Archive for the ‘6’ Category

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American Sniper

fevereiro 26, 2015

american-sniper-poster-internationalNOTA: 6,5

Considerando a filmografia mais recente de Clint Eastwood, é possível perceber um padrão temático do cineasta. As histórias de cidadãos americanos que se transformam em grandes heróis para salvar o país da ameaça iminente dos inimigos do mundo ocidental. É assim em American Sniper, seu mais novo longa.

O foco é a vida do franco-atirador de elite Chris Kyle, um homem simples que desiste de ser caubói e se alista no exército após o ataque às torres gêmeas de Nova York. Mais do que apenas mostrar os feitos do militar no exterior – ele foi o maior franco-atirador da história dos Estados Unidos, com 160 mortes – Clint se preocupa em expor a vida amorosa e as questões morais que permeavam a mente de Kyle.

Vemos como um homem amoroso e alegre se casa com Taya (a sempre belíssima, e em excelente atuação, Sienna Miller) e, após quatro anos viajando para o Oriente Médio, se transforma em um robô sem sentimentos, preocupado apenas com as pessoas que deixou para trás e não conseguiu salvar naquela que foi (e ainda é) considerada a guerra mais sem sentido dos últimos séculos.

É interessante observar como Eastwood se preocupa em mostrar mais do que apenas o serviço excepcional do atirador – excepcional se considerarmos que ele estava lá para abater “inimigos”, e o faz com êxito absoluto. Percebemos as dúvidas durante suas missões e, embora hesite, vemos como ele sente o peso e a responsabilidade de suas ações quando, por exemplo, tem de decidir exterminar uma criança armada com um míssil ou não.

Assim, é um mérito do diretor conseguir retratar a dubiedade da guerra americana contra o Oriente a partir de um personagem tão patriota como Kyle que, estando em casa com a mulher e os filhos, não consegue tirar a cabeça das terras áridas do Iraque. É preciso reconhecer, também, a atuação precisa de Bradley Cooper que encara Kyle como um homem de convicções definidas. Isso dito, é preciso pontuar algumas coisas que vêm me incomodando nas últimas produções de Eastwood.

À parte o patriotismo exacerbado (embora reconheça o esforço de equilibrar esse sentimento), parece que Clint se esquece que está lidando com um público acostumado a obras-primas como As Pontes de Madison e Os Imperdoáveis. Com uma direção esquemática, Eastwood não faz o menor esforço em esconder alguns planos óbvio e a fala imbecilizada de Kyle (mas suponho que isso seja um erro da natureza ao concebê-lo).

A trilha sonora, igualmente óbvia, sequer precisa indicar ao espectador o que virá a seguir. Alguns recursos de câmera – como as duas mãos que se encontram durante a tempestade de areia e a da cena final – são patéticas e demasiadamente expositivas. O design de som é eficiente ao evocar sons da guerra enquanto Kyle está em casa, mas jamais consegue fazer com que sintamos pena dele pelo estresse pós-traumático pelo qual está passando.

Sem contar na aberração que é o bebê-boneco, que aparece em determinada cena entre Kyle e Taya. Uma das cenas mais dramáticas do filme é completamente arruinada pelo absurdo que é ver um bebê claramente artificial em cena. Compreendo que dificuldades no set acontecem, mas utilizar um boneco com os bracinhos soltos pelo corpo – indicando sua antinatural natureza – e ainda fazer com que Cooper brinque com uma mãozinha inanimada é uma das coisas mais anticlimáticas que vi nos últimos tempos. O resto do cinema parecia concordar comigo, já que causou uma crise de riso totalmente fora de contexto e que quebrou o momento da atuação emocionada de Miller.

Repetitivo e excessivamente longo, American Sniper – traduzido de maneira estúpida como Sniper Americano em português, já que deveria ser “Franco-atirador Americano” – é o filme que me fez decidir não querer mais assistir a Clint Eastwood no cinema até o momento em que ele decida parar de falar sobre a guerra dos Estados Unidos com o mundo. Por favor, Clint, apenas pare.

Título Original: American Sniper
Direção: Clint Eastwood
Gênero: Ação, biografia e drama
Ano de Lançamento (EUA): 2014
Roteiro: Jason Hall, baseado no livro de Chris Kyle, Scott McEwen e James Defelice
Fotografia: Tom Stern
Tempo de duração: 132 minutos
Com: Bradley Cooper (Chris Kyle), Sienna Miller (Taya), Jake McDorman (Biggles), Sammy Sheik (Mustafa), Tim Griffin (Colonel Gronski), Navi Negahban (Sheikh Al Obodi), Mido Hamada (“Açougeiro”).

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Lanterna Verde

agosto 22, 2011

A falha do Lanterna

Com roteiro burocrático a história de Hal Jordan é contada de maneira sem graça através da atuação medíocre de Ryan Reynolds

NOTA: 6,5

Já é o momento de se dizer que a DC Comics finalmente está pronta para rivalizar com a Marvel nos cinemas: Lanterna Verde é tão ruim quanto Homem de Ferro 2 e Thor. Ruim é pouco para dizer o quanto os fãs do guardião esmeralda irão se decepcionar. Não só por terem transformado Hal Jordan em um herói babaca e sem motivações reais, mas por omitirem que a tropa dos Lanternas Verdes é das coisas mais sensacionais que a gigante dos quadrinhos já criou.

Uma narração em off explica o início da Tropa, quando os imortais guardiões que criaram Oa dominaram a energia verde, fizeram aneis que canalizam seu poder e os entregaram aos guardiões de cada setor do universo –, e como Abin Sur, um dos maiores guerreiros do setor 2814, capturou o monstro Parallax confinando-o ao isolamento. O vilão é uma das encarnações mais relevantes da cronologia dos Lanternas, e é retratado no filme como um dos guardiões que absorveu a poderosa energia amarela do medo, a única que a verde não consegue penetrar ou destruir – um conceito resgatado da ingênua Era de Prata nos quadrinhos.

Com um bombardeio de efeitos especiais (alguns não tão bem feitos quanto outros), vemos Parallax alimentando-se do medo de alguns exploradores alienígenas, se libertando e indo atrás de Abin Sur para a vingança. Enquanto isso, o experiente (mas atrapalhado) piloto Hal Jordan acorda com uma mulher desconhecida em sua cama e sai atrasado para um importante teste na Ferris Aeronáutica. A ação frenética migra do embate entre Abin Sur-Parallax e de como a nave do Lanterna vem parar na Terra – enquanto o monstro escapa e vai dominar alguns planetas – às manobras de Jordan, que decide se exibir só para mostrar como é bonzão.

No meio do voo, porém, o piloto (por efeito da altitude) tem visões de seu falecido pai – cujo avião explodiu em uma situação semelhante – em flashbacks bastante significativos aos fãs do personagem. Ao contrário do que os quadrinhos mostram, o Hal Jordan do filme é um homem que abusa de frases clichês e de um carisma inexpressivo – graças à inexistência da atuação de Ryan Reynolds. A dubiedade de Sinestro aparece de forma bastante convincente na pele de Mark Strong, e Geoffrey Rush dá uma pontinha de seu talento para Tomar-Re. Nada disso é suficiente, contudo, para salvar a película das cenas sofríveis em que Reynolds e Peter Sarsgaard aparecem juntos (este último como o cientista Hector Hammond).

Não farei o vão esforço de citar cena a cena comparando quadrinhos e filme. Só digo que o primeiro terço é aceitável e tem momentos até razoáveis – como o encontro de Hal e Abin Sur, ou a maneira como o próprio cotidiano é imposto. Notem, por exemplo, que Hal liga para o amigo Tom pedindo para ir buscá-lo, o que torna todos os fatos fantásticos mais verossímeis. Em contrapartida quase todas as (raras) cenas boas são esmagadas pela quantidade absurda de diálogos e situações clichês (sim, há falas como “eu não quero que você se machuque” ou “fico feliz que você esteja bem”) e excesso de humor, que acabam se deslocando da trama.

A escolha dos quatro roteiristas de colocar Parallax (e não Atrocitus, por exemplo) como o primeiro vilão a ser enfrentado pelos heróis esmeraldinos é até compreensível, uma vez que Parallax induz mais medo e desafios do que o segundo. Mas a maneira como a última batalha é travada não condiz em absoluto com o significado que o vilão amarelo tem na história de vida de Jordan. E se esse fosse o único problema estaria tudo mais ou menos bem. O roteiro, que é por si só um rebento com má formação, faz questão de colocar o protagonista nas situações mais esdrúxulas possíveis, provando tão somente que ele é um meninão irresponsável e idiota – e não um homem com dúvidas e angústias reais como o personagem dos quadrinhos.

A complexidade de Hal Jordan é tão profunda quanto a de um pires, e o roteiro limita-se a explorar o sofrimento causado pela morte do pai – as relações com a mãe, os irmãos e Carl Ferris são praticamente esquecidas. A vegonha alheia é frequente demais para um filme que deveria elevar os heróis ao mais alto patamar da glória (a cena em que Hal mostra o traje dos Lanternas para Tom, ou o discursinho patético de “somos apenas humanos e sentimos medo yadda yadda yadda” com os guardiões são de querer enfiar a cabeça num buraco e nunca mais tirar). Mesmo com todos os defeitos (que não são poucos), pelo menos é interessante notar que Hal é um herói que apanha: ele se dá bem no final por sua coragem e não pela destreza na luta (o que é, afinal, o mote dos Lanternas Verdes).

O design de produção se sai razoavelmente bem, por exemplo, pela fluidez da cena em que os civis fogem descontroladamente de Parallax quando este chega a Terra. Mas novamente peca na falta de imaginação de todos os poderes que o anel pode dar – é só a arma mais poderosa do mundo, com a qual se pode fazer absolutamente qualquer coisa! Para piorar há até mesmo uma cena de mocinho-donzela (Blake Lively méh) em um alaranjado pôr-do-sol, uma coisa meio Tieta do Agreste de Hollywood. Deplorável.

A trilha sonora de James Newton Howard (responsável por embalar King Kong) é igualmente clichê, sem uma única nota marcante. Até a cena adicional durante os créditos é óbvia já no meio da projeção. Nem mesmo o pesado marketing da Warner foi suficiente para salvar a produção. E quando digo pesado, imaginem que junto com o presskit recebemos uma lista imensa de produtos que serão lançados junto com o filme que, acreditem, tem até pote de cotonete.

Lanterna Verde merecia um destino igualmente fantástico como os Batmans comandados por Christopher Nolan – estou convencida de que ele deveria se encarregar de todas as próximas produções da editora. Mas é, enfim, um filme tão expressivo para a cinematografia da DC quanto a atuação de seu protagonista.

Titulo Original: Green Lantern
Direção: Martin Campbell
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Michael Goldenberg, Marc Guggenheim, Michael Green e Greg Berlanti
Trilha Sonora: James Newton Howard
Fotografia: Dion Beebe
Tempo de Duração: 105 minutos
Com: Ryan Reynolds (Hal Jordan), Blake Lively (Carol Ferris), Peter Sarsgaard (Hector Hammond), Mark Strong (Sinestro), Tim Robins (Senador Hammond), Angela Bassett (Dra. Amanda Waller), Temuera Morrison (Abin Sur), Jon Tenney (Martin Jordan), Amy Carlson (Jessica Jordan), Jay O. Sanders (Carl Ferris), Mike Doyle (Jack Jordan), Taika Waititi (Thomas Kalmaku), Geoffrey Rush (voz de Tomar-Re), Clancy Brown (voz de Parallax).

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Rio

abril 26, 2011

Brasil que não dá certo

Apesar da excelente fotografia e direção de arte, a animação de Carlos Saldanha expõe os clichês brasileiros como se tivesse sido feito por um estrangeiro

NOTA: 6

Não pude assistir a Enrolados no cinema, e agora que o trauma passou, posso dizer que foi um alívio. Assistir a uma animação em qualquer dia que seja já é um pouco difícil, dada a quantidade de crianças presentes na sala. Uma animação dublada, contudo, atrai o público infantil em massa, deixando qualquer adulto sem a companhia de uma criança completamente desorientado. A gritaria e a bagunça já são esperadas e, como consequência, o envolvimento acaba sendo um pouco prejudicado.

Mas infelizmente não é esse o motivo pelo qual Rio é um filme fraco. Pelo contrário. As crianças constituem um termômetro bastante plausível. Gritar, dançar e vibrar com determinadas cenas e persongens é um sinal de que algo vai bem – ainda que seja um reconhecimento inconsciente. Neste caso, é curioso notar que o longa causou pouca comoção no público – incluindo a mim. As cenas que mais impressionaram os pequenos certamente eram aquelas de muitas cores. Como o filme é praticamente só isso, bem…

A premissa é boa, confesso. O fato de uma ararinha azul ter o samba no sangue e se sentir sensibilizada a cada vez que ouve o som é interessante, se o diretor Carlos Saldanha não tivesse tentado explorar o estilo e o contexto de uma maneira saudosista. A realidade do país de modo geral não condiz em nada com o Rio de Janeiro do filme, onde era ainda um local paradisíaco, motivo de sonho de todos os gringos que pensavam no Brasil como a terra do samba, mulheres de biquíni e cobra na rua – pode dizer que você se lembrou daquele fatídico episódio dos Simpsons. Eu lembrei.

O começo do filme é perfeito: aves coloridas de todos os tipos se alegram e mostram suas belas cores dentro de uma floresta no meio da cidade, ao som do mais puro samba. Um filhote bonitinho (é pleonasmo?) acorda em meio a festa e se envolve com o ritmo alucinante, até descobrir que não pode voar como os outros pássaros – em uma cena vivamente tocante e, bem, fofa. Capturado e enviado para os Estados Unidos (ou o “não Rio”), ele é acolhido pela carinhosa e dedicada Linda, que o trata doentiamente, posso dizer, como seu melhor amigo. Blu rapidamente se acostuma com o conforto de um animal de estimação, vivendo com prazer dentro de sua gaiola e com regalias típicas de um bicho mimado – tenho um cachorrinho, posso confirmar.

Tudo parecia ir bem, até o brasileiro Túlio aparecer e alegar que Blu precisava se acasalar com uma fêmea para propagar a espécie das ararinhas – e ao contrário da vontade de Linda, todos deveriam ir ao Brasil para as aves se conhecerem. E tudo – repito, tudo – que acontece depois que Blu e Jade se conhecem é previsível e sem graça. À exceção de um ou outro plano interessante (como o de Fernando sentado em um barraco da favela à noite, enquanto vemos o plano se estender para a baía iluminada), que em sua maioria mostram as paisagens virtuais – mas que parecem reais – da cidade viva e colorida, todo o resto é descartável.

Roteiro de Don Rhymer é clichê e mal desenvolvido, personagens que não são memoráveis (ainda que sejam graficamente muito bem feitos) e pouco profundos, piadinhas que pouco ou quase nunca têm o efeito desejado, vilão com propósitos estúpidos e – o que me parece pior – uma visão do Brasil que nós, brasileiros, odiamos ver retratada para o mundo. É verdade que a prerrogativa de denunciar o contrabando de animais é de extremo interesse mundial, mas é uma pena que tudo seja permeado por momentos que desviam a atenção do público para focar, por exemplo, em uma briguinha de casal que se-ama-mas-não-admite.

O diretor tinha a oportunidade de ouro de mudar como o mundo nos vê e fazer uma narrativa inteligente e interessante. Ao invés disso, parece que se deixou levar pelo afã de que o Rio é maravilhoso de qualquer jeito, não importa o contexto. Prova disso é o clímax que causa risos não pela genialidade, mas pela falta de senso e por encarar o espectador como um bobo apaixonado pela Cidade Maravilhosa – não importa o que aconteça, o Rio de Janeiro continua lindo. Sim, todos somos, mas não é bem assim que a coisa funciona, certo?

Portanto, apesar de ter excelente fotografia e uma trilha sonora agradável a qualquer ouvido – especialmente gringo ou saudosista (acho que Saldanha é uma mistura estranha de ambos) – os macaquinhos ladrões e as cenas musicais soam forçadas e fora de contexto. Aliás, a cena na qual os símios aparecem roubando as jóias dos turistas me deixou extramemente enfadada com o resto do longa. Quebrou o clima. Assim, mesmo com todas as boas intenções, Saldanha conseguiu somente reforçar os clichês negativos do roteiro sobre Brasil, subjugando a população e a própria música ao ridículo.

É uma pena admitir, enfim, que os bons momentos de Rio ficam perdidos na narrativa e somem com a quantidade de bobagens em torno dele.

Titulo Original: Rio
Direção: Carlos Saldanha
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Don Rhymer
Trilha sonora: John Powell, Sérgio Mendes e Will.I.Am.
Fotografia: Renato Falcão
Tempo de Duração: 96 minutos
Com: Jesse Eisenberg/Gustavo Pereira (Blu), Anne Hathaway/Adriana Torres (Jade), Leslie Mann/Sylvia Salustti (Linda), Rodrigo Santoro (Túlio), George Lopez/Luiz Carlos Persy (Rafael), Jamie Foxx/Alexandre Moreno (Nico), Jemaine Clement/Guilherme Briggs (Nigel), Will.I.Am/Mauro Ramos (Pedro), Jake T. Austin/Cadu Paschoal (Fernando), TracyMorgan/Júlio Chaves (Luiz), Bernardo de Paula (Sílvio), Carlos Ponce/Ricardo Schnezter (Marcel), Bebel Gilberto (Eva).

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Minhas Mães e Meu Pai

novembro 10, 2010

Convenções para quê?

Lisa Cholodenko tenta estimular a discussão contra o preconceito homossexual com novo longa, falhando miseravelmente

NOTA: 6

Se formos analisar Minhas Mães e Meu Pai superficialmente, diríamos que é um filme interessante por abordar a vida de uma família nada convencional: duas mulheres casadas, mães de filhos diferentes (uma menina e um menino) gerados a partir do esperma de um mesmo doador, vivem pacificamente debaixo do teto de um dos países desenvolvidos mais preconceituosos do mundo.

Sorte a sua, caríssimo leitor, que este blog não se presta a análises superficiais. Pois apesar de soar extremamente sensível ao lidar com o tema de pais homossexuais, o roteiro – feito a quatro mãos por Stuart Blumberg e a diretora, Lisa Cholodenko – se perde no meio do caminho. A primeira metade parece promissora, quando aborda a vida já em crise da paisagista Jules e a ginecologista Nic, e seus dois filhos, Laser e Joni.

Por insistência do irmão, Joni decide contatar o pai para que pudessem conhecê-lo e, assim, saber exatamente de quem herdaram alguns de seus genes. A princípio leve e divertido, Laser e Joni conseguem aproximar Paul das mães, fazendo com que se conheçam e criem uma mínima intimidade – a cena do primeiro encontro entre os pais é, de fato, bem concebida como extremamente constrangedora.

Há algumas cenas que dão brilho no começo do longa (como o fato das mães transarem vendo um filme pornô gay, ou a discussão a respeito da sexualidade de Laser), mas que imediatamente se perdem com o preconceito inato com o qual os personagens são desenvolvidos. A partir do momento que o roteiro estabelece Jules como uma pessoa mais sensível e suscetível a fatores externos, ela se envolve sem mais explicações em um romance com Paul. Sem acrescentar nada, isso só põe em jogo a sexualidade de Jules que, definitivamente, não estava em pauta.

Ao mesmo tempo em que coloca Jules como a sensível, Nic é pintada como o “macho’ da relação de maneira extremamente preconceituosa e caricata – é ela quem põe dinheiro dentro de casa, é ela a traída, a injustiçada e quem dá a palavra final. Curioso, não?

Mia Wasikowska se sai muito bem no papel da filha mais velha que está prestes a ir para a universidade, e é notável o esforço de Annete Benning e Juliane Moore ao retratar com fidelidade um casal lésbico. Mark Ruffalo também não se sai mal no papel de Paul, o pai e bonitão mulherengo – sua voz pacífica condizendo com o restaurante orgânico que administra.

Infelizmente, nem mesmo as atuações destes grandes atores foi suficiente para salvar os personagens mal desenvolvidos e de um egoísmo profundo. A partir do momento em que permitem a participação ativa de Paul na educação dos filhos (ainda que de maneira muito informal), elas o “aceitam” como um membro da família há muito perdido.

Estava tudo indo muito bem, até eu começar a perceber que o roteiro apontava o preconceito das mães como justificável pelo simples fato de elas serem gays. Sim, vamos apoiar o movimento, dizem eles. Vamos aproveitar para colocar uma negra maravilhosa no papel de uma mulher magoada com um homem garanhão. Se podemos conquistar uma minoria, porque não duas?

Paul ingressa na família com a mesma rapidez com que é dispensado – após sua última briga com Nic a respeito de estar “agredindo o núcleo familiar para o qual não foi convidado” (o que sabemos ser mentira) ele simplesmente desaparece de cena (como também já havia acontecido com os amigos de Laser e Joni). Porque, afinal, os meninos trouxeram Paul para a vida deles, se aproximaram dele e, quando começavam a entrar de cabeça no pai que jamais pensaram em ter, o expulsam? Quer dizer que ele não é nada importante? É engraçado como todo extremismo anti-preconceito é um preconceito em si.

Para arrematar, até mesmo o título em inglês soa superficial – afinal, o filme é do ponto de vista das crianças (Minhas Mães e Meu Pai) ou dos pais (The Kids Are Allright)? Nem mesmo isto ficou claro.

Titulo Original: The Kids Are Allright
Direção: Lisa Cholodenko
Gênero: Comédia dramática
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Stuart Blumberg e Lisa Cholodenko
Trilha Sonora: Carter Burwell, Nathan Larson e Craig Wedren
Fotografia: Jadue-Lillo
Tempo de Duração: 106 minutos
Com: Julianne Moore (Jules), Annette Benning (Nic), Mia Wasikowska (Joni), Josh Hutcherson (Laser), Mark Ruffalo (Paul), Yaya DaCosta (Tanya), Eric Eisner (Joel).

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Dois Irmãos

outubro 22, 2010

Não foi dessa vez

O roteiro bizarro de Dois Irmãos conduziu o novo filme de Daniel Burman para criar personagens caricatos e situações mal explicadas

NOTA: 6,5

O cinema argentino é atraente, em grande parte graças a Ricardo Darín e Juan José Campanella. Mas, depois da estreia da dupla e dos consecutivos acertos que fizeram juntos, não é de se espantar que todos, brasileiros e espectadores do mundo todo, fiquemos ansiosos com o lançamento de novos filmes. Vai que eles consigam captar a mesma essência que os filmes da dupla, ou ainda que tomem por base filmes sensíveis como Conversando com Mamãe ou Elsa & Fred.

Assim, quando Daniel Burman lançou o belo Ninho Vazio no ano passado, não me surpreendi que tivesse acha o longa de extrema delicadeza e sutileza. Quando anunciaram que o novo filme do diretor havia estreado aqui não tardei a assisti-lo. E, como tudo em que pomos demasiada expectativa, nos decepcionamos.

Não digo que o novo filme de Burman seja ruim. Mas a maneira como conduziu a vida dos irmãos Susana e Marcos é  irritante, em nada parecida com sua última produção. Os personagens, exageradamente caricatos, vivem constantes frustrações na companhia um do outro. Enquanto a irmã pretende mostrar que é durona, orgulhosa e quem resolve todos os problemas da família, o irmão é mais sensível, tendo ficado à mercê da vida-e-morte da mãe – que, no final, cedeu ao lado mais sombrio.

Uma mistura familiar da atriz Maria Alice Vergueiro no curta Tapa na Pantera com uma pessoa de voz rouca e respiração ofegante, a Susana de Burman demonstra suas piores qualidades ao longo do filme inteiro. Trambiqueira, com o cérebro que parece fora de órbita e, principalmente, com uma terrível e embaraçosa maneira de diminuir o irmão onde quer que seja, na frente de quem for. Mesmo incomodado com as atitudes insuportáveis da irmã, Marcos não reage. Seu silêncio não demonstra nem um décimo da indignação que sabemos que ele sente, o que infere em um relacionamento, além de conturbado, irreal.

Se um irmão está insatisfeito com o outro jamais iria se calar e aceitar ordens absurdas – como a de se mudar para o Uruguai, abandonando a vida de Buenos Aires para morar em um casebre. A solidão de cada um parece jamais interferir no relacionamento cheio de alfinetadas e despropositações.

A chatice de Susana ultrapassa a pena que sentimos por ela ser uma pessoa só. E em momento algum o roteiro de Burman faz questão de explicar porque ela destrata Marcos da maneira como faz, ou ainda porque tem tantas frustrações e traumas. A cena das “vozes” na parede mais me envergonhou do que realmente esclareceu. Posso estar sendo insensível, incapaz de compreender a relação de dois senhores que já estão fartos um do outro. Mas se o filme realmente tivesse claras intenções, eu não teria ficado na dúvida tanto quanto fiquei.

Irritada desde os primeiros 20 minutos de projeção de Dois Irmãos, cada aparição de Susana me deixava ainda mais insatisfeita, imaginando que bom fim aquilo não poderia ter. E eu estava certa. Já em Villa Laura, Marcos conhece um diretor de teatro, mais novo do que ele, e começa a frequentar as aulas de teatro do homem. Como pode um diretor querer fazer a “peça de sua vida” sobre Édipo usando atores amadores e que ele acabara de topar em um botequim? Incongruente demais para mim.

Implícita desde a primeira troca de olhares – mas jamais escancarada na tela – a homossexualidade de Marcos, por mais problemas que pudesse trazer, jamais identifica um problema entre os dois irmãos. Na realidade, parece não haver problema algum. Apenas indisposição infantil de convivência. E, evidentemente, eles sentem falta um do outro, ao mesmo tempo que desejam estar longe.

Aliás, se havia qualquer ligação entre a peça do dramaturgo grego com a vida dos dois irmãos, isto jamais ficou claro – uma vez que Édipo teve problemas com os pais, e não com os irmãos. De qualquer maneira, não vou nem comentar a cena em que um embaixador negro do Brasil aparece em cena, falando asneiras sentimentais, mandando um beijo no coração. Fingi que não ouvi, a vergonha me consome ainda agora.

Completamente sem sentido do começo ao fim, Susana tem uma redenção medíocre ao ver o irmão sendo aclamado na encenação moderna de Édipo por ter improvisado algumas linhas. Revoltada após uma sessão que me fez sentir como se houvesse perdido tempo, os créditos finais só compravam minha teoria de que Burman não tinha intenção alguma de explicar ao público sua história.

Parece-me agora que Ninho Vazio tenha sido um mero golpe de sorte…

Titulo Original: Dos Hermanos
Direção: Daniel Burma
Gênero: Comédia dramática
Ano de Lançamento (Argentina): 2010
Roteiro: Diego Dubcovsky e Daniel Burman, baseado em livro de Diego Dubcovsky
Trilha Sonora: Nico Cota
Fotografia: Hugo Colace
Tempo de Duração: 105 minutos
Com: Antonio Gasalla (Marcos), Graciela Borges (Susana), Rita Cortese (Alicia), Elena Lucena (Neneca) e Omar Núñez (Mario).

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Vidas que Se Cruzam

junho 14, 2010
Desapaixonadamente

Primeira produção do roteirista Guillermo Arriaga, Vidas que Se Cruzam usa dos mesmos e já gastos recursos narrativos das parcerias com Alejandro Iñárritu 

NOTA: 6

Não necessariamente um bom cineasta é um bom roteirista, e vice-versa. A trilogia do cineasta mexicano Alejandro Iñárritu, em parceria com o roteirista Guillermo Arriaga inclui os três absolutos sucessos de crítica e público (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel), despertou o interesse do mundo pelas narrativas desconstruídas e desconexas, de múltiplas histórias paralelas que se entrelaçam no final, fechando os arcos dramáticos com elegância e beleza. E neste quesito, os dois primeiros longas são ainda mais bem-sucedidos.

A estreia de Arriaga na direção (e também como roteirista) traça o mesmo caminho das produções com as quais colaborou anteriormente. Vidas que Se Cruzam é a trajetória de pessoas de diferentes idades que se esbarram em diferentes momentos de suas vidas. Este é, contudo, um filme muito difícil de analisar, uma vez que a narrativa gira em um único epicentro – e infelizmente disso não posso passar, para não estragar a surpresa desejada pelo diretor.

O que se pode, sim, comentar, é a qualidade da construção narrativa de Arriaga – conhecido, como bem se sabe pelas obras anteriores – como alguém com incrível capacidade de entrelaçar pessoas e histórias em situações-chave. O curioso desta produção independente, contudo, é que esta mesma habilidade foi desperdiçada com um roteiro que, ao mesmo tempo em que soa original, é extremamente clichê. Digo isso pois, apesar de desejar manter o suspense até os momentos finais da grande revelação, o espectador é capaz de conectar os fatos dos personagens antes mesmo que eles estejam concluídos – e o que é pior, sem a menor emoção.

Não pelas atuações de Charlize Theron (que, por falar em bela, aparece totalmente nua logo nos cinco primeiros minutos de projeção) e da jovem Jennifer Lawrence, pela bela fotografia – que mescla a história de uns e outros com cores quentes e frias, para denotar os sentimentos de paixão e frieza, ou de consideração e desconsideração pela própria vida – ou ainda da triste trilha sonora feita pelas mãos hábeis de Hans Zimmer. Mas a história contada, em si, não é digna de nota. Outras atuações, como a de Danny Pino e Kim Basinger, apesar da dramaticidade dos personagens, ficaram diluídas em meio ao turbilhão sem nexo de acontecimentos.

Se desconstruída para uma narrativa comum (ou, como preferirem, com “começo, meio e fim”), Vidas que Se Cruzam não conta nenhuma história realmente comovente ou diferente de tudo que já foi visto e revisto muitas vezes no cinema. O impacto que fica é a maneira como Arriaga decide contar essa história – o que definitivamente não é mais novidade para ninguém. Inclusive, antes mesmo de começar o filme, já imaginamos que a história fosse ser feita exatamente do jeitinho que foi (sem entender quem são aquelas pessoas e porque tomam determinadas atitudes), para depois juntar todas as peças.

Infelizmente, a história de Sylvia não é emocionante. Seus motivos nunca ficaram claros e muito menos são justificáveis – o que faz com que tenhamos uma antipatia imediata pela personagem. O drama de sua vida não sofre uma reviravolta tão mais brusca na idade adulta quanto foi na infância, e sua redenção me pareceu forçada e até besta. Em determinado momento durante o filme, escrevi que a ordem cronológica pouco importava, já que a história era sem sal de qualquer jeito.

Claro que Arriaga teve o cuidado de retratar uma faceta da sociedade que é desgraçada, de famílias despedaçadas por falta de atenção. Mas este é daqueles filmes que, uma vez visto, nunca mais se terá o interesse de ver novamente (já que o final responde a todas as perguntas que levantamos durante a trama). Apesar de ter feito uma estreia razoável, a impressão que tive é de que Arriaga não teve fôlego suficiente para exercer duas importantes funções (o que é realmente difícil de acontecer).

Também é o típico filme “nhé”, que não deixa nenhuma sensação após assisti-lo, nem mesmo vontade de criticar. Não há exatamente uma crítica a ser feita. Todos os elementos de filmes considerados bons estavam ali? Sim, estavam. Mas, como em qualquer arte, é necessário paixão. E ironicamente foi isso que mais fez falta.

PS: Achei que o trailer dá mais conteúdo ao filme do que ele realmente tem. Fica a dica.

Tìtulo Original: The Burning Plain
Direção: Guillermo Arriaga
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina/EUA): 2009
Roteiro: Guillermo Arriaga
Trilha Sonora: Omar Rodriguez-Lopez e Hans Zimmer
Fotografia: Robert Elswit e John Toll
Tempo de Duração: 107 minutos
Com: Charlize Theron (Sylvia), Kim Basinger (Gina), Jennifer Lawrence (Mariana), José Maria Yazpik (Carlos), Joaquim de Almeida (Nick), Tessa Ia (Maria), Diego J. Torres (Cristobal), J. D. Pardo (Santiago jovem) e Danny Pino (Santiago adulto).