Archive for the ‘8’ Category

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Corra!

março 5, 2018

NOTA: 8

Desde sua estreia, houve um grande hype ao redor de Corra!, novo filme de Jordan Peele – responsável pelo bonitinho Cegonhas. Primeiro tratado como filme de terror e depois desmistificado para a categoria de thriller psicológico – o que já me chama bem mais a atenção – o longa é um aceno interessante ao gênero, trazendo aquilo que há de melhor nos filmes do tipo: acontecimentos inesperados.

Acompanhamos a história de Chris Washington, um jovem fotógrafo que começa a namorar uma menina inteligente e doce, Rose Armitage. E se em outros filmes um amor interracial não necessariamente precisaria ganhar destaque, aqui é fundamental que pontuemos que Chris é negro e Rose é branca, pois o racismo será a força motriz de toda a narrativa.

Quando o casal planeja uma viagem para passar um fim de semana na isolada casa dos Armitage, Rod, o amigo policial (e também negro) de Chris o avisa contra, dizendo que brancos e negros não se misturam. Mas como Rose garante que não haverá nenhum tipo de preconceito por parte de seus pais – uma vez que o pai é grande fã de Barack Obama –, Chris concorda em ir. Lá chegando, os pais de Rose parecem se esforçar para não soar estranhos ou fazer comentários esquisitos – o que invariavelmente falha.

Por coincidência, naquele mesmo fim de semana os pais de Rose receberiam os amigos da família para celebrar uma festa que os avós sempre fizeram. Uma festa, obviamente, onde todos são brancos. Mas há outras pessoas negras no filme: a empregada Georgina e o jardineiro Walter são os dois únicos funcionários da mansão.

Sem querer revelar muito do filme – portanto, se ainda não assistiu, talvez seja melhor não continuar lendo – a grande sacada de Corra! é a ambientação e construção de frame. Desde a primeira cena, o diretor nos coloca em uma posição de observadores intrusos, como se não devêssemos estar vendo aquilo. A sensação de que algo ruim vai acontecer é marcante desde o princípio – e a trilha sonora, um pouco óbvia, de Michael Abels também colabora com esse sentimento.

Em essência, Corra! é um filme sobre racismo e sobre como os negros estão constantemente se protegendo da sociedade. A cena na qual o policial pede a habilitação de Chris mesmo sabendo que ele não estava dirigindo é um exemplo breve e simplista, mas bem claro. E apesar da aparente sensatez dos Armitage, a aura de estranheza que envolve a família e os empregados é palpável – e, aqui, todos os atores dão um show de interpretação, fazendo com que fiquemos ansiosos sem saber o porquê.

Destaque especial para Betty Gabriel, que interpreta Georgiana e que está fantástica, e ao próprio Daniel Kaluuya, cuja nomeação ao Oscar de Melhor Ator foi mais do que merecida. Ele é hábil em transmitir a inquietação do personagem, ou de simplesmente reagir ao encontro com a mãe de maneira verossímil.

Assim, se passamos quase metade da projeção nos perguntando “mas que diabos?”, essa é justamente a intenção de Peele, que constrói uma mise-en-scène de tensão e revelações à altura. Da iluminação até a edição de som, o ambiente é feito para que nos sintamos extremamente incômodos, tais como Chris. É uma excelente experiência psicológica, que me lembrou bastante o conto de H. G. Wells, “A história do falecido Sr. Elvesham”.

Ainda que o final seja um pouco óbvio e não dê aquela sensação de vingança que sentimos em Django, por exemplo, este é um ótimo exemplo de como tratar questões difíceis para uma comunidade – o racismo sutil ou escancarado – de maneira eficaz, colocando todos os personagens no centro de uma trama inquietante e bem elaborada. O cineasta foi laureado neste último domingo com o Oscar de Melhor Roteiro Original.

Título Original: Get out!
Direção: Jordan Peele
Gênero: Horror, mistério, thriller
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Jordan Peele
Trilha Sonora: Michael Abels
Fotografia: Toby Oliver
Tempo de Duração: 1h44
Com: Daniel Kaluuya (Chris Washington), Allison Williams (Rose Armitage), Catherine Keener (Missy Armitage), Bradley Whitford (Dean Armitage), Caleb Landry Jones (Jeremy Armitage), Betty Gabriel (Georgina), Marcus Henderson (Walter), Lakeith Stanfield (Andre Logan King).

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Victoria & Abdul

fevereiro 27, 2018

NOTA: 8,5

Se há uma coisa que Dame Judi Dench sabe fazer bem é interpretar personagens históricos. Desde sua primeira aparição como Catarina rainha da França na década de 60, ela já encarnou dezenas de figuras do passado, incluindo a amante de Henry V no épico de 89 com Kenneth Branagh, as rainhas Vitória e Elizabeth I da Inglaterra (em Mrs. Brown e Shakespeare Apaixonado), Lady Catherine de Bourgh em Orgulho & Preconceito e Miss Matty Jenkyns na excelente série Cranford. Ela retorna, aos 83 anos de idade, para reinterpretar a rainha Vitória em seus últimos dias, no ótimo e subestimado Victoria & Abdul.

Dirigido por Stephen Frears – responsável, também, pelos bons Philomena e a A Rainha, com Helen Mirren – o longa conta uma história um tanto quanto inusitada e, talvez, até mesmo desconhecida aos não britânicos: a incorporação de funcionários indianos aos serviços palaciais, incluindo o cargo de secretário pessoal. Isso só foi possível, é claro, graças ao domínio de quase 100 anos do Reino Unido sobre a Índia.

A ocasião é o jubileu de ouro da Rainha, que atrai para a Inglaterra dois jovens funcionários de classe baixa. Um deles, Abdul Karim, de modos mais arrojados, encontra o favor da monarca ao tratá-la não como uma personalidade intocável, mas como uma pessoa normal. Enquanto essa relação soa de extremo mau gosto aos demais serviçais reais – por ele ser um estrangeiro, indiano, de cor, muçulmano e, nas palavras dos próprios personagens, um “comum” –, a rainha se sente cada vez mais próxima ao jovem rapaz, passando a maior parte do tempo ao seu lado, aprendendo a falar o idioma urdu, redecorando alas do palácio de acordo com a moda indiana e trazendo-o ao seu círculo de relações pessoais – o que na época era absolutamente impensável.

Aos poucos, a Rainha deve quebrar o casulo de vidro com o qual a cercam, como se ela fosse somente governante e não mais um ser humano, e tratando-a como uma velha senil incapaz de tomar decisões por conta própria. Lembrando que a Era Vitoriana foi um dos períodos de maior avanço econômico do Reino Unido, tendo passado vitoriosamente por uma Revolução Industrial e saído não só mudado, como positivamente fortalecido.

Vemos, então, uma senhora de idade que precisa de companhia, e anseia por alguém com quem compartilhar novas experiências, por mais tolas que sejam. A fragilidade física não chega a comprometer o caráter forte daquela mulher notável que, após perder seu amado marido Albert, nunca mais se sentiu totalmente completa. E Victoria & Abdul é muito hábil em mostrar tudo isso, toda a complexidade de um personagem tão poderoso e ao mesmo tempo tão vulnerável.

O roteiro de Lee Hall – baseado nos documentos recentemente encontrados do verdadeiro Abdul Karim – consegue captar esses momentos de intimidade entre a rainha e seu novo secretário, deixando dúvidas até mesmo sobre um envolvimento romântico. O elenco de apoio também faz um bom trabalho, especialmente os dois rapazes indianos, Ali Fazal e Adeel Akthar, que expressam tanto a incerteza da posição conquistada quanto à falta de protocolo tão característica da família real britânica.

Objetiva e cativante, a relação de Victoria & Abdul foi um deleite de se ver. Mas mais do que isso, Victoria & Abdul é divertido. Com pitadas do melhor humor britânico, que aparece em pequenas doses nos lugares certos, o filme brilha até mesmo entre aqueles indicados ao Oscar de Melhor Filme – e é uma pena que este não tenha entrado já que é uma história mais merecedora do que alguns dos concorrentes ali.

Além do desempenho sempre na mosca da magnífica Judi Dench, que representa com perfeição a Vitória aos 81 anos, a própria história contada parece relevante nos dias de hoje, quando não só a família real está passando por grandes mudanças de protocolo com a jovem princesa americana, mas também por colocar, novamente, temas como o racismo à mesa, fazendo questão de ressaltar alguns períodos não tão gloriosos de sua História.

Título Original: Victoria & Abdul
Direção: Stephen Frears
Gênero: Biografia e drama histórico
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Lee Hall
Trilha Sonora: Thomas Newman
Fotografia: Danny Cohen
Tempo de Duração: 1h51
Com: Judi Dench (rainha Vitória), Ali Fazal (Abdul Karim), Tim Pigott-Smith (Sir Henry Ponsonby), Eddie Izzard (príncipe Bertie), Adeel Akhtar (Mohammed), Michael Gambon (Lorde Salisbury), Paul Higgins (Dr. Reid), Olivia Williams (Lady Churchill), Fenella Woolgar (Miss Phipps) e Simon Callow (Puccini).

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Eu, Tonya

fevereiro 26, 2018

NOTA: 8

Pouca gente se lembra de Tonya Harding – nem necessariamente deveria. A competidora de patinação no gelo pelos Estados Unidos nas Olimpíadas de Inverno de 1994 – a grande promessa de sua carreira – conseguiu apenas a oitava colocação, após o qual abandonou a carreira de patinação. Talvez essa seja a razão pela qual Eu, Tonya, filme dirigido por Craig Gillespie e roteirizado por Steven Rogers não tenha tido chance para o pódio de Melhor Filme do Oscar 2018. O longa é um filme bem-sucedid0 sobre um grande fracasso, que foi a vida de Tonya enquanto patinadora.

Protagonizada com grande carisma pela australiana Margot Robbie, Tonya é representada como uma menina pouco convencional para o esporte: roqueira, extravagante, bocuda e informal, ela raramente conseguia a aprovação dos juízes das competições, por mais que sua patinação fosse boa, por ser um pontinho fora da curva. Sua esquisitice e a falta de pertencimento à categoria – que requer uma seriedade que Tonya pareceu nunca ter – garantiram-lhe poucos prêmios.

Isso sem contar, é claro, sua abominável mãe, que agiu com ela como um monstro ou uma escravizadora, obrigando-a a ser mais do que perfeita, criticando cada má conduta – que podia ir de um giro errado a uma distração na vida de adolescente – e nunca, nunca elogiando os méritos da menina. E, nesse sentido, Allison Janney está brilhante, encarnando uma pessoa odiável, incapaz de demonstrar o mínimo amor pela filha. Mas isso não é lá muito importante, porque o filme não se deixa abalar pela onda de negatividade que deve ter sido essa mulher na vida de Tonya. Não! Tal como a patinadora, o filme faz questão de ir empurrando a mãe para debaixo do tapete, de modo que sua presença se vá fazendo cada vez menos essencial em tela e na vida da esportista.

Quem foi ganhando cada vez mais relevância foi o namorado e depois marido Jeff Gillooly, um abusador de primeiríssima mão que, quando não espancava a namorada, torturava-a com violência psicológica da mais alta qualidade: “volta comigo ou eu me mato”. Esse relacionamento, embora mais insalubre, impossível, tampouco impediu Tonya de treinar, quebrar recordes eventualmente ganhar prêmios importantes. Ela foi a primeira mulher americana a conseguir realizar o salto triple axel (com três piruetas e meia). Em 1991, ela levou a medalha de prata no Campeonato Mundial e era uma das favoritas para as competições futuras.

Obviamente tudo foi para o saco quando o Gillooly e um amigo seu, Shawn Eckhardt – um imbecil completo, com mania de grandeza e a encarnação de uma figura que assustadoramente aparece com frequência demais: o redneck estadunidense – decidem organizar um boicote à patinadora favorita, Nancy Kerrigan, após Tonya ter recebido ameaças contra sua vida. De acordo com a versão de Gillooly, a intenção era uma, mas a coisa saiu do controle quando seu amigo cretino decide agredir fisicamente Kerrigan, impossibilitando-a de competir por completo.

Passando por inquéritos policiais, piores momentos (se é que era possível) com o marido e sofrendo de ansiedade, Tonya entra na pista de gelo, em 1994, sob muita pressão, e acaba em oitavo lugar. Seu sonho havia terminado, e ela foi proibida judicialmente de jamais voltar a patinar.

Encarnando Tonya em diversos momentos da vida, da adolescência aos quarentões – embora a menos convincente seja a adolescente, já que nem mesmo o aparelho falso ou a equipe de maquiagem conseguiram tirar os 27 anos que Robbie já tem –, a atriz se mostra confiante. Como demonstrou em O Lobo de Wall Street, ela sabe usar o humor para contar histórias fortes, e aqui não é diferente.

Com mais pitadas de comédia do que se poderia imaginar a princípio, Eu, Tonya, parece ser uma fotocópia realista do escracho de sua biografada – a qual Robbie também interpreta já mais velha e ex-boxeadora, relembrando o “incidente” do passado e a vida ao lado de Gillooly. É um filme interessante não só para quem é fã do esporte. E mais, a maquiagem e o CGI empregados para fazer com que fosse Margot, e não Tonya, a deslizar pelo gelo são eficientes, imergindo o espectador na história.

Há alguns momentos interessantes de cortes de cenas e fotografia inspirados, e a trilha sonora é bacana, mas pouco marcante. Ainda assim, é uma pena que esteja concorrendo somente como Melhor Atriz, quando também deveria ter sido dada uma chance a Sebastian Stan como coadjuvante e ao próprio filme. Eu, Tonya, poderia perfeitamente entrar no lugar de A Forma da Água, novo filme de Guillermo Del Toro que está sendo amplamente superestimado pela crítica (e do qual falarei em posts futuros).

Título Original: I, Tonya
Direção: Craig Gillespie
Gênero: Biografia, comédia e drama
Ano de Lançamento (EUA): 2018
Roteiro: Steven Rogers
Trilha Sonora: Peter Nashel
Fotografia: Nicolas Karakatsanis
Tempo de Duração: 2h
Com: Margot Robbie (Tonya Harding), Sebastian Stan (Jeff Gillooly), Allison Janney (Lavona Harding), Julianne Nicholson (Diane Rawlinson), Paul Walter Hauser (Shawn Eckhardt), Bobby Cannavale (Martin Maddox), Caitlin Carver (Nancy Kerrigan).

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Com amor, Van Gogh

fevereiro 26, 2018

NOTA: 8

Realizado como uma produção polonesa, o longa metragem animado sobre a morte do aclamado pintor Vincent Van Gogh – reconhecido como tal somente post-mortem -, demorou seis anos para ficar pronto e contou com a colaboração de 125 artistas. Pintado quadro a quadro com a mesma técnica utilizada pelo mestre holandês, Com amor, Van Gogh é uma poesia visual, no qual cada plano é uma obra de arte.

O filme começa sua história um ano após o suicídio do artista. O carteiro da pequena cidade onde vivia – e que frequentemente levava as cartas de Vincent a seu irmão, Theo – pede ao filho, Armand, que entregue pessoalmente a última carta aos parentes do falecido.

Assim, ainda que relutante, Armand empreende uma viagem para recontar morte do pintor e os mistérios acerca de seu suposto homicídio. O filme nos leva por uma trama bem contada a respeito dos eventos que ocorreram alguns antes dias antes e que conduzem Armand a uma investigação detetivesca sobre os verdadeiros motivos que levaram alguém pacato como Vincent à morte. Além de conhecermos os personagens que se relacionaram com ele durante sua estadia em Auvers-sur-Oise, na França – como seu médico Paul Gachet e sua filha, Marguerite, e os donos do albergue onde se hospedava -, descobrimos mais sobre a vida por trás do gênio do pós-impressionismo.

Vincent era uma pessoa problemática, sofrendo de psicose, alucinação e, posteriormente, depressão. E como era muito comum, Van Gogh era um artista frequentemente menosprezado, considerado louco e fracassado, embora tivesse amigos como o também pintor Paul Gauguin – a amizade terminou quando Van Gogh, em um acesso de raiva numa discussão, cortou a própria orelha esquerda fora. Também podemos compreender a inspiração por trás de alguns de seus quadros mais famosos.

Com um roteiro enxuto e objetivo, escrito por Dorota Kobiela, Hugh Welchman, que também dirigem a produção, e Jacek Dehnel, Com amor, Van Gogh é, em certa medida, uma homenagem e um pedido de desculpas, como se a humanidade pedisse perdão por não haver compreendido quem foi esse homem internamente conturbado, embora gentil e pacífico aos olhos dos demais.

Sua morte, ainda que inesperada e mesmo tendo ocorrido em outra época, ajuda a discutir o tema do suicídio e da depressão, trazendo mais uma vez à tona temas tão importantes e recorrentes na nossa sociedade hoje. O longa é inacreditavelmente bem feito e os personagens foram pintados manualmente com base na atuação de atores reais, frame a frame, transformando a projeção em uma sequência de obras vivas. E embora a história em si seja simples e óbvia (uma vez que a vida e a morte do pintor são amplamente conhecidas), a evolução de Armand como homem descrente a alguém motivado pela busca da verdade é interessante e bem contada.

A fotografia de Lukasz Zal e Tristan Oliver ajuda a realçar as cores das pinturas, mostrando que nem só de animação digital vive o século XXI. E ainda que a história não seja lá grande coisa – que, realmente, não é – a arte em si é o grande personagem, fazendo uma história banal ser uma experiência espetacular.

Título Original: Loving Vincent
Direção: Dorota Kobiela e Hugh Welchman
Gênero: Animação, biografia e crime
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Dorota Kobiela, Hugh Welchman e Jacek Dehnel
Trilha Sonora: Clint Mansell
Fotografia: Lukasz Zal e Tristan Oliver
Tempo de Duração: 1h34
Com: Douglas Booth (Armand Roulin), Chris O’Dowd (Joseph Roulin), Helen McCrory (Louise Chevalier), Eleanor Tomlinson (Adeline Ravoux), Aidan Turner (o barqueiro), Saoirse Ronan (Marguerite Gachet), Jerome Flynn (Dr. Gachet), Robert Gulaczyk (Vincent Van Gogh), Cezary Lukaszewicz (Theo Van Gogh).

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Dunkirk

fevereiro 24, 2018

NOTA: 8,5

Existem alguns filmes que já não são feitos para serem assistidos de uma tela de televisão, por mais modernos e equipados que os aparatos sejam. Foi assim com Avatar, Gravidade e é assim com Dunkirk. Para aqueles que tiveram a possibilidade de assistir a mais nova produção de Christopher Nolan nos cinemas, Dunkirk foi uma experiência única.

Na história do Cinema há vários longas que trataram a guerra da maneira mais real possível, sendo o primeiro deles O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg – especialmente da fantástica sequência inicial –, e o recente Até o Último Homem, de Mel Gibson, que traz uma faceta tão brutal da guerra que nem mesmo eu, grande fã do gênero, havia ainda me deparado. É assim, também, em certa medida, este novo Dunkirk.

Bem menos emotivo que os dois primeiros, a obra de Nolan, escrita e dirigida por ele mesmo, aborda a intensidade e crueza da guerra de uma forma diferente. Acompanhamos a trajetória de um grupo numeroso de soldados belgas, franceses e britânicos que ficaram encurralados em uma praia de Dunquerque (França), sem resgate e cercados pelo exército alemão durante a Segunda Guerra.

Entremeando imagens fortes com um design de som impecável – que pode ser um longo período sem diálogos ou o incessante tique-taque que começa a soar logo no início da projeção –, o longa tem seu mérito em contar a história através da força e resiliência de seus personagens, e não necessariamente em seus diálogos. Usando um recurso que já o havia aclamado antes (em Amnésia), Nolan conta a história em diferentes perspectivas, misturando as linhas do tempo de acordo com os pontos de vista de um soldado que está em terra, outro que está no ar e outro no mar.

Por terra: enquanto Tommy, que está em terra, precisa se esconder do iminente ataque alemão que está empurrando cerca de 300 mil soldados cada vez mais para o insondável oceano; ele encontra outros companheiros igualmente desesperados para embarcar para fora dali – o que invariavelmente nunca acontece, porque aquilo é a guerra, e um barco jamais teria chances de escapar tendo toda a frota alemã fuzilando os ares com aviões de caça. Tommy e os outros pulam de uma armadilha para outra, nunca conseguindo um lugar seguro.

Por mar: ao mesmo tempo, o comandante naval Bolton recebe a notícia de que o primeiro-ministro solicitou aos barcos civis que pudessem ir ao resgate assim o fizessem, aumentando as chances dos soldados de não serem completamente esmagados. Então acompanhamos a história do pequeno barco do Sr. Dawson, que parte com o filho, Peter, e um amigo deste, George. Apesar dos incidentes dentro da embarcação, Dawson decide seguir em frente até Dunquerque.

Por ar: as batalhas acima das nuvens tampouco são fáceis, e vemos os pilotos Farrier e Collins cruzarem o Canal da Mancha em aviões Spitfire para empurrar os caças alemães para longe da costa, permitindo que os soldados em terra tentassem por fim embarcar.

Essas três linhas do tempo não são exibidas em ordem cronológica, o que exige esforço do espectador para colocar todas as peças do quebra-cabeça em ordem – o que obviamente acontece, pois Nolan é um bom contador de histórias e, no fim, faz com que todas as peças se encaixem naturalmente. É realmente notável o uso que o diretor faz do design e edição de som para esse filme. Já havíamos visto em A Origem como ele usa uma única música de Edith Piaf para conduzir o fio narrativo e, aqui, ao invés de uma música, é uma série de sons realistas – que também contam com a ajuda da magnífica trilha de Hans Zimmer, o John Williams de sua geração.

A fotografia de Hoyte Van Hoytema (responsável também pelo belíssimo Ela e por Interestelar) é também bastante boa, investindo praticamente 100% na paleta dessaturada, que aponta para a quantidade de morte e tragédia envolvidas. É um filme duro e violento. Cru e brutal como a guerra, e de uma imersão total. Assisti-lo no cinema me provocou imensa tensão, e só consegui relaxar ao perceber que o tique-taque havia finalmente acabado. A guerra havia acabado. Alguns de nossos personagens são resgatados e levados para casa, tratados como heróis. Outros não têm a mesma sorte.

Dunkirk é, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes da carreira de Nolan – embora não meu favorito –, com um roteiro objetivo e inteligente e um elenco igualmente bom, que desenvolve os personagens de maneira tridimensional com o pouco diálogo disponível. Vê-lo no cinema foi uma experiência ótima e, por enquanto, irrepetível, e imagino que não seja o mesmo que assisti-lo em uma tela pequena, com uma abrangência de sons limitada. Mas vale a pena mesmo assim. É uma nova maneira de storytelling, um novo jeito de se olhar para o gênero de filmes de guerra. E isso por si só já é extremamente interessante, considerando a enorme quantidade de bons filmes sobre o tema que existem por aí.

Título Original: Dunkirk
Direção: Christopher Nolan
Gênero: Ação e drama histórico
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Christopher Nolan
Trilha Sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Tempo de Duração: 1h46
Com: Fionn Whitehead (Tommy), Aneurin Barnard (Gibson), Mark Rylance (Mr. Dawson), Barry Keoghan (George), Tom Glynn-Carney (Peter), Tom Hardy (Farrier), Jack Lowden (Collins), Kenneth Branagh (comandante Bolton), James D’Arcy (coronel Winnant), Matthew Marsh (vice-almirante), Cillian Murphy (soldado do barco), Adam Long (sub-tenente) e Harry Styles (Alex).

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Logan

março 20, 2017

NOTA: 8,5

Já ouvi de algumas pessoas que o novo filme protagonizado por Hugh Jackman e seu animalesco Wolverine lembram as cenas cruas e sangrentas de Deadpool – na minha opinião, um dos (senão o) melhor filme do gênero. O que eu tenho a dizer sobre isso é: até que enfim! Até que enfim podemos ver o Wolverine em seu estado natural, dilacerando pessoas e coberto de sangue do início ao fim da projeção.

E não é daqueles tipos de violência gratuita, uma vez que o mutante é um dos heróis mais encarniçados de todo o universo X e merecia que sua vida fosse mostrada tal qual. A história deste Logan gira em torno de um envelhecido Wolverine, que trabalha dia e noite como motorista de uma limusine alugada, propenso ao alcoolismo e com uma doença que se agrava dia a dia, dividindo um galpão abandonado com outro mutante e ninguém menos que o professor Charles Xavier – que, desde o início, aparece meio senil e dopado com drogas que impedem perigosas convulsões.

Logan é o responsável por essa família desajustada, tudo o que restou do famoso grupo dos X-Men – ao que tudo indica, dizimado da história. Soma-se o fato de que há 25 anos não havia o nascimento de um mutante, Logan parece abandonado a sua própria sorte, sendo reconhecido de vez em quando por admiradores pouco respeitosos e engraçadinhos que parecem não saber com quem estão lidando.

Em um desses encontros, o grandalhão recebe a missão de cuidar de uma garotinha, uma mutante criada em laboratório e cujos poderes se assimilam muito aos dele próprio. Fugitiva do lugar que a criou e a outras crianças como ela, Laura precisa chegar a um paraíso para os mutantes, e só o conseguirá com a ajuda de Wolvie. Mesmo relutante, ele percebe que nenhuma das crianças conseguirá sobreviver sem sua intervenção. Assim, em uma missão praticamente suicida, Logan leva a garota através dos Estados Unidos em uma espécie de road movie, que significa o perigo e a morte para todos que cruzarem seus caminhos.

Triste, cheio de referências e tenso na medida, Logan tem algumas pitadinhas de humor bem colocadas e atuações intensas. O próprio Hugh Jackman, tão acostumado ao papel que o lançou ao estrelato, tem de sair de sua zona de conforto para encarnar um personagem amargo, ainda mais mal-humorado e ao mesmo tempo fragilizado. Portanto, mesmo que apareça rosnando, sabemos que seu estado de saúde não é mais o mesmo, e que todos aqueles músculos e sua dita capacidade de regeneração não o estão ajudando em nada.

Louvável também são as atuações da estreante Dafne Keen, cuja pequenez de corpo provoca ainda mais admiração quando ela demonstra seu poder físico, vindo de olhares intensos e uma intenção assassina. Já Sir Patrick Stewart, maravilhoso como sempre, traz um Xavier frágil, velhinho e que necessita atenção especial. Sua voz, alquebrada, é um sinal de sua debilidade, remorso e nostalgia, tudo ao mesmo tempo.

E embora seja uma boa película de ação, Logan não é excepcional. É, sim, um bom filme, especialmente quando traz a redenção desse personagem na telona. Mas o roteiro é simples, com uma história batida – até mesmo para os X-Men – e uma ou outra falha que chegam a ser absurdas. Um exemplo é a cena da granada que explode dentro de um pequeno caminhão, aos pés de duas pessoas – e uma delas sai da explosão com apenas alguns arranhões, ao invés de sair de lá sem as duas pernas.

Claro que há coisas louváveis, como a fotografia, a edição e a sonoplastia, que valorizam muito as cenas de combate, mostrando o sangue jorrando, partes do corpo voando e o barulho de carne sendo cortada com facas. Tudo isso faz com que o sofrimento seja plausível, e a vulnerabilidade de Logan ainda maior. Cada porrada que ele recebe é tão palpável que quase sentimos na pele. Há, ainda, detalhes incríveis como as feias cicatrizes que ele carrega, e de onde saem suas garras (e que podem ser vistas em uma cena muito rápida quando ele está no banheiro limpando sangue das mãos).

Fazia tempo que nós, fãs, esperávamos por algo assim, então posso dizer que, com certeza, esse é o melhor filme do herói feito até agora. Claro que não é dizer muito, comparando com o fiasco de Origins e o mediano Imortal, mas fica a indicação.

Título Original: Logan
Direção: James Mangold
Gênero: Ação, drama, ficção científica
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Scott Frank, James Mangold e Michael Green
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Fotografia: John Mathieson
Tempo de Duração: 137 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan), Patrick Stewart (prof. Charles Xavier), Dafne Keen (Laura), Boyd Holbrook (Pierce), Stephen Merchant (Caliban), Elizabeth Rodriguez (Gabriela), Richard E. Grant (Dr. Rice), Eriq La Salle (Will Munson), Elise Neal (Kathryn Munson), Quincy Fouse (Nate Munson).

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Rogue One: Uma História Star Wars

dezembro 22, 2016

ysos4yfgbut5v2uvrqdh6wNOTA: 8,5

Quem espera “mais uma história” sobre o universo de Star Wars será surpreendido antes mesmo de o filme começar. Acostumada a escutar a tão característica fanfarra da 20th Century Fox e a trilha sonora marcante de John Williams que dava abertura à saga, foi com certa surpresa que iniciei a sessão desta nova produção do diretor Gareth Edwards. Pulando até mesmo o icônico letreiro que introduzia a estória, Rogue One: Uma História Star Wars já se estabelece como um ponto fora da curva antes mesmo de sua primeira cena.

Servindo ao mesmo tempo como elo e redenção do Episódio IV, Rogue One também tem como temática a esperança. Acompanhamos a história de personagens totalmente diferentes dos vistos no Episódio VII – O Despertar da Força. Conhecemos Galen Erson (o sempre maravilhoso Madds Mikelsen), um engenheiro do Império Galático e responsável por uma superarma. Quando o império aparece na porta de sua casa para “reclamar” o pai de volta ao trabalho, ele urge para que Jyn, sua filha, fuja e se esconda.

Resgatada e criada por um companheiro de Galen – coisa que ficamos sabendo por uma breve explicação mais adiante, já que não vemos isso acontecer –, Jyn se torna uma moça fria e independente que apenas tenta sobreviver, sem se importar com a guerra lá fora (“é só não olhar para cima”, diz ela em certo momento). Presa pelas forças imperiais, ela é resgatada pela Aliança Rebelde, já que esta precisa de sua ajuda para chegar ao homem que a salvou quando criança: Saw Guerrera, um extremista que não vê amigos no Império ou na Aliança, e luta por conta própria com seus guerrilheiros na cidade-templo de Jheda. Sua importância logo fica clara: Guerrera recebeu uma mensagem secreta enviada por Galen (que Jyn acreditava estar morto) através do piloto desertor do Império, Bhodi Rook (em uma ótima atuação de Riz Ahmed).

Ao mesmo tempo, acompanhamos a trajetória do capitão Cassian Andor, um rapaz que viveu toda sua vida em prol da Rebelião – como ele mesmo menciona algumas vezes. Quando Cassian descobre, por meio da misteriosa mensagem de Galen, que há uma maneira de destruir a tal arma, um pequeno grupo decide ir, a contragosto do Conselho, atrás dos planos da arma, escondidos em Scarif. Ao lado de personagens secundários eficazes – o monge cego Chirrut Îmwe e seu companheiro Baze Malbus, e o dróide imperial reprogramado a favor “da causa”, K-2SO – os heróis devem se infiltrar no território inimigo e retransmitir os planos de lá.

Misturando com naturalidade cenas de ação intensa com diálogos explicativos – e que não soam expositivos –, Rogue One se mostra muito mais eficiente do que o precedente. Além de ter um objetivo mais claro, o longa não se perde em teorias. A experiência se torna ainda mais rica quando observamos a reconstrução exata daquele universo concebido no fim dos anos 70, com seus aparelhos analógicos, tecnologia limitada e imagens com aspecto antigo. É sabido, inclusive, que algumas cenas deletadas do Ep. IV foram usadas aqui (algumas dos pilotos e dentro da cidade, que no filme de 77 corresponderiam a Tattooine).

Edwards mostra domínio sobre o universo e sua franquia, não só passando por vários planetas e luas que não participavam da “história principal” da família Skywalker mas, também, dando constantes piscadelas para o espectador, espalhando easter eggs dos mais variados em diferentes momentos (e que são muito divertidos quando descobertos. Meus favoritos são o holograma da dançarina e o suco azul). Também é interessante ver como a Força é utilizada aqui como motivo religioso, uma vez que nenhum dos personagens é de fato um Jedi. Assim, Chirrut e Baze constroem um arco interessante a respeito da fé na Força.

E se Diego Luna se mostra confiante no personagem, trazendo dores de um passado que não é mostrado, Felicity Jones parece sempre um pouco apática, embora seja compreensível, já que a própria Jyn era, a princípio, apática com relação à rebelião. Forest Whitaker, embora breve, marca presença com seu Saw Guerrera, e John Mendelsohn traz características marcantes ao vilão Orson Krennic. Uma boa surpresa é Alan Tudyk como a voz de K-2SO, sempre sarcástico e estranhamente humano para um robô imperial – cujo estranhamento é proposital e ainda mais divertido.

É necessário dizer, no entanto, que um dos pontos mais estranhos de Rogue One são as aparições de dois personagens “impossíveis”: sobre um não direi, pois é spoiler. O outro é Grand Moff Tarkin, “interpretado” por Peter Cushing. Devo colocar entre aspas pois Cushing faleceu em 1994, e o CGI que se emprega para trazê-lo de volta é tão escancarado que nos desconcentra por completo. Por mais interessantes que sejam suas aparições e seus personagens, o CGI fica demasiado óbvio quando colocado ao lado de pessoas reais. E em uma das cenas com Krennic, é possível contrastar a testa brilhante e colorida deste com a pele opaca e sem vida de Tarkin.

A fotografia de Greig Fraser, que mistura tons vibrantes com uma atmosfera sombria, é excelente, e eu me surpreenderia se não fosse indicada ao Oscar. Há um momento, entre vários, no qual vemos um personagem à contraluz, esperando para ser recebido por um superior, e podemos ver claramente essa dualidade de luz e sombras. As paisagens são construídas com muita eficácia, e ver a superarma em ação é assustador (além de belo, já que sua explosão é massiva e se espalha como um cogumelo de bomba atômica, uma onda de fogo e fumaça), dando ainda mais urgência e realismo à missão da Aliança Rebelde.

Embora se passe em um mundo fictício e em uma época não-existente na História, Rogue One consegue traçar paralelos extremamente atuais: em uma cena, em particular, vemos guerreiros terroristas (com roupas que lembravam os islâmicos) e um grupo de soldados imperiais (os Stormtroopers) atacando-se em meio a uma área civil, com pessoas correndo e gritando. É impossível não pensar em Aleppo.

A importância da causa é tamanha que até mesmo a cética Jyn se une a ela – mesmo que, lá no fundo, fosse para reencontrar-se com seu pai. A missão de entregar os planos da arma para os membros do conselho era tão importante que entendemos o desespero no qual os rebeldes, ao verem a aproximação dos inimigos, saem em carreira desabalada a fim de salvaguardar o que era de mais importante, muito mais do que suas próprias vidas.

Ainda que a última cena seja um pouco absurda – aquele personagem teoricamente estava em missão diplomática no começo do Ep. IV, e não faz sentido que estivesse ali, na frente da batalha – Rogue One é um filme redondo, que faz com que nos importemos com aqueles personagens, mesmo que seus começos e fins nunca mais sejam mais explorados no Cinema.

Título Original: Rogue One
Direção: Gareth Edwards
Gênero: Ação, aventura, sci-fi
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Chris Weitz e Tony Gilroy, baseados em personagens criados por George Lucas
Trilha Sonora: Michael Giacchino
Fotografia: Greig Fraser
Tempo de Duração: 134 minutos
Com: Felicity Jones (Jyn Erso), Diego Luna (Cassian Andor), Alan Tudyk (K-2SO), Donnie Yen (Chirrut Îmwe), Wen Jiang (Baze Malbus), Ben Mendelsohn (Orson Krennic), Forest Whitaker (Saw Guerrera), Riz Ahmed (Bhodi Rook), Madds Mikkelsen (Galen Erso), Jimmy Smits (Bail Organa), James Earl Jones (Darth Vader), Valene Kane (Lyra Erso).