flores, preparando jantares? É defendendo a obra de arte do companheiro? É envenenando-o, curando-o ou virando-o do avesso, a ponto de tudo ser uma tempestade antes de ser calmaria? É fascínio ou é tensão? Mais: como podemos julgar os sacrifícios que os amantes fazem uns pelos outros, se a dinâmica funciona? Quem somos nós para dizer qual a dinâmica correta, se é que existe uma?

Paul Thomas Anderson criou mais uma obra-prima. E eu que achava que isso nem era possível.

Título Original: Phantom Thread
Direção: Paul Thomas Anderson
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (EUA): 2018
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Trilha Sonora: Johnny Greenwood
Fotografia: Paul Thomas Anderson
Tempo de Duração: 2h10
Com: Daniel Day-Lewis (Reynolds Woodcock), Vicky Krieps (Alma), Lesley Manville (Cyril Woodcock) e Brian Gleeson (Dr. Robert Hardy).

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X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

fevereiro 22, 2016

x_men__days_of_future_past___poster__update__by_superdude001-d6sbixcNOTA: 10

Revisitando o mundo criado por Matthew Vaughn em X-Men: Primeira Classe – e que já havia sido explorado na trilogia sobre os mutantes –, o diretor Bryan Singer novamente pega a batuta do projeto para dar continuidade à história de Erik Lensherr e Charles Xavier em seu recrutamento de jovens com mutações genéticas.

No entanto, Dias de Um Futuro Esquecido funciona como continuação e prequela dos longas originais, já que traz os atores também originais nos papeis de Magneto e Xavier (Ian McKellen e Patrick Stewart, respectivamente). A narrativa está situada em um futuro pós-apocalíptico, no qual os mutantes lutam pela sobrevivência em um mundo que não permite sua existência. Eles são cassados e exterminados pelas aterrorizantes Sentinelas, espécie de robôs ultramodernos capazes de detectar a presença dos mutantes e absorver os poderes de seus inimigos.

Uma improvável união entre os senhores Magneto e Xavier – então desesperados para salvar os mutantes que ainda resistem –, usa os poderes de Kitty Pride para enviar Wolverine ao passado para impedir que a então jovem Mística assassine o empresário Bolivar Trask – cuja morte incentivaria a criação das Sentinelas.

Para conseguir, Wolverine deve encontrar as versões jovens de Magneto e Xavier, protagonizadas, como antes, por Michael Fassbender e James McAvoy. Retornando, portanto, aos incidentes ocorridos após Primeira Classe, encontramos a equipe de Xavier dispersa, tentando lidar com as próprias mutações, usando soros e tomando medidas para que parecessem “normais”.

Sem jamais deixar que o público se sinta traído por trazer novamente figuras como a de Tempestade, o roteiro de Simon Kinberg é astuto o suficiente para também introduzir personagens novos (como Mercúrio) e de conduzir a história de maneira eficaz. Assim, conforme o clímax da trama se aproxima, vemos os personagens do passado lidando com versões diferentes de seus inimigos do futuro, o que aumenta nossa sensação de urgência.

Contando com cenas de ação de tirar o fôlego, os personagens se movem em câmera de maneira fluida: nenhuma cena dá dor de cabeça, e sempre sabemos quem está fazendo o quê. Singer também confere personalidade a cada herói, mostrando, nas batalhas do futuro, uma química especial entre aqueles sobreviventes, já que a agilidade com que lutam e a mescla de poderes nos faz supor que aqueles personagens já travaram centenas de batalhas contra as Sentinelas – e perderam todas.

A fotografia de Newton Thomas Sigel – cujo ápice é o estádio de futebol “fora de lugar” – também merece destaque, bem como o senso de humor. Com gags pontuais que diluem momentaneamente a tensão, o riso é provocado por acrescentar detalhes não-humanos a fatos reais, como a bala curva que matou Kennedy e até mesmo a já famosa cena em “stop-motion” de Mercúrio.

Ao mesmo tempo, o filme conta com um elenco de peso, que sempre encontra uma brecha para explorar novas facetas de seus já tão conhecidos personagens – especialmente Hugh Jackman, que aparece mais do que familiarizado com Wolverine, mas nunca a ponto de ser monótono. Ao mesmo tempo em que contrastamos a magnitude das Sentinelas, que deixam Magneto e Xavier vulneráveis e até mesmo frágeis, encontramos esses mesmos personagens em suas versões jovens e infinitamente poderosos. Se o Xavier de McAvoy consegue encontrar e levar equilíbrio aos demais, o Magneto de Fassbender é imprevisível, explosivo e ameaçador.

O elenco coadjuvante, composto por Jennifer Lawrence como Mística e o ótimo Peter Dinklage como Trask, colaboram para trazer peso emocional e profundidade aos respectivos personagens, levando-nos a realmente acreditar que, por mais absurda que sejam as ações daquelas pessoas, há sempre uma razão ou um conflito interno que os guiam.

Assim, o longa de Singer se firma como um dos melhores filmes do gênero de todos os tempos, superando a Marvel em todos os quesitos, e até mesmo algumas produções do ano de seu lançamento. Servindo também como gatilho para o último filme da trilogia, Dias de Um Futuro Esquecido dificilmente o será, com o perdão do trocadilho.

Título Original: X-Men: Days of Future Past
Direção: Bryan Singer
Gênero: Ação, aventura, ficção-científica
Ano de Lançamento (EUA): 2014
Roteiro: Simon Kinberg
Trilha Sonora: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Tempo de Duração: 132 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), James McAvoy (Charles Xavier jovem), Michael Fassbender (Erik Lensherr/Magneto jovem), Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística), Halle Berry (Tempestade), Nicholas Hoult (Dr. Hank McCoy/Fera), Anna Paquin (Vampira), Ellen Page (Kitty Pride), Peter Dinklage (Dr. Bolivar Trask), Shawn Ashmore (Bobby/Homem de Gelo), Omar Sy (Bispo), Evan Peters (Peter/Mercúrio), Josh Helman (Major Bill Stryker), Daniel Cudmore (Colosso), Bingbing Fan (Blink), Adan Canto (Sunspot), Booboo Stewart (Warpath), Ian McKellen (Magneto velho), Patrick Stewart (Charles Xavier velho), Famke Janssen (Jean Grey), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Lucas Till (Havok), Evan Jonigkeit (Toad).

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Ninfomaníaca volume I

janeiro 8, 2015

nymphomaniac-posterNOTA: 10

Depois de anos de carreira e uma espetacular filmografia, achei que Lars Von Trier não seria capaz de me fazer sentir novamente como o Cinema é uma arte fabulosa. Surpreendente como ele só, Ninfomaníaca volume I já conquistou um lugar especial na lista de favoritos do diretor – embora essa seja só a primeira parte de um filme que, em conjunto, promete ser ainda mais ambicioso.

Ambicioso, pois Von Trier decidiu entrar mais uma vez em terras áridas e temas tabus (ele já passou por depressão, loucura, escravidão e cristianismo, entre outras coisas) e falar de maneira explícita sobre sexo. Não só isso: é um filme de sexo, taras, manias, relações – sob a ótica cínica, crítica e muitas vezes deturpada do cineasta.

Extremamente visual e permeado por metáforas filosóficas sobre o amor e o conceito de ninfomania no mundo moderno, durante todo o filme acompanhamos a confissão de Joe – encontrada caída no chão e toda machucada – a Seligman, um homem aparentemente simples e de bom coração. Se faz necessário dizer que o personagem é judeu, já que essa informação é revelada ao espectador em meio a referências “gratuitas” – sem dúvida alguma por conta dos comentários anteriores do cineasta sobre o tema – a respeito da diferença entre antissemitismo e antissionismo.

Com linguagem direta e evidenciando os cortes de edição, Von Trier insere o espectador na história da jovem Joe, contada através de capítulos que tem relação direta com a conversa, desde quando ela começou a perceber sua sexualidade na adolescência e a maneira como lidou com isso. Diríamos nós, moralistas, que ela teve uma infância problemática e por isso desenvolveu essa característica maníaca com relação ao sexo. Para Seligman, no entanto, não há ação capaz de condenar Joe, embora ela não consiga justificar muitas das coisas que fez e relate sua história com culpa.

Permeando a complexa narrativa da moça com comparações absurdas sobre pesca, música clássica e aviação – enquanto mostra, visualmente, imagens, gráficos divertidos e inesperados –, o diretor desenvolve um roteiro soberbo, polêmico, extravagante e incômodo na maior parte do tempo. O Cinema serve, afinal, para ser uma pedra no sapato. Claro que, em se tratando de Von Trier, profundo conhecedor da Sétima Arte, todas as inserções e simbolismos têm um porquê de estarem ali – embora alguns soem um pouco artificiais, como o gato e o aeromodelo.

Há momentos sensacionais, que levam ao riso pelo simples absurdo, como a sequência do trem e a explicação sobre o clube que pregava contra o amor (mea vulva, mea maxima vulva) e cujo tom demoníaco tem relação direta com o sentimento de aversão do grupo. Mas, na maior parte da projeção, toda a vida da jovem Joe é propositalmente sexualizada, já que ela usa o sexo como válvula de escape e refúgio para seus problemas.

E é tocante observar, por exemplo, como ela se ressente de não conseguir sentir nada quando sabe que deveria, ao estar com o homem amado. Ou, então, a belíssima sequência – chamada de A Queda da Casa de Usher, em homenagem a Allan Poe e em p&b – na qual ela deixa escorrer uma “lágrima” por seu pai no hospital. Pai que é, por sinal, interpretado com muita delicadeza por Christian Slater.

Há outros momentos maravilhosos, como a sequência dos três amantes ou como, de maneira melancólica, Joe comenta: “sempre exigi muito mais do pôr do sol”, revelando mais de sua personalidade sofrida do que suas cenas de sexo desenfreado. Conduzindo a história sempre para a frente com o roteiro bem dividido, Von Trier cria, novamente, um filme único, cheio de personalidade, e ao mesmo tempo totalmente original. E, afinal, como não amar um diretor que começa e termina o filme com Rammstein?

*Texto originalmente escrito em 27/02/2014

Título Original: Nymphomaniac p.1
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca/Alemanha/França/Bélgica/UK): 2013
Roteiro: Lars Von Trier
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Charlotte Gainsbour (Joe), Stellan Skarsgård (Seligman), Stacy Martin (jovem Joe), Shia LaBeouf (Jerome), Christian Slater (pai de Joe), Uma Thurman (Mrs. H), Sophie Kennedy Clark (B), Connie Nielsen (mãe de Joe).

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Manderlay

junho 2, 2014

manderlay_posterNOTA: 9

É natural que algumas continuações não sejam tão boas quanto os filmes “originais”. Mas não podemos dizer o mesmo de Manderlay. Apesar de ter sido inicialmente concebido para ser uma espécie de sequência de Dogville – tanto em tema (o da escravidão) quanto na evolução da personagem – o filme não é, em nada, uma continuação. Se realmente o fosse, não teria sido feito por Lars Von Trier.

Analisando cada peça como única e com sua própria dinâmica, o cineasta volta ao tema mais problemático dos Estados Unidos recente e deixa claro suas opiniões a respeito, através de muita ironia e sadismo – o que explicam os absurdos créditos finais. O filme é, em sua essência, exatamente aquilo que esperamos das produções de Von Trier – e, justamente por isso, é compreensível até certo ponto porque as pessoas achem esse um de seus filmes mais estranhos. Mas já chego lá.

A história ainda é sobre Grace, uma menina que, ao sair de Dogville ao lado do pai distante, para na frente de uma grande propriedade de algodão no Alabama, chamada Manderlay. Entrando para defender ativamente um escravo que estava a ponto de ser punido, Grace interpela por ele, proíbe a punição – ao lado de seus fiéis gângsteres – e vê a dona da propriedade morrer.

Ao saber que sua ação foi muito além da esperada ou desejada, ela decide ficar e observar a evolução daquela pequena comunidade, a princípio com distanciamento, e em seguida ativamente. Suas ações começam a ter cada vez mais impacto na vida daquelas pessoas, até o momento em que ela se transforma na peça-chave para o funcionamento da nova sociedade que criou.

Embora se aproxime dos filmes mais hollywoodianos de Von Trier – como Ondas do Destino e Melancolia – continua tendo a mão de seu criador. O espaço físico também segue a lógica de Dogville: a maioria dos cenários é imaginado ou pintado no chão, favorecido apenas por iluminação, design de som e pela narração de John Hurt.

A jovem Bryce Dallas Howard – substituta de Nicole Kidman como Grace – se encaixa perfeitamente no papel. Seu jeito de menina inocente e ingênua colabora para as cenas de maior intensidade dramática – e, embora a escolha não tenha sido de Von Trier, é completamente convincente. Alguns atores que participaram do “primeiro” filme também aparecem em outros papeis, ao mesmo tempo diferentes e semelhantes.

Apesar da iniciativa democratizante de Grace, o filme faz algumas magníficas referências – a que hora jantam os homens livres? Ou aquela que compara escravos a passarinhos em gaiolas – e perpassa por questões imorais e de resolução pouco (ou quase nada) democráticas. A democracia, em si, é aplicada sob o ponto de vista único da personagem, que dita as regras com um absolutismo monárquico.

Ao fim do filme, as tentativas antiescravistas são colocadas em xeque pelo diretor, que questiona diretamente – através do personagem de Danny Glover que, me parece, foi uma das inspirações para o velho escravo Stephen, de Django – se elas realmente foram boas ou se foram apenas uma aplicação prática daquilo que Grace considerava bom na teoria. É uma crítica brutal e visceral não só ao escravismo americano, mas ao que foi feito após a abolição.

Provocador, Von Trier conhece seu público, mas não tem medo ou vergonha de tocar em questões delicadas. Assistir qualquer um de seus filmes significa estar com a cabeça aberta para receber as chicotadas sociais e as críticas ao nosso próprio estilo de vida de sociedade. É (mais) um filme obrigatório na carreira desse brilhante diretor.

*Texto originalmente publicado no Salada de Cinema

Título Original: Manderlay
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca): 2005
Roteiro: Lars Von Trier
Trilha sonora: Joachim Holbek
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Tempo de duração: 139 minutos
Com: Bryce Dallas Howard (Grace Margaret Mulligan), Isaach De Bankolé (Timothy), Danny Glover (Wilhelm), Willem Dafoe (pai de Grace), Michael Abiteboul (Thomas), Lauren Bacall (madame), Jean-Marc Barr (Mr. Robinsson), John Hurt (narrador), Zeljko Ivanek (Dr. Hector), Udo Kier (Mr. Kirspe), Chloë Sevigny (Philomena).

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Ela

maio 28, 2014

her-movie-posterNOTA: 10

Último projeto do diretor Spike Jonze, responsável pelo adorável Onde Vivem os Monstros, Ela é uma produção que cativa pela sensibilidade de seu ator principal. Interpretando o solitário Theodore, Joaquin Phoenix consegue, mais uma vez, personificar um personagem interessante e complexo. Passando por um difícil término de relacionamento, Theodore curiosamente ocupa sua vida escrevendo (ou melhor, ditando) cartas para outras pessoas, fossem de amor, de perdão ou de despedida.

Ambientado em um futuro moderno não muito distante, as máquinas com as quais os humanos interagem são extremamente independentes, e isso fica ainda mais presente quando o Sistema Operacional (em inglês OS) é lançado para satisfazer a vida social ainda mais solitária dos nossos eus futuros. Ansioso por companhia, Theodore decide comprar um desses sistemas para ajudá-lo no dia a dia.

Com uma voz feminina personalizada (e interpretada de maneira brilhante por Scarlett Johansson), Theodore, como nós, se impressiona com a avançada tecnologia de um computador que rapidamente descobre toda sua vida, suas necessidades e interage de uma maneira… especial. Se fechamos os olhos, é como se a OS Samantha (nome que ela mesma se dá) estivesse ali. Com sentimentos reais, Samantha e Theodore trocam suas vidas como se aquele contato fosse físico, distanciado apenas por um aparelho eletrônico.

Logo esse relacionamento se transforma nisso, mesmo: em uma coisa real e completamente verossímil, que nos cativa do começo ao fim do filme, e nos faz acreditar que a felicidade não depende de contato físico. Extremamente sensível, Jonze não escancara os sentimentos como se estivesse propositadamente querendo que nos emocionássemos, mas isso acontece de maneira natural.

E se por um lado a história evoluiu de maneira coerente, a própria história dos personagens evolui com muita rapidez: os softwares de atualização de Samantha e dos outros OS é tão veloz quanto a luz, e seus pensamentos são tão profundos quanto as questões existenciais mais orgânicas (lembrando-me, até, de Árvore da Vida), questionando-se acerca de suas existências e perspectivas. Enquanto ela se apaixona por outras 600 pessoas – representando, aqui, o poliamor – ele exige um compromisso monogâmico.

Ela trata, basicamente, da felicidade, não importa sua forma. Apesar de nosso estranhamento inicial, porque não considerar a possibilidade de que as pessoas serão mais sozinhas? E se um OS te faz feliz… Afinal, como podemos dizer que um relacionamento emocional não será suficiente? Como podemos julgar, acima de tudo, o que é a felicidade para o outro? Isso fica bem claro com os amigos de Theodore, que não se importam (ou julgam) o relacionamento deste com Samantha.

Além dessa premissa incrível, os atores se sobressaem de maneira excepcional. Enquanto Phoenix é a personificação perfeita de um homem sensível, ligeiramente introspectivo chegando, até mesmo, a ser caracterizado como alguém de características femininas, cujo lado “mulher” é bem aflorado – e isso tudo, surpreendente e positivamente, de uma maneira elogiosa – Johansson, é hábil ao passar uma variada gama de sentimentos apenas com as oscilações de sua voz.

Há, também, alguns atores em ótimas atuações comedidas, como as explosivas Rooney Mara, de Millenium, e Amy Adams, de O Vencedor. Uma pontinha de Olivia Wilde, como um affair de Theodore, e Spike Jonze na pele de um divertidíssimo personagem de videogame. Para completar, uma fotografia dessaturada e uma trilha sonora preciosa compõe o filme mais sensível da temporada do Oscar 2014 – perdendo em poesia apenas para A Grande Beleza. Mais uma excelente prova do que Jonze é capaz de fazer com o roteiro certo (escrito também por ele, claro) em mãos.

Título Original: Her
Direção: Spike Jonze
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (USA): 2013
Roteiro: Spike Jonze
Trilha sonora: Arcade Fire
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Tempo de duração: 126 minutos
Com: Joaquin Phoenix (Theodore), Scarlett Johansson (voz de Samantha), Chris Pratt (Paul), Rooney Mara (Catherine), Kristen Wiig (voz de SexyKitten), Amy Adams (Amy), Spike Jonze (a voz do garotinho do jogo), Olivia Wilde (moça do encontro às cegas), Luka Jones (Lewman).

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A Grande Beleza

fevereiro 27, 2014

grandebellezza-Poster01NOTA: 10

Feito para ser apreciado a partir da contemplação, já que esse é o estado que permeia a película, este novo filme de Paolo Sorrentino ainda é um dos meus favoritos de toda a temporada. Embora esteja indicado somente à categoria de filme estrangeiro, A Grande Beleza reúne tantos elementos que justificam e apoiam o título que é difícil me conter nos elogios.

A história acompanha um período na vida do escritor romano Pep Gambardella, que começa em sua festa de aniversário, com clima hedonista, repleta de bizarrices e que tem como objetivo introduzir as figuras (ou, melhor dizendo, a fauna) que é o círculo social do protagonista em Roma. Seus amigos apresentam um certo grau de desajuste: um homem apaixonado por uma mulher que o despreza, uma mulher cujo filho enlouqueceu com os ensinamentos de Proust, e outra que se sente intelectualmente superior aos outros. A única que parece manter a sanidade é Dadina, uma editora anã com plena consciência de sua condição física.

Esse grupo de pessoas, em constantes elucubrações e debates filosóficos e políticos, representa a nata da alta sociedade que, em decadência, tende a entrar em um círculo vicioso de auto-indulgência e que, para sair da mesmice da vida, precisa ser louca e rebelde. As aparências são, aqui, um dos temas centrais. O próprio Pep, apesar de se dizer mal das pernas, mora em uma cobertura com vista de tirar o fôlego para nada menos que o Coliseu. Mesmo criticando acertadamente todos ao seu redor com um língua ferina, ele atua como uma espécie de deus que se acha distante das máculas terrenas, numa atitude quase eclesiástica.

É curioso, ainda, como o diretor coloca a sensação de velhice iminente do personagem em contraste com uma das cidades mais velhas do mundo. O roteiro, extremamente crítico ao estilo de vida da classe média moderna, foi escrito por Sorrentino e Umberto Contarello, e brinca com as religiões, explicita a decadência da nobreza europeia, além da burguesia, eleva conceitos difundidos sobre arte ao próximo nível – tornando aquela sensação de “meu filho pode fazer melhor” em uma cena que beira o surrealismo. A arte é, também, um dos elementos narrativos pelo qual os personagens tentam aplacar os anseios dessa vida sem sentido. De gosto claramente duvidoso, os movimentos artísticos tornam esses personagens blasées ao ponto do socialmente insustentável, e faz com que atuem de maneira arrogante diante de assuntos desconhecidos.

Cheio de simbolismos, A Grande Beleza transita entre o estilo de Federico Fellini e as cenas contemplativas de Terrence Mallick, com fotografias esplêndidas da bella Roma, com paisagens bucólicas e jogos de luz e sombra que remetem, em determinado momento, a um mundo medieval, quase onírico. A trilha sonora, especialmente cuidadosa, vai do clássico (como a belíssima cena inicial com um coro feminino) ao eletrônico com facilidade – e a música da festa (feita por Bob Sinclair), a princípio ensandecida, logo cede espaço a uma batida contagiante que não consigo parar de escutar.

Apear de um pouco longo, Sorrentino parece não fazer nada despropositado. Este é, certamente, um daqueles filmes que poderei assistir repetidas vezes sem cansar. E se Pep parou de escrever porque não encontrava a grande beleza da vida, esse filme poderia facilmente servir como fonte de inspiração.

Título Original: La Grande Bellezza
Direção: Paolo Sorrentino
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália): 2013
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Trilha sonora: Lele Marchitelli
Fotografia: Luca Bigazzi
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Toni Servillo (Pep Gambardella), Carlo Verdone (Romano), Sabrina Ferilli (Ramona), Carlo Buccirosso (Lello Cava), Iaia Forte (Trumeau), Pamela Villoresi (Viola), Galatea Ranzi (Stefania), Franco Graziosi (Conde Colonna), Sonia Gressner (condessa Colonna), Giorgio Pasotti (Stefano), Massimo Popolizio (Alfio Bracco), Vernon Dobtcheff (Arturo).