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Me Chame Pelo Seu Nome

março 10, 2018

NOTA: 6

É muito difícil começar a falar de um filme que todo mundo amou – foi considerado por muitos como o melhor de 2017 – sendo que, para mim, não é nem o melhor do ano passado e muito menos o melhor do gênero. Porque, essencialmente, Me Chame Pelo Seu Nome é um filme de amor entre duas pessoas. Aqui, no caso, elas não se definem nem como gays, bissexuais e nem como heterossexuais.

Passada nos anos 80 em um pequeno vilarejo da Itália, a trama gira em torno de como Elio e Oliver se conheceram. Elio passava as férias de verão com a família em um antigo casarão e seu pai, um acadêmico, contrata Oliver, um estudante de letras americano, para vir ajudá-lo com a pesquisa. Tendo que conviver por seis semanas confinados em um lugar remoto, Elio e Oliver estreitam relações de maneira que nenhum dos dois esperava.

Esse é o enredo principal, e tentarei não entrar em muitos detalhes. Porque, realmente, pouco acontece. Tal qual um narrador onipresente, acompanhamos a evolução de uma relação que não chega a ser bem amizade. Enquanto Elio é um garoto de 17 anos que está descobrindo a própria sexualidade e desabrochando para o mundo, Oliver é um homem mais velho, de presença forte e confiante. Alto e bonito, ele encanta a todas as meninas do vilarejo – uma em especial.

O diretor Luca Guadagnino quer nos mostrar que existe uma atração inevitável entre os dois. Ao mesmo tempo em que Elio se sente atraído e hipnotizado, a presença de Oliver também o intimida e o afugenta – o que é evidente na cena em que Oliver está jogando vôlei e tenta tranquilizar o menino. Então, ainda que sinta certo ciúme desse porte belo e forte, Elio se aproxima aos poucos do rapaz. Sua fascinação, ainda que repentina, é compreensível.

A relação de ambos é retratada, para mim, de maneira tão abrupta quanto a montagem – e há uma cena em especial que mostra um claro erro, na qual Elio está ao piano tocando Bach e Armie Hammer abre a boca para falar e é literalmente cortado. Ui! A sutileza com a qual Guadagnino tenta mostrar esse romance é tão tênue que não há clima de romance nenhum até a cena de sexo entre os dois. A aparente obsessão de Elio por Oliver aparece de maneira repentina, como se perder a virgindade com uma menina não tivesse significado nada.

Já o que Oliver sente é uma absoluta incógnita. Na dinâmica bate-e-assopra, ele representa a grande falha dos dois personagens: a falta de profundidade emocional. Ainda que acompanhemos tudo através dos olhos de Elio, nem mesmo a boa atuação de Timothée Chamalet consegue dar a intensidade necessária para a relação. Tudo soa frio, distante e sem emoção, em parte pela atuação morna de Armie Hammer.

E ainda que para mim as referências históricas – resgate de estátuas antigas, passagens de Heráclito e Heptameron, etimologia e catalogação de arquivos sobre esculturas – sejam puro deleite, o resto da história infelizmente não se sustenta sozinho. Não sei se preciso dizer, mas claramente não é por se tratar de um amor gay. Já vi filmes gays mais sensíveis (o próprio Brokeback Mountain é um deles) e mais fortes (o maravilhoso Shortbus), e esse não consegue se decidir por nenhum lado, ficando em cima do muro entre um romance apaixonado e um caso de verão que não sobe a serra.

Inclusive, a escolha de mostrar o sexo heterossexual entre Elio e a garota é muito mais desnecessariamente expositivo do que o sexo entre Elio e Oliver. Enquanto no heterossexual há peitos, a câmera em cima do ato acompanhando cada respiro dos meninos, no homossexual há torsos e nádegas, mas nada da relação em si. Não que eu estivesse esperando um pornô, mas acredito que esconder a câmera em um momento de intimidade como esse (corta o sexo e volta para a cena com ambos deitados na cama, abraçados) tira todo o peso da relação, que já era frágil narrativamente falando.

Como se o sexo deles fosse menos apaixonado ou menos digno de ser mostrado sem pudores. Não é uma questão de sutileza, tampouco. Como disse acima, a linha entre sutileza e obviedade ficou tênue demais, não permitindo, para mim, uma aproximação real do romance. Não me senti conectada com aquele par. Há, também, um sério problema de continuidade que me fez questionar o tempo inteiro se os dois já se conheciam antes daquele episódio, ou porque se tratavam de maneira tão esquisita. Só pude supor que a falha é do roteiro de James Ivory.

Me perguntei porque a princípio eles pareciam competir por atenção ou porque não podiam falar do amor um pelo outro – se era uma limitação do próprio tempo em que viviam, aquele era o lugar perfeito para construir algo novo. Além disso, com um roteiro fraco e cheio de buracos – não consegui sentir força na frase que dá título ao filme – Ivory evoca poucos momentos realmente memoráveis, como a cena do pêssego e a própria relação dos dois quando já estão juntos no terceiro ato. No mais, falta intensidade, paixão e medo diante do desconhecido.

Mas o filme não é uma decepção completa. Além das referências históricas, a fotografia de Sayombhu Mukdeeprom é cálida e agradável, aproveitando as paisagens idílicas e criando uma espécie de fábula de verão. A relação entre Elio e sua família é, também, um dos pontos altos – e a melhor cena do longa é a conversa final que o menino tem com o pai. Mas, como história de amor, Me Chame Pelo Seu Nome – assim como A Forma da Água – deixa muito a desejar.

Título Original: Call Me By Your Name
Direção: Luca Guadagnino
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: James Ivory
Trilha Sonora: Sufjan Stevens
Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom
Tempo de Duração: 2h12
Com: Armie Hammer (Oliver), Timothée Chalamet (Elio), Michael Stuhlbarg (Mr. Perlman), Amira Casar (Annella Perlman), Esther Garrel (Marzia), Victoire Du Bois (Chiara).

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A Forma da Água

março 2, 2018

NOTA: 6

Quando vi que o novo filme de Guillermo del Toro estava concorrendo a diversos prêmios do Oscar, pensei em duas alternativas: ou ele mudou seu estilo tão próprio para algo mais comerciável, ou ele fez um novo O Labirinto do Fauno – uma fábula maravilhosa sobre perda, vida e morte durante a Guerra Civil espanhola. Infelizmente, a primeira alternativa é a que mais se aproxima da realidade, embora ele certamente tenha buscado o mesmo tom de poesia de sua obra-prima.

A história gira em torno de Elisa Esposito, uma moça muda e solitária, que trabalha de faxineira em um laboratório do governo nos anos 60 e tem como melhores amigos seu vizinho gay, Giles, e Zelda, sua colega de trabalho. E, ainda que seja muda, Elisa não parece perder as boas coisas da vida. Além de ter como hábito diário fazer ovos cozidos de lanche, ela se masturba todos os dias – o que é mostrado em cena numa tentativa de quebra de tabu – e frequentemente visita Giles em seu apartamento. Os dois dividem a paixão por musicais e até tem um número adorável no qual sapateiam juntos no sofá. A única coisa que lhe falta é o amor.

Utilizando o contexto da Guerra Fria, a vida de todos muda quando os cientistas trazem uma criatura-peixe misteriosa, uma espécie de deus reverenciado na Amazônia latina. Elisa, imediatamente fascinada, estabelece um contato amistoso, primeiro oferecendo comida e, depois, colocando músicas e dançando para “ele”. Assim, com estilo que me lembrou Peixe Grande, o longa tem tom fabulesco desde o início, ajudado em grande parte pema fotografia de Dan Laustsen e pela bela trilha de Alexandre Desplat. A “princesa muda” aparece logo na primeira sequência dormindo na sua própria sala de estar, mas debaixo d’água, já dando indícios do que vai acontecer.

Obviamente nem tudo são flores, pois obviamente há um novo chefe de segurança que obviamente não se dá bem com a criatura e a maltrata sem motivo aparente (vivido por Michael Shannon, obviamente). Percebem? É um roteiro que já vimos mil vezes e, a partir do momento no qual Elisa decide ajudar a criatura, sabemos de praticamente tudo que vai acontecer a seguir. É uma mistura bizarra entre Pocahontas e Ela, na qual Elisa se apaixona por uma “pessoa” tão diferente e precisa salvá-la de seus pares malvados.

Uma das coisas que mais me incomodou em A Forma da Água (como podem ter percebido) foi a obviedade no geral, a começar por Strickland, vivido por Michael Shannon como todos os vilões que este já fez. Sua ambição é vaga – ele é um veterano que trabalha para o governo – e sua maldade injustificável ou incompreensível. A princípio, pensei que poderia ser por ciúmes, mas ao longo de toda a projeção, ele se comporta de maneira igual, antes ou depois de se interessar por Elisa.

Além do que, há demasiadas cenas envolvendo sua família e momentos mais íntimos de sua vida particular como se isso fosse indicar alguma mudança de caráter, e não indica. O personagem de Michael Stuhlbarg, que parece estar ali só para contextualizar a trama política que está por trás, também tem uma trajetória bastante óbvia, por todos os sinais que vai dando ao longo do filme. Aqui ele não se sai tão bem como o pai de Elio em Me Chame Pelo Seu Nome.

Mas o filme não é só obviedades. A direção é muito boa, e há cenas interessantes, como a da transição de sonho para musical ou a realização do sonho de toda criança: transformar o banheiro em uma piscina gigante. A fotografia também é muito boa, bem como a trilha, e as atrizes se saem maravilhosamente bem. Octavia Spencer protagoniza alguns dos melhores momentos do filme. Sua personagem, cheia de sarcasmo, é o oposto daquele vivido no bom Estrelas Além do Tempo, já que no último ela é uma mulher que se impõe e neste ela é apenas uma faxineira assustada. E é muito curioso reparar como as cenas nas quais ela aparece limpando foguetes ou a sala de controles fazem uma rima com o longa de Theodore Melfi. O diretor de elenco, Robin Cook, está de parabéns pela escolha.

Já Sally Hawkins encarna Elisa com doçura e confiança, embora a falta de complexidade da personagem impede que se sinta aquilo que ela sente: o amor passional, incondicional. No entanto, preciso ressaltar que o filme é passado na década de 60, e as pessoas com as condições de Elisa eram frequentemente marginalizadas. De qualquer maneira, mesmo sabendo disso, o personagem não parece nada infeliz. Sua incompletude me foi estranha e sua curiosidade tão intensa pela criatura me soou forçada – embora eu entenda que ela estava em busca de um amor simples e verdadeiro. Não julgo as formas de amor como elas se expressam, seja por homens-peixe ou por robôs. Só não consegui me conectar no mesmo nível quem em Ela, por exemplo.

Acontece que A Forma da Água, por mais poético que seja, jamais chega a alcançar o nível de carisma necessário para que nos apaixonemos pela criatura como Elisa o faz. É um ser humanóide, com alguma inteligência (já que consegue reproduzir a língua de sinais que a moça lhe ensina) e zero aparência. É um peixe. Não há como tirar dali qualquer reação amorosa. Quase não dá para tirar nada, já que o ser nem sequer transparece emoções e faz barulhos bizarros de monstro marinho. Aliás, a criatura se parece muito com uma coisa específica: o personagem Abe de Hellboy, um dos primeiros filmes do cineasta mexicano O ator é o mesmo Doug Jones de sempre, e a semelhança física entre este e aquele é patente.

Resumindo, A Forma da Água é um filme gostoso e visualmente bonito, mas que tirou o lugar de filmes melhores na competição por sua ambição de retratar um amor inusual mas que, para mim, peca por falta de carisma e paixão.

Título Original: The Shape of Water
Direção: Guillermo del Toro
Gênero: Aventura, drama, fantasia
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Fotografia: Dan Laustsen
Tempo de Duração: 2h03
Com: Sally Hawkins (Elisa Esposito), Michael Shannon (Richard Strickland), Richard Jenkins (Giles), Octavia Spencer (Zelda Fuller), Michael Stuhlbarg (Dr. Robert Hoffstetler), Doug Jones (homem-peixe), Nick Searcy (general Hoyt).

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Blade Runner 2049

outubro 19, 2017

NOTA: 6

Já é um fato: quanto mais eu leio, ouço e penso sobre o novo Blade Runner, menos gosto das conclusões tiradas (ou deixadas ao léu) pelo diretor Dennis Villeneuve. Responsável pelo mediano Sicario, pelo bom Os Prisioneiros e pelo excelente A Chegada (do qual ainda falarei aqui), o cineasta já demonstrou que gosta de trazer questões filosóficas complicadas envolvendo a essência humana (linguagem, alma, memória), muitas das quais bem trabalhadas. Outras, nem tanto. É o caso da “continuação” do clássico-cult de 1982.

O original, dirigido por Ridley Scott, foi criado em um universo distópico, num futuro ciberpunk, uma Los Angeles não tão distante de hoje. O diretor desenvolve questões como: o que nos torna humanos? São os sentimentos? São as memórias? Esse questionamento foi tão imaginativo e interessante que ficou gravado a fogo em nossas memórias, com as excelentes atuações de Daryl Hannah e Rutger Hauer.

Criado neste mesmo universo, mas 30 anos depois, Blade Runner 2049 mantém a mesma atmosfera sombria que caracterizou seu filme-mãe. O andróide KD6-3.7 – ou somente K – é um policial que caça os replicantes antigos para aposentá-los (leia-se: exterminá-los). Ele vive com sua namorada, a inteligência artificial Joi, que se materializa em forma de um holograma. Tanto K quanto Joi foram criados pela empresa de Niander Wallace, um personagem inescrupuloso que cria replicantes para serem escravos dos humanos. Ao lado dele está Luv, sua assistente androide fria e calculista. Digo que Wallace é um personagem (e não um homem ou robô), porque sua verdadeira natureza é desconhecida – e voltarei nisso mais adiante. Enquanto K persegue os humanoides, auxiliado pela tenente de sua divisão, ele tenta lidar com uma forte memória que o persegue, sempre auxiliado pela fiel Joi.

Vou dividir o texto entre as coisas positivas e negativas que encontrei. Os pontos positivos do filme são realmente muito poucos, mas que praticamente fazem a película funcionar: a magistral e sempre diversa fotografia de Roger Deakins – responsável por algumas das cenas mais famosas do Cinema, passando por Um Sonho de Liberdade, todos os filmes dos irmãos Coen, Uma Mente Brilhante, Dúvida, Skyfall e até a animação Rango. Se tem algo aqui que indubitavelmente não falha é a atmosfera que Deakins imprime, ora com suas paisagens cinzentas, chuvosas, abandonadas e tristes, ora com vislumbres de terras desoladas, desérticas, cobertas de areia e esquecidas pelo tempo. Os sets de filmagem são realmente muito bons, e a paleta de cores nos ajuda a entender onde o filme quer nos levar – quando é amarelada e quente, é ali onde está o que realmente importa.

Embora muito sintética e artificial, no sentido de ter muitos instrumentos digitais, a trilha sonora de Hans Zimmer – que está se convertendo em figurinha carimbada das grandes produções de Hollywood, e provando porque deve ser o sucessor de John Williams – traz elementos austeros e quase alienígenas, que não soam exatamente “do nosso mundo”. O que isso quer dizer, em termos cinematográficos, é como nosso protagonista se sente com relação a ele mesmo e a tudo que o cerca.

Os pontos positivos acabam por aí. A partir do momento em que passamos a tentar desvendar a trama, a coisa embola e surgem mais dúvidas e contestações do que o próprio diretor (imagino) queira ter levantado. A impressão que dá, realmente, é que o roteiro de Hampton Fancher e Michael Green quis trazer a mesma quantidade de informações e questionamentos filosóficos que Ridley no passado, e o que conseguiu foi uma salada de ideias mal desenvolvidas, personagens pouco profundos e que não conectam com o público, pecando por falta de carisma.

Além disso, o filme é excessivamente longo e tem sérios problemas de ritmo – e eu não digo isso porque tenho preguiça de filmes longos. Vamos falar de …E o Vento Levou, aquele épico com quase três horas de duração? Enfim. Há demasiadas cenas de flashback, no qual K revive alguns diálogos que havíamos visto há pouco. Isso, para mim, é como se Villeneuve não acreditasse na capacidade do público de seguir sua história – que não é complexa; apenas longa. Ao invés de usar esses momentos de presunção masturbatória, teria sido melhor explicar as várias pontas soltas que o roteiro deixa (mais sobre em seguida).

Há, também, excesso de momentos desnecessários, como o próprio encontro entre K e outro personagem em um hotel abandonado. Após um curto diálogo no qual não entram em acordo, os dois começam uma perseguição de gato-e-rato totalmente inexplicável (com direito a explosões e tudo, a lá Michael Bay) e que termina em uma sala de entretenimento com um holograma do Elvis. Ali, acabada a argumentação, parte-se para aquilo que se tornou a especialidade dos filmes vazios de Hollywood: socos. Podem reparar. Quando não há nada mais a ser dito, é aí aonde se chega.

De qualquer maneira, Blade Runner 2049 traz algumas questões que Ridley colocou sobre aquilo que nos faz humanos. Neste caso, estamos falando da memória. Mas há tantas incongruências no desenvolvimento do enredo que é impossível fechar os olhos a isso e ficar pirando no que resta de bom (que, como viram, é pouco). Além disso, a trama é extremamente enviesada. A cena mais mal formulada de todo o filme é justamente uma das mais importantes, quando K visita um personagem e descobre algo fundamental sobre sua memória. A partir desse momento, K passa a acreditar em uma coisa distinta do que foi levado a crer toda sua vida. E com essa nova descoberta, o longa implica que K é de fato essa coisa que ele passa a acreditar.

Nós, obviamente, entramos na onda. Não somente acompanhamos a descoberta do próprio personagem, como todos os sinais que o filme nos dá são de que ele está na pista certa. Ao mesmo tempo, a tal revelação deixa uma sensação ambígua que pode nos induzir a uma conclusão, enquanto o filme nos está forçando a pensar uma coisa oposta – pelo enredo, pela ação dos personagens etc. Imaginem, portanto, o choque do espectador ao se ver enganado. O que deveria ser uma grata surpresa é a revelação daquela dúvida que surgiu uma hora antes, e que foi pouco a pouco desconstruída pela narrativa para depois ser trazida à tona novamente – como se a revelação fosse causar qualquer comoção. Não causa.

Não só isso, mas parece que K – aquele a quem acompanhamos durante mais de metade da projeção – é apenas uma alavanca para uma história mais importante, de um personagem mais importante: Deckard. Não é spoiler para ninguém que Harrison Ford faz parte do elenco. O que acontece com a narrativa, no entanto, é uma guinada brusca para desvendar o caso mal resolvido envolvendo Deckard – e não K. O até então protagonista passa a não importar mais. Ele acreditou naquilo que quis acreditar – e isso eu até posso entender. Mas certamente não da maneira como foi colocado.

Coisa semelhante acontece com Luv. A assistente de Wallace é um personagem odioso, mas justamente porque emana ódio em todas as suas relações – exceto com o chefe (ou talvez não; incógnita). Ela mata indiscriminadamente e faz questão de ser “a melhor”. Por quê? Para que? Melhor do que quem? Por que esse ódio tão irascível? É contra sua própria espécie? É contra os humanos? Inveja? Não se sabe. Wallace, também, deixa muito a desejar. Embora o desempenho de Jared Leto esteja de acordo com o personagem – alguém que se crê mais do que deus – o personagem é raso como um pires. O fato de ser androide ajudaria a entender suas motivações, mas nem isso se sabe. Apenas supomos que ele é um humano, pois deu a Luv o apelido pelo qual ela atende – ele a chama, carinhosamente, de “amor” (luv = love).

Para finalizar, grande parte da violência é completamente injustificável – e olhem que eu curto filmes violentos. A ação não se sustenta por si só. É justamente nesse contraste, na presunção, na extensão onde não deveria e em tudo o que ficou não dito, há discordância, confusão e mil elucubrações das coisas que podem ser ou não –, mas que não aparecem no longa. E se não aparecem, só significa uma coisa: a história está mal contada. Se eu preciso investigar, assistir curtas-metragens (como estão dizendo por aí) para complementar uma história, é porque ela é fraca. O que eu vejo na telona deveria ser suficiente. Deveria bastar. Se quiser fazer com que eu pense no mistério, como em A Origem, o roteiro precisa ser mais sólido. Continuo, até agora, sem entender as motivações de diversos personagens. E, por isso, Blade Runner 2049, para mim, deixa muito a desejar.

Título Original: Blade Runner 2049
Direção: Dennis Villeneuve
Gênero: Mistério, sci-fi e thriller
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green, baseado no livro de Phillip K. Dick
Trilha Sonora: Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch
Fotografia: Roger Deakins
Tempo de Duração: 164 minutos
Com: Ryan Gosling (K), Dave Bautista (Sapper Morton), Robin Wright (tenente Joshi), Ana de Armas (Joi), Sylvia Hoeks (Luv), Jared Leto (Niander Wallace), Harrison Ford (Rick Deckard) e Sean Young/Loren Peta (Rachael).

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American Sniper

fevereiro 26, 2015

american-sniper-poster-internationalNOTA: 6,5

Considerando a filmografia mais recente de Clint Eastwood, é possível perceber um padrão temático do cineasta. As histórias de cidadãos americanos que se transformam em grandes heróis para salvar o país da ameaça iminente dos inimigos do mundo ocidental. É assim em American Sniper, seu mais novo longa.

O foco é a vida do franco-atirador de elite Chris Kyle, um homem simples que desiste de ser caubói e se alista no exército após o ataque às torres gêmeas de Nova York. Mais do que apenas mostrar os feitos do militar no exterior – ele foi o maior franco-atirador da história dos Estados Unidos, com 160 mortes – Clint se preocupa em expor a vida amorosa e as questões morais que permeavam a mente de Kyle.

Vemos como um homem amoroso e alegre se casa com Taya (a sempre belíssima, e em excelente atuação, Sienna Miller) e, após quatro anos viajando para o Oriente Médio, se transforma em um robô sem sentimentos, preocupado apenas com as pessoas que deixou para trás e não conseguiu salvar naquela que foi (e ainda é) considerada a guerra mais sem sentido dos últimos séculos.

É interessante observar como Eastwood se preocupa em mostrar mais do que apenas o serviço excepcional do atirador – excepcional se considerarmos que ele estava lá para abater “inimigos”, e o faz com êxito absoluto. Percebemos as dúvidas durante suas missões e, embora hesite, vemos como ele sente o peso e a responsabilidade de suas ações quando, por exemplo, tem de decidir exterminar uma criança armada com um míssil ou não.

Assim, é um mérito do diretor conseguir retratar a dubiedade da guerra americana contra o Oriente a partir de um personagem tão patriota como Kyle que, estando em casa com a mulher e os filhos, não consegue tirar a cabeça das terras áridas do Iraque. É preciso reconhecer, também, a atuação precisa de Bradley Cooper que encara Kyle como um homem de convicções definidas. Isso dito, é preciso pontuar algumas coisas que vêm me incomodando nas últimas produções de Eastwood.

À parte o patriotismo exacerbado (embora reconheça o esforço de equilibrar esse sentimento), parece que Clint se esquece que está lidando com um público acostumado a obras-primas como As Pontes de Madison e Os Imperdoáveis. Com uma direção esquemática, Eastwood não faz o menor esforço em esconder alguns planos óbvio e a fala imbecilizada de Kyle (mas suponho que isso seja um erro da natureza ao concebê-lo).

A trilha sonora, igualmente óbvia, sequer precisa indicar ao espectador o que virá a seguir. Alguns recursos de câmera – como as duas mãos que se encontram durante a tempestade de areia e a da cena final – são patéticas e demasiadamente expositivas. O design de som é eficiente ao evocar sons da guerra enquanto Kyle está em casa, mas jamais consegue fazer com que sintamos pena dele pelo estresse pós-traumático pelo qual está passando.

Sem contar na aberração que é o bebê-boneco, que aparece em determinada cena entre Kyle e Taya. Uma das cenas mais dramáticas do filme é completamente arruinada pelo absurdo que é ver um bebê claramente artificial em cena. Compreendo que dificuldades no set acontecem, mas utilizar um boneco com os bracinhos soltos pelo corpo – indicando sua antinatural natureza – e ainda fazer com que Cooper brinque com uma mãozinha inanimada é uma das coisas mais anticlimáticas que vi nos últimos tempos. O resto do cinema parecia concordar comigo, já que causou uma crise de riso totalmente fora de contexto e que quebrou o momento da atuação emocionada de Miller.

Repetitivo e excessivamente longo, American Sniper – traduzido de maneira estúpida como Sniper Americano em português, já que deveria ser “Franco-atirador Americano” – é o filme que me fez decidir não querer mais assistir a Clint Eastwood no cinema até o momento em que ele decida parar de falar sobre a guerra dos Estados Unidos com o mundo. Por favor, Clint, apenas pare.

Título Original: American Sniper
Direção: Clint Eastwood
Gênero: Ação, biografia e drama
Ano de Lançamento (EUA): 2014
Roteiro: Jason Hall, baseado no livro de Chris Kyle, Scott McEwen e James Defelice
Fotografia: Tom Stern
Tempo de duração: 132 minutos
Com: Bradley Cooper (Chris Kyle), Sienna Miller (Taya), Jake McDorman (Biggles), Sammy Sheik (Mustafa), Tim Griffin (Colonel Gronski), Navi Negahban (Sheikh Al Obodi), Mido Hamada (“Açougeiro”).

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Lanterna Verde

agosto 22, 2011

A falha do Lanterna

Com roteiro burocrático a história de Hal Jordan é contada de maneira sem graça através da atuação medíocre de Ryan Reynolds

NOTA: 6,5

Já é o momento de se dizer que a DC Comics finalmente está pronta para rivalizar com a Marvel nos cinemas: Lanterna Verde é tão ruim quanto Homem de Ferro 2 e Thor. Ruim é pouco para dizer o quanto os fãs do guardião esmeralda irão se decepcionar. Não só por terem transformado Hal Jordan em um herói babaca e sem motivações reais, mas por omitirem que a tropa dos Lanternas Verdes é das coisas mais sensacionais que a gigante dos quadrinhos já criou.

Uma narração em off explica o início da Tropa, quando os imortais guardiões que criaram Oa dominaram a energia verde, fizeram aneis que canalizam seu poder e os entregaram aos guardiões de cada setor do universo –, e como Abin Sur, um dos maiores guerreiros do setor 2814, capturou o monstro Parallax confinando-o ao isolamento. O vilão é uma das encarnações mais relevantes da cronologia dos Lanternas, e é retratado no filme como um dos guardiões que absorveu a poderosa energia amarela do medo, a única que a verde não consegue penetrar ou destruir – um conceito resgatado da ingênua Era de Prata nos quadrinhos.

Com um bombardeio de efeitos especiais (alguns não tão bem feitos quanto outros), vemos Parallax alimentando-se do medo de alguns exploradores alienígenas, se libertando e indo atrás de Abin Sur para a vingança. Enquanto isso, o experiente (mas atrapalhado) piloto Hal Jordan acorda com uma mulher desconhecida em sua cama e sai atrasado para um importante teste na Ferris Aeronáutica. A ação frenética migra do embate entre Abin Sur-Parallax e de como a nave do Lanterna vem parar na Terra – enquanto o monstro escapa e vai dominar alguns planetas – às manobras de Jordan, que decide se exibir só para mostrar como é bonzão.

No meio do voo, porém, o piloto (por efeito da altitude) tem visões de seu falecido pai – cujo avião explodiu em uma situação semelhante – em flashbacks bastante significativos aos fãs do personagem. Ao contrário do que os quadrinhos mostram, o Hal Jordan do filme é um homem que abusa de frases clichês e de um carisma inexpressivo – graças à inexistência da atuação de Ryan Reynolds. A dubiedade de Sinestro aparece de forma bastante convincente na pele de Mark Strong, e Geoffrey Rush dá uma pontinha de seu talento para Tomar-Re. Nada disso é suficiente, contudo, para salvar a película das cenas sofríveis em que Reynolds e Peter Sarsgaard aparecem juntos (este último como o cientista Hector Hammond).

Não farei o vão esforço de citar cena a cena comparando quadrinhos e filme. Só digo que o primeiro terço é aceitável e tem momentos até razoáveis – como o encontro de Hal e Abin Sur, ou a maneira como o próprio cotidiano é imposto. Notem, por exemplo, que Hal liga para o amigo Tom pedindo para ir buscá-lo, o que torna todos os fatos fantásticos mais verossímeis. Em contrapartida quase todas as (raras) cenas boas são esmagadas pela quantidade absurda de diálogos e situações clichês (sim, há falas como “eu não quero que você se machuque” ou “fico feliz que você esteja bem”) e excesso de humor, que acabam se deslocando da trama.

A escolha dos quatro roteiristas de colocar Parallax (e não Atrocitus, por exemplo) como o primeiro vilão a ser enfrentado pelos heróis esmeraldinos é até compreensível, uma vez que Parallax induz mais medo e desafios do que o segundo. Mas a maneira como a última batalha é travada não condiz em absoluto com o significado que o vilão amarelo tem na história de vida de Jordan. E se esse fosse o único problema estaria tudo mais ou menos bem. O roteiro, que é por si só um rebento com má formação, faz questão de colocar o protagonista nas situações mais esdrúxulas possíveis, provando tão somente que ele é um meninão irresponsável e idiota – e não um homem com dúvidas e angústias reais como o personagem dos quadrinhos.

A complexidade de Hal Jordan é tão profunda quanto a de um pires, e o roteiro limita-se a explorar o sofrimento causado pela morte do pai – as relações com a mãe, os irmãos e Carl Ferris são praticamente esquecidas. A vegonha alheia é frequente demais para um filme que deveria elevar os heróis ao mais alto patamar da glória (a cena em que Hal mostra o traje dos Lanternas para Tom, ou o discursinho patético de “somos apenas humanos e sentimos medo yadda yadda yadda” com os guardiões são de querer enfiar a cabeça num buraco e nunca mais tirar). Mesmo com todos os defeitos (que não são poucos), pelo menos é interessante notar que Hal é um herói que apanha: ele se dá bem no final por sua coragem e não pela destreza na luta (o que é, afinal, o mote dos Lanternas Verdes).

O design de produção se sai razoavelmente bem, por exemplo, pela fluidez da cena em que os civis fogem descontroladamente de Parallax quando este chega a Terra. Mas novamente peca na falta de imaginação de todos os poderes que o anel pode dar – é só a arma mais poderosa do mundo, com a qual se pode fazer absolutamente qualquer coisa! Para piorar há até mesmo uma cena de mocinho-donzela (Blake Lively méh) em um alaranjado pôr-do-sol, uma coisa meio Tieta do Agreste de Hollywood. Deplorável.

A trilha sonora de James Newton Howard (responsável por embalar King Kong) é igualmente clichê, sem uma única nota marcante. Até a cena adicional durante os créditos é óbvia já no meio da projeção. Nem mesmo o pesado marketing da Warner foi suficiente para salvar a produção. E quando digo pesado, imaginem que junto com o presskit recebemos uma lista imensa de produtos que serão lançados junto com o filme que, acreditem, tem até pote de cotonete.

Lanterna Verde merecia um destino igualmente fantástico como os Batmans comandados por Christopher Nolan – estou convencida de que ele deveria se encarregar de todas as próximas produções da editora. Mas é, enfim, um filme tão expressivo para a cinematografia da DC quanto a atuação de seu protagonista.

Titulo Original: Green Lantern
Direção: Martin Campbell
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Michael Goldenberg, Marc Guggenheim, Michael Green e Greg Berlanti
Trilha Sonora: James Newton Howard
Fotografia: Dion Beebe
Tempo de Duração: 105 minutos
Com: Ryan Reynolds (Hal Jordan), Blake Lively (Carol Ferris), Peter Sarsgaard (Hector Hammond), Mark Strong (Sinestro), Tim Robins (Senador Hammond), Angela Bassett (Dra. Amanda Waller), Temuera Morrison (Abin Sur), Jon Tenney (Martin Jordan), Amy Carlson (Jessica Jordan), Jay O. Sanders (Carl Ferris), Mike Doyle (Jack Jordan), Taika Waititi (Thomas Kalmaku), Geoffrey Rush (voz de Tomar-Re), Clancy Brown (voz de Parallax).

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Rio

abril 26, 2011

Brasil que não dá certo

Apesar da excelente fotografia e direção de arte, a animação de Carlos Saldanha expõe os clichês brasileiros como se tivesse sido feito por um estrangeiro

NOTA: 6

Não pude assistir a Enrolados no cinema, e agora que o trauma passou, posso dizer que foi um alívio. Assistir a uma animação em qualquer dia que seja já é um pouco difícil, dada a quantidade de crianças presentes na sala. Uma animação dublada, contudo, atrai o público infantil em massa, deixando qualquer adulto sem a companhia de uma criança completamente desorientado. A gritaria e a bagunça já são esperadas e, como consequência, o envolvimento acaba sendo um pouco prejudicado.

Mas infelizmente não é esse o motivo pelo qual Rio é um filme fraco. Pelo contrário. As crianças constituem um termômetro bastante plausível. Gritar, dançar e vibrar com determinadas cenas e persongens é um sinal de que algo vai bem – ainda que seja um reconhecimento inconsciente. Neste caso, é curioso notar que o longa causou pouca comoção no público – incluindo a mim. As cenas que mais impressionaram os pequenos certamente eram aquelas de muitas cores. Como o filme é praticamente só isso, bem…

A premissa é boa, confesso. O fato de uma ararinha azul ter o samba no sangue e se sentir sensibilizada a cada vez que ouve o som é interessante, se o diretor Carlos Saldanha não tivesse tentado explorar o estilo e o contexto de uma maneira saudosista. A realidade do país de modo geral não condiz em nada com o Rio de Janeiro do filme, onde era ainda um local paradisíaco, motivo de sonho de todos os gringos que pensavam no Brasil como a terra do samba, mulheres de biquíni e cobra na rua – pode dizer que você se lembrou daquele fatídico episódio dos Simpsons. Eu lembrei.

O começo do filme é perfeito: aves coloridas de todos os tipos se alegram e mostram suas belas cores dentro de uma floresta no meio da cidade, ao som do mais puro samba. Um filhote bonitinho (é pleonasmo?) acorda em meio a festa e se envolve com o ritmo alucinante, até descobrir que não pode voar como os outros pássaros – em uma cena vivamente tocante e, bem, fofa. Capturado e enviado para os Estados Unidos (ou o “não Rio”), ele é acolhido pela carinhosa e dedicada Linda, que o trata doentiamente, posso dizer, como seu melhor amigo. Blu rapidamente se acostuma com o conforto de um animal de estimação, vivendo com prazer dentro de sua gaiola e com regalias típicas de um bicho mimado – tenho um cachorrinho, posso confirmar.

Tudo parecia ir bem, até o brasileiro Túlio aparecer e alegar que Blu precisava se acasalar com uma fêmea para propagar a espécie das ararinhas – e ao contrário da vontade de Linda, todos deveriam ir ao Brasil para as aves se conhecerem. E tudo – repito, tudo – que acontece depois que Blu e Jade se conhecem é previsível e sem graça. À exceção de um ou outro plano interessante (como o de Fernando sentado em um barraco da favela à noite, enquanto vemos o plano se estender para a baía iluminada), que em sua maioria mostram as paisagens virtuais – mas que parecem reais – da cidade viva e colorida, todo o resto é descartável.

Roteiro de Don Rhymer é clichê e mal desenvolvido, personagens que não são memoráveis (ainda que sejam graficamente muito bem feitos) e pouco profundos, piadinhas que pouco ou quase nunca têm o efeito desejado, vilão com propósitos estúpidos e – o que me parece pior – uma visão do Brasil que nós, brasileiros, odiamos ver retratada para o mundo. É verdade que a prerrogativa de denunciar o contrabando de animais é de extremo interesse mundial, mas é uma pena que tudo seja permeado por momentos que desviam a atenção do público para focar, por exemplo, em uma briguinha de casal que se-ama-mas-não-admite.

O diretor tinha a oportunidade de ouro de mudar como o mundo nos vê e fazer uma narrativa inteligente e interessante. Ao invés disso, parece que se deixou levar pelo afã de que o Rio é maravilhoso de qualquer jeito, não importa o contexto. Prova disso é o clímax que causa risos não pela genialidade, mas pela falta de senso e por encarar o espectador como um bobo apaixonado pela Cidade Maravilhosa – não importa o que aconteça, o Rio de Janeiro continua lindo. Sim, todos somos, mas não é bem assim que a coisa funciona, certo?

Portanto, apesar de ter excelente fotografia e uma trilha sonora agradável a qualquer ouvido – especialmente gringo ou saudosista (acho que Saldanha é uma mistura estranha de ambos) – os macaquinhos ladrões e as cenas musicais soam forçadas e fora de contexto. Aliás, a cena na qual os símios aparecem roubando as jóias dos turistas me deixou extramemente enfadada com o resto do longa. Quebrou o clima. Assim, mesmo com todas as boas intenções, Saldanha conseguiu somente reforçar os clichês negativos do roteiro sobre Brasil, subjugando a população e a própria música ao ridículo.

É uma pena admitir, enfim, que os bons momentos de Rio ficam perdidos na narrativa e somem com a quantidade de bobagens em torno dele.

Titulo Original: Rio
Direção: Carlos Saldanha
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Don Rhymer
Trilha sonora: John Powell, Sérgio Mendes e Will.I.Am.
Fotografia: Renato Falcão
Tempo de Duração: 96 minutos
Com: Jesse Eisenberg/Gustavo Pereira (Blu), Anne Hathaway/Adriana Torres (Jade), Leslie Mann/Sylvia Salustti (Linda), Rodrigo Santoro (Túlio), George Lopez/Luiz Carlos Persy (Rafael), Jamie Foxx/Alexandre Moreno (Nico), Jemaine Clement/Guilherme Briggs (Nigel), Will.I.Am/Mauro Ramos (Pedro), Jake T. Austin/Cadu Paschoal (Fernando), TracyMorgan/Júlio Chaves (Luiz), Bernardo de Paula (Sílvio), Carlos Ponce/Ricardo Schnezter (Marcel), Bebel Gilberto (Eva).

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Minhas Mães e Meu Pai

novembro 10, 2010

Convenções para quê?

Lisa Cholodenko tenta estimular a discussão contra o preconceito homossexual com novo longa, falhando miseravelmente

NOTA: 6

Se formos analisar Minhas Mães e Meu Pai superficialmente, diríamos que é um filme interessante por abordar a vida de uma família nada convencional: duas mulheres casadas, mães de filhos diferentes (uma menina e um menino) gerados a partir do esperma de um mesmo doador, vivem pacificamente debaixo do teto de um dos países desenvolvidos mais preconceituosos do mundo.

Sorte a sua, caríssimo leitor, que este blog não se presta a análises superficiais. Pois apesar de soar extremamente sensível ao lidar com o tema de pais homossexuais, o roteiro – feito a quatro mãos por Stuart Blumberg e a diretora, Lisa Cholodenko – se perde no meio do caminho. A primeira metade parece promissora, quando aborda a vida já em crise da paisagista Jules e a ginecologista Nic, e seus dois filhos, Laser e Joni.

Por insistência do irmão, Joni decide contatar o pai para que pudessem conhecê-lo e, assim, saber exatamente de quem herdaram alguns de seus genes. A princípio leve e divertido, Laser e Joni conseguem aproximar Paul das mães, fazendo com que se conheçam e criem uma mínima intimidade – a cena do primeiro encontro entre os pais é, de fato, bem concebida como extremamente constrangedora.

Há algumas cenas que dão brilho no começo do longa (como o fato das mães transarem vendo um filme pornô gay, ou a discussão a respeito da sexualidade de Laser), mas que imediatamente se perdem com o preconceito inato com o qual os personagens são desenvolvidos. A partir do momento que o roteiro estabelece Jules como uma pessoa mais sensível e suscetível a fatores externos, ela se envolve sem mais explicações em um romance com Paul. Sem acrescentar nada, isso só põe em jogo a sexualidade de Jules que, definitivamente, não estava em pauta.

Ao mesmo tempo em que coloca Jules como a sensível, Nic é pintada como o “macho’ da relação de maneira extremamente preconceituosa e caricata – é ela quem põe dinheiro dentro de casa, é ela a traída, a injustiçada e quem dá a palavra final. Curioso, não?

Mia Wasikowska se sai muito bem no papel da filha mais velha que está prestes a ir para a universidade, e é notável o esforço de Annete Benning e Juliane Moore ao retratar com fidelidade um casal lésbico. Mark Ruffalo também não se sai mal no papel de Paul, o pai e bonitão mulherengo – sua voz pacífica condizendo com o restaurante orgânico que administra.

Infelizmente, nem mesmo as atuações destes grandes atores foi suficiente para salvar os personagens mal desenvolvidos e de um egoísmo profundo. A partir do momento em que permitem a participação ativa de Paul na educação dos filhos (ainda que de maneira muito informal), elas o “aceitam” como um membro da família há muito perdido.

Estava tudo indo muito bem, até eu começar a perceber que o roteiro apontava o preconceito das mães como justificável pelo simples fato de elas serem gays. Sim, vamos apoiar o movimento, dizem eles. Vamos aproveitar para colocar uma negra maravilhosa no papel de uma mulher magoada com um homem garanhão. Se podemos conquistar uma minoria, porque não duas?

Paul ingressa na família com a mesma rapidez com que é dispensado – após sua última briga com Nic a respeito de estar “agredindo o núcleo familiar para o qual não foi convidado” (o que sabemos ser mentira) ele simplesmente desaparece de cena (como também já havia acontecido com os amigos de Laser e Joni). Porque, afinal, os meninos trouxeram Paul para a vida deles, se aproximaram dele e, quando começavam a entrar de cabeça no pai que jamais pensaram em ter, o expulsam? Quer dizer que ele não é nada importante? É engraçado como todo extremismo anti-preconceito é um preconceito em si.

Para arrematar, até mesmo o título em inglês soa superficial – afinal, o filme é do ponto de vista das crianças (Minhas Mães e Meu Pai) ou dos pais (The Kids Are Allright)? Nem mesmo isto ficou claro.

Titulo Original: The Kids Are Allright
Direção: Lisa Cholodenko
Gênero: Comédia dramática
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Stuart Blumberg e Lisa Cholodenko
Trilha Sonora: Carter Burwell, Nathan Larson e Craig Wedren
Fotografia: Jadue-Lillo
Tempo de Duração: 106 minutos
Com: Julianne Moore (Jules), Annette Benning (Nic), Mia Wasikowska (Joni), Josh Hutcherson (Laser), Mark Ruffalo (Paul), Yaya DaCosta (Tanya), Eric Eisner (Joel).