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Lady Bird – A hora de voar

março 23, 2018

NOTA: 10

Ainda bem que existem as segundas opiniões e as obras que nos levam a tê-las. Pois, embora tenha detestado Frances Ha – do diretor Noah Baumbach – e simpatizado menos ainda com sua personagem-título, interpretada por Greta Gerwig, me apaixonei irresistivelmente pelo filme que esta criou recentemente, e tem na irlandesa Saoirse Ronan sua adorável e complexa protagonista Christine – digo, Lady Bird.

Com meu pré-conceito formado a partir de meu prévio encontro com Gerwig, achava que ela, assim como Sofia Coppola, era uma figura superestimada em Hollywood – mas, ao contrário da filha do famoso cineasta, Gerwig é muito mais interessante como diretora do que Coppola, que tenta ser cool e só consegue soar presunçosa. Fato que não consigo me identificar com Gerwig como atriz em seu début, mas como diretora ela se saiu excepcionalmente bem.

Criando uma aura realista em torno da jovem – que insiste em ser chamada pelo apelido por absolutamente todos que conhece, inclusive os modestos pais e professores – a diretora estreante constrói uma rede de emoções e situações tão plausíveis que, para mim, foi possível me transplantar para a tela e sentir-me exatamente como a moça em questão. Primeiro, porque Lady Bird – A hora de voar fala, exclusivamente, desse período conturbado e bizarro que é a adolescência, o formar-se na escola e entrar na faculdade, e tudo que esses acontecimentos e decisões acarretam.

Segundo, pois é um filme familiar, que trata do relacionamento de altos e baixos entre mãe e filha, principalmente. Mas é, também, um chamado a Terra para o fato de que os adolescentes sonham e esperam com coisas que são muito diferentes na realidade, e que nada acontece como se espera ou ninguém é aquilo que planeja. Extremamente pé no chão e honesto; até mesmo nas cenas mais absurdas tudo é plausível, ainda que cômico ou triste – dualidade que acontece com frequência singela.

Para completar, Gerwig ainda consegue inserir um milhão de subtemas que fogem à trama mas, no contexto, são extremamente válidas e interessantes, pois servem não só para trazer a discussão para o primeiro plano, como também para arranhar, com unhas afiadas, alguns tabus: a diferença dos norte-americanos ricos e da classe média baixa do subúrbio; a melhor amiga gordinha que é boa em absolutamente tudo e, mesmo sofrendo preconceitos, é tratada como uma pessoa digna como qualquer outra; os meios-irmãos mestiços que são – provavelmente, já que nunca se chega realmente a dizer – adotados e, novamente, tratados com preconceito mas nunca deixam de ser pessoas louváveis; a escola católica cuja diretora é uma freira aberta e simpática, talvez uma das figuras mais interessantes na vida de Lady Bird; o ex-namorado que descobre que é gay, a primeira transa, colar na prova, brigar e se reconciliar com a mãe o tempo todo…

Mais do que tudo isso, o clima que Gerwig cria para contar sua história é soberbo. Em tom fluido e coeso, ela perpassa a vida de Lady Bird durante seu último ano no Ensino Médio até o começo da faculdade em Nova York. O longa facilmente poderia se chamar The Perks of Being a Teenager – fazendo um paralelo com o maravilhoso As Vantagens de Ser Invisível -, já que trata de todas as coisas adolescentes. Ser bem-sucedido não significa que somos ou seremos felizes, e o pai de Lady Bird, personagem por quem sentimos enorme compaixão, é uma personificação do fracasso e do sucesso, tudo ao mesmo tempo.

Realista a ponto de colocá-la em seu próprio lugar, Lady Bird tem plena consciência de que é de classe média baixa, rouba revistas porque não pode comprá-las e usa o pretexto de morar em uma casa boa para se aproximar de uma garota popular – que é obviamente rica. Engraçado e tocante nas horas certas, o brilhante roteiro – também da cineasta – não deixa nada para trás. Preciso e redondo, seu filme é um resumo fiel e divertido de várias vidas de garotas que conhecemos. Inclusive quando estas crescem, amadurecem e descobrem que não são um completo fracasso em tudo – muito pelo contrário.

E enquanto temos uma atuação perfeita de Saoirse Ronan, principalmente por ser jovem (ela completa 25 em abril) e talvez se ver representada na personagem, temos um elenco de apoio formidável, que certamente merecia ter sido lembrada pela Academia. Laurie Metcalf está espetacular como a mãe, Marion, e protagoniza algumas das cenas mais emocionantes do filme ao lado do pai, interpretado por Tracy Letts (roteirista de Álbum de Família).

A boa trilha sonora de Jon Brion é hábil o suficiente para embalar os personagens com as roupagens certas, enquanto a fotografia de Sam Levy, embora não seja excepcional, nos dá os tons precisos para entendermos qual a pegada do filme: quente, divertido e gostoso. Para aqueles que não conseguem se identificar com Lady Bird, eu até entendo. Gerwig mirou em um público (talvez ela mesma) e acertou em cheio. Este é tudo o que Brooklyn tentou ser e não conseguiu.

A delicadeza de Gerwig vai junto a todos os personagens, até mesmo quando a trama não está focada em Lady Bird. A cena do aeroporto, quando ela – ao invés de seguir a menina – acompanha a mãe dentro do carro, é um clímax catártico para as filhas e, imagino, para os pais também. Está tudo ali. É uma ode à adolescência, à paciência dos pais, à rebeldia necessária dos filhos e, tal qual Woody Allen e sua Nova York, a Sacramento, Califórnia.

Título Original: Lady Bird
Direção: Greta Gerwig
Gênero: Comédia, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Greta Gerwig
Trilha Sonora: Jon Brion
Fotografia: Sam Levy
Tempo de Duração: 1h34
Com: Saoirse Ronan (Lady Bird McPherson), Laurie Metcalf (Marion McPherson), Tracy Letts (Larry McPherson), Lucas Hedges (Danny O’Neill), Timothée Chamalet (Kyle Scheible), Beanie Feldstein (Julie Steffans), Lois Smith (irmã Sarah Joan), Odeya Rush (Jenna Walton), Jordan Rodrigues (Miguel McPherson), Marielle Scott (Shelly Yuhan).

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Trama Fantasma

março 15, 2018

NOTA: 10

Já disse algumas vezes aqui no blog o quanto me parece difícil falar de filmes que são transcendentais ou, em outras palavras, filmes que são tão bons que é complicado escrever sobre eles, pois falam sobre a própria existência humana. Foi assim com Árvore da Vida, e é o caso do novo longa de Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma – e o último da próspera e brilhante carreira do (gatíssimo) ator britânico Daniel Day-Lewis.

Considerado um diretor extremamente meticuloso com suas produções – vide o caso dos fabulosos Sangue Negro e O Mestre – Paul Thomas Anderson está se consagrando como um dos melhores diretores não só de sua geração, mas também na ativa atualmente. Pouco ligando para as convenções ou temas que norteiam os demais colegas de Hollywood, o norte-americano prefere se manter à margem e contar, com seu estilo elegante e tranquilo, suas histórias através de recortes nas vidas de pessoas comuns – ou quase.

Sabemos, no entanto, que pouco há de comum nos personagens de Daniel Plainview (vivido também por Day-Lewis com tamanha potência que assombrou a todos e lhe rendeu o segundo Oscar) ou de Freddie Quell – um Joaquim Phoenix como jamais se viu antes, que na época de seu lançamento, em 2012, me fez crer que seria ele a levar o Oscar de melhor ator (entregado novamente a Day-Lewis por sua interpretação como Lincoln). Tampouco há nada de ordinário no personagem de Reynolds Woodcock.

Consagrado estilista na década de 50, Woodcock poderia ser um pintor, escultor ou escritor: ele trata suas criações como obras de arte – que vestem socialites e princesas – e, mais do que isso, precisa da constante presença de musas inspiradoras que lhe sirvam de modelo. Dividindo um casarão com sua irmã e administradora, Cyril, as musas pouco têm a fazer a não ser satisfazê-lo pontualmente, e somente quando solicitadas. No mais, elas devem ser o menos intrusivas possível. Isso tudo sabemos em uma das primeiras cenas do filme mas tudo o que será dito daqui em diante pode conter revelações sobre a trama. Se ainda não assistiu ao longa, corra lá e depois volte aqui!

A dinâmica da casa Woodock muda quando Reynolds conhece Alma, uma garçonete estrangeira, e decide dela fazer sua nova musa – a outra, pobrezinha, é despachada com um prêmio de consolação (um vestido, claro). O primeiro encontro dos dois é intenso, com trocas de olhares de partir montanhas, declarações com caráter de sentenças (“sou um solteiro incurável”, diz ele, quando ela questiona porque nunca se casou) e estabelece-se a dinâmica que permeará o futuro casal: Reynolds leva Alma a seu ateliê e pega todas as medidas de seu manequim, ressaltando como qualidades aquilo que a moça considerava seus defeitos – seios pequenos, quadris largos e barriguinha.

Levada ora como uma dança elegante, ora como um esporte competitivo, a relação do casal é constantemente posta à prova, principalmente pela figura de Alma, que se recusa a ser só mais um fantasma na casa. Estabelecendo um curioso triângulo com os irmãos Woodcock, ela tenta se impor a toda custa, e se recusa a permitir que Reynolds se feche como uma ostra, recorrendo a meios pouco convencionais para tal, provando que sua presença não só era útil, como necessária. Não é a toa que a personagem tenha o nome de Alma, tampouco.

Paul Thomas Anderson cria não somente personagens complexos, mas também um ambiente propício para que exploremos a vida dessas pessoas de perto, para que sintamos suas dores e angústias. Nisso, o trio de atores principais faz um trabalho extraordinário. A caracterização de Day-Lewis como Reynolds vai além da meticulosidade. O ator declarou ter aprendido a costurar e chegou até mesmo a reproduzir do zero um vestido Balenciaga para entender a complexidade da alta-costura. É, então, com absoluta fluidez e comodidade que ele segura linha e agulha ou mede com fita métrica o corpo de Alma.

Como em seus anteriores trabalhos, ele se metamorfoseia, desta vez em um homem extremamente metódico, egocêntrico, ferino, praticamente um socipoata, e de presença avassaladora: todas as mulheres ao seu redor se sentem vulneráveis, incômodas e instigadas. Exceto sua irmã, vivida brilhantemente por Lesley Manville. Igualmente forte, Cyril tem tanta dó de Reynolds como este tem de suas musas.

Mas quem realmente se sobressai é a luxemburguesa Vicky Krieps, uma atriz praticamente desconhecida que carrega o peso emocional do filme. Atuando ao lado de gigantes veteranos, a atriz consegue infundir personalidade e até mesmo contexto a Alma. Tudo que precisamos saber da jovem garçonete é dito com algum olhar significativo, que dá sutileza e peso às suas ações. Imatura a princípio, mas depois uma mulher de posicionamento e caráter forte, Alma não se deixa intimidar por Day-Lewis, digo, Reynolds. E é interessante saber que uma das cenas mais intensas, a da discussão no jantar, foi praticamente improvisada. Estaria Krieps falando com o ator ou o personagem?

Pois, certamente, o sucesso deste filme se deve não somente à meticulosidade tanto do ator como do diretor, mas à dedicação que cada um tem com seu próprio trabalho, e a relação que ambos têm com Reynolds. O personagem é, de certa maneira, uma faceta de ambos artistas. Realmente me faltam adjetivos para elogiar tanto um como outro, e Trama Fantasma é a culminação de duas carreiras no apogeu absoluto.

Com atuações tão esplêndidas, uma trilha sonora pontual e belissimamente composta por Johnny Greenwood, design de som incrível – reparem como todos os barulhos estão propositalmente mais altos, fazendo com que cada coisa soe extremamente incômoda, do passar manteiga no pão aos passos que parecem infinitos dentro do casarão – e fotografia sublime feita pelo próprio genial cineasta, o longa se sobressai da média de filmes dos últimos anos. Mais do que um filme sobre pessoas, é um filme de amor. Sobre amor. Sobre o amor difícil, diferente e peculiar de cada casal. De como se constrói e se sustenta cada dinâmica. É tudo que Me Chame Pelo Seu Nome e A Forma da Água (para mencionar somente os que concorriam este ano) tentaram/buscaram ser e não conseguiram.

Utilizando toques de humor imprevisíveis – o que nos parece engraçado para os personagens pode ser perturbador e vice-versa – e concentrando os momentos de tensão especialmente nas refeições, o roteiro, também do diretor, nos leva a caminhar sobre pedras, sobre ovos ou nas nuvens, acompanhando a montanha-russa de emoções que é estar em uma relação, como se nos obrigasse a reviver o relacionamento entre Alma e Reynolds (e Cyril) como o nosso próprio. Como é fantástica a sequência do Ano Novo, na qual Reynolds reluta em permitir-se, em entender e, finalmente, em aceitar. Quando o faz, é de braços, boca e coração abertos, compreendendo que, para amar e deixar-se ser amado exige sacrifícios – psicológicos e até mesmo físicos.

Como se manifesta o amor? Como podemos demonstrar ou medir o amor que uma pessoa sente pela outra? É dando flores, preparando jantares? É defendendo a obra de arte do companheiro? É envenenando-o, curando-o ou virando-o do avesso, a ponto de tudo ser uma tempestade antes de ser calmaria? É fascínio ou é tensão? Mais: como podemos julgar os sacrifícios que os amantes fazem uns pelos outros, se a dinâmica funciona? Quem somos nós para dizer qual a dinâmica correta, se é que existe uma?

Paul Thomas Anderson criou mais uma obra-prima. E eu que achava que isso nem era possível.

Título Original: Phantom Thread
Direção: Paul Thomas Anderson
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (EUA): 2018
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Trilha Sonora: Johnny Greenwood
Fotografia: Paul Thomas Anderson
Tempo de Duração: 2h10
Com: Daniel Day-Lewis (Reynolds Woodcock), Vicky Krieps (Alma), Lesley Manville (Cyril Woodcock) e Brian Gleeson (Dr. Robert Hardy).

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Ninfomaníaca volume I

janeiro 8, 2015

nymphomaniac-posterNOTA: 10

Depois de anos de carreira e uma espetacular filmografia, achei que Lars Von Trier não seria capaz de me fazer sentir novamente como o Cinema é uma arte fabulosa. Surpreendente como ele só, Ninfomaníaca volume I já conquistou um lugar especial na lista de favoritos do diretor – embora essa seja só a primeira parte de um filme que, em conjunto, promete ser ainda mais ambicioso.

Ambicioso, pois Von Trier decidiu entrar mais uma vez em terras áridas e temas tabus (ele já passou por depressão, loucura, escravidão e cristianismo, entre outras coisas) e falar de maneira explícita sobre sexo. Não só isso: é um filme de sexo, taras, manias, relações – sob a ótica cínica, crítica e muitas vezes deturpada do cineasta.

Extremamente visual e permeado por metáforas filosóficas sobre o amor e o conceito de ninfomania no mundo moderno, durante todo o filme acompanhamos a confissão de Joe – encontrada caída no chão e toda machucada – a Seligman, um homem aparentemente simples e de bom coração. Se faz necessário dizer que o personagem é judeu, já que essa informação é revelada ao espectador em meio a referências “gratuitas” – sem dúvida alguma por conta dos comentários anteriores do cineasta sobre o tema – a respeito da diferença entre antissemitismo e antissionismo.

Com linguagem direta e evidenciando os cortes de edição, Von Trier insere o espectador na história da jovem Joe, contada através de capítulos que tem relação direta com a conversa, desde quando ela começou a perceber sua sexualidade na adolescência e a maneira como lidou com isso. Diríamos nós, moralistas, que ela teve uma infância problemática e por isso desenvolveu essa característica maníaca com relação ao sexo. Para Seligman, no entanto, não há ação capaz de condenar Joe, embora ela não consiga justificar muitas das coisas que fez e relate sua história com culpa.

Permeando a complexa narrativa da moça com comparações absurdas sobre pesca, música clássica e aviação – enquanto mostra, visualmente, imagens, gráficos divertidos e inesperados –, o diretor desenvolve um roteiro soberbo, polêmico, extravagante e incômodo na maior parte do tempo. O Cinema serve, afinal, para ser uma pedra no sapato. Claro que, em se tratando de Von Trier, profundo conhecedor da Sétima Arte, todas as inserções e simbolismos têm um porquê de estarem ali – embora alguns soem um pouco artificiais, como o gato e o aeromodelo.

Há momentos sensacionais, que levam ao riso pelo simples absurdo, como a sequência do trem e a explicação sobre o clube que pregava contra o amor (mea vulva, mea maxima vulva) e cujo tom demoníaco tem relação direta com o sentimento de aversão do grupo. Mas, na maior parte da projeção, toda a vida da jovem Joe é propositalmente sexualizada, já que ela usa o sexo como válvula de escape e refúgio para seus problemas.

E é tocante observar, por exemplo, como ela se ressente de não conseguir sentir nada quando sabe que deveria, ao estar com o homem amado. Ou, então, a belíssima sequência – chamada de A Queda da Casa de Usher, em homenagem a Allan Poe e em p&b – na qual ela deixa escorrer uma “lágrima” por seu pai no hospital. Pai que é, por sinal, interpretado com muita delicadeza por Christian Slater.

Há outros momentos maravilhosos, como a sequência dos três amantes ou como, de maneira melancólica, Joe comenta: “sempre exigi muito mais do pôr do sol”, revelando mais de sua personalidade sofrida do que suas cenas de sexo desenfreado. Conduzindo a história sempre para a frente com o roteiro bem dividido, Von Trier cria, novamente, um filme único, cheio de personalidade, e ao mesmo tempo totalmente original. E, afinal, como não amar um diretor que começa e termina o filme com Rammstein?

*Texto originalmente escrito em 27/02/2014

Título Original: Nymphomaniac p.1
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca/Alemanha/França/Bélgica/UK): 2013
Roteiro: Lars Von Trier
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Charlotte Gainsbour (Joe), Stellan Skarsgård (Seligman), Stacy Martin (jovem Joe), Shia LaBeouf (Jerome), Christian Slater (pai de Joe), Uma Thurman (Mrs. H), Sophie Kennedy Clark (B), Connie Nielsen (mãe de Joe).

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A Grande Beleza

fevereiro 27, 2014

grandebellezza-Poster01NOTA: 10

Feito para ser apreciado a partir da contemplação, já que esse é o estado que permeia a película, este novo filme de Paolo Sorrentino ainda é um dos meus favoritos de toda a temporada. Embora esteja indicado somente à categoria de filme estrangeiro, A Grande Beleza reúne tantos elementos que justificam e apoiam o título que é difícil me conter nos elogios.

A história acompanha um período na vida do escritor romano Pep Gambardella, que começa em sua festa de aniversário, com clima hedonista, repleta de bizarrices e que tem como objetivo introduzir as figuras (ou, melhor dizendo, a fauna) que é o círculo social do protagonista em Roma. Seus amigos apresentam um certo grau de desajuste: um homem apaixonado por uma mulher que o despreza, uma mulher cujo filho enlouqueceu com os ensinamentos de Proust, e outra que se sente intelectualmente superior aos outros. A única que parece manter a sanidade é Dadina, uma editora anã com plena consciência de sua condição física.

Esse grupo de pessoas, em constantes elucubrações e debates filosóficos e políticos, representa a nata da alta sociedade que, em decadência, tende a entrar em um círculo vicioso de auto-indulgência e que, para sair da mesmice da vida, precisa ser louca e rebelde. As aparências são, aqui, um dos temas centrais. O próprio Pep, apesar de se dizer mal das pernas, mora em uma cobertura com vista de tirar o fôlego para nada menos que o Coliseu. Mesmo criticando acertadamente todos ao seu redor com um língua ferina, ele atua como uma espécie de deus que se acha distante das máculas terrenas, numa atitude quase eclesiástica.

É curioso, ainda, como o diretor coloca a sensação de velhice iminente do personagem em contraste com uma das cidades mais velhas do mundo. O roteiro, extremamente crítico ao estilo de vida da classe média moderna, foi escrito por Sorrentino e Umberto Contarello, e brinca com as religiões, explicita a decadência da nobreza europeia, além da burguesia, eleva conceitos difundidos sobre arte ao próximo nível – tornando aquela sensação de “meu filho pode fazer melhor” em uma cena que beira o surrealismo. A arte é, também, um dos elementos narrativos pelo qual os personagens tentam aplacar os anseios dessa vida sem sentido. De gosto claramente duvidoso, os movimentos artísticos tornam esses personagens blasées ao ponto do socialmente insustentável, e faz com que atuem de maneira arrogante diante de assuntos desconhecidos.

Cheio de simbolismos, A Grande Beleza transita entre o estilo de Federico Fellini e as cenas contemplativas de Terrence Mallick, com fotografias esplêndidas da bella Roma, com paisagens bucólicas e jogos de luz e sombra que remetem, em determinado momento, a um mundo medieval, quase onírico. A trilha sonora, especialmente cuidadosa, vai do clássico (como a belíssima cena inicial com um coro feminino) ao eletrônico com facilidade – e a música da festa (feita por Bob Sinclair), a princípio ensandecida, logo cede espaço a uma batida contagiante que não consigo parar de escutar.

Apear de um pouco longo, Sorrentino parece não fazer nada despropositado. Este é, certamente, um daqueles filmes que poderei assistir repetidas vezes sem cansar. E se Pep parou de escrever porque não encontrava a grande beleza da vida, esse filme poderia facilmente servir como fonte de inspiração.

Título Original: La Grande Bellezza
Direção: Paolo Sorrentino
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália): 2013
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Trilha sonora: Lele Marchitelli
Fotografia: Luca Bigazzi
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Toni Servillo (Pep Gambardella), Carlo Verdone (Romano), Sabrina Ferilli (Ramona), Carlo Buccirosso (Lello Cava), Iaia Forte (Trumeau), Pamela Villoresi (Viola), Galatea Ranzi (Stefania), Franco Graziosi (Conde Colonna), Sonia Gressner (condessa Colonna), Giorgio Pasotti (Stefano), Massimo Popolizio (Alfio Bracco), Vernon Dobtcheff (Arturo).

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Django

janeiro 23, 2013

django-unchained-international-posterThe “d” is silent

Novo filme de Quentin Tarantino mistura elementos das suas maiores influências e se transforma em um dos melhores da carreira do diretor

NOTA: 10

Poucos meses após a estreia norte-americana de Lincoln, cinebiografia dirigida por Steven Spielberg, Quentin Tarantino estreou – coincidentemente ou não – seu mais novo filme, Django Livre, que tem sua história centrada em 1858, justo alguns anos antes da posse do presidente (e da Guerra da Secessão). A informação sobre ambos os filmes está relacionada já que o Texas foi um dos maiores estados escravistas dos EUA, e é onde se passa a história de Django.

Comprado e alforriado pelo caçador de recompensas, o Dr. King Schultz, o escravo Django “Freeman” (que fica sendo, ao mesmo tempo, sobrenome e apelido) tem um passado marcado por torturas, abusos e uma fuga mal-sucedida, na qual ele e sua mulher são punidos com a separação. A oferta de Schultz é que Django lhe ajude a capturar uns bandidos procurados em troca de localizar o paradeiro de sua esposa, Brunhilde Von Shaft (!!).

Misturando todos os elementos que o consagraram (diálogos brilhantes, uma trilha sonora excepcional, fotografia incrível, design de som impecável etc.), girando em torno de um tema comum à sua filmografia (a vingança), o diretor conseguiu produzir uma obra-prima. O cinema do absurdo de Tarantino, aqui exibido em sua forma plena e mais evoluída, mistura violência desenfreada com toques de humor inigualáveis – o dente balançando em cima da carroça de Schultz arrancou risadas em todas as aparições, mesmo sendo um objeto inanimado – e ainda homenageando filmes que o próprio cineasta venera. Fica evidente a paixão de Tarantino por alguns clássicos do western spaghetti: famosas melodias de Ennio Morricone, paisagens que lembram aquelas de Sergio Leone e até mesmo o personagem do Dr. Schultz tem um quê do Clint Eastwood do velho-oeste, mesclando com sabedoria a boa educação e o sangue frio.

O mérito do cineasta está, contudo, em fazer uma mescla inteligente de todos esses elementos, no qual os nomes de Siegfried e Brunhilde apareçam lado a lado com um personagem como Django sem destoar. E, ao contrário, fazendo muito sentido. Ainda que a película possa soar como uma paródia (o que não deixa de ser verdade), a dureza da escravidão e dos proprietários de terra sulistas é exposta de maneira explícita, sem esconder o terror que os negros viveram naquela época.

Alguns momentos brutais – como a da luta dos mandingos ou a de um escravo com os cachorros – são absolutamente verdadeiros. Mas para suavizar essas cenas mais chocantes, Tarantino intercala com outras de absoluta genialidade: é noite, e um grupo de cavaleiros encapuzados a lá Ku Klux Klan desce uma encosta com tochas nas mãos, gritando quais animais, e embalados por uma trilha sonora que, não coincidentemente, lembra a Cavalgada das Valquíras, de Richard Wagner. A cena seguinte mostra esse grupo de cavaleiros discutindo sobre a deficiência do tal capuz, como se fosse uma cena tirada de um dos filmes do Monty Python. Não por acaso, é evidente.

O diretor tem a oportunidade de inserir alguns elementos característicos de seus filmes, como os letreiros (iniciais, um corte com uma explicação acerca do paradeiro dos personagens e outro letreiro de Mississipi que, tal qual o rio, flui de maneira elegante pela tela), a estética sempre apurada de alguém que entende muito de cinema (o sangue voando nas flores brancas, estilo O Tigre e o Dragão), a inserção de vários idiomas em um filme passado em um único lugar, ou a cena final, que mais lembra os últimos momentos de Scarface, tudo compactados em um roteiro redondo e sem falhas.

Mas se o cineasta pode aproveitar essas chances, ele também dá a enorme oportunidade aos seus atores de expressarem os personagens da maneira mais visceral que puderem. Escolher um melhor ator entre os ali selecionados é complicado, especialmente Waltz, sempre ótimo, e Leonardo DiCaprio, que vem crescendo de maneira ascendente há muito tempo. A surpresa fica por conta do personagem de Samuel L. Jackson, que de um momento para o outro deixa de ser uma figura submissa e Calvin Candie e assume um papel muito mais ativo do que qualquer um ali poderia imaginar – e a cena na qual os dois se encontram sozinhos na biblioteca é magnífica.

Bem, não é a toa que o próprio Tarantino, em uma entrevista, tenha dito que este era “o Monte Everest” da sua carreira. Concordo 100%, Quentin.

Titulo Original: Django Unchained
Direção: Quentin Tarantino
Gênero: Faroeste
Ano de Lançamento (EUA): 2012
Roteiro: Quentin Tarantino
Trilha sonora: Mary Ramos
Fotografia: Robert Richardson
Tempo de Duração: 165 minutos
Com: Jamie Foxx (Django), Christoph Waltz (Dr. King Schultz), Leonardo DiCaprio (Calvin Candie), Kerry Washington (Brunhilde Von Shaft), Samuel L. Jackson (Stephen), Walton Goggins (Billy Crash), Dennis Christopher (Leonide Moguy), David Steen (Mr. Stonesipher), Dana Michelle Gourrier (Cora), Nichole Galicia (Sheba), Laura Cayouette (Lara Lee Candie-Fitzwilly), Ato Essandoh (D’Artagnan), Don Johnson (Big Daddy), Franco Nero (Amerigo Vessepi), James Russo (Dicky Speck), Don Stroud (xerife Bill Sharp), Bruce Dern (velho Carrucan), M. C. Gainey (Big John Brittle), Cooper Huckabee (Lil Raj Brittle), Doc Duhame (Ellis Brittle).

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Clássicos p. 1

janeiro 20, 2011

Último adeus

Dizem que sou a cara do meu tio, mas também poderiam dizer que sou a cara dos meus irmãos, do primo, do avô, do ascendente mais distante daquele pedacinho minúsculo de terra do outro lado do oceano, há quilômetros de distância, afinal a família é toda a mesma, por gerações e gerações continuará sendo sempre a mesma, aquela do moleque que empina pipa na rua batida de terra, que suja os sapatos brancos e os colarinhos dos alinhados, mas ninguém poderia dizer que eu sou filho do meu pai, aquele carcamano grisalho, de poucas palavras e olhos vívidos, de queixo saliente e fala precisa, quase venenosa, sempre palpitando na vida da famiglia que ele construiu quando chegou aqui, e depois abarcou o resto que se foi despejando dos navios imigrantes feito ratos no bueiro, abarcou a todos, os pais, os avós, os tios, os primos, todos, e todos obedeciam o que ele falava, porque ele era o chefe da famiglia, e era ele quem decidia por todos o que deveríamos fazer, mas ninguém nunca poderia dizer que eu, o caçula, tomaria conta de todos depois que o velho carcamano morresse, ah, não, porque pensar na morte do velho Don era pensar no inconcebível, como a famiglia se sustentaria sem ele era impensável, e ninguém botou fé em mim, o caçula, o pirralho, que a velharada toda mandava e sentava o pau e sentava a lenha e sentava a cinta, e o pai não ligava, na verdade achava que era isso mesmo, que eu tinha que apanhar para aprender a ser homem de verdade, a ser o chefe, porque o chefe bate e tem que bater sem ter dó de quem apanha, e o apanhado nem precisa estar merecendo apanhar, às vezes bastava só uma palavra, um gesto de mal educação, de afronta, e a famiglia inteira se voltava contra ele, e as mortes vieram uma, duas, três, o primogênito, meu irmão mais velho, que foi meter o bedelho e a língua comprida na famiglia alheia acabou cheio de tiros no peito, assassinado sem mais, o corpo largado no meio da estrada, e ninguém teve coragem de dar a notícia ao velho, porque ninguém sabia se o velho ia fazer como os reis de antigamente que mandavam matar os portadores das más notícias, mas o pai não matou mais ninguém, chorou apenas e se aposentou, foi morrer de velho lá nas terras de longe, e apesar de ninguém ter acreditado que eu daria um bom chefe eu vim e mostrei a todos que mandava igual o pai, mandava matar inclusive aquele que não obedecia as minhas regras dentro da famiglia, o meu próprio irmão, que foi levado pro meio do mar para parecer acidente e é claro que eu não me orgulho disso hoje, mas na época achei que era necessário, apesar dos gritos e dos choros incessantes da mãe e da irmã, mas isso não importa, porque as mulheres não têm que se meter nos assuntos dos chefes, afinal o chefe sou eu, e quem decide as vidas de todos agora sou eu, e ainda que esteja velho e não saiba mais o que fazer com a famiglia, minha própria filha se envolveu com o maledeto, aquele que vai ser o próximo chefe quando eu morrer, mas não queria, nunca quis que ela se envolvesse porque quem está dentro não consegue sair eu sei, já tentei, fui puxado pra dentro de novo, e exigem de mim a postura que meu pai tinha, a de homem sereno e intocável mas eu não sou como ele, não, não sou, e minha filha, minha linda menina, se envolveu com a canalha do meu sucessor, e boa coisa disso não veio, é claro, eu previ, preciso me confessar, preciso me redimir os pecados da carne da alma dos fios de cabelo que o velho pai tinha, iguaizinhos os meus, me lembro bem de seus olhos bondosos cuidando da famiglia como eu jamais pude cuidar, trouxe tristezas pra mãe, matei meu irmão sem dó nem piedade, só porque ele fez uma afronta à famiglia, uma coisa que não consigo me lembrar, porque tudo que importava era a segurança da minha filha, já que minha mulher, que ainda é minha mulher apesar de não ser mais minha, se recusa a dividir a cama comigo, se recusa a carregar filhos meus, até mesmo aborto a filha da puta já fez, não pude admitir nem nunca vou, e não admiti que minha filha fizesse o que fez, mas não pude evitar, ela está tão linda, crescida, mulher feita, e se envolveu com aquele carcamano, desgraçado que tirou-a de mim, ela era tudo que me restava, e sem ela já não sou mais pai, nem chefe da famiglia nem velho, restará de mim apenas uma vaga lembrança que não chega aos pés do meu velho pai, que falta ele faz, como queria que ele tivesse vivido para ver como governei, mandei, matei, como fui cego e precisei de seus conselhos, minha filha querida, que falta ela faz, como pude ser tão idiota a ponto de deixar isso acontecer, minha criança, me desculpe, que falta você faz, desculpe o seu velho pai, não pude evitar, minha filha, desculpe o seu velho, me desculpe…

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Esse texto foi inspirado em muitas coisas, ultimamente no meu primo Luis Vassallo, que escreveu um dos livros mais tocantes que eu li nos últimos tempos. Com o texto, inauguro hoje a seção Clássicos do Projetor, que faz um paralelo (pode ser longínquo, não sei se atingi meu objetivo) de filmes e literatura. Em cada mês vou fazer um post mergulhando nos filmes que eu considero os clássicos, os melhores e farei relatos mais íntimos, da maneira que eu mesma vejo esses filmes – que são, geralmente, aqueles que compartilham suas histórias como se nós fôssemos parte dela.

Para quem não sacou a brincadeira, o texto foi total e inteiramente baseado naquele que eu considero o melhor filme do mundo, a trilogia de O Poderoso Chefão, do Coppola. Claro que tudo que eu disser será insuficiente, porque a trilogia é o retrato de todas as famílias italianas radicadas nas Américas, em maior ou menor grau; é o retrato de uma época, das características italianas mais latentes, aquelas que reconhecemos nos nossos pais, irmãos, tios e primos. A fala alta, rápida, gesticulada e alegre, típica.

Não seria justo, afinal, eu tentar escrever qualquer crítica que fosse sobre os Chefões. Seria injustiça com quem lê, com quem fez, até mesmo comigo, que escrevo, porque me faltariam elogios – e aí seria uma apologia e não uma crítica, certo?

Portanto, espero que gostem!

Títulos Originais: The Godfather I, The Godfather II e Godfather III
Direção: Francis Ford Coppola
Gêneros: Drama
Anos de Lançamento (EUA): 1972, 1974 e 1990
Roteiros: Mario Puzo e Francis Ford Coppola, baseado em livro de Mario Puzo
Trilhas sonoras: Nino Rota; Nino Rota e Carmine Coppola e Carmine Coppola
Fotografias: Gordon Willis
Tempos de Duração: 171 minutos, 220 minutos e 172 minutos
Com: Marlon Brando (Don Vito Corleone), Al Pacino (Michael Corleone), James Caan (Santino Corleone), Richard S. Castellano (Peter Clemenza), Robert Duvall (Tom Hagen), Richard Cont (Don Emilio Barzini), Al Lettieri (Virgil ‘The Turk’ Sollozzo), Diane Keaton (Kay Adams), Talia Shire (Connie Corleone Rizzi), Gianni Russo (Carlo Rizzi), John Cazale (Fredo Corleone), Robert De Niro (Vito Corleone jovem), Michael V. Gazzo (Frankie Pentangeli), Richard Bright (Al Neri), Gastone Moschin (Don Fanucci), Andy Garcia (Vincent Mancini), Eli Wallach (Don Altobello), Joe Mantegna (Joey Zasa), George Hamilton (B.J. Harrison), Bridget Fonda (Grace Hamilton), Sofia Coppola (Mary Corleone), Franc D’Ambrosio (Anthony Vito Corleone).

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A Origem

setembro 3, 2010

O sonho dentro do sonho

Novamente exibindo sua mente brilhante, Christopher Nolan brinda o público com um elegante exercício de estética e com uma das mais interessantes ficções científicas da década

NOTA: 10

Christopher Nolan é o homem do momento. Apesar de não estar no início de sua carreira como cineasta – ele estreou em 1998 com Following – ele é certamente um dos nomes mais pronunciados nos últimos tempos. Depois de produzir filmes quebra-cabeças como o excelente Amnésia e Insônia (que vi no cinema, mas preciso rever), ele dirigiu as duas recentes sequências de Batman, sucessos de bilheteria, público e crítica, e levaram o último longa, Batman – O Cavaleiro das Trevas, a ser indicado ao prêmio da Academia (e teve em Heath Ledger um premiado Coringa com o Oscar póstumo de “Melhor Ator Coadjuvante”).

Se você, caro leitor, ainda não ficou convencido de que Nolan é uma mente diferenciada no cenário hollywoodiano, pare de ler este texto agora mesmo e assista ao novo filme do diretor: A Origem. Um acerto do começo ao fim, até mesmo com a tradução brasileira do título – que remete à ideia central do longa. Se você realmente não viu o filme, é melhor parar de ler para que eu, em meu descuido analítico, não tenha receio de revelar algum dado fundamental – que, no fim das contas, acabam sendo o filme como um todo.

É a primeira vez depois de Matrix (o primeiro) que um filme se propunha a ir tão longe nos limites de sua própria ficção, ultrapassando barreiras quase literalmente. Cada vez melhor em papéis de grande profundidade psicológica, Leonardo DiCaprio quebra os paradigmas de ser apenas um rostinho bonito e se sai perfeitamente bem no papel do problemático Don Cobb, líder de uma equipe de ladrões de sonhos. Por meio de conexões físicas e reais, a equipe consegue entrar na mente das pessoas para extrair alguma ideia valiosa sem que a pessoa saiba que está sendo roubada.

A primeira e enigmática cena envolve Cobb, seu parceiro Arthur e o bilionário Saito (o excelente Ken Watanabe), e já dá a pista inicial da trama que nos aguarda. Dentro de um ambiente onírico (que até então não sabemos ser), Cobb tenta convencer Saito de que ele é um “protetor de sonhos”, e que Saito, a fim de que seja bem protegido, deve confiar a ele seus segredos mais profundos. Saito, ajudado por Mal (ex-mulher de Cobb aqui em sua primeira aparição) desmascara o golpe e atira em Arthur – o que força Cobb a matá-lo no sonho para que ele desperte. Imediatamente Arthur acorda em um apartamento ao lado do arquiteto Nash; o ambiente no qual Cobb está com Saito e Mal começa a ruir – e assim descobrimos que o “dono” daquele ambiente era Arthur.

Nesta sequência seguinte vemos Saito ainda adormecido no apartamento, enquanto Arthur corre para acordar Cobb antes dele. Com um “chute” (um movimento brusco daqueles que sentimos quando parece que pulamos ou caímos inesperadamente no sonho), Arthur mergulha a cadeira de Cobb em uma banheira cheia e, tal como em sonhos, Cobb vê a água invadindo o espaço de seu sonho antes de despertar no apartamento. Qual não é a surpresa do espectador quando o diretor revela ser aquele um outro sonho, ambientado por Nash – e que, para mantê-lo, precisou ficar no ambiente.

Assim é a lógica do filme de Nolan. Muito organicamente, ele introduz a ideia de que o sonhador é responsável pelas imagens e lugares do sonho no qual todos os personagens se encontram. Para isso, o arquiteto (no caso, Nash) desenha os ambientes de modo que os ladrões saibam onde se localizar e que a vítima não se sinta enganada. Percebendo as artimanhas de Cobb, Saito decide contratá-lo com a intenção de fazer o caminho inverso que o ladrão de ideias estava habituado: ao invés de extrair, Saito quer implementar uma ideia na mente do jovem herdeiro Robert Fischer, concorrente de sua empresa – e, deste modo, fazer com que o jovem divida a empresa do pai abrindo caminho para a sua própria hegemonia no mercado. Em um primeiro momento Cobb reluta, sabendo da complexidade do plano.

Como a ideia implantada deve soar como uma ideia original, Cobb decide contratar uma equipe de especialistas para ajudarem-no ao longo do caminho. Por isso, ele continua contando com a ajuda de seu antigo companheiro, Arthur, e decide contratar mais especialistas. Assim entram em cena Ariadne, uma jovem estudante de arquitetura que projeta os cenários dos sonhos – e que, curiosamente, leva o mesmo nome da personagem de um importante mito grego; Yusuf, capaz de produzir fortes sedativos de modo que os ladrões possam atingir várias camadas de sonhos; e Eames, um falsificador capaz de assumir a aparência de outras pessoas. Os ladrões não contavam, contudo, com a onipresente Mal, ex-mulher de Cobb, que está envolta em um grande mistério e significa risco para o plano final – o qual só descobrimos aos poucos ao longo da projeção, como é bem típico do diretor.

Se a ideia parece complicada, acredite, não é. Pois Nolan faz questão de deixar seu mundo absurdo às claras (ainda que aos poucos), baseado somente em ideias de neurologia e psicologia. Alguns momentos brilhantes, portanto, são exatamente as intervenções reais feitas pelo sonhador. Em um dos níveis de sonho, por exemplo, aquele que está ambientando o resto da equipe sente vontade de ir ao banheiro e, portanto, ele sonha debaixo de chuva. Outro exemplo é a súbita aparição de um trem e agentes de “defesa”, que também indicam que o corpo sente a invasão e tende a se proteger – daí a tão difícil missão de fazer Fischer acreditar que Cobb e sua equipe não são invasores, mas protetores, que tentam ajudá-lo com a questão que lhe é enganosamente proposta. Sem dúvida, a semelhança com Matrix surge inevitavelmente da magnífica sequência do hotel flutuante, no qual os personagens não sentem a lei da gravidade por estarem imersos, uma camada onírica acima, em um ambiente sem gravidade.

Apesar de não arriscar muito ao introduzir elementos reais dentro dos sonhos, Nolan explica cada movimento seu, tornando todo o filme perfeitamente compreensível – justifica-se, assim, a presença de uma arquiteta, para que todos os ambientes sejam perfeitamente planejados. Ao criar ambientes estereotipados para cada personagem, Nolan também constrói as profundidades psicológicas de cada um – uns mais profundos, outros menos, mas não menos importantes. Portanto, da mesma maneira em que Arthur só sonha com ambientes aconchegantes, com luzes que tendem para o natural e acolhedor, Cobb não consegue evitar ambientes tristes e acinzentados, no qual Mal é presença constante. Especialmente o limbo, um lugar esquecido na mente de Cobb do qual supostamente não há retorno para a vida real.

O design de produção e a fotografia de A Origem tornaram realidade algumas arquiteturas supostamente simples, mas que escondem muita complexidade como a escadaria infinita, o próprio limbo de Cob e Mal, e a cidade de Paris, que se dobra em cima de si mesma, em uma demonstração de estilo e efeitos visuais impecáveis. A trilha sonora do já consagrado Hans Zimmer também não fica atrás, e ele preenche com precisão cada momento com notas certeiras – e com a escolha também curiosa da música de Piaf para encenar os “chutes” de cada sonho.

Posso dizer com convicção que o filme de Nolan é brilhante por diversos fatores. Trilha sonora justa + história interessante + complexidade narrativa + o brilhante desfecho (que levará o montador Lee Smith a ser deificado em Hollywood) tornam A Origem o melhor filme do ano, quiçá dos últimos tempos. O desfecho ao qual me refiro não só dá múltiplas interpretações – que fará o espectador assistir o filme pelo menos mais uma vez e discutir os significados do que viu durante muito tempo – como é arquitetado de maneira tão elegante e convincente que chega a provocar arrepios, sorrisos incrédulos e uma empolgação que não sentia no cinema há tempos! O que posso dizer é que já há tempos considero Nolan como um homem genial, de visão singular, e A Origem somente re-reafirmou minha posição.

Para quem já viu o filme, esta é uma imagem muito interessante que resume e simplifica perfeitamente a complexidade de todos os personagens e níveis de sonhos envolvidos. Obrigada ao Rodrigo, que me mandou o link!

Titulo Original: Inception
Direção: Christopher Nolan
Gênero: Ficção Científica
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Christopher Nolan
Trilha sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Wally Pfister
Tempo de Duração: 148 minutos
Com: Leonardo DiCaprio (Don Cobb), Marion Cotillard (Mal), Joseph Gordon-Levitt (Arthur), Ellen Page (Ariadne), Ken Watanabe (Saito), Cillian Murphy (Robert Fischer), Tom Berenger (Browning), Lukas Hass (Nash), Tom Hardy (Eames), Dileep Rao (Yusuf) e Michael Caine (professor).