Archive for the ‘7’ Category

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La La Land

abril 3, 2017

NOTA: 7,5

Quando me disseram que Hollywood havia lançado um novo musical, e que era uma homenagem ao clássico Cantando na Chuva (e tinha Ryan Gosling no elenco), eu fui obrigada a duas coisas: primeiro assistir a este, e depois aquele, no cinema. Talvez tenha sido um erro. Pois La La Land não chega nem aos pés do filme que quer homenagear – ou, melhor dizendo, plagiar.

Mas não quero fazer uma crítica estritamente comparativa. Pois, por mais que eu não tenha amado, o longa de Damien Chazelle (responsável pelo excelente Whiplash e pelo bom 10 Cloverfield Lane), tem seus méritos. Filmada em CinemaScope, a história acompanha o pianista Sebastian e a aspirante a atriz Mia, que se conhecem na “terra dos sonhos”, Los Angeles. O mais curioso da projeção talvez seja sua atemporalidade, uma vez que mostra figurino e ambientes vintage, mas traz celulares e equipamentos modernos, impossibilitando situá-la no tempo.

A fotografia de Linus Sandgren também colabora para criar a ideia de uma cidade sempre feliz, toda colorida e vibrante. O filme escorrega, porém, ao usar mais de uma vez a técnica do holofote para dar foco a um personagem, o que torna o recurso cansativo e óbvio.

Traçando a história com a velha dinâmica eu-te-odeio-agora-eu-te-amo, o casal mostra a maioria de suas intenções com dois ou três números memoráveis. O que é surpreendente, considerando suas mais de duras horas de duração. Pois, ainda que seja vendido como um musical – e orgulhe-se extremamente disso –, La La Land jamais chega a alcançar aquilo que almeja ser: um reflexo autônomo dos grandes filmes do gênero que fizeram tanto sucesso na década de 60.

A atuação dos atores principais certamente colabora com a projeção. Emma Stone é capaz de entregar um personagem sensível e complexo, uma vez que consegue transmitir suas angústias e paixões com a mesma emoção – e a cena de sua primeira audição, na qual está totalmente entregue e é interrompida, talvez seja a melhor de toda sua carreira. Ryan Gosling, por sua vez, também é eficaz ao entregar o amor de Sebastian ao jazz, embora possa fazer pouco mais do que isso.

Mas a inabilidade de ambos é perceptível: Gosling toca piano bem e dança razoavelmente, mas sua voz não é das melhores; Emma é afinada e sua voz é bonita, mas seu talento para a dança é nulo. Assim, quando vemos a cena mais famosa do longa (na qual Emma está de vestido amarelo) é impossível não lembrarmos da distância que eles estão de Fred Astaire e Debbie Reynolds, para mencionar apenas duas pessoas.

Para completar, a trilha sonora de Justin Hurwitz – que deveria ser composta por canções memoráveis – tem uma única música que consegue prender a atenção do espectador. E ela é tão martelada durante todo o filme que, ao final, já estamos cansados de escutá-la e quase nem lembramos sua razão de ser. Além disso, Chazelle se equivoca ao colocar a cidade de Los Angeles como mero cenário para seus personagens, uma vez que seu nome aparece dobrado no título do filme. A cidade, que também é personagem, não foi tratada como tal, e as sequências que envolvem planos maiores são sequências de homenagens, uma colagem barata que não traz nada de realmente novo.

E embora comova com seu argumento final, a resolução de repassar os momentos mais importantes da trama inteira com um personagem ao invés de outro é confuso – muita gente só percebeu da metade para o fim – e repetitivo, ao invés de surgir como o recurso dramático que se esperava. No fim das contas, La La Land é bonitinho e agrada, mas deixa a clara sensação de que é apenas uma miscelânea de cenas de filmes melhores, com músicas desinteressantes e coreografias pobres, limitadas pela falta de habilidade (ou ensaio) de seus protagonistas.

Título Original: La La Land
Direção: Damien Chazelle
Gênero: Comédia, drama, musical
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Damien Chazelle
Trilha Sonora: Justin Hurwitz
Fotografia: Linus Sandgren
Tempo de Duração: 128 minutos
Com: Ryan Gosling (Sebastian), Emma Stone (Mia), Callie Hernandez (Tracy), Jessica Rothe (Alexis), Sonoya Mizuno (Caitlin), Rosemarie DeWitt (Laura), J. K. Simmons (Bill), Jason Fuchs (Carlo), John Legend (Keith).

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Trapaça

janeiro 7, 2015

American-HustleNOTA: 7

Depois do enorme êxito com o excelente O Vencedor, de 2011, o diretor David O. Russell volta a trabalhar com Christian Bale e Amy Adams em um projeto ousado, cuja história se desenrola em uma década já caricata por si só, mas que Russell consegue deixar ainda mais extravagante. Logo após assistir ao também extravagante (mas infinitamente melhor O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese), fica claro ao espectador que o cineasta mais jovem buscava uma homenagem a um dos mestres do Cinema.

Acompanhamos a história inspirada em fatos reais de Irving Rosenfeld, um trapaceiro de primeira que se alia à bela e igualmente trapaceira Sydney para aplicar o golpe da pirâmide: empreste-me dinheiro e eu te tornarei rico. O emprestador, obviamente, jamais via um centavo novamente. Eles iam relativamente bem até toparem com o agente do FBI, Richie DiMaso que, em troca da liberdade, obriga o casal a ajudarem-no a pegar peixes maiores, como mafiosos e o bondoso prefeito de New Jersey, Carmine Polito.

O problema de Irving realmente começa quando ele é obrigado a colocar no mesmo cenário de Sydney sua histérica e ignorante esposa, Rosalyn, e precisa aguentar tanto a arrogância quanto a própria corrupção do agente para o qual agora trabalha. Forçando na caracterização de seus personagens, Russell transforma a todos em palhaços extravagantes. Desde os cabelos exagerados do elenco aos risos forçados de Bradley Cooper como DiMaso fazem de Trapaça um filme ambíguo.

Embora demonstre técnica e precisão ao tentar “imitar” o estilo de Scorsese – narrações em off, movimentos de câmera com closes em objetos específicos, planos-sequência e uma trilha sonora que ajudam a compor a história – Russell acaba pecando justamente no exagero de alguns momentos. O mais problemático deles é, sem dúvida, a escalação do elenco.

Por um lado, Christian Bale e Amy Adams dão mais do que conta do recado, trazendo personagens complexos e interpretados com maestria por ambos. Juntos, eles e o carismático prefeito de Jeremy Renner compõem o melhor do longa. Por outro lado, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, como Rosalyn, apresentam o mesmo comportamento histérico exibido no regular O Lado Bom da Vida. Ambos, com uma característica que tende ao absurdo por natureza, forçam suas atuações de tal maneira que não soam orgânicas. A sensação que tive foi que Cooper gostaria de ser exageradamente natural como Jack Nicholson, falhando estrepitosamente no meio do caminho.

Já no caso de Lawrence – que é uma atriz que admiro muito – o problema parece ainda mais grave. Obviamente escalada para um papel no qual a personagem deveria ser muito mais velha, Lawrence parece desconfortável o tempo todo, como se a própria Rosalyn estivesse atuando. Suas cenas são esteticamente perfeitas, mas emocionalmente vazias. Para finalizar, admito que foi um pouco decepcionante ver o grande comediante Louis C. K. interpretar um personagem tão insípido como o chefe de DiMaso.

Como disse acima, o filme se salva pelas atuações de Bale, Adams e Renner e por sua história convincente, no qual os “mocinhos” do FBI se transformam em vilões, demonstrando ambição além do limite e buscando destruir a vida de políticos e mafiosos a qualquer custo em troca de reconhecimento e fama. Mas, mesmo tendo uma premissa interessante, o excesso de explicações para que o espectador entenda a história demonstra não só a fragilidade do roteiro, escrito por Russell e Eric Singer, mas a insegurança do próprio Russell ao tentar assumir uma posição scorseseana.

Título Original: American Hustle
Direção: David O. Russell
Gênero: Crime/Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Eric Singer e David O. Russell
Trilha sonora: Danny Elfman
Fotografia: Linus Sandgren
Tempo de duração: 138 minutos
Com: Christian Bale (Irving Rosenfeld), Bradley Cooper (Richie DiMaso), Amy Adams (Sydney Prosser), Jennifer Lawrence (Rosalyn Rosendfeld), Jeremy Renner (Carmine Polito) e Louis C. K. (Stoddard Thorsen).

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O Grande Gatsby

junho 27, 2013

The-Great-Gatsby-Movie-Poster-2013O mistério de Jay

Novo filme de Baz Luhrmann tem todos os elementos típicos do diretor, de grande elenco à temas modernos e fantasiosos

NOTA: 7,5

Eu não li o clássico homônimo escrito por F. Scott Fitzgerald. Talvez este seja um dos maiores empecilhos para falar do novo filme de Baz Luhrmann, O Grande Gatsby. Caracterizado por fazer longas grandiosos, com temas musicais modernos mesclados a temas antigos e planos repletos de travelling, o diretor foi responsável pelo esplêndido Moulin Rouge e uma belíssima adaptação do romance shakespeariano Romeu e Julieta.

Retomando os filmes de época, ele agora retrata a sociedade norte-americana da década de 20 – tal como nos conta Fitzgerald em seu livro. Para contar sua história, ele busca no personagem de Nick Carraway a ponte entre o passado e o presente – onde, em um consultório psiquiátrico, ele tenta recontar parte de sua vida ao lado do encantador Jay Gatsby através de um livro.

Apesar de não ser fã de Tobey Maguire (ele estragou o Homem-Aranha e vice-versa), confesso que há carisma em sua performance, e certo tom de ingenuidade que colaboram para a evolução da história, uma vez que Nick aparece sempre como espectador e quase nunca se intromete nas relações das pessoas que o cercam. Assim, por intermédio dele, conhecemos o misterioso Jay Gatsby, interpretado de maneira propositadamente caricata por Leonardo DiCaprio – que insiste em dizer seu costumeiro bordão “old sport” de nove entre cada dez palavras.

Por uma eventualidade, inicialmente, geográfica – Carraway compra uma pequena casa de campo ao lado do palacete de Gatsby –, ambos se conhecem. O narrador recebe um convite pessoal (e único) para as festas megalomaníacas que o magnata realizava em sua mansão, sem entender bem o motivo da exclusividade. Logo, descobrimos que o motivo da aproximação dos dois homens era Daisy, prima de Nick, com quem Jay teve um pequeno affair no passado – e era apaixonado por ela desde então. Interpretada com delicadeza e doçura por Carey Mulligan – adereçada com joias e roupas invejáveis – a personagem ganha profundidade conforme a história avança. Bem como a personalidade misteriosa de Jay que vai sendo desvendada pouco a pouco: como ele conseguiu tudo o que tem e quais foram suas motivações.

Quem assistiu a qualquer filme do cineasta não irá se impressionar com o clima épico e festivo da película, ou tampouco com a fotografia brilhante e colorida, e a trilha sonora de rap e hip-hop para ilustrar as danças da época. Os travellings, como mencionei acima, são constantes e, aliados aos belos letreiros estilizados que aparecem – para contar a história e fazendo óbvias alusões à obra original – de maneira muito orgânica vez ou outra, finalmente o 3D parece ter mostrado a que veio. Isso é claramente mérito de Luhrmann, que mostrou aos seus antecessores incompetentes, com raras exceções, como é que se faz.

Embora eu não tenha lido o livro, sei de uma coisa: a sensação que fiquei ao final do filme não é a mesma que esperava, já que algumas pessoas já haviam me advertido. Ao final, esperava sentir uma terrível compaixão por um personagem, e uma raiva imensa por outro. Mas, na minha cabeça, de alguma maneira, as coisas se inverteram. Tive a impressão, do ponto de vista leigo literário, que aquele fim não era o mesmo. Embora essas mesmas pessoas que leram o livro tenham adorado o filme, não consegui sentir o mesmo êxtase de quando assisti o melado (e maravilhoso, não nego) musical de Luhrmann pela primeira vez. Talvez seja necessária uma segunda visita – agora, com o livro na cabeça.

Titulo Original: The Great Gatsby
Direção: Baz Luhrmann
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Baz Luhrmann e Craig Pearce
Trilha sonora: Craig Armstrong
Fotografia: Simon Duggan
Tempo de Duração: 142 minutos
Com: Leonardo DiCaprio (Jay Gatsby), Carey Mulligan (Daisy), Tobey Maguire (Nick Carraway), Joel Edgerton (Tom Buchanan), Isla Fisher (Myrtle Wilson).

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Em Transe

maio 2, 2013

trance-poster-new-movie (2)A falha da psicanálise

Com roteiro confuso e atores mal-utilizados, novo filme de Danny Boyle quer ser algo mas não consegue

NOTA: 7,5

Danny Boyle é um diretor competente. Seus últimos longas, embora não sejam considerados excelentes, têm seu estilo e personalidade. São produções são de qualidade, ainda que muita gente possa não gostar. Os dois últimos filmes para cinema foram concorreram ao Oscar – sendo que Quem Quer Ser Um Milionário venceu na categoria de melhor filme.

A mais nova película do cineasta, Em Transe, é uma mistura de thriller de ação com mistério psicanalítico. O protagonista Simon, vivido pelo sempre ótimo James McAvoy, é um viciado em quadros e jogos de cartas. O primeiro vício lhe deu um emprego, de leiloeiro. O segundo, uma dívida. Para conseguir pagá-la, ele recorre ao charmoso bandido Franck.

No meio do ato, Simon sofre uma amnésia e, quando acorda no hospital, a pintura em questão havia sumido. Para poder recuperá-la, Franck decide submeter Simon a um tratamento de hipnose com a Dra. Elizabeth, que logo nas primeiras sessões descobre a encrenca na qual se havia metido.

Entrando cada vez mais na mente de Simon, a médica começa a descobrir segredos da gangue, e a realidade começa a se confundir com as experiências psíquicas. Em momentos que remetem à filmes como A Origem e Amnésia – ambos do diretor Christopher Nolan –, mas sem jamais conseguir atingir clímax ou intensidade parecidos, Boyle mergulha sem muito sucesso em um mundo de imaginação, fantasia e desejo.

Uma confusão de cenas que jogam o espectador de um lado a outro sem chegar a lugar algum, tensão quase inexistente e diálogos um tanto constrangedores marcam os dois primeiros terços da produção. Felizmente – para nós e para Boyle – o terceiro ato recupera o fôlego e consegue esclarecer todos os pontos que haviam ficado soltos durante a primeira hora de projeção. Confuso, o roteiro de Joe Ahearne e John Hodge só se faz entender nos minutos finais, o que não necessariamente melhora a trama. É um filme de ação disfarçado terrivelmente de drama.

As atuações tampouco são notáveis, ainda que McAvoy mostre seu talento sempre que o personagem permite – pouco. O que é surpreendente, já que o enredo deveria levar o espectador a sentir a intensidade e fatalidade na vida daquelas pessoas, e até mesmo raiva por algumas delas. Mas nem isso. A única coisa que Boyle arranca da plateia é uma exclamação de alívio, por ter conseguido sair do cinema com a sensação de que entendemos algo.

Titulo Original: Trance
Direção: Danny Boyle
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (UK): 2013
Roteiro: Joe Ahearne e John Hodge
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Tempo de Duração: 103 minutos
Com: James McAvoy (Simon), Vincent Cassel (Franck), Rosario Dawson (Elizabeth), Danny Sapani (Nate), Matt Cross (Dominic), Wahab Sheikh (Riz), Mark Poltimore (Francis Lemaitre), Tuppence Middleton (mulher ruiva do carro vermelho).

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Lincoln

janeiro 27, 2013

movies_lincoln_posterOh, say, can you see?

Cinebiografia de Abraham Lincoln, que estreia no Brasil dia 25/02, é uma versão desnecessariamente ufanista da história de um dos maiores presidentes dos Estados Unidos

NOTA: 7

Aproveitando o momento de assistir filmes ultra-americanos, Lincoln é a nova película dirigida por Steven Spielberg para contar a história (ou, como veremos, parte dela) do mais famoso presidente dos Estados Unidos. Mas, ao invés de começar do começo, o cineasta prefere escolher o momento mais marcante da breve carreira política de Abraham: 1865, com a aprovação pela Câmara dos Senadores da 13ª Emenda da Constituição, que aboliu a escravidão no país.

Para um filme histórico conseguir se sustentar até o fim – já que teoricamente sabemos tudo o que vai acontecer – não basta ter um elenco de (excelente) qualidade, como é este o caso. É necessário um roteiro forte e convincente, que não conte a trajetória do personagem como está escrito nos livros de história. Infelizmente, Lincoln não é assim. Apesar de seu elenco, o único que consegue brilhar é Daniel Day-Lewis.

E não que isso seja mal: sua atuação é sublime. Muito parecido fisicamente graças a um trabalho de maquiagem bem feito e opções de câmera que favorecem o aspecto longilíneo de Lincoln – que era um homem bastante alto –, o ator se entrega, como sempre, de corpo e alma ao personagem. Assustadoramente parecido ao verdadeiro presidente, assisti-lo usando a longa cartola é quase como assistir a uma incorporação espírita.

Brincadeiras a parte, Day-Lewis consegue demonstrar toda a inteligência, eloquência e carisma do presidente. Quando fala, todos escutam, e suas histórias com muito senso de humor divertem não só ao público, mas a ele mesmo, mostrando certa astúcia que podia não ser visível a olho nu. O diretor é hábil ao mostrar uma faceta mais humana do presidente, colocando-o para acender a própria lareira agachado no chão, ou engraxando os próprios sapatos. Interpretada por Sally Fields, a esposa Mary Todd Lincoln demonstra também a fragilidade da personagem, com voz trêmula diante do marido, mas ousada diante do público.

O problema deste longa reside, entretanto, nas várias falhas do roteiro, que insiste em não conseguir explicar metade daqueles personagens ou suas ambições e, em especial, suas relações uns com os outros. Se o exagero de tratar o espectador como um imbecil, explicando cada detalhe ao longo da projeção, é um erro fatal, Spielberg também se equivoca ao retratar personagens dúbios com obviedade – que, na maioria dos casos, não tem nada de óbvio.

É o caso da maioria das figuras políticas, entre democratas e republicanos, que mantém contatos, relações e favores que não ficam claros em nenhum momento. É o caso, por exemplo, de Thaddeus Stevens, republicano que foi publicamente contra a Emenda até o momento da votação final, no qual ele se revela essencial para a aprovação do projeto. Mais do que isso, só descobrimos que Willie é um dos filhos de Lincoln mortos na (e pela) guerra depois de sua primeira menção (no início, achei que ele fosse um escravo ou até mesmo o cachorro da família!).

Apesar do aparente paradoxo que possa ser hoje em dia que os republicanos votassem a favor de uma medida tão liberal quanto a abolição da escravidão – coisa que os democratas foram radicalmente contra – o momento fatídico da eleição foi criado de maneira inteligente, com tensão e emoção. Ainda assim, não foi o suficiente. A trilha sonora de John Williams é quase nula, sem nenhuma nota marcante, e o falatório e as politicagens deixam todo o resto – exceto Day-Lewis – quase obscurecido. A fotografia tem um ou dois momentos interessantes (como a que o presidente aparece com o filho na janela escutando a celebração), e só.

No geral, Lincoln é somente mais um filme clichê, de um homem só. Carregado inteira e exclusivamente por Daniel nas cenas em que aparece, Spielberg consegue reforçar (ainda mais, se é que é possível) a imagem do norte-americano baba-ovo em seus próprios heróis. Não acho errado, e é importante que a nação reconheça o valor deste grande homem. Mas estou cansada do patriotismo estadunidense, e achei esta uma versão bastante piegas dos fatos.

Titulo Original: Lincoln
Direção: Steven Spielberg
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA/Índia): 2012
Roteiro: Tony Kushner
Trilha sonora: John Williams
Fotografia: Janus Kaminski
Tempo de Duração: 153 minutos
Com: Daniel Day-Lewis (Abraham Lincoln), Sally Field (Mary Todd Lincoln), Joseph Gordon-Levitt (Robert Lincoln), Gulliver McGrath (Taddie Lincoln), David Strathairn (William Seward), James Spader (W. N. Bilbo), Hal Holbrook (Preston Blair), Tommy Lee Jones (Thaddeus Stevens), john Hawkes (Robert Latham), Jackie Earle Haley (Alexander Stephens), Bruce McGill (Edwin Stanton), Tim Blake Nelson (Richard Schell), Joseph Cross (John Hay), Jared Harris (Ulysses S. Grant), Lee Pace (Fernando Wood), Peter McRobbie (George Pendleton), Gloria Reuben (Elizabeth Keckley), Michael Stuhlbarg (George Yeaman), Boris McGiver (Alexander Coffroth), David Costabile (James Ashley).

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Argo

janeiro 15, 2013

argo-8Terrorismo velado

Batendo na mesma tecla, o longa de Ben Affleck é uma exaltação ao heroísmo americano, embora tente negá-lo durante a projeção

NOTA: 7,5

É natural que, quando um ator conceituado de Hollywood decida se colocar atrás das câmeras, todas as atenções se voltem para ele. Isso significa maior visibilidade na imprensa e prêmios acumulados. Me refiro ao Globo de Ouro e ao Oscar, os dois prêmios mais insignificantes – e, paradoxalmente, mais influentes – do cinema atual. Ainda mais se o tal diretor seguir a cartilha de filmes ufanistas. Aconteceu com Clint Eastwood, e está acontecendo com Ben Affleck.

Se a comparação pode soar exagerada, basta pensar nos filmes políticos que Eastwood fez, exaltando sua pátria e pintando os inimigos dos Estados Unidos tais como os bárbaros de antigamente. Mas longe de mim comparar a magnitude da obra de Clint, muito além da politicagem, com a de Affleck, que se resume a poucos filmes de sucesso como ator e menos ainda como diretor – sua estreia foi como roteirista de Gênio Indomável, ao lado de Matt Damon.

Agora, seguindo os passos do mentor, Affleck se debruça sobre uma história real, tipicamente estadunidense. O contexto histórico ronda em torno do papel diplomático dos EUA ao depor o presidente iraniano Mohammad Mosadeqq e substituí-lo pelo xá Reza Pahlevi que, ostensivo e ganancioso, levou o país à miséria. Uma grave crise política estoura quando o então presidente foge e recebe refúgio nos próprios EUA. Em 1979, a maioria da população se rebela contra esse ato e decide invadir a embaixada norte-americana, fazendo dos funcionários reféns até que devolvessem o xá ao Irã para ser julgado pela população.

É aí que entra o agente da CIA, Tony Mendez (interpretado pelo próprio Affleck), contratado para resgatar seis pessoas que escapam da embaixada e encontram refúgio na casa do embaixador canadense Ken Taylor. A obrigação de Tony é inventar um pretexto convincente para pousar no país e salvar a vida dessas pessoas, que a cada dia correm o risco de serem identificadas pelos líderes rebeldes. A única “melhor má ideia” que Mendez tem é a de falsificar a produção de um filme, na qual os fugitivos são a equipe que busca uma locação no “exótico Oriente Médio”. O nome do filme (e da operação): Argo, uma paródia de Star Wars.

Embora o roteiro de Chris Terrio seja previsível e bitolado, Affleck se sai admiravelmente bem. Com bastante estilo, o diretor mostra confiança ao intercalar cenas de tensão no Irã com as cenas muito mais leves e divertidas sobre os preparativos para o “filme” em Los Angeles. Telejornais da época e pedaços de discursos do então presidente John Carter dão os elementos de veracidade à história. Criando momentos de tensão apropriados – como quando a Kombi com os fugitivos deve atravessar uma manifestação – o diretor ainda consegue estabelecer o pano de fundo para cada personagem, ainda que a história não gire em torno das vítimas.

A atmosfera dos anos 70 é bem trabalhada por Rodrigo Prieto, que emprega a fotografia diferenciando o calor amarelado dos EUA e a frieza azulada do Irã. A trilha sonora de Alexander Desplat também merece destaque, intercalando clássicos de rock que foram famosos à época e cantos típicos orientais. O que mais me tenha chamado a atenção talvez tenha sido o design de som, que empregou toda sua força ao elevar o coro dos rebeldes iranianos a uma escala inimaginável, como se aquela multidão fosse infinitamente maior do que a real.

Apesar de contrapor piada e tensão com eficiência, Argo falha em seu terceiro ato, a partir do momento em que Affleck retrata Mendez como o grande herói salvador da pátria. Desobedecendo as ordens de abandonar o plano, o agente segue adiante. É então que a película cai na velha armadilha de expor uma tensão desnecessária até o último limite, criando obstáculos que impedem o herói de cumprir sua missão – mesmo quando sabemos de antemão que vai dar tudo certo. Ao final, rolando os créditos, Affleck sente novamente a necessidade de ressaltar a veracidade da história, comparando fotos documentais das vítimas, dos rebeldes, de cenas marcantes do conflito e dos fugitivos.

É bom o suficiente para a Academia.

Titulo Original: Argo
Direção: Ben Affleck
Gênero: Drama
Ano de Lançamento: EUA (2012)
Roteiro: Chris Terrio
Trilha sonora: Alexander Desplat
Fotografia: Rodrigo Prieto
Tempo de Duração: 120 minutos
Com: Ben Affleck (Tony Mendez), Bryan Cranston (Jack O’Donnell), Alan Arkin (Lester Siegel), John Goodman (John Chambers), Victor Garber (Ken Taylor), Page Leong (Pat Taylor), (Tate Donovan (Bob Anders), Clea DuVall (Cora Lijek), Christopher Denham (Mark Lijek), Scoot McNairy (Joe Stafford), Kerry Bishé (Kathy Stafford), Rory Cochrane (Lee Schatz), Sheila Vand (Sahar).

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Minhas Tardes com Margueritte

julho 27, 2011

Momentos esquecíveis

Produção com Gérard Depardieu agrada as multidões emocionadas mas peca por falta de profundidade e desenvolvimento psicológico

NOTA: 7,5

Estou ficando velha. Ou cri-cri. Ou os dois. É inevitável recordar do personagem Anton Ego (do filme Ratatouille) quando saio praticamente impassível de uma sessão de cinema, enquanto os outros espectadores (sem exceções) secam as lágrimas com um sorriso melancólico no rosto. Sou eu a insensível, portanto? Porque ao que parece Minhas Tardes com Margueritte afetou a todos, menos a mim. Não que o filme seja ruim. Mas quando procuro um adjetivo para defini-lo só consigo pensar em “bonitinho”. E aí está todo o problema.

Uma produção que só alcance o status de bonitinha não pode estar certa. E ainda que conte com Obelix digo, Gérard Depardieu, no elenco, ps personagens se desenvolvem a ponto de formar caricaturas, apenas – o que em si é até triste, já que a premissa poderia fazer deste o novo Conversando com Mamãe.

Germain Chazes é um homem simples, iletrado e com um coração do tamanho de seu corpanzil. Sua rotina é entediante e seus amigos, como sua mãe, não cansam de tratá-lo como a um imbecil. A única que parece perceber a bondade é a namoradinha Anette (no diminutivo mesmo, pois por mais que aceite a humildade do companheiro, não deixa de se comunicar com ele como se fosse um bebezão). Outra pessoa que percebe de imediato a doçura de Germain é Margueritte, uma senhora de 95 anos solitária que vive em um asilo e tem paixão por bons livros.

Em uma tarde amarelada de sol Germain senta-se ao lado da velhinha e ela, por um impulso maior, começa a ler para ele – que acaba se tornando um excelente ouvinte, a ponto de gostar da leitura e querer fazer o mesmo pela nova amiga, que se tornava cada dia mais cega. Ao mesmo tempo em que vemos a terna relação construída pelos dois personagens, vemos um abobalhado protagonista ser diminuído frequentemente pelos amigos e pela mãe megera.

Ainda que o amor entre Germain e Margueritte tenha surgido de maneira espontânea e fraternal (como uma mãe a um filho), as próprias relações são forçadas – inclusive entre ele e Anette. Depardieu representa bem a estupidez do personagem mas exagera na desconcentração, dando a entender que ele, como ator, estava com a cabeça a quilômetros de distância de onde deveria estar. Assim, quando há uma revelação sobre o passado de Germain deixado por sua mãe – que, lembrem-se, desprezou-o até o literal último suspiro – a situação soa estranha e fora de contexto.

O desfecho encontrado pelos roteiristas Jean Becker e Jean-Loup Dabadie tampouco satisfaz e aparece como uma versão simplista para colocar Germain e Margueritte novamente em contato um com o outro – atenção, spoiler! -, afinal, o salto para ambos é abrupto demais. Se tratavam com tanta polidez para, de repente, irem morar sob o mesmo teto tal qual “a família que eu nunca tive”? É, realmente uma história de amor sem dizer eu te amo, como bem pontua a narração de Depardieu ao final. Faltou aprofundar esse amor (e os personagens) em situações mais complexas e bem desenvolvidas.

Titulo Original: La Tête en Friche
Direção: Jean Becker
Gênero: Comédia dramática
Ano de Lançamento (França): 2011
Roteiro: Jean Becker e Jean-Loup Dabadie, baseados no romance de Marie-Sabine Roger
Trilha Sonora: Laurent Voulzy
Fotografia: Arthur Cloquet
Tempo de Duração: 122 minutos
Com: Gérard Depardieu (Germain Chazes), Gisèle Casadesus (Margueritte), Sophie Guillemin (Annette), Maurane (Francine), Patrick Bouchitey (Landremont), Jean-François Stévenin (Jojo), François-Xavier Demaison (Gardini), Matthieu Dahan (Julien), Claire Maurier (mãe), Anne Le Guernec (mãe jovem), Lyès Salem (Youssef), Bruno Ricci (Marco), Gilles Détroit (Dévallée).