Archive for the ‘8’ Category

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Logan

março 20, 2017

NOTA: 8,5

Já ouvi de algumas pessoas que o novo filme protagonizado por Hugh Jackman e seu animalesco Wolverine lembram as cenas cruas e sangrentas de Deadpool – na minha opinião, um dos (senão o) melhor filme do gênero. O que eu tenho a dizer sobre isso é: até que enfim! Até que enfim podemos ver o Wolverine em seu estado natural, dilacerando pessoas e coberto de sangue do início ao fim da projeção.

E não é daqueles tipos de violência gratuita, uma vez que o mutante é um dos heróis mais encarniçados de todo o universo X e merecia que sua vida fosse mostrada tal qual. A história deste Logan gira em torno de um envelhecido Wolverine, que trabalha dia e noite como motorista de uma limusine alugada, propenso ao alcoolismo e com uma doença que se agrava dia a dia, dividindo um galpão abandonado com outro mutante e ninguém menos que o professor Charles Xavier – que, desde o início, aparece meio senil e dopado com drogas que impedem perigosas convulsões.

Logan é o responsável por essa família desajustada, tudo o que restou do famoso grupo dos X-Men – ao que tudo indica, dizimado da história. Soma-se o fato de que há 25 anos não havia o nascimento de um mutante, Logan parece abandonado a sua própria sorte, sendo reconhecido de vez em quando por admiradores pouco respeitosos e engraçadinhos que parecem não saber com quem estão lidando.

Em um desses encontros, o grandalhão recebe a missão de cuidar de uma garotinha, uma mutante criada em laboratório e cujos poderes se assimilam muito aos dele próprio. Fugitiva do lugar que a criou e a outras crianças como ela, Laura precisa chegar a um paraíso para os mutantes, e só o conseguirá com a ajuda de Wolvie. Mesmo relutante, ele percebe que nenhuma das crianças conseguirá sobreviver sem sua intervenção. Assim, em uma missão praticamente suicida, Logan leva a garota através dos Estados Unidos em uma espécie de road movie, que significa o perigo e a morte para todos que cruzarem seus caminhos.

Triste, cheio de referências e tenso na medida, Logan tem algumas pitadinhas de humor bem colocadas e atuações intensas. O próprio Hugh Jackman, tão acostumado ao papel que o lançou ao estrelato, tem de sair de sua zona de conforto para encarnar um personagem amargo, ainda mais mal-humorado e ao mesmo tempo fragilizado. Portanto, mesmo que apareça rosnando, sabemos que seu estado de saúde não é mais o mesmo, e que todos aqueles músculos e sua dita capacidade de regeneração não o estão ajudando em nada.

Louvável também são as atuações da estreante Dafne Keen, cuja pequenez de corpo provoca ainda mais admiração quando ela demonstra seu poder físico, vindo de olhares intensos e uma intenção assassina. Já Sir Patrick Stewart, maravilhoso como sempre, traz um Xavier frágil, velhinho e que necessita atenção especial. Sua voz, alquebrada, é um sinal de sua debilidade, remorso e nostalgia, tudo ao mesmo tempo.

E embora seja uma boa película de ação, Logan não é excepcional. É, sim, um bom filme, especialmente quando traz a redenção desse personagem na telona. Mas o roteiro é simples, com uma história batida – até mesmo para os X-Men – e uma ou outra falha que chegam a ser absurdas. Um exemplo é a cena da granada que explode dentro de um pequeno caminhão, aos pés de duas pessoas – e uma delas sai da explosão com apenas alguns arranhões, ao invés de sair de lá sem as duas pernas.

Claro que há coisas louváveis, como a fotografia, a edição e a sonoplastia, que valorizam muito as cenas de combate, mostrando o sangue jorrando, partes do corpo voando e o barulho de carne sendo cortada com facas. Tudo isso faz com que o sofrimento seja plausível, e a vulnerabilidade de Logan ainda maior. Cada porrada que ele recebe é tão palpável que quase sentimos na pele. Há, ainda, detalhes incríveis como as feias cicatrizes que ele carrega, e de onde saem suas garras (e que podem ser vistas em uma cena muito rápida quando ele está no banheiro limpando sangue das mãos).

Fazia tempo que nós, fãs, esperávamos por algo assim, então posso dizer que, com certeza, esse é o melhor filme do herói feito até agora. Claro que não é dizer muito, comparando com o fiasco de Origins e o mediano Imortal, mas fica a indicação.

Título Original: Logan
Direção: James Mangold
Gênero: Ação, drama, ficção científica
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Scott Frank, James Mangold e Michael Green
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Fotografia: John Mathieson
Tempo de Duração: 137 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan), Patrick Stewart (prof. Charles Xavier), Dafne Keen (Laura), Boyd Holbrook (Pierce), Stephen Merchant (Caliban), Elizabeth Rodriguez (Gabriela), Richard E. Grant (Dr. Rice), Eriq La Salle (Will Munson), Elise Neal (Kathryn Munson), Quincy Fouse (Nate Munson).

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Rogue One: Uma História Star Wars

dezembro 22, 2016

ysos4yfgbut5v2uvrqdh6wNOTA: 8,5

Quem espera “mais uma história” sobre o universo de Star Wars será surpreendido antes mesmo de o filme começar. Acostumada a escutar a tão característica fanfarra da 20th Century Fox e a trilha sonora marcante de John Williams que dava abertura à saga, foi com certa surpresa que iniciei a sessão desta nova produção do diretor Gareth Edwards. Pulando até mesmo o icônico letreiro que introduzia a estória, Rogue One: Uma História Star Wars já se estabelece como um ponto fora da curva antes mesmo de sua primeira cena.

Servindo ao mesmo tempo como elo e redenção do Episódio IV, Rogue One também tem como temática a esperança. Acompanhamos a história de personagens totalmente diferentes dos vistos no Episódio VII – O Despertar da Força. Conhecemos Galen Erson (o sempre maravilhoso Madds Mikelsen), um engenheiro do Império Galático e responsável por uma superarma. Quando o império aparece na porta de sua casa para “reclamar” o pai de volta ao trabalho, ele urge para que Jyn, sua filha, fuja e se esconda.

Resgatada e criada por um companheiro de Galen – coisa que ficamos sabendo por uma breve explicação mais adiante, já que não vemos isso acontecer –, Jyn se torna uma moça fria e independente que apenas tenta sobreviver, sem se importar com a guerra lá fora (“é só não olhar para cima”, diz ela em certo momento). Presa pelas forças imperiais, ela é resgatada pela Aliança Rebelde, já que esta precisa de sua ajuda para chegar ao homem que a salvou quando criança: Saw Guerrera, um extremista que não vê amigos no Império ou na Aliança, e luta por conta própria com seus guerrilheiros na cidade-templo de Jheda. Sua importância logo fica clara: Guerrera recebeu uma mensagem secreta enviada por Galen (que Jyn acreditava estar morto) através do piloto desertor do Império, Bhodi Rook (em uma ótima atuação de Riz Ahmed).

Ao mesmo tempo, acompanhamos a trajetória do capitão Cassian Andor, um rapaz que viveu toda sua vida em prol da Rebelião – como ele mesmo menciona algumas vezes. Quando Cassian descobre, por meio da misteriosa mensagem de Galen, que há uma maneira de destruir a tal arma, um pequeno grupo decide ir, a contragosto do Conselho, atrás dos planos da arma, escondidos em Scarif. Ao lado de personagens secundários eficazes – o monge cego Chirrut Îmwe e seu companheiro Baze Malbus, e o dróide imperial reprogramado a favor “da causa”, K-2SO – os heróis devem se infiltrar no território inimigo e retransmitir os planos de lá.

Misturando com naturalidade cenas de ação intensa com diálogos explicativos – e que não soam expositivos –, Rogue One se mostra muito mais eficiente do que o precedente. Além de ter um objetivo mais claro, o longa não se perde em teorias. A experiência se torna ainda mais rica quando observamos a reconstrução exata daquele universo concebido no fim dos anos 70, com seus aparelhos analógicos, tecnologia limitada e imagens com aspecto antigo. É sabido, inclusive, que algumas cenas deletadas do Ep. IV foram usadas aqui (algumas dos pilotos e dentro da cidade, que no filme de 77 corresponderiam a Tattooine).

Edwards mostra domínio sobre o universo e sua franquia, não só passando por vários planetas e luas que não participavam da “história principal” da família Skywalker mas, também, dando constantes piscadelas para o espectador, espalhando easter eggs dos mais variados em diferentes momentos (e que são muito divertidos quando descobertos. Meus favoritos são o holograma da dançarina e o suco azul). Também é interessante ver como a Força é utilizada aqui como motivo religioso, uma vez que nenhum dos personagens é de fato um Jedi. Assim, Chirrut e Baze constroem um arco interessante a respeito da fé na Força.

E se Diego Luna se mostra confiante no personagem, trazendo dores de um passado que não é mostrado, Felicity Jones parece sempre um pouco apática, embora seja compreensível, já que a própria Jyn era, a princípio, apática com relação à rebelião. Forest Whitaker, embora breve, marca presença com seu Saw Guerrera, e John Mendelsohn traz características marcantes ao vilão Orson Krennic. Uma boa surpresa é Alan Tudyk como a voz de K-2SO, sempre sarcástico e estranhamente humano para um robô imperial – cujo estranhamento é proposital e ainda mais divertido.

É necessário dizer, no entanto, que um dos pontos mais estranhos de Rogue One são as aparições de dois personagens “impossíveis”: sobre um não direi, pois é spoiler. O outro é Grand Moff Tarkin, “interpretado” por Peter Cushing. Devo colocar entre aspas pois Cushing faleceu em 1994, e o CGI que se emprega para trazê-lo de volta é tão escancarado que nos desconcentra por completo. Por mais interessantes que sejam suas aparições e seus personagens, o CGI fica demasiado óbvio quando colocado ao lado de pessoas reais. E em uma das cenas com Krennic, é possível contrastar a testa brilhante e colorida deste com a pele opaca e sem vida de Tarkin.

A fotografia de Greig Fraser, que mistura tons vibrantes com uma atmosfera sombria, é excelente, e eu me surpreenderia se não fosse indicada ao Oscar. Há um momento, entre vários, no qual vemos um personagem à contraluz, esperando para ser recebido por um superior, e podemos ver claramente essa dualidade de luz e sombras. As paisagens são construídas com muita eficácia, e ver a superarma em ação é assustador (além de belo, já que sua explosão é massiva e se espalha como um cogumelo de bomba atômica, uma onda de fogo e fumaça), dando ainda mais urgência e realismo à missão da Aliança Rebelde.

Embora se passe em um mundo fictício e em uma época não-existente na História, Rogue One consegue traçar paralelos extremamente atuais: em uma cena, em particular, vemos guerreiros terroristas (com roupas que lembravam os islâmicos) e um grupo de soldados imperiais (os Stormtroopers) atacando-se em meio a uma área civil, com pessoas correndo e gritando. É impossível não pensar em Aleppo.

A importância da causa é tamanha que até mesmo a cética Jyn se une a ela – mesmo que, lá no fundo, fosse para reencontrar-se com seu pai. A missão de entregar os planos da arma para os membros do conselho era tão importante que entendemos o desespero no qual os rebeldes, ao verem a aproximação dos inimigos, saem em carreira desabalada a fim de salvaguardar o que era de mais importante, muito mais do que suas próprias vidas.

Ainda que a última cena seja um pouco absurda – aquele personagem teoricamente estava em missão diplomática no começo do Ep. IV, e não faz sentido que estivesse ali, na frente da batalha – Rogue One é um filme redondo, que faz com que nos importemos com aqueles personagens, mesmo que seus começos e fins nunca mais sejam mais explorados no Cinema.

Título Original: Rogue One
Direção: Gareth Edwards
Gênero: Ação, aventura, sci-fi
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Chris Weitz e Tony Gilroy, baseados em personagens criados por George Lucas
Trilha Sonora: Michael Giacchino
Fotografia: Greig Fraser
Tempo de Duração: 134 minutos
Com: Felicity Jones (Jyn Erso), Diego Luna (Cassian Andor), Alan Tudyk (K-2SO), Donnie Yen (Chirrut Îmwe), Wen Jiang (Baze Malbus), Ben Mendelsohn (Orson Krennic), Forest Whitaker (Saw Guerrera), Riz Ahmed (Bhodi Rook), Madds Mikkelsen (Galen Erso), Jimmy Smits (Bail Organa), James Earl Jones (Darth Vader), Valene Kane (Lyra Erso).

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Kubo e a Espada Mágica

novembro 13, 2016

kubo-and-the-two-strings-poster-the-garden-of-eyesNOTA: 8,5

A produtora de animações Laika, fundada em 2005, não é das mais conhecidas por aqui. Claro que, se falamos dos longas ParaNorman, Boxtrolls e Coraline, ninguém se lembra de que foi dali que saíram. Mas isso perde importância a partir do momento que diretores e roteiristas consigam contar boas histórias. E assim foi com Coraline (o único que assisti da lista), e assim é, também, com este Kubo e a Espada Mágica.

A começar, é preciso dizer que, assim como Coraline (e A Fuga das Galinhas, Wallace & Gromit, O Fantástico Sr. Raposo e A Noiva Cadáver), o filme é todo feito em stop motion, a antiga técnica de construir bonecos e fotografá-los quadro a quadro para depois juntá-los, dando a ideia de movimento. E essa técnica dá ainda mais créditos ao filme, como irei dizer mais abaixo.

A história de Kubo é situada no Japão medieval, quando o país ainda era território de imperadores e samurais e, claro, de intermináveis disputas. Assim, encontramos a mãe de Kubo em uma tempestade em alto-mar, carregando seu pequeno bebê – cujo olho esquerdo havia sido roubado – e uma guitarra mágica. Ela salva o Kubo e leva-o para viver escondido em uma caverna em um penhasco, próximo a uma aldeia.

Lá Kubo cuida dela e faz performances inacreditáveis no vilarejo munido apenas da guitarra mágica e origamis de papel. Com melodias simples, Kubo, por meio da mágica herdada de sua mãe, faz com que as dobraduras ganhem vida e “atuem” nas histórias que ele conta. Essas histórias são pedaços da vida passada de Hanzo, grande herói e pai de Kubo, que ele jamais conheceu.

A única regra para o garoto é não estar fora da caverna quando o sol se põe, pois o maligno Rei da Lua quer roubar seu olho remanescente. A história se desenrola quando Kubo é descoberto pelo Rei da Lua e suas filhas gêmeas e, com a ajuda de um Macaco e um Homem-Besouro, deve encontrar uma lendária armadura que possa derrotar a todos.

Com um enredo simples de herói-que-se-encontra (escrito por Marc Haimes e Chris Butler), Kubo e a Espada Mágica enche os olhos com a fotografia de Frank Passingham e os efeitos especiais, tornando a experiência com a guitarra mágica (e seus origamis) ainda mais interessante. Reparem, por exemplo, na cor das mãos dos personagens, especialmente o de um vendedor de peixes logo no início da projeção.

E por falar neles, à parte de Kubo, as demais pessoas no longa são bastante unidimensionais, e confesso que fiquei incomodada com o fato de que duas delas saíram de cena tão drasticamente (e ao mesmo tempo). Mesmo Kubo, apesar de estar em perigo e ter medo, nunca se mostra tão assustado ou surpreso, o que tira um pouco o brilho para nós. Também senti falta de um maior desenvolvimento dos desejos do vilão, e o porquê a obsessão com os olhos do menino, e não com sua mágica. Além disso, apesar de viver aventuras perigosas, tudo se resolve de maneira excessivamente fácil.

(Spoilers). Não me convence, por exemplo, que Kubo tenha encontrado a armadura tão facilmente, já que seu pai passou grande parte da vida buscando os fragmentos. Foi só o fato do origami tê-lo ajudado? Pois o homem-besouro e o macaco tampouco sabiam onde estavam os pedaços, e o papel deles na busca foi apenas de manter Kubo vivo. Tampouco se explica a transformação de um personagem importante no Macaco. Quero dizer: porque não escapar voando, como Kubo? Por que dar vida ao Macaco, se era o mesmo personagem? Enfim, algumas coisas ficaram no ar.

Mas Kubo tem seus méritos. Como a mágica é usada no filme me agradou muito, bem como alguns conceitos belíssimos (as lanternas que se transformam em pássaros ou o barco-folha). A trilha sonora não é digna de nota, mas já mencionei o quanto a fotografia é bonita? Por fim, assistam até o fim dos créditos, pois os realizadores tiveram a ideia de mostrar como foi a construção de um dos monstros e como ele foi manuseado/digitalizado. Muito interessante.

Ah, e apenas deixando bem claro: é uma GUITARRA, não uma espada mágica – como a tradução em português erroneamente coloca (no original, é Kubo and the Two Strings, ou seja, “as cordas mágicas”, o que faz muito mais sentido).

Título Original: Kubo and the Two Strings
Direção: Travis Knight
Gênero: Animação, aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Marc Haimes e Chris Butler
Trilha Sonora: Dario Marianelli
Fotografia: Frank Passingham
Tempo de Duração: 101 minutos
Com: Art Parkinson (Kubo), Charlize Theron (Macaco), Matthew McConaughey (Besouro), Rooney Mara (Irmãs Gêmeas) e Ralph Fiennes (Rei da Lua).

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Frozen

fevereiro 19, 2016

frozen-poster1NOTA: 8

Embora não seja um filme novo, uma das últimas animações de princesas dos estúdios Disney continua dando o que falar tanto entre o público adulto – que adota o cenário para criar festas infantis, fantasias etc – quanto pelos pequenos que recebem as sugestões dos pais, vestindo-se como as princesas Elsa e Anna, e comprando toneladas de produtos. Sendo ainda hoje um enorme sucesso, Frozen conquistou o coração de gerações de entusiastas das animações.

Por que isso acontece? Por que as irmãs princesas da Noruega (suponho) cativam de tal maneira o público em geral? Bem, além de ser um digno filme de princesas, com sidekicks engraçadinhos e canções pegajosas, a razão está no próprio conceito do filme. O roteiro de Jennifer Lee, Chris Buck e Shane Morris – baseados no conto “A Rainha da Neve”, de Hans Christian Andersen – conta a história das irmãs princesas de Arendelle que, quando pequenas, adoravam se divertir com os poderes da mais velha, Elsa, capaz de criar gelo e neve.

Um pequeno acidente com Anna faz com que os reis e pais das meninas precisem tomar medidas drásticas: eles curam-na com o poder dos trolls de pedra, que retiram de sua mente as memórias sobre os poderes de Elsa. Esta, tendo que esconder até mesmo da irmã seus perigosos poderes, com medo de feri-la, fecha-se em seu quarto durante anos (ou isso parece) e afasta a amizade de Anna. Quando os pais das princesas morrem em um naufrágio, Elsa se prepara para ser a nova rainha de Arendelle.

A festa da coroação é um momento de alegria para Anna, que não recebia público no castelo desde quando podia se lembrar. Já Elsa, preocupada com a crescente manifestação de seus poderes incontroláveis, quer apenas escondê-los. Mesmo assim, um incidente faz com que Elsa tenha de fugir do castelo, causando enorme desolação no país. Anna, tentando a irmã, recebe a ajuda de Kristoff – um simples vendedor de gelo – e Hans, um príncipe local com quem prometeu se casar.

O que torna Frozen especial é como a relação entre as duas irmãs e o conceito de amor são tratados. A dicotomia das duas irmãs – marcada pelos traços físicos característicos de cada uma – faz com que suas personalidades se oponham e complementem ao mesmo tempo, ensinando não só como deve ser uma saudável relação fraternal, mas também que devemos enfrentar nossos medos de frente, não importa quão terríveis eles possam ser.

Com um design fantástico, Frozen é bem feito ao ponto de variar nos tons de azul do gelo – de longe é escuro e de perto mais claro –, de mostrar as sardas no ombro da ruiva Anna e de nunca nos cansar com a soberba fotografia de Michael Giaimo. Além disso, os diálogos são reveladores, indicando uma postura muito mais moderna do estúdio com relação aos temas que permeiam nosso dia a dia. O humor também é pontual e feito de maneira precisa, sem deixar que os personagens soem fora de contexto.

Com um clímax extremamente diferente dos filmes de princesas que vemos por aí, Frozen trata o público de maneira inteligente, sabendo que a polêmica do “amor verdadeiro” causaria um impacto positivo tanto nos adultos como nas crianças, que agora podem ter modelos de princesas mais reais (embora ainda fantásticas), que não precisam e não devem ter a aprovação masculina para serem quem são.

Ainda assim, embora seja uma obra de qualidade, é inevitável a comparação com outros longas da Disney, como é o caso de Enrolados – cujo design é tão similar ao de Frozen que parecem ser ambientados em um mesmo universo (e talvez sejam) – e que deixa menos ao desejar no quesito enredo. Enquanto Enrolados cria uma fábula, Frozen parte do meio da história, sem jamais explicar como Elsa conseguiu aqueles poderes e porque eles são tão incontroláveis. Se a falta de amor fosse a explicação, Elsa não teria esse problema quando criança, já que sua irmã Anna e seus pais estavam sempre presentes.

Outro problema é a criação do boneco de neve Olaf, que serve de alívio cômico e deveria, também, servir como elo entre as duas irmãs – o que ocorre em uma única tentativa frustrada de convencer Elsa a abandonar o exílio. Confesso que gostaria de ter um pouco mais de ação de Olaf (e menos cantoria) que o simbolizasse como a juventude perdida das princesas.

Mesmo com alguns tropeços, Frozen se firma como um ótimo filme, trazendo ainda mais certeza à Disney de que apostar em seu sempre mutável público jovem – apostando na modernidade que este representa – é a escolha mais certa a se fazer. Agora só falta esperar por um filme de temática LGBT, o que não duvido que possa acontecer em breve.

Título Original: Frozen
Direção: Chris Buck e Jennifer Lee
Gênero: Animação, aventura, comédia
Ano de Lançamento (Estados Unidos): 2013
Roteiro: Jennifer Lee, Chris Buck e Shane Morris, baseado no conto de Hans Christian Andersen
Trilha sonora: Christopher Beck
Fotografia: Michael Giaimo
Tempo de duração: 102 minutos
Com: Kristen Bell (Anna), Idina Menzel (Elsa), Jonathan Groff (Kristoff), Josh Gad (Olaf), Santino Fontana (Hans), Alan Tudyk (Duque), Ciarán Hinds (trolls Vovô e Pabbie), Livvy Stubenrauch (Anna criança), Eva Bella (Elsa criança), Spencer Ganus (Elsa adolescente).

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Álbum de Família

fevereiro 27, 2015

august_osage_countyNOTA: 8

Quando finalmente decidi assistir Álbum de Família, do diretor John Wells, fui preparada para amar e odiar todos os personagens, já que nem mesmo o pôster de divulgação do longa ajuda a manter a discrição do conteúdo de violência verbal-familiar. E eu tenho um problema com personagens que criam problemas por conta de suas personalidades ridículas, ainda mais com as próprias famílias. Lembram de A Culpa é do Fidel? Foi a primeira vez na minha vida que tive vontade de matar uma criança (mentira, gente, mas agh que menina insuportável).

Enfim, o fato é que o elenco de peso foi o fator decisivo para assisti-lo, já que, além de Meryl Streep, ainda conta com Julia Roberts, Ewan McGregor, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch e Dermot Mulroney. Acompanhamos a história hipocondríaca e alcóolatra Violet Weston, mãe de três filhas, que desenvolveu recentemente um câncer na boca.

Com uma personalidade de cão, o marido a abandona após anos de um casamento conturbado, no qual ele também havia exagerado nos entorpecentes. Com pena da mãe solitária, as filhas (e os respectivos) e a irmã decidem visitá-la para tentar atenuar sua dor. No entanto, Violet é uma velha cheia de ressentimentos, sem papas na língua e que não tem o menor pudor de dizer coisas inapropriadas para quem quer que seja.

Problemas de família todo mundo tem, e Wells faz questão de apontar cada um deles, partindo de uma mãe cujo complexo de inferioridade faz com que ela se faça de vítima e reaja de maneira dramática em todas as situações. Abordando uma família na qual todos parecem ter algum problema mental – alguns literalmente –, o roteirista Tracy Lets não perdoa nas caricaturas.

Assim, Karen é a fútil que quer se casar em Miami; Ivy é a mais fechada e aparentemente sã, pois não era a favorita dos pais; Barbara, apesar de não suportar as tagarelices da mãe, é igualmente amarga e tende a se parecer cada vez mais com Violet; o pequeno Charles Aiken (um ótimo Cumberbatch) é o filho infantilizado pela mãe, irmã de Violet; Charlie é o pai/irmão/tio que oferece maconha aos mais jovens; e Jean é a adolescente que sofre bullying da família inteira por ser vegetariana.

Revelando segredos que deveriam ficar ocultos por motivos óbvios, Violet consegue estragar cada momento com os entes, como se a necessidade de falar a verdade fosse necessária para que eles a deixassem sozinha. E quando enfim ela consegue, percebemos qual era a real intenção de Wells, ao demonstrar a fragilidade de uma pessoa mais velha e que se sentiu desprezada a vida inteira.

Com uma trilha sonora ótima que contribui para o clima de tensão crescente e uma fotografia de paletas cinzas e escuras, que realçam a própria alma negra da personagem principal, Álbum de Família – cuja tradução é ainda melhor do que o título original – tem o mérito de não se estabelecer como “uma lição de moral aos mais jovens”. É o retrato de pessoas próximas e distantes demais. É a minha família, a sua e a de todos nós, quando observadas sob uma lente de aumento.

As atuações, no entanto, são o que realmente fazem o filme brilhar. Meryl Streep não é chamada de “a diva de Hollywood” por nada. Cada performance sua é de uma entrega absoluta. Odiamos sua personagem, ao mesmo tempo em que amamos como ela tem a capacidade camaleônica de se transformar em cada filme que faz. E fiquei particularmente tocada com as atuações de Julia Roberts e Benedict Cumberbatch, que conseguem brilhar ao lado de Streep.

Título Original: August: Osange County
Direção: John Wells
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Tracy Lets, baseado em sua peça homônima
Fotografia: Adriano Goldman
Trilha sonora: Gustavo Santaolalla
Tempo de duração: 121 minutos
Com: Meryl Streep (Violet Weston), Sam Shepard (Beverly Weston), Julia Roberts (Barbara Weston), Ewan McGregor (Bill Fordham), Abigail Breslin (Jean Fordham), Chris Cooper (Charlie Aiken), Margo Martindale (Mattie Fae Aiken), Benedict Cumberbatch (pequeno Charles Aiken), Julianne Nicholson (Ivy Weston), Juliette Lewis (Karen Weston), Dermot Mulroney (Steve Huberbrecht) e Misty Upham (Johnna Monevata).

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Blue Jasmine

fevereiro 9, 2015

55043_CTHE_AmarayKeepcaseCoverNOTA: 8,5

O cineasta Woody Allen ficou conhecido, ultimamente, por levar seus personagens a lugares turísticos apresentando-os de uma maneira idílica, quase como se aquelas cidades fossem outras. Depois de nos levar a Paris e a Roma, Allen retorna a sua amada Nova York para contar a história de Jasmine, uma socialite mimada, acostumada às regalias, cuja vida é despedaçada ao descobrir que seu marido, Hal, a traía.

Em um momento de desespero, ela decide contar tudo aquilo que sabia acontecer debaixo de seu teto – mas nunca havia questionado – ao FBI. Dizendo que havia sido cega pelas falcatruas de Hal, Jasmine decide deixar Nova York para morar com Ginger, a irmã igualmente adotada – e que não poderia ser mais diferente – em São Francisco.

Enquanto Ginger se contenta com o pouco, mostrando ser uma pessoa simplória, Jasmine não se conforma com o estilo de vida medíocre da irmã e faz de tudo para demonstrá-lo. Embora se encontre na mais absoluta miséria, Jasmine não faz questão de ser simpática ou cordial. Ao contrário: sentindo-se vítima das ações do marido (mesmo sendo cúmplice), a ex-socialite recusa-se a trabalhar com qualquer coisa que seja “muito servil” – como a secretária de um dentista.

Claramente entrando em um colapso nervoso, Jasmine é uma figura tragicômica. Suas preocupações são tão pequenas se comparadas aos problemas do “mundo real” – a começar por sua irmã – que o riso vem, inevitavelmente. Mas Blue Jasmine está longe de ser uma comédia.

Um dos poucos filmes pesados e dramáticos da carreira de Allen, este longa concentra-se nas loucuras da personagem central, sua paranoia, hipocondrismo e sinceridade cruéis. E Cate Blanchett se sai maravilhosamente bem ao encarnar essa figura excêntrica e triste, beirando à demência. Tanto que só conseguimos dimensionar o tamanho de sua dor quando percebemos que ela não só fala sozinha como revive, em diálogos, as brigas com o ex-marido, chora ao telefone com uma possível paquera – como se fosse incapaz de ser amada – etc.

Mostrando-se ser um interessante estudo de caso do diretor, Blue Jasmine ainda faz brilhar o talento dos atores coadjuvantes, a começar por Sally Hawkings, mas também os comediantes Louis C. K. e Andrew Dice Clark. E embora as atuações sejam impecáveis, há alguns elementos do longa que deixam um pouco a desejar.

A trilha sonora, como de costume, é um jazz triste e melancólico que casaria bem com a personagem-título se não nos remetesse diretamente aos longas mais recentes e alegres de Allen. Esse contraste acaba prejudicando um pouco o clima, mas de maneira alguma a experiência final. Há, também, um personagem colocado no roteiro quase exclusivamente para criar o elemento discórdia entre as irmãs, já que seu papel é pouco relevante para as personagens em si.

Mesmo sendo um dos pontos altos na carreira de Blanchett, não tenho dúvidas de que prefiro o Woody Allen feliz e irônico de Meia-Noite em Paris.

Título Original: Blue Jasmine
Direção: Woody Allen
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Woody Allen
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Tempo de duração: 98 minutos
Com: Cate Blanchett (Jasmine), Alec Baldwin (Hal), Sally Hawkins (Ginger), Daniel Jenks (Matthew), Andrew Dice Clay (Augie), Louis C. K. (Al), Peter Sarsgaard (Dwight).

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Gravidade

janeiro 16, 2014

gravity-alt-poster-doaly-small-610x915NOTA: 8

Quando assisti Gravidade no cinema, tinha a possibilidade de optar pela sala 4D – que é um nível acima do 3D. Fiquei curiosa e resolvi experimentar. Digo isso logo de início porque acho que mudou totalmente a perspectiva do filme. Já no começo da projeção percebi o que as tais cadeiras 4D fazem: se mexem, como em um simulador. No caso deste novo projeto do mexicano Alfonso Cuarón, não poderia ser mais conveniente estar se balançando na frente da tela. Explico agora.

Gravidade se passa inteiramente no espaço, enquanto uma equipe de astronautas trabalha duramente para consertar o telescópio Hubble. A equipe é formada por dois astronautas experientes – um deles Matt Kowalski, interpretado por George Clooney – e a Dra. Ryan Stone, uma engenheira médica novata. No meio da operação, entretanto, ocorre um perigoso acidente que muda os planos para a equipe, e os três devem fazer manobras arriscadas para conseguir escapar ilesos.

A graça do 4D se apresentava a cada giro da câmera, quando nos movíamos ao mesmo tempo, simulando nossa presença no espaço. Embora soe desconfortável, a sensação foi de tirar o fôlego. O roteiro, escrito por Cuarón ao lado de seu filho, Jonás, conta uma história simples mas que, devido às circunstâncias nas quais se encontram os personagens, cresce em tensão na medida exata, contando apenas com fatores reais daquele ambiente inóspito.

Os diálogos também são interessantes e a todo momento nos ajudam na construção daquelas pessoas. Então, em determinado momento, quando ouvimos uma confissão da Dra. Stone em um momento particularmente delicado, sentimos todo o peso de sua circunspeção e a origem de seu caráter rígido. Isso, claro, é grande mérito da atriz que a interpreta: Sandra Bullock (pronto, falei. E jamais achei que falaria algo assim). Mas Bullock me surpreendeu por sua capacidade de imersão no papel.

Com um ambiente totalmente situado no espaço, Cuarón tem liberdade para explorar esse universo, e o faz de maneira absolutamente brilhante. Assim, acompanhamos um momento crítico de um personagem enquanto ele fica girando, à deriva, sem pontos de referência – e, de repente, o diretor nos coloca dentro do capacete do personagem, e em seu ponto de vista. O terror de uma situação dessas é palpável. Além disso, finalmente alguém teve a decência de não cometer o erro mais crasso em filmes espaciais: o da reprodução de som (Star Wars que me perdoe). Portanto, alguns momentos da projeção são puro silêncio, colaborando para inserir-nos em um ambiente cada vez mais claustrofóbico, se comparado à infinita imensidão do espaço.

O 3D desse filme também é aplicado com parcimônia e de uma maneira que quase nunca se vê em Hollywood – digo, da maneira que deveria ser: sem dar dor de cabeça ao telespectador. A trilha sonora funciona, igualmente, de maneira orgânica, mesclando-se ao design de som com muita eficácia. Com uma fotografia fabulosa de Emmanuel Lubezki, que cobre a Terra sob os diferentes ângulos dos personagens, Cuarón insere alguns momentos a lá A Árvore da Vida de pura contemplação. Assim, a cena em que a personagem de Bullock consegue finalmente se livrar da roupa de astronauta e se encontra já a salvo dentro da nave é de uma beleza, digamos, familiar.

Para complementar, o cineasta faz questão de homenagear algumas produções que, certamente, são influência em sua vida. Não é a toa, por exemplo, que o comando que orienta os astronautas a partir de Houston é a voz de Ed Harris, ator que também interpretou o comando de Houston em Apollo 13. E talvez não seja por acaso que a frase “I have a bad feeling about this” – famosa por ser dita nos três filmes originais de Star Wars por personagens diferentes em cada um – apareça aqui em duas ocasiões.

Gravidade é, enfim, um belo drama sobre superação, recomeço, sobre a própria vida no espaço e sobre a ciência que leva o homem até lá. Mais ainda, para mim é uma reafirmação da própria capacidade do homem de ter autocontrole e se superar.

Título Original: Gravity
Direção: Alfonso Cuarón
Gênero: Drama, ficção científica, thriller
Ano de Lançamento (EUA/Reino Unido): 2013
Roteiro: Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón
Trilha sonora: Steven Price
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Tempo de duração: 90 minutos
Com: Sandra Bullock (Dra. Ryan Stone), George Clooney (Matt Kowalski), Ed Harris (Houston).