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Punho de Ferro

abril 24, 2017

NOTA: 3,5

Preparem-se para o textão.

Quem acompanha as séries produzidas pela parceria Marvel + Netflix, já sabe que qualidade é um sinônimo. As duas primeiras temporadas de Demolidor, e as primeiras temporadas tanto de Jessica Jones quanto de Luke Cage foram um tiro atrás da outra – e com isso quero dizer que galera tombava morta de tão maravilhadas que ficaram. Embora a última peque pela falta de ação – quando comparada com as outras duas – e fraco desenvolvimento do vilão, é inegável que esse é o trio-parada-dura da Marvel na telinha. Elas trouxeram não só o melhor de cada personagem (o que não significa que fossem só coisas boas), mas também ótimos designs de produção, trilhas sonoras grandiosas, fotografias excelentes e, mais importante do que isso, roteiros impecáveis. Juntas, essas séries redefiniram o conceito de superheróis na TV e remodelaram o futuro da Marvel.

Ao comparar, portanto, estes três pesos-pesados com a mais recente, Punho de Ferro, é com enorme pesar que exponho o tamanho do buraco que a Marvel cavou. Cheia de problemas estruturais, a série não consegue manter o nível das anteriores e, o que é pior, ameaça a boa engrenagem da série dos Defensores que está por vir.

Mas vamos começar do começo. Danny Rand é um menino bilionário cujos melhores amigos da infância são Joy e Ward Meachum. Seus pais são amigos e atenciosos com os filhos. Até que um acidente de avião deixa Danny órfão e sozinho no meio das montanhas do Tibet. Ele é resgatado por monges mestres de kung-fu e é treinado na arte durante 15 anos. Enquanto isso, Joy e Ward crescem para ver o pai, Harold, morrer de câncer precocemente e passar a empresa ao nome deles. Até que um dia Danny decide voltar a Nova York para… bem, não entendi direito para quê diabos ele queria voltar.

E é isso uma das coisas que faz Punho de Ferro ser tão ruim. Foram tantas mudanças de rumo que os produtores pareciam não fazer ideia do personagem com o qual estavam lidando. Sem propósito definido e sem personalidade que cative a audiência, o herói parece seguir o roteiro somente para encaixar as peças que faltam. Sua participação é tão insignificante que nem parece que é ele o personagem principal.

As primeiras coisas absurdas acontecem já no primeiro episódio, quando Danny, de volta a NY, não consegue convencer os irmãos Meachum de que ele não estava morto. A resolução só vem dali dois episódios – quando o mais óbvio teria sido, já no primeiro encontro, dizer as lembranças em comum entre os três e contar toda a verdade sobre o que havia acontecido com ele. Não. Os roteiristas forçaram um melodrama desnecessário.

Ainda nos primeiros episódios, vemos várias referências a uma águia sobrevoando a cidade, o que dá a entender que há alguma relação entre Danny e o animal. Esse detalhe é completamente abandonado dali até o último episódio, quando a águia retorna sem explicação nenhuma e com uma resolução frágil para um enigma que poderia ter sido muito melhor trabalhado.

Não bastassem os erros de construção de roteiro, nós não nos familiarizamos com Danny em nenhum nível. Tudo o que sabemos sobre ele são as cenas do acidente de avião (repetidas dezenas de vezes, sem acrescentar nada de novo, exceto em duas delas), seu suposto treinamento em K’un L’un e que ele voltou para NY como o Punho de Ferro. Fora isso, não vemos nada acontecer. Não vemos Danny treinar. Não o vemos crescer, sofrer, amadurecer. Não sabemos quem é o verdadeiro Danny Rand.

Por incrível que pareça, sabemos de tudo que passou no misterioso templo tibetano porque Danny nos conta. É, tipo “eu fiz isso, lutei assim, derrotei fulano e me tornei o Punho de Ferro”. Ah, jura? Mas o que é o Punho de Ferro? Qual o significado espiritual, emocional e físico de ser o inimigo jurado do Tentáculo? É só isso? Não teve nenhum conflito interno? Não conhecemos absolutamente nada que separa o passado distante do personagem com o presente.

E essa é uma das razões pela qual Danny é tão imaturo, agindo como aquela criança de dez anos que vimos sofrer o tal acidente de avião. Não há profundidade emocional. A maior profundidade a que ele chega é amar sua nova amiguinha, Colleen Wing – que ele stalkeia sem dó nem piedade e ganha a simpatia da moça na marra. Medo. Só porque ele é loirinho e bonitinho ela cedeu? Qualé!

Mal desenvolvido, mal aproveitado e mal treinado, o ator ainda confessou que aprendeu a maior parte das cenas de luta 15 minutos antes de cada gravação. Nota-se. Muito. É evidente sua falta de preparo. Ao invés de fazer como em Demolidor – personagem que usa uma máscara nas cenas mais importantes, e cujo dublê fica obviamente camuflado – Finn Jones faz ele mesmo as cenas, evidenciando sua debilidade como lutador e expondo a série ao ridículo, uma vez que as lutas tiveram de ser suavizadas para que ele pudesse executá-las. Com exceção de dois ou três momentos, todas as sequências com Danny são sofríveis.

Até mesmo seus colegas de cena parecem manejar melhor as armas do que ele. Como, então, o argumento da série de que ele é o melhor lutador de kung-fu do universo Marvel se sustenta? Não, evidente que não. Comparada com a ação de suas primas-irmãs, Punho de Ferro parece brincadeira de criança. Embora tenha personagens que, dado o devido desenvolvimento, poderiam ter sido interessantes (a próprio Colleen, Davos e Bakuto, para mencionar os mais próximos do herói), temos um único arco que realmente funciona (o dos irmãos Meachum) e três personagens dignos de nota: Hardol, Ward e Claire Temple – dessa vez ela não só salvou o herói várias vezes como talvez a série também. O resto é completamente desperdiçado.

Eu nem quero começar a falar em como eles destruíram a imagem que tínhamos da implacável Madame Gao e sua influência em NY. Quem se lembra de que até mesmo Wilson Fisk tinha receio de Gao? Bem, aqui ela aparece no início como uma ameaça, e até mesmo com poderes sobrenaturais (que obviamente não são explicados e depois são abandonados) e, posteriormente, é utilizada como “aquela que explica para os espectadores o que está acontecendo”. Porque precisa ter alguém assim, né? Em uma série boa, pergunta se tem quem explique o que está acontecendo *rolling eyes emoticon*. Pior do que isso. Ela passa de inimiga a senhorinha fofa e indefesa. Ao invés de temer Gao, começamos a simpatizar com ela! É um rolling eyes infinito, sério.

Punho de Ferro foi escrito às pressas, sem revisão e sem critérios, com o objetivo único de fazer referências aos outros heróis e linkar as cinco séries. Os personagens são débeis, faltos de profundidade e perde-se demasiado tempo em diálogos expositivos e sem sentido. A trilha sonora é muitas vezes incompatível com o que está acontecendo e o CGI é evidente (o que tira ainda mais a magia das cenas). A melhor cena de ação, acreditem ou não, é aquela vista em um VHS antigo, de um antigo Punho de Ferro que guardava as portas de K’un L’un e protegia a cidade da invasão do Tentáculo. Seja lá o que isso queira realmente dizer.

Título Original: Iron Fist
Direção: John Dahl, Farren Blackburn, Uta Briesewitz, Deborah Chow, Andy Goddard, Peter Hoar, RZA, Miguel Sapochnik, Tom Shankland, Stephen Surjik, Kevin Tancharoen e Jet Wilkinson
Gênero: Ação, aventura, crime
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Scott Buck, Gil Kane, Roy Thomas, Dwain Worrell, Tamara Becher, Pat Charles, Quinton Peeples, Scott Reynolds, Ian Stokes e Cristine Chambers
Trilha Sonora: Trevor Morris
Fotografia: Manuel Billeter e Christopher LaVasseur
Tempo de Duração: 13 episódios de 55 min cada
Com: Finn Jones (Danny Rand), Jessica Henwick (Colleen Wing), Jessica Stroup (Joy Meachum), Tom Pelphrey (Ward Meachum), David Wenham (Harold Meachum), Wai Ching Ho (Madame Gao), Rosario Dawson (Claire Temple), Ramón Rodríguez (Bakuto), Sacha Dhawan (Davos), Toby Nichols (jovem Danny Rand), Carrie-Anne Moss (Jeri Hogarth).

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A Estrada

janeiro 4, 2017

the_road_movie_poster_by_karezoidNOTA: 3,5

Se tem uma coisa que não suporto em qualquer filme é a imbecilização de personagens. Crianças muito pequenas que se comportam como adultos – e trazem questões completamente fora de contexto para a trama, como no terrível A Culpa é do Fidel –, crianças maiores (de 8-10 anos) que são retratadas como incapazes, e até mesmo de adultos capazes que são infantilizados e reduzidos a um espectro deprimente (como no chatinho Minhas Tardes com Margueritte).

O caso de A Estrada é o segundo. Mas já chego lá. O filme se passa em um mundo pós-apocalíptico, retratado basicamente em tons de cinza (em contraste óbvio com o passado feliz e de cores quentes), completamente devastado, sem árvores ou animais. Os únicos que restam são grupos de homens que tentam sobreviver e outros grupos de homens que sobrevivem à custa destes, perseguindo-os e devorando-os. Então temos o Homem que, tendo perdido tudo, tenta proteger o Menino dos horrores desse cenário.

Retratado como uma espécie de road movie – já que os personagens estão sempre se movendo, buscando o litoral –, A Estrada nos mostra toda a sujeira, tristeza, fome e sede que esse tipo de mundo pode trazer. A eterna busca por comida, a eterna fuga de pessoas que podem fazê-los algum mal. Bem, para quem assiste a qualquer série sobre zumbis, esses temas são já batidos. The Walking Dead faz um trabalho fenomenal em retratar a crueza desse universo, no qual o principal problema são sempre os homens (vivos).

Apesar de apresentar o que seria um pai tentar proteger seu filho pequeno de maneira tão selvagem, o filme falha de maneira estrepitosa ao colocar um menino que é claramente mais velho do que o roteiro precisava que ele fosse. Portanto, vemos o Pai (por sinal, um excelente Viggo Mortensen, como de costume) arrastando, jogando e literalmente carregando o moleque por praticamente toda a projeção.

Este, por sua vez, nascido depois da catástrofe – e, pensamos, muito mais capaz de se adaptar ao mundo novo do que seu velho pai –, é posto como um menino frágil, tão frágil que não é capaz de salvar a própria vida quando se vê em perigo. Tão frágil que não consegue aceitar que as atitudes violentas que o Pai tem são unicamente porque ele os está protegendo, evitando que sejam mortos, comidos, queimados, enfim. Tão frágil que é capaz de se iludir com a “boa natureza humana”, quando tudo que jamais conheceu foi o horror e a carnificina.

Em certo momento, o menino implora para que o pai, atingido por uma flecha, não mate o atirador. Completamente inverossímil quando se trata das relações em um mundo pós-apocalíptico, A Estrada é decepcionante. Colocando o garoto numa posição de vulnerabilidade forçada, parece que a única intenção da projeção é arrancar lágrimas com a inocência infantil do menino. Que, nota-se, não é um garotinho de cinco anos, mas um menino de dez, que deveria ser capaz de segurar uma arma quando seu Pai, o único protetor que ele tem, assim pede.

Inverossímil até mesmo ao retratar as crianças – e nesse ponto estou totalmente de acordo com o filósofo Thomas Hobbes –, o filme de John Hillcoat falha em entender que elas são as primeiras a pegar as regras do jogo e a atuar de acordo com ele (e quem assistiu ao episódio do esconderijo das mulheres nesta temporada de The Walking Dead, se lembrará da menininha impiedosa que quase comete um assassinato injusto, simplesmente porque aquele era o costume da tribo). Claro, existe uma inocência infantil que sempre estará lá, não importa quão terrível seja o presente. Mas limitar a capacidade do menino de reagir, como se ele tivesse qualquer problema que não a idade, é um absurdo.

Como se isso não fosse suficiente, o filme também coloca situações completamente risíveis, nas quais se destrói por completo tudo que vínhamos construindo até então (e que já não era muito). Em determinado momento, o pai pega uma lata de Coca-Cola (claramente visível) de uma geladeira velha e dá ao garoto. Ele a abre, com o famosos “tsss” gasoso, bebe e diz “é realmente bom”, oferecendo-a ao pai. Você poderia pensar que é uma propaganda, mas é só mais uma cena. Juro que faltou só o urso polar.

E há mais dessas cenas, infelizmente. Talvez a pior de todas (depois da propaganda da Coca), talvez seja justamente a final, aquela que poderia melhorar um pouco a situação, mas tampouco consegue. O roteiro cheio de buracos de Joe Penhall é tão piegas que faria chorar somente aos Clint Eastwoods da Academia. Me limito a dizer que é tudo conveniente demais para ser aceitável. Um filme que deveria ser cru e dolorido como Biutiful, acabou se transformando em uma maquininha sentimentalóide – e não há nada mais frustrante em uma produção do que a crença de que o espectador é que é o imbecil.

Título Original: The Road
Direção: John Hillcoat
Gênero: Aventura, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Roteiro: Joe Penhall
Trilha Sonora: Nick Cave
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Tempo de Duração: 111 minutos
Com: Viggo Mortensen (Homem), Kodi Smith-McPhee (Menino), Charlize Theron (Mulher), Robert Duvall (cego), Guy Pearce (veterano), Michael Kenneth-William (ladrão).

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Percy Jackson e o Ladrão de Raios

outubro 19, 2010

Mitologia às avessas

Roteiro sofrível e atuações medianas, a história do Perseu moderno deixa muito a desejar

NOTA: 3,5

Como começar um texto criticando um filme visivelmente feito para crianças? Será que as referências que tenho atrapalharam meu julgamento? Ou será que até mesmo as crianças chegaram a notar as falhas de Percy Jackson e o Ladrão de Raios? Apesar da interessante premissa, não posso deixar de me ressentir que um filme sobre mitologia grega tenha sido tratado de maneira tão…boba. Mas ok, afinal, o filme foi baseado no primeiro livro da série homônima de Rick Riordan que, tal qual Harry Potter, criou um herói infantil (bem inferior e menos complexo, devo alertar).

Como já cheguei a afirmar na crítica de Fúria de Titãs (que, curiosamente, também é uma adaptação mediana da história do herói Perseu), a mitologia grega pode ter várias interpretações mas há pelo menos uma versão de cada mito que se sobrepõe às demais. Assim, qualquer mudança mínima nas características de qualquer um dos deuses olímpicos já soa afrontosa.

Logo nas primeiras cenas, vemos um raivoso encontro de Poseidon e Zeus, no qual o deus supremo afirma que seus raios foram roubados pelo filho do deus dos mares – e caso ele não os devolva em quinze dias, “haverá guerra”. Bem, para aqueles que conhecem a mitologia grega, uma ameaça dessas nem chega a ser grande novidade, não é? De qualquer maneira, a história acompanha a trajetória de Percy (sim, um Perseu “moderno”), um menino de 17 anos (no filme, pois no livro, também tal qual Harry, ele começa suas aventuras aos 12) que vive com a mãe e o padastro malvado – pois é.

Amparado por um elenco razoável que tem Sean bem como Zeus, Pierce Brosnan como Quíron e Uma Thurman como a Medusa (que vou discutir mais adiante), Percy Jackson descobre sua natureza de maneira um pouco forçada. Aliás, perdoem-me. Não é só isso que é forçado no filme. Posso afirmar que absolutamente tudo é superficial.

Percy é motivo de admiração do amigo e protetor de muletas, Grover Underwood, pois consegue ficar horas debaixo d’água. Para quem é mais espertinho, não precisaria de diálogos para descobrir a natureza do personagem. Assim, a artificialidade (e a vergonha alheia) surge no momento em que todos sabem (até o espectador) o que o rapaz é, menos ele. Essa obviedade do roteiro não é exatamente uma surpresa, considerando que Chris Columbus é o diretor (ele dirigiu outros filmes infantis como os dois primeiros filmes de Harry Potter e também Esqueceram de Mim).

Não vou me alongar muito: Percy Jackson e o Ladrão de Raios é um filme extremamente ingênuo. Sem adivinhar que poderia ser tão infantil, a fotografia e direção de arte são até boas, mas o roteiro impõe Percy como um menino sem habilidade alguma que, de uma hora para outra, vira o herói que seu nome precedia – há cena mais constrangedora do que a que ele descobre ser disléxico e só conseguir ler as paredes do museu? Para piorar, Grover é um personagem metido a engraçado e irritantemente previsível. Fora os clichês de tratar o menino como um Hércules da modernidade, há ainda muitas, muitas incoerências.

Nada, para mim, é pior do que ensinar falsos conceitos. Já que se trata de um filme infantil, porque tratar a criança como incapaz de compreender um roteiro mais bem feito, ou ainda correr o risco de os pequenos não se identificarem com os jovens personagens? Apesar de haver uma breve aula sobre a origem dos semideuses e de apresentar alguns dos seres mitológicos mais conhecidos, o filme comete o ato falho de tratar o espectador como imbecil. Qualquer que seja ele, adulto ou criança.

Porque, afinal, o acampamento dos mestiços (situado próximo à cidade, mas que ninguém nunca encontrou, claro) é medieval? Porque, por exemplo, as crianças são ensinadas a lutar com espadas e armaduras da Grécia Antiga, ou ainda se assa carnes em espetos e não em fogões? Digo, porque querer atualizar o tema da relação entre os mortais e os imortais se a premissa continua sendo encontrar gags que façam as crianças dar uma risadinha? Poderia haver muito mais coerência e divertir da mesma maneira. A ideia de que os deuses ainda se misturam com mortais é realmente interessante, mas muitíssimo mal explorada.

Além disso, não é explicado o motivo pelo qual Percy é o filho dileto de Poseidon, uma vez que o deus é um dos maiores garanhões da mitologia grega – em determinado momento, um dos personagens diz que “é raro um dos três grandes deuses ter filhos” o que, como bem sabemos, é uma mentira deslavada. O espectador não é obrigado a conhecer a fundo o contexto histórico-filosófico da narrativa que está sendo apresentada mas, como eu já disse por aqui, quando um filme desta magnitude se propõe a desbancar a série de J. K. Rowling e falar de mitologia, deveria ser mais atenciosa. Está bem, algumas coisas são realmente legais, como o tênis alado que Luke presenteia Percy ou a Hidra de sete cabeças. Mas a Medusa de Uma Thurman, com corpo de mulher e cabelos de cobra desmoraliza tudo até então.

Alguns fatos que me irritaram (e é culpa do livro, não do filme) foram a insistência em fazer a deusa Atena, conhecidamente uma das deusas virgens do Olimpo ter, continuamente, procriado – uma das amigas de Percy, Annabeth Chase, é a filha de Atena e, pela alma de Homero, isso é um absurdo! – e do deus Hades ser retratado como um motoqueiro/metaleiro, casado com uma promíscua Perséfone. Tal como tratar Jesus Cristo como um assassino, é desvalorizar a ideia que os antigos tinham de suas divindades.

A trilha sonora, se não fosse tão óbvia, até seria interessante. O desfecho do longa, piegas e moralista (com crianças dando lições em adultos literalmente gigantes) prova uma coisa, somente: que ambos escritor e diretor não leram O Senhor dos Anéis suficientemente para entender que pode-se ser sutil ao inferir a ideia de  heroísmo mesmo na menor das pessoas. Ah, sim: a ideia de que o buraco para a entrada do Inferno se situe bem embaixo da placa de Hollywood me parece mais uma jogada de marketing barato do que realmente uma grande sacada.

Se estivéssemos na época dos Olimpianos o filme teria uma severa punição, com direito permanência eterna no Tártaro.

Titulo Original: Percy Jackson and the Olimpians: The Lightning Thief
Direção: Chris Columbus
Gênero: Fantasia, Aventura
Ano de Lançamento (Canadá/EUA): 2010
Roteiro: Craig Titley
Trilha Sonora: Christophe Beck
Fotografia: Stephen Goldblatt
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Logan Lerman (Percy Jackson), Brandon T. Jackson (Grover Underwood), Alexandra Daddario (Annabeth), Jake Abel (Luke), Sean Bean (Zeus), Pierce Brosnan (Sr. Brunner/Quíron), Steve Coogan (Hades), Rosario Dawson (Perséfone), Melina Kanakaredes (Atena), Catherine Keener (Sally Jackson), Uma Thurman (Medusa), Maria Olsen (Sra. Dodds/Fúria), Dimitri Lekkos (Apolo), Ona Grauer (Ártemis), Stefanie von Pfetten (Deméter), Conrad Coates (Hefesto), Erica Cerra (Hera), Dylan Neal (Hermes), Luke Camilleri (Dionísio), Serinda Swan (Afrodite) e Ray Winstone (Ares).

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Estômago

maio 18, 2009

Sem fome

Filme pretensioso explora o universo gastronômico brasileiro pelo ponto de vista de um presidiário e ex-cozinheiro de restaurante italiano. Resumindo: quê?

NOTA: 3

Existem filmes que, apesar de terem roteiros originais e interessantes, simplesmente não emplacam. É o caso de Estômago, produção nacional de 2007.

Sucessão de clichês baratos, a narrativa soa interessante até os primeiros 10 minutos, quando percebemos que o longa nada mais é do que uma reinvenção de métodos e estilo – a narrativa é feita pelo protagonista por meio de flashbacks. Tá na moda. As obviedades do estilo ”favela movie”, que marcam em peso os filmes brasileiros pós-Cidade de Deus, não se limitam ao personagem: Raimundo Nonato é um nordestino que cumpre pena em um presídio de São Paulo (clichê #1).

Vindo de uma cidadezinha do interior do Ceará, Nonato arruma emprego como faxineiro em um bar (clichê #2). Estimulado a cozinhar, ele descobre que tem uma aptidão para a gastronomia e passa a fazer as melhores coxinhas da região. Primeira novidade interessante, que é logo destruída pelo clichê #3: Giovani, dono de um restaurante italino (até os nomes são clichês), descobre o talento do cozinheiro e o leva para aprender a verdadeira arte da culinária.

Até aqui tudo parece bem, não fosse pela sequência de adivinhações que o espectador rapidamente presume: os cortes alternados entre as dificuldades passadas no restaurante e cenas na cadeia revelam a dificuldade de Raimundo a se adaptar em ambos os lugares. Depois de ser maltratado pelos colegas de cadeia, o cozinheiro tem um lapso – que, sinceramente, poderia ter surgido muito antes de sofrer qualquer abuso – de cozinhar para os companheiros de cela. Desconfiados no início, os presos se afeiçoam ao novo mestre-cuca e Nonato, apelidado de Alecrim, se torna responsável pelas refeições do presídio. Ganhando a confiança do líder Bujuí, o cozinheiro ganha regalias, cama entre outras prendas dos colegas (como qualquer preso que não contraria as regras: clichê #4).

Bujuí é temido por todos (até mesmo por policiais armados. Claro, porque não?), que lhe conseguem todo tipo de mercadoria que quiser. Fato que os presidiários muitas vezes dominam a cadeia, mas a figura de líder de Bujuí ultrapassa todos os limites da realidade. E se em filme norte-americano não pode faltar vilão, em filme brasileiro não pode faltar prostituta – chegamos ao clichê #5. Mas não paramos por aqui, não!

Nonato é apaixonado pela garota de programa Iria, caso que arrasta consigo nas transições entre os dois empregos. Interesseira, Iria se deixa levar pelos benefícios que seu caso com o cozinheiro traz, como comer de graça no restaurante de Giovani. Tá certo, o amor faz loucuras. Duvido, entretanto, que possa parecer real para qualquer pessoa que um funcionário leve a namorada – ainda mais se tratando da personagem em questão – para filar a bóia na calada da noite em um restaurante fino, chique, elegante, de primeira classe –  sendo, aliás, o do seu chefe.

Enquanto Nonato cede esses prazeres gastronômicos para Iria, algumas cenas mostram o ciúme do rapaz quando assiste a moça nos shows de strip-tease. Ao invés de terminar uma relação tão doentia e complicada, Nonato cala, consente e assiste ao espetáculo, enquanto verte doses e mais doses de cachaça para aplacar a dor de seu ciúme. Ossos do ofício, diria Iria. Sofrendo como está, Nonato propõe o noivado na esperança de mudar a cabeça da namorada – ou pelo menos sua profissão ingrata (para ele, já que a moça não parece se importar muito). Clichê #6: nem preciso dizer que essa situação é familiar, né?

Em dado momento da intercalação de cenas, Bujuí ordena a Raimundo que prepare um jantar expecional para o famigerado Etecetera, que vem visitá-lo – sim, afinal de contas, o líder recebe amigos bandidos na cadeia. Nada mais natural. O cozinheiro obedece prontamente e prepara um banquete jamais visto pelos presos de qualquer canto deste nosso Brasil. Com direito a vinho italiano, carpaccio, queijo gorgonzola, um porco (inteiro), frutas e outras especiarias, o chef (que, a esta altura, já ganhou status de francês) prepara uma refeição de fato inigualável, se não fosse tão absurda. Enquanto os presos se refastelam em uma mesa comprida e exclusiva, os policiais comem sentados, quietos, passivos e secundários.

Esperando um final surpreendente, fiquei decepcionada ao descobrir toda a teia narrativa quase meia hora antes do longa realmente terminar. O motivo de Raimundo ter sido preso é tão óbvio, e ao mesmo tempo tão bobo, que cenas grotescas são inseridas para conferir um caráter mais chocante. Passa batido, exceto pelo fato de ser tosco. Se o final poderia quebrar a cadeia de clichês, é aqui que se consagra como uma sequência óbvia, aumentando a falta de paciência da espectadora e desconcertando por completo o que restava do frágil roteiro. Onde está a novidade quando descobrimos sozinhos o final?

Mal construídos, os personagens seguem aos trancos e barrancos, e a narrativa acompanha. O único que se salva é João Miguel que, com uma atuação ainda que forçada, é boa e consistente com o que o roteiro pede. Ele, contudo, permanece abaixo do nível de outros atores brasileiros – como Matheus Nachtergale e o próprio Selton Mello (ainda que eu tenha muitas ressalvas sobre ele).

A tela preta aparece e, chocada por alguns bons segundos, não consegui encontrar a resposta à pergunta: “o que Estômago tem de especial?”. Sem resposta, a frustração deixada pelo filme foi enorme. Misturando tantos clichês quanto possível, as cenas são constrangedoras e mostram que nem todos os filmes brasileiros ainda estão prontos para o circuito internacional.

Se é essa imagem tão pobre de valores que querem passar do Brasil, não podemos reclamar da maneira como enxergam nosso povo. Não tenho absolutamente nada contra produções nacionais, muito pelo contrário. Prova disso são os sucessos de bilheteria das sequências Se eu Fosse Você e Se eu Fosse Você 2, e O Casamento de Romeu e Julieta: despretensiosos, mas que tratam do cotidiano brasileiro de uma maneira diferente, sem falar de miséria.

Passados os créditos, pensei que poucas vezes me arrependi tanto de ter gasto quase duas horas da minha vida. Filmes como Estômago me fazem lembrar que ainda estamos bem longe das excelentes produções argentinas, que tratam de temas corriqueiros de maneiras extremamente inconvencionais e muito mais belas, sem apelação. Prova recente disso é Fuera de Carta, ou qualquer um dos longas com Ricardo Darín, o ídolo do cinema portenho.

Título: Estômago
Direção: Marcos Jorge
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Brasil/Itália): 2007
Roteiro: Lusa Silvestre, Marcos Jorge, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito; baseado no conto Preso Pelo Estômago, de Lusa Silvestre
Trilha Sonora: Giovanni Venosta
Fotografia: Toca Seabra
Tempo de Duração: 112 minutos
Com: João Miguel (Raimundo Nonato), Fabiula Nascimento (Iria), Babu Santana (Bujiú), Carlo Briani (Giovanni), Zeca Cenovicz (Zulmiro) e Paulo Miklos (Etecetera).

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Para aplacar a lacuna deixada pelo filme, a produção teve a criativa ideia de reunir os melhores blogueiros-cozinheiros, gente living alone – como a Chris Campos – para dar dicas sobre culinária em um livro homônimo. As receitas do longa, é claro, estão todas lá. Se o Estômago da telona é sem sal, o Estômago perto do fogão é de dar água na boca!