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X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

fevereiro 22, 2016

x_men__days_of_future_past___poster__update__by_superdude001-d6sbixcNOTA: 10

Revisitando o mundo criado por Matthew Vaughn em X-Men: Primeira Classe – e que já havia sido explorado na trilogia sobre os mutantes –, o diretor Bryan Singer novamente pega a batuta do projeto para dar continuidade à história de Erik Lensherr e Charles Xavier em seu recrutamento de jovens com mutações genéticas.

No entanto, Dias de Um Futuro Esquecido funciona como continuação e prequela dos longas originais, já que traz os atores também originais nos papeis de Magneto e Xavier (Ian McKellen e Patrick Stewart, respectivamente). A narrativa está situada em um futuro pós-apocalíptico, no qual os mutantes lutam pela sobrevivência em um mundo que não permite sua existência. Eles são cassados e exterminados pelas aterrorizantes Sentinelas, espécie de robôs ultramodernos capazes de detectar a presença dos mutantes e absorver os poderes de seus inimigos.

Uma improvável união entre os senhores Magneto e Xavier – então desesperados para salvar os mutantes que ainda resistem –, usa os poderes de Kitty Pride para enviar Wolverine ao passado para impedir que a então jovem Mística assassine o empresário Bolivar Trask – cuja morte incentivaria a criação das Sentinelas.

Para conseguir, Wolverine deve encontrar as versões jovens de Magneto e Xavier, protagonizadas, como antes, por Michael Fassbender e James McAvoy. Retornando, portanto, aos incidentes ocorridos após Primeira Classe, encontramos a equipe de Xavier dispersa, tentando lidar com as próprias mutações, usando soros e tomando medidas para que parecessem “normais”.

Sem jamais deixar que o público se sinta traído por trazer novamente figuras como a de Tempestade, o roteiro de Simon Kinberg é astuto o suficiente para também introduzir personagens novos (como Mercúrio) e de conduzir a história de maneira eficaz. Assim, conforme o clímax da trama se aproxima, vemos os personagens do passado lidando com versões diferentes de seus inimigos do futuro, o que aumenta nossa sensação de urgência.

Contando com cenas de ação de tirar o fôlego, os personagens se movem em câmera de maneira fluida: nenhuma cena dá dor de cabeça, e sempre sabemos quem está fazendo o quê. Singer também confere personalidade a cada herói, mostrando, nas batalhas do futuro, uma química especial entre aqueles sobreviventes, já que a agilidade com que lutam e a mescla de poderes nos faz supor que aqueles personagens já travaram centenas de batalhas contra as Sentinelas – e perderam todas.

A fotografia de Newton Thomas Sigel – cujo ápice é o estádio de futebol “fora de lugar” – também merece destaque, bem como o senso de humor. Com gags pontuais que diluem momentaneamente a tensão, o riso é provocado por acrescentar detalhes não-humanos a fatos reais, como a bala curva que matou Kennedy e até mesmo a já famosa cena em “stop-motion” de Mercúrio.

Ao mesmo tempo, o filme conta com um elenco de peso, que sempre encontra uma brecha para explorar novas facetas de seus já tão conhecidos personagens – especialmente Hugh Jackman, que aparece mais do que familiarizado com Wolverine, mas nunca a ponto de ser monótono. Ao mesmo tempo em que contrastamos a magnitude das Sentinelas, que deixam Magneto e Xavier vulneráveis e até mesmo frágeis, encontramos esses mesmos personagens em suas versões jovens e infinitamente poderosos. Se o Xavier de McAvoy consegue encontrar e levar equilíbrio aos demais, o Magneto de Fassbender é imprevisível, explosivo e ameaçador.

O elenco coadjuvante, composto por Jennifer Lawrence como Mística e o ótimo Peter Dinklage como Trask, colaboram para trazer peso emocional e profundidade aos respectivos personagens, levando-nos a realmente acreditar que, por mais absurda que sejam as ações daquelas pessoas, há sempre uma razão ou um conflito interno que os guiam.

Assim, o longa de Singer se firma como um dos melhores filmes do gênero de todos os tempos, superando a Marvel em todos os quesitos, e até mesmo algumas produções do ano de seu lançamento. Servindo também como gatilho para o último filme da trilogia, Dias de Um Futuro Esquecido dificilmente o será, com o perdão do trocadilho.

Título Original: X-Men: Days of Future Past
Direção: Bryan Singer
Gênero: Ação, aventura, ficção-científica
Ano de Lançamento (EUA): 2014
Roteiro: Simon Kinberg
Trilha Sonora: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Tempo de Duração: 132 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), James McAvoy (Charles Xavier jovem), Michael Fassbender (Erik Lensherr/Magneto jovem), Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística), Halle Berry (Tempestade), Nicholas Hoult (Dr. Hank McCoy/Fera), Anna Paquin (Vampira), Ellen Page (Kitty Pride), Peter Dinklage (Dr. Bolivar Trask), Shawn Ashmore (Bobby/Homem de Gelo), Omar Sy (Bispo), Evan Peters (Peter/Mercúrio), Josh Helman (Major Bill Stryker), Daniel Cudmore (Colosso), Bingbing Fan (Blink), Adan Canto (Sunspot), Booboo Stewart (Warpath), Ian McKellen (Magneto velho), Patrick Stewart (Charles Xavier velho), Famke Janssen (Jean Grey), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Lucas Till (Havok), Evan Jonigkeit (Toad).

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Ninfomaníaca volume I

janeiro 8, 2015

nymphomaniac-posterNOTA: 10

Depois de anos de carreira e uma espetacular filmografia, achei que Lars Von Trier não seria capaz de me fazer sentir novamente como o Cinema é uma arte fabulosa. Surpreendente como ele só, Ninfomaníaca volume I já conquistou um lugar especial na lista de favoritos do diretor – embora essa seja só a primeira parte de um filme que, em conjunto, promete ser ainda mais ambicioso.

Ambicioso, pois Von Trier decidiu entrar mais uma vez em terras áridas e temas tabus (ele já passou por depressão, loucura, escravidão e cristianismo, entre outras coisas) e falar de maneira explícita sobre sexo. Não só isso: é um filme de sexo, taras, manias, relações – sob a ótica cínica, crítica e muitas vezes deturpada do cineasta.

Extremamente visual e permeado por metáforas filosóficas sobre o amor e o conceito de ninfomania no mundo moderno, durante todo o filme acompanhamos a confissão de Joe – encontrada caída no chão e toda machucada – a Seligman, um homem aparentemente simples e de bom coração. Se faz necessário dizer que o personagem é judeu, já que essa informação é revelada ao espectador em meio a referências “gratuitas” – sem dúvida alguma por conta dos comentários anteriores do cineasta sobre o tema – a respeito da diferença entre antissemitismo e antissionismo.

Com linguagem direta e evidenciando os cortes de edição, Von Trier insere o espectador na história da jovem Joe, contada através de capítulos que tem relação direta com a conversa, desde quando ela começou a perceber sua sexualidade na adolescência e a maneira como lidou com isso. Diríamos nós, moralistas, que ela teve uma infância problemática e por isso desenvolveu essa característica maníaca com relação ao sexo. Para Seligman, no entanto, não há ação capaz de condenar Joe, embora ela não consiga justificar muitas das coisas que fez e relate sua história com culpa.

Permeando a complexa narrativa da moça com comparações absurdas sobre pesca, música clássica e aviação – enquanto mostra, visualmente, imagens, gráficos divertidos e inesperados –, o diretor desenvolve um roteiro soberbo, polêmico, extravagante e incômodo na maior parte do tempo. O Cinema serve, afinal, para ser uma pedra no sapato. Claro que, em se tratando de Von Trier, profundo conhecedor da Sétima Arte, todas as inserções e simbolismos têm um porquê de estarem ali – embora alguns soem um pouco artificiais, como o gato e o aeromodelo.

Há momentos sensacionais, que levam ao riso pelo simples absurdo, como a sequência do trem e a explicação sobre o clube que pregava contra o amor (mea vulva, mea maxima vulva) e cujo tom demoníaco tem relação direta com o sentimento de aversão do grupo. Mas, na maior parte da projeção, toda a vida da jovem Joe é propositalmente sexualizada, já que ela usa o sexo como válvula de escape e refúgio para seus problemas.

E é tocante observar, por exemplo, como ela se ressente de não conseguir sentir nada quando sabe que deveria, ao estar com o homem amado. Ou, então, a belíssima sequência – chamada de A Queda da Casa de Usher, em homenagem a Allan Poe e em p&b – na qual ela deixa escorrer uma “lágrima” por seu pai no hospital. Pai que é, por sinal, interpretado com muita delicadeza por Christian Slater.

Há outros momentos maravilhosos, como a sequência dos três amantes ou como, de maneira melancólica, Joe comenta: “sempre exigi muito mais do pôr do sol”, revelando mais de sua personalidade sofrida do que suas cenas de sexo desenfreado. Conduzindo a história sempre para a frente com o roteiro bem dividido, Von Trier cria, novamente, um filme único, cheio de personalidade, e ao mesmo tempo totalmente original. E, afinal, como não amar um diretor que começa e termina o filme com Rammstein?

*Texto originalmente escrito em 27/02/2014

Título Original: Nymphomaniac p.1
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca/Alemanha/França/Bélgica/UK): 2013
Roteiro: Lars Von Trier
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Charlotte Gainsbour (Joe), Stellan Skarsgård (Seligman), Stacy Martin (jovem Joe), Shia LaBeouf (Jerome), Christian Slater (pai de Joe), Uma Thurman (Mrs. H), Sophie Kennedy Clark (B), Connie Nielsen (mãe de Joe).

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Manderlay

junho 2, 2014

manderlay_posterNOTA: 9

É natural que algumas continuações não sejam tão boas quanto os filmes “originais”. Mas não podemos dizer o mesmo de Manderlay. Apesar de ter sido inicialmente concebido para ser uma espécie de sequência de Dogville – tanto em tema (o da escravidão) quanto na evolução da personagem – o filme não é, em nada, uma continuação. Se realmente o fosse, não teria sido feito por Lars Von Trier.

Analisando cada peça como única e com sua própria dinâmica, o cineasta volta ao tema mais problemático dos Estados Unidos recente e deixa claro suas opiniões a respeito, através de muita ironia e sadismo – o que explicam os absurdos créditos finais. O filme é, em sua essência, exatamente aquilo que esperamos das produções de Von Trier – e, justamente por isso, é compreensível até certo ponto porque as pessoas achem esse um de seus filmes mais estranhos. Mas já chego lá.

A história ainda é sobre Grace, uma menina que, ao sair de Dogville ao lado do pai distante, para na frente de uma grande propriedade de algodão no Alabama, chamada Manderlay. Entrando para defender ativamente um escravo que estava a ponto de ser punido, Grace interpela por ele, proíbe a punição – ao lado de seus fiéis gângsteres – e vê a dona da propriedade morrer.

Ao saber que sua ação foi muito além da esperada ou desejada, ela decide ficar e observar a evolução daquela pequena comunidade, a princípio com distanciamento, e em seguida ativamente. Suas ações começam a ter cada vez mais impacto na vida daquelas pessoas, até o momento em que ela se transforma na peça-chave para o funcionamento da nova sociedade que criou.

Embora se aproxime dos filmes mais hollywoodianos de Von Trier – como Ondas do Destino e Melancolia – continua tendo a mão de seu criador. O espaço físico também segue a lógica de Dogville: a maioria dos cenários é imaginado ou pintado no chão, favorecido apenas por iluminação, design de som e pela narração de John Hurt.

A jovem Bryce Dallas Howard – substituta de Nicole Kidman como Grace – se encaixa perfeitamente no papel. Seu jeito de menina inocente e ingênua colabora para as cenas de maior intensidade dramática – e, embora a escolha não tenha sido de Von Trier, é completamente convincente. Alguns atores que participaram do “primeiro” filme também aparecem em outros papeis, ao mesmo tempo diferentes e semelhantes.

Apesar da iniciativa democratizante de Grace, o filme faz algumas magníficas referências – a que hora jantam os homens livres? Ou aquela que compara escravos a passarinhos em gaiolas – e perpassa por questões imorais e de resolução pouco (ou quase nada) democráticas. A democracia, em si, é aplicada sob o ponto de vista único da personagem, que dita as regras com um absolutismo monárquico.

Ao fim do filme, as tentativas antiescravistas são colocadas em xeque pelo diretor, que questiona diretamente – através do personagem de Danny Glover que, me parece, foi uma das inspirações para o velho escravo Stephen, de Django – se elas realmente foram boas ou se foram apenas uma aplicação prática daquilo que Grace considerava bom na teoria. É uma crítica brutal e visceral não só ao escravismo americano, mas ao que foi feito após a abolição.

Provocador, Von Trier conhece seu público, mas não tem medo ou vergonha de tocar em questões delicadas. Assistir qualquer um de seus filmes significa estar com a cabeça aberta para receber as chicotadas sociais e as críticas ao nosso próprio estilo de vida de sociedade. É (mais) um filme obrigatório na carreira desse brilhante diretor.

*Texto originalmente publicado no Salada de Cinema

Título Original: Manderlay
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca): 2005
Roteiro: Lars Von Trier
Trilha sonora: Joachim Holbek
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Tempo de duração: 139 minutos
Com: Bryce Dallas Howard (Grace Margaret Mulligan), Isaach De Bankolé (Timothy), Danny Glover (Wilhelm), Willem Dafoe (pai de Grace), Michael Abiteboul (Thomas), Lauren Bacall (madame), Jean-Marc Barr (Mr. Robinsson), John Hurt (narrador), Zeljko Ivanek (Dr. Hector), Udo Kier (Mr. Kirspe), Chloë Sevigny (Philomena).

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Ela

maio 28, 2014

her-movie-posterNOTA: 10

Último projeto do diretor Spike Jonze, responsável pelo adorável Onde Vivem os Monstros, Ela é uma produção que cativa pela sensibilidade de seu ator principal. Interpretando o solitário Theodore, Joaquin Phoenix consegue, mais uma vez, personificar um personagem interessante e complexo. Passando por um difícil término de relacionamento, Theodore curiosamente ocupa sua vida escrevendo (ou melhor, ditando) cartas para outras pessoas, fossem de amor, de perdão ou de despedida.

Ambientado em um futuro moderno não muito distante, as máquinas com as quais os humanos interagem são extremamente independentes, e isso fica ainda mais presente quando o Sistema Operacional (em inglês OS) é lançado para satisfazer a vida social ainda mais solitária dos nossos eus futuros. Ansioso por companhia, Theodore decide comprar um desses sistemas para ajudá-lo no dia a dia.

Com uma voz feminina personalizada (e interpretada de maneira brilhante por Scarlett Johansson), Theodore, como nós, se impressiona com a avançada tecnologia de um computador que rapidamente descobre toda sua vida, suas necessidades e interage de uma maneira… especial. Se fechamos os olhos, é como se a OS Samantha (nome que ela mesma se dá) estivesse ali. Com sentimentos reais, Samantha e Theodore trocam suas vidas como se aquele contato fosse físico, distanciado apenas por um aparelho eletrônico.

Logo esse relacionamento se transforma nisso, mesmo: em uma coisa real e completamente verossímil, que nos cativa do começo ao fim do filme, e nos faz acreditar que a felicidade não depende de contato físico. Extremamente sensível, Jonze não escancara os sentimentos como se estivesse propositadamente querendo que nos emocionássemos, mas isso acontece de maneira natural.

E se por um lado a história evoluiu de maneira coerente, a própria história dos personagens evolui com muita rapidez: os softwares de atualização de Samantha e dos outros OS é tão veloz quanto a luz, e seus pensamentos são tão profundos quanto as questões existenciais mais orgânicas (lembrando-me, até, de Árvore da Vida), questionando-se acerca de suas existências e perspectivas. Enquanto ela se apaixona por outras 600 pessoas – representando, aqui, o poliamor – ele exige um compromisso monogâmico.

Ela trata, basicamente, da felicidade, não importa sua forma. Apesar de nosso estranhamento inicial, porque não considerar a possibilidade de que as pessoas serão mais sozinhas? E se um OS te faz feliz… Afinal, como podemos dizer que um relacionamento emocional não será suficiente? Como podemos julgar, acima de tudo, o que é a felicidade para o outro? Isso fica bem claro com os amigos de Theodore, que não se importam (ou julgam) o relacionamento deste com Samantha.

Além dessa premissa incrível, os atores se sobressaem de maneira excepcional. Enquanto Phoenix é a personificação perfeita de um homem sensível, ligeiramente introspectivo chegando, até mesmo, a ser caracterizado como alguém de características femininas, cujo lado “mulher” é bem aflorado – e isso tudo, surpreendente e positivamente, de uma maneira elogiosa – Johansson, é hábil ao passar uma variada gama de sentimentos apenas com as oscilações de sua voz.

Há, também, alguns atores em ótimas atuações comedidas, como as explosivas Rooney Mara, de Millenium, e Amy Adams, de O Vencedor. Uma pontinha de Olivia Wilde, como um affair de Theodore, e Spike Jonze na pele de um divertidíssimo personagem de videogame. Para completar, uma fotografia dessaturada e uma trilha sonora preciosa compõe o filme mais sensível da temporada do Oscar 2014 – perdendo em poesia apenas para A Grande Beleza. Mais uma excelente prova do que Jonze é capaz de fazer com o roteiro certo (escrito também por ele, claro) em mãos.

Título Original: Her
Direção: Spike Jonze
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (USA): 2013
Roteiro: Spike Jonze
Trilha sonora: Arcade Fire
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Tempo de duração: 126 minutos
Com: Joaquin Phoenix (Theodore), Scarlett Johansson (voz de Samantha), Chris Pratt (Paul), Rooney Mara (Catherine), Kristen Wiig (voz de SexyKitten), Amy Adams (Amy), Spike Jonze (a voz do garotinho do jogo), Olivia Wilde (moça do encontro às cegas), Luka Jones (Lewman).

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A Grande Beleza

fevereiro 27, 2014

grandebellezza-Poster01NOTA: 10

Feito para ser apreciado a partir da contemplação, já que esse é o estado que permeia a película, este novo filme de Paolo Sorrentino ainda é um dos meus favoritos de toda a temporada. Embora esteja indicado somente à categoria de filme estrangeiro, A Grande Beleza reúne tantos elementos que justificam e apoiam o título que é difícil me conter nos elogios.

A história acompanha um período na vida do escritor romano Pep Gambardella, que começa em sua festa de aniversário, com clima hedonista, repleta de bizarrices e que tem como objetivo introduzir as figuras (ou, melhor dizendo, a fauna) que é o círculo social do protagonista em Roma. Seus amigos apresentam um certo grau de desajuste: um homem apaixonado por uma mulher que o despreza, uma mulher cujo filho enlouqueceu com os ensinamentos de Proust, e outra que se sente intelectualmente superior aos outros. A única que parece manter a sanidade é Dadina, uma editora anã com plena consciência de sua condição física.

Esse grupo de pessoas, em constantes elucubrações e debates filosóficos e políticos, representa a nata da alta sociedade que, em decadência, tende a entrar em um círculo vicioso de auto-indulgência e que, para sair da mesmice da vida, precisa ser louca e rebelde. As aparências são, aqui, um dos temas centrais. O próprio Pep, apesar de se dizer mal das pernas, mora em uma cobertura com vista de tirar o fôlego para nada menos que o Coliseu. Mesmo criticando acertadamente todos ao seu redor com um língua ferina, ele atua como uma espécie de deus que se acha distante das máculas terrenas, numa atitude quase eclesiástica.

É curioso, ainda, como o diretor coloca a sensação de velhice iminente do personagem em contraste com uma das cidades mais velhas do mundo. O roteiro, extremamente crítico ao estilo de vida da classe média moderna, foi escrito por Sorrentino e Umberto Contarello, e brinca com as religiões, explicita a decadência da nobreza europeia, além da burguesia, eleva conceitos difundidos sobre arte ao próximo nível – tornando aquela sensação de “meu filho pode fazer melhor” em uma cena que beira o surrealismo. A arte é, também, um dos elementos narrativos pelo qual os personagens tentam aplacar os anseios dessa vida sem sentido. De gosto claramente duvidoso, os movimentos artísticos tornam esses personagens blasées ao ponto do socialmente insustentável, e faz com que atuem de maneira arrogante diante de assuntos desconhecidos.

Cheio de simbolismos, A Grande Beleza transita entre o estilo de Federico Fellini e as cenas contemplativas de Terrence Mallick, com fotografias esplêndidas da bella Roma, com paisagens bucólicas e jogos de luz e sombra que remetem, em determinado momento, a um mundo medieval, quase onírico. A trilha sonora, especialmente cuidadosa, vai do clássico (como a belíssima cena inicial com um coro feminino) ao eletrônico com facilidade – e a música da festa (feita por Bob Sinclair), a princípio ensandecida, logo cede espaço a uma batida contagiante que não consigo parar de escutar.

Apear de um pouco longo, Sorrentino parece não fazer nada despropositado. Este é, certamente, um daqueles filmes que poderei assistir repetidas vezes sem cansar. E se Pep parou de escrever porque não encontrava a grande beleza da vida, esse filme poderia facilmente servir como fonte de inspiração.

Título Original: La Grande Bellezza
Direção: Paolo Sorrentino
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália): 2013
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Trilha sonora: Lele Marchitelli
Fotografia: Luca Bigazzi
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Toni Servillo (Pep Gambardella), Carlo Verdone (Romano), Sabrina Ferilli (Ramona), Carlo Buccirosso (Lello Cava), Iaia Forte (Trumeau), Pamela Villoresi (Viola), Galatea Ranzi (Stefania), Franco Graziosi (Conde Colonna), Sonia Gressner (condessa Colonna), Giorgio Pasotti (Stefano), Massimo Popolizio (Alfio Bracco), Vernon Dobtcheff (Arturo).

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Os Amantes Passageiros

julho 25, 2013

los-amantes-pasajeros-cartel1NOTA: 10

Existe gente que é obcecado pela Apple, ou pelo Tarantino, ou por filmes da Disney. Eu sou obcecada com Almodóvar (mentira, sou por todos). O diretor espanhol causa, curiosamente, muito mais fascínio sobre os brasileiros do que sobre os espanhóis e – não de se estranhar – muito mais fascínio sobre mulheres do que sobre homens. Se em seus dramas Almodóvar consegue clímax impressionantes e revelações de seus personagens – como o belíssimo Fale com Ela e seu último, o perturbador A Pele que Habito – em suas comédias ele beira o absurdo, sem jamais deixar de dar atenção à história que está contando.

É isso que ocorre com Os Amantes Passageiros, mais nova comédia do cineasta. Trazendo novamente um elenco de peso, com o qual costuma trabalhar sempre, Almodóvar elabora uma fábula: um grupo de trabalhadores do aeroporto de Madrid – entre eles, Penélope Cruz e Antonio Banderas, com um afetado sotaque andaluz – se distrai e se esquece de tirar o calço de um dos trens de pouso do avião, que vai para dentro da aeronave, impossibilitando uma aterrissagem segura.

Tão logo percebem a cagada dos colegas, o piloto, o co-piloto e o comissário-chefe decidem sedar os passageiros da classe turista – incluindo as comissárias de bordo – para que não entrem em pânico, enquanto sobrevoam a cidade de Toledo em círculos, e não sintam o impacto do pouso.

Até então, nada mais do que uma fábula, não fossem os caricatos personagens, todos eles acomodados na primeira classe, que permaneceu acordada: a velha maníaca (Cecilia Roth), a vidente santa (papel da ótima Lola Dueñas), o empresário fugitivo, o amante arrependido, o casal em lua de mel… E como em todas as suas comédias – ou todos seus filmes, melhor dizendo – há muitos homens gays, que transformam seus papeis em mais do que simples sketches de humor. A interpretação do sempre magnífico Javier Cámara rouba todas as cenas, e até os menos conhecidos se saem muito bem.

Ao mesmo tempo em que mostra as pessoas em seu estado mais animalesco – evocando o maravilhoso O Anjo Exterminador, do conterrâneo Luis Buñuel – Almodóvar não se limita a apenas expor o que há de mais bizarro e maluco na natureza humana, como desenvolve as histórias de maneira extraordinária, buscando respostas para os enigmas pessoais de cada um, e nunca deixando de depositar certa fé – embora a ideia pareça engraçada – de que esses dramas serão resolvidos até o final do filme.

Apostando, como já era de se esperar, em cores berrantes, diálogos mordazes, proferidos com rapidez estonteante, e situações burlescas, caricatas e engraçadas – já disse que são absurdas? –, o cineasta não desaponta. Embora os mais críticos possam dizer que é “mais do mesmo Almodóvar”, não há como negar que ele tem um estilo próprio, celebrado e aclamado – e que foi justamente esse estilo cativante, tão almodovariano, que cativou e continua atraindo tantas e tantas pessoas ao longo de sua vasta carreira cinematográfica.

Título Original: Los Amantes Pasajeros
Direção: Pedro Almodóvar
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (Espanha): 2013
Roteiro: Pedro Almodóvar
Trilha sonora: Alberto Iglesias
Fotografia: José Luis Alcaine
Tempo de duração: 90 minutos
Com: Javier Cámara (Joserra), Raúl Arévalo (Ulloa), Lola Dueñas (Bruna), Hugo Silva (Benito Morón), Antonio de la Torre (Álex Acero), José Luis Torrijo (Sr. Más), José María Yazpik (Infante), Cecilia Roth (Norma Boss), Guillermo Toledo (Ricardo Galán), Carlos Arecers (Fajas), Blacna Suárez (Ruth), Paz Vega (Alba), Penélope Cruz (Jessica), Antonio Banderas (León), Carmen Machi (portera).

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Star Trek – Além da Escuridão

junho 30, 2013

Star-Trek-Into-Darkness-2013-Movie-PosterLuz no fim do túnel

Nova produção de J. J. Abrams e Damon Lindelof é madura, traz a segurança de ambos realizadores e emociona do começo ao fim

NOTA: 10

Fui recentemente iniciada na cultura de Star Trek, por insistência de um primo, que é admirador profundo. Comecei assistindo a alguns episódios antigos (dos mais icônicos e clássicos) da série original de TV, e vi o segundo filme da década de 80, A Ira de Khan. Digo isso, pois essa iniciação foi fundamental para me aproximar do universo moderno da saga criado por J. J. Abrams, que sofreu tantas mudanças de elenco e trajetória em seus quase 50 anos de existência.

Abrams – responsável pelo mediano Super 8 e pelo surpreendente Missão Impossível – Protocolo Fantasma – é muito bem-sucedido em sua reaproximação com um público mais jovem, e consegue, desde o introdutório Star Trek a este novo longa, Star Trek – Além da Escuridão, trazer temas antigos, milhares de referências que agradam os trekkers mais fanáticos e, principalmente, histórias envolventes, tensas e bonitas.

Dito isso, fui pega de surpresa com a quantidade de palavras exultantes em meu caderno, expressando o quanto estava achando a trama absurdamente boa. O roteiro, escrito po Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof – parceiro de Abrams e responsáveis pelo brilhantismo da série Lost – acompanha a história da tropa estelar da Enterprise. Se no filme anterior havíamos visto como James Kirk consegue superar o insuperável teste para capitão da nave, neste o vemos como o já renomado capitão.

Ao lado do sempre enigmático e inabalável Spock, o clima de que a trupe continua viajando pelo espaço “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve” permanece, levando-os a conhecer civilizações fantásticas, da tribo do início do filme – que coloca em cena incríveis contrastes de amarelo, vermelho e branco – aos temíveis e eternos inimigos da Federação, os klingons (prometo não revelar mais nada!).

A história se move com fluidez, e as referências que pululam cá e lá são emocionantes – até para alguém como eu, que sou praticamente leiga no tema. Tanto elenco quanto roteiro estão muito menos preocupados em desagradar aos fãs, relaxando quanto à rigidez da mitologia (embora tudo seja pensado milimetricamente), seguindo a “mitologia paralela” criada para estas versões modernas – cuja explicação é dada em uma única cena da projeção. Assim, é com imensa satisfação que vemos velhos personagens aparecendo em cena – e quem viu o primeiro sabe do que estou falando.

O que talvez chame mais a atenção, contudo, é a dubiedade do vilão. Sem querer estragar a surpresa – embora os trekkers já devam saber quem é – Benedict Cumberbatch encara o personagem de maneira espetacular, sem jamais entregar completamente sua complexidade psicológica. Portanto, ao mesmo tempo em que pode ser terrivelmente frio e calculista, não deixa de se emocionar ao contar sua história, relembrando a triste trajetória de seu povo – e tudo aquilo que ele precisa fazer para resgatá-lo. Com um quê de Assassin’s Creed, ele é ágil, extremamente forte e, para arrematar, tem uma voz hipnotizante.

Como havia dito na minha crítica anterior de O Grande Gatsby, fiquei surpresa com a qualidade do 3D utilizado pelo diretor: na medida, sem extravagâncias que deixam o espectador enjoado, mas que causam o efeito desejado de imersão na tela. A trilha sonora composta por Michael Giacchino é marcante, e também um ponto alto do filme. J. J. Abrams é extremamente feliz com essa produção, deixando para trás em sua filmografia algumas pavorosas películas, e consolidando-se como um cineasta seguro, que sabe conduzir um filme de fantasia com cenas de ação.

Titulo Original: Star Trek – Into Darkness
Direção: J. J. Abrams
Gênero: Ficção científica, ação e aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof
Trilha sonora: Michael Giacchino
Fotografia: Daniel Mindel
Tempo de Duração: 130 minutos
Com: Chris Pine (James Kirk), Zachary Quinto (Spock), Zoe Saldana (Uhura), Karl Urban (Bones), Simon Pegg (Scott), John Cho (Sulu), Benedict Cumberbatch (John Harrison), Anton Yelchin (Chekov), Bruce Greenwood (Pike), Peter Weller (almirante Marcus), Alice Eve (Carol), Leonard Nimoy (Spock Prime).