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O Lobo de Wall Street

fevereiro 25, 2014

21061632_20131127212143127.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxNOTA: 9,5

Quando Martin Scorsese se propõe a fazer algo, seja qual for o tema, sempre presto atenção, pois ele raramente me decepciona – até agora, o único filme que não me enganchou foi A Invenção de Hugo Cabret, mas talvez por preguiça minha. Assim, ao saber de seu novo projeto, mais uma vez ao lado de Leonardo DiCaprio, tive a sensação de que seria um dos grandes filmes do ano.

E eu estava certa: O Lobo de Wall Street é um filmaço, cheio de nuances, personalidades fortes e cenas extravagantes – para dizer o mínimo. Não deixa de ser um filme característico do diretor, que conta a história de um personagem principal problemático e que, estranhamente, consegue nos cativar de maneira irresistível. Leonardo DiCaprio interpreta Jordan Belfort, um homem simples que transforma sua carreira em um case de sucesso.

Belfort começou a vida como corretor em Wall Street e, como era um homem extraordinariamente articulado, em pouco tempo fundou a própria empresa, enriquecendo às custas do dinheiro alheio e sobrevivendo à base de muitas drogas e bebidas. Essa história, verídica e baseada na autobiografia do próprio Belfort – traduzida a roteiro por Terrence Winter –, é o retrato da quadrilha americana da década de 90. Belfort e sua gangue de corretores não usavam violência para desbancar os concorrentes, mas não deixavam a antiga máfia que dominou o país (e os filmes de Scorsese) para trás.

Sádicos e pouco preocupados com o próximo – coisa que a máfia italiana nunca deixou de ser –, os personagens têm diálogos vivazes e rápidos, cheios de uma motivação feroz, instigada por “Wolfie”, ou como os amigos chamavam Belfort. Interpretado por Leonardo DiCaprio de maneira intensa – perdendo em genialidade apenas para o Calvin Candie, de Django – e ao lado do comparsa Donnie Azoff (em outra atuação inspiradíssima do comediante Jonah Hill), Belfort é um homem sem limites.

Seguindo à risca os ensinamentos do ex-chefe, Mark Hanna – um Matthew McConaughey que, embora não apareça por mais de 15 minutos, rouba quase o filme inteiro para si –, ele leva a vida ao extremo, usando drogas desenfreadamente e fazendo a melhor reinterpretação do personagem de Ray Liotta de Os Bons Companheiros que eu já vi. Fica difícil imaginar que a Academia não vá presenteá-lo com o Oscar de melhor ator este ano.

De qualquer maneira, Scorsese faz um filme divertido, engraçado e ao mesmo tempo com a constante lembrança de que Belfort não pode sair impune pela série de crimes que comete por onde passa. A fotografia clara, brilhante e alegre de Rodrigo Prieto – antigo colaborador do cineasta – parece contradizer de propósito essa mensagem negativa expressada pela trilha sonora, composta por Howard Shore. O design de som aparece, também, de maneira orgânica e muito bem pensada – há uma cena em que Belfort está fazendo um discurso, por exemplo, e a trilha, o silêncio e o design de som se intercalam, criando uma atmosfera vibrante. Coisa de gênio.

Calejado, Scorsese sabe como conduzir o filme de maneira que reconheçamos o carisma de Belfort tanto quanto seus colegas o reconhecem – venerando-o como a um líder religioso – e, ao mesmo tempo, possamos dar risada de seu papel muitas vezes ridículo. E aquela cena em que ele está em um telefone público num hotel é das mais cômicas da carreira do cineasta. O fio narrativo também é conduzido de maneira espetacular, introduzindo elementos que ajudam na compreensão da história – como corrigir elementos da narrativa no momento em que ela está sendo contada – e chamando o espectador de idiota sem o menor pudor, como o próprio Belfort faz questão de fazer, por exemplo, ao interromper uma fala complexa por acreditar que nós, que estamos de fora do mundo financeiro, acharíamos aquilo chato e confuso.

Embora use alguns links mais óbvios, como o do iate afundando, Scorsese jamais deixa de ser convincente e verossímil ao contar a história. Com uma narrativa subversiva e escancarada, o filme não se dá ao trabalho de dizer que Belfort é um canalha. Nós mesmos deduzimos isso ao longo das quase três horas de projeção. O Lobo de Wall Street é, enfim, mais um dos inúmeros méritos do diretor.

Título Original: The Wolf of Wall Street
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Terrence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort
Trilha sonora: Howard Shore
Fotografia: Rodrigo Prieto
Tempo de duração: 179 minutos
Com: Leonardo DiCaprio (Jordan Belfort), Jonah Hill (Donnie Azoff), Margot Robie (Naomi Lapaglia), Matthew McConaughey (Mark Hanna), Kyle Chandler (agente Patrick Denham), Rob Reiner (Max Belfort), Jon Bernthal (Brad), Jon Favreau (Manny Riskin), Jean Dujardin (Jean-Jacques Saurel), Joanna Lumley (tia Emma), Cristin Milioti (Teresa Petrillo).

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O Hobbit: A Desolação de Smaug

janeiro 23, 2014

20131124-1-copia-2NOTA: 9

A segunda parte da história de Bilbo Bolseiro estreou mês passado e, como toda continuação, teve a intenção de adiantar a história em direção a um desfecho épico – ou seria só a intenção do diretor, Peter Jackson? Seja como for, O Hobbit – A Desolação de Smaug supera a primeira parte em alguns pontos. O primeiro deles é no próprio roteiro que, embora tenha sua dose de problemas, é muito mais divertido e dinâmico, deixando espaço para apreciarmos alguns detalhes que haviam passado em branco na primeira projeção – o que também funciona no sentido oposto, evidenciando alguns absurdos de conteúdo. Por exemplo, grande parte das cenas de ação são mais bem trabalhadas, desde a entrada na casa de Beorn até a cena final com o dragão. Entretanto, e apesar de todos os esforços do cineasta, o 3D é muito mal empregado, provacando mal-estar no espectador nas cenas de maior movimentação.

De qualquer maneira, é curioso observar como Jackson se preocupou em ressaltar a natureza de cada raça, o que não havia acontecido em O Senhor dos Aneis. Aqui, os orcs não falam sequer uma palavra da “língua comum”, o que é a mesmo tempo curioso e tem um efeito de contextualização ótimo – se naquela época Sauron, que usava a língua comum, ainda não estava forte, não faria sentido seus servos serem habituais a ela. O que bate de frente com outro tema que abordo mais adiante.

Não preciso dizer que meus personagens favoritos são Gandalf e Bilbo – cuja dinâmica entre os atores Sir Ian McKellen e Martin Freeman se faz notar em cada cena. Suas atuações conferem grandeza e complexidade. O dragão Smaug é o elemento mais esperado de todo o filme, e não decepciona. Seu design é condizente com o de um monstro tolkieniano, e sua “atuação” pela voz e espírito de Benedict Cumberbatch – que também faz a aterrorizante voz do Necromante – é o ponto alto do filme.

Outra figura que os fãs desejavam muito ver é o homem-urso Beorn, que também se mostra interessante – embora nem de longe demonstre o perigo que Gandalf anuncia antes de invadir sua casa. Posso escalar aqui sem pestanejar minhas três cenas preferidas: a toca das aranhas, a fuga pelo rio e a conversa de Bilbo com Smaug – e, novamente, cada uma dessas sequências tem sua parcela de problemas. Na primeira, pude me dar conta do design de som, feito de maneira idêntica à trilogia do Anel, o que deixa o filme um pouco óbvio.

A cena em que Bilbo e os anões conseguem fugir dentro de barris é engraçada e muito bem bolada. Porém, como dito acima, a ação é bastante prejudicada pelo 3D. Tanto que em determinado momento não sabemos se os personagens que vemos são elfos ou orcs – e só essa comparação já dá a dimensão do problema. E, enquanto a cena de Bilbo com Smaug é inspirada, verossímil e, ainda assim, totalmente coincidente com o livro, o que se passa depois em Erebor – e na própria Esgaroth – me pareceu bastante absurdo, para dizer o mínimo.

Talvez a maior dificuldade da projeção seja manter-se coerente. A partir do momento em que os personagens chegam à Cidade do Lago, o filme fica algo maçante, já que é aí onde se concentra a maior quantidade de problemas dessa continuação. A começar pela tensão desnecessária que Jackson e os roteiristas parecem fazer questão de criar a cada minuto. Quando chegam diante da porta de Erebor (a escada, por sinal, tem um conceito incrível) os anões e Bilbo perdem a última luz do Dia de Dúrin. Analisemos:

1) Por que diabos eles abandonam quatro anões para trás? Isso não faz o menor sentido – nem mesmo para justificar o que acontecerá com eles na sequência; 2) Contrariando toda a caracterização que o cineasta havia feito na trilogia anterior, Thorin (o pior herói de todos os tempos, mas isso fica para o último filme), os anões desistem de buscar a entrada para a Montanha Solitária. E aquela história de que eles são cabeças-duras e extremamente teimosos? Para contextualizar, cito o próprio filme: “você não aprendeu nada com a teimosia dos anões?” 3) Para que a tensão desnecessária de quase perder a chave – e, em outro momento, vemos Bilbo quase perdendo o Anel – se todos sabemos que eles vão entrar – e que o Anel não é perdido? E, finalmente, 4) Os anões não viram, no capítulo anterior, que Elrond leu o mapa sob a luz da lua porque estava escrito em mithril? Não seria excessivamente óbvio supor que a porta também estaria desenhada em mithril? Aparentemente não.

Agora, chegando à questão principal (e ainda sobre os anões): como (deus, como?!) Peter Jackson inclui um romance entre Kili e Tauriel? Um anão e uma elfa. Como? Por quê? Qual o fundamento disso? Além de ser os 20 minutos a mais que sobram no filme, não há, em toda a mitologia de Tolkien, qualquer informação que embase essa decisão. É fato conhecido na Terra-Média que elfos e anões se odeiam, e que esse ódio finalmente termina com a amizade entre Legolas e Gimli. Se, ao invés disso, ele tivesse colocado um romance entre Legolas e Tauriel, seria ruim, mas seria, ao menos, mais justificável. Isso não tem defesa – e ele ainda deu toques de Arwen, quando ela curou Frodo depois de levar a facada do Rei Bruxo, com luzinha santa e tudo o mais! Ah, não, Peter!

Há alguns problemas indissociáveis de O Hobbit 2. Problemas que, provavelmente, serão repetidos – e aqui estou pensando no terrível desfecho que Jackson bolou para o romance “proibido” – e poderão se agigantar conforme nos aproximamos do fim. Só posso esperar que o diretor não seja tão megalômano a ponto de achar que deve incluir sua marca registrada a cada take, e que se preocupe em desenvolver a complexa história que aguarda a última parte, Lá e de Volta Outra Vez, para ser lançada em dezembro desse ano. Ele não terá outra oportunidade.

Título Original: The Hobbit – The Desolation of Smaug
Direção: Peter Jackson
Gênero: Aventura, fantasia
Ano de Lançamento (EUA/Nova Zelândia): 2013
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo del Toro
Trilha sonora: Howard Shore
Fotografia: Andrew Lesnie
Tempo de duração: 161 minutos
Com: Martin Freeman (Bilbo Bolseiro), Ian McKellen (Gandlalf), Richard Armitage (Thorin Escudo de Carvalho), Ken Stott (Balin), Graham McTavish (Dwalin), William Kircher (Bifur), James Nesbitt (Bofur), Stephen Hunter (Bombur), Dean O’Gorman (Fili), Aidan Turner (Kili), John Callen (Óin), Peter Hambleton (Glóin), Jed Brophy (Nori), Mark Hadlow (Dori), Orlando Bloom (Legolas), Evangeline Lilly (Tauriel), Lee Pace (Thranduil), Cate Blanchett (Galadriel), Benedict Cumberbatch (Necromante/Smaug), Mikael Persbrandt (Beorn), Sylvester McCoy (Radagast), Luke Evans (Bard/Girion), Stephen Fry (senhor da Cidade do Lago), Ryan Gage (Alfrid), Manu Bennett (Azog) e Lawrence Makoare (Bolg).

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Universidade Monstros

julho 16, 2013

universidade-monstros-poster2NOTA: 9,5

Já faz muito tempo que a Pixar se firmou como um dos estúdios mais bem-sucedidos do mercado cinematográfico. Os sucessos lançados ao longo de 25 anos de carreira falam por si só e, embora haja um ou outro escorregão nessa trajetória, o fato é que suas animações são esperadas por um público tão vasto que abrange pessoas de todas as idades (o que não deixa de ser surpreendente). Por isso, mesmo não superando os grandes clássicos como Toy Story e Procurando Nemo, a nova produção da Disney-Pixar é admirável.

A história de Universidade Monstros é absolutamente previsível, uma vez que todos os eventos desse filme devem levar àquilo que vimos no adorável Monstros S.A., de 2001. E ainda que o roteiro possa lembrar qualquer outro filme norte-americano de high school, confesso que fiquei bem impressionada. Acompanhamos – do jardim de infância à universidade – a vida do jovem Mike Wazowski, um monstrinho verde, com um único olho e muito pequeno se comparado aos colegas de sala. Sua única ambição na vida é se tornar um assustador da fábrica Monstros S.A.

Mas Mike tem um problema: ele não é assustador. Sua aparência fofinha, a voz esganiçada (em português ou no original) e seu tamanho diminuto fazem de Mike motivo de riso quando decide entrar no curso para formação de assustadores na universidade. Lá ele conhece e rivaliza com o grandalhão James T. Sullivan, filho do grande (e assustador) Sullivan, cuja reputação é levada em alta conta pelos professores e demais alunos. Mas ninguém é mais assustador ali do que a diretora Dean Hardscrabble (um trocadilho interessante, inclusive).

Uma disputa faz com que Mike e Sulley sejam expulsos das aulas de susto e, juntos, devem fazer o impossível para reconquistar sua credibilidade com a diretora. Eles se aliam ao grupo nerd, o mais improvável, para vencer uma dura competição. Se ganhar todas as provas, usando suas habilidades e inteligência, o grupo ganha prestígio na universidade e Mike e Sulley podem voltar às aulas de susto.

Sim, esse é o enredo (escrito a seis mãos por Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird), e as possibilidades do que pode ou não acontecer se estreitam a ponto de se tornarem transparentes como água. Mas só até certo ponto. Estamos, afinal, falando da Pixar (embora haja muito de Disney). Ainda que contenha uma história cujo final já sabemos, o que os leva até lá é interessante. É previsível na medida em que sabemos que tudo vai dar certo, já que eles eventualmente conseguem empregos como assustadores na fábrica. Mas surpreende pelo como.

Sem contar que, tratando-se do estúdio em questão, não esperava mais do que gráficos magníficos. Texturas quase palpáveis, ambientes grandiosos (como a sala dos sustos, que mais parece uma catedral) e, o mais importante, personagens com características e personalidades únicas. Além disso, há inúmeras referências ao longa anterior – como era de se esperar. Mas são referências divertidas e inusitadas (como o primeiro companheiro de quarto de Mike, ou a peça de teatro, encenada ao final de Monstros S.A., que aqui aparece em frases e de maneira muito sutil).

A história é mirabolante, mas adorável como seus personagens. A mensagem também é bonita e positiva, de que devemos aceitar quem somos e nossas habilidades, sem nos preocuparmos com o que os outros vão pensar de nós – um dilema eterno para todos, creio eu.

Título Original: Monsters University
Direção: Dan Scanlon
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird
Trilha sonora: Randy Newman
Tempo de duração: 107 minutos
Com: Billy Cristal/Sérgio Stern (Mike Wasowski), John Goodman/Mauro Ramos (James Sullivan), Steve Buscemi/Márcio Simões (Randall), Helen Mirren/Mariangela Cantú (Dean Hardscrabble), Joel Murray/Samir Murad (Don Carlton), Sean Hayes/Marcos Souza (Terri Perry), Dave Foley/Sérgio Cantú (Terry Perry), Julia Sweeney/Aline Ghezzi (Sherri Squibbles), Alfred Molina/Reinaldo Pimenta (professor Knight), Bob Peterson/Manolo Rey (Roz), John Ratzenberger/ Cláudio Galvan (Yeti), Frank Oz/Marco Ribeiro (Jeff Fungus).

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Homem de Ferro 3

abril 25, 2013

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Novo filme da Marvel, Homem de Ferro 3 tem novo diretor e restabelece a ligação do carismático personagem com o público

NOTA: 9

Três anos depois do último longa “solo” de Tony Stark – um dos principais super heróis da Marvel – a franquia retorna em clima festivo. Embora o novo capítulo comece de maneira mais melancólica do que o habitual, parece que a editora encontra no personagem de Robert Downey Jr. seu porto-seguro. A começar pelo próprio ator que, diferente dos outros heróis apáticos que participam da iniciativa dos Vingadores, se encaixa com tamanha perfeição ao papel que às vezes esquecemos que Tony não é Robert, e vice-versa.

O ataque de alienígenas e a intervenção divina em Nova York (tema de Os Vingadores) deixaram o velho Tony Stark inseguro, paranóico, insone e com ataques de ansiedade. Sua maior preocupação – a segurança de sua amada Pepper Potts – é tema de constantes pesadelos já que ele, como nós, sabe que a vida de um super herói é uma guerra interminável contra o mal.

Consumido pela culpa, o filme começa com a narração em off do protagonista recordando uma fatídica viagem à Suíça, em 1999, que mudaria sua vida. Anos mais tarde, um novo inimigo surgiria para culpar o mundo ocidental – em especial os Estados Unidos – pela desgraça que ocorre no Oriente (não sem razão, vale ressaltar). O vilão Mandarim, a nova ameaça do nosso herói, rapidamente assume a postura de terrorista, invadindo a rede nacional de televisão norte-americana para entregar ameaças de morte aos civis e ao presidente.

Como era de se esperar, a guerra de Mandarim contra os EUA é logo levada para o lado pessoal por Stark, que chama o vilão para um combate corpo a corpo. A partir de então, seguem-se, sequencias de ação e violência inesperadas. Criando tensão eficaz e quase ininterrupta, o novo diretor da franquia, Shane Black, trouxe novo vigor ao personagem, e estabelece uma ligação intrínseca com o público, muito mais afiada do que nos dois capítulos anteriores.

E se há um mérito inegável nessa nova película é a quantidade de momentos surpreendentes e um clímax grandioso. Enquanto Tony continua irreverente, divertido e bem-humorado – mesmo quando está à beira do abismo – sentimos sua vulnerabilidade e fraqueza. Reafirmando o caráter humano do herói, voltamos a vê-lo em plena atividade intelectual – ou seja, construindo parafernálias com sucata – provando, novamente, que é diferente de seus amigos mutantes, e que não passa de um homem mortal que busca sempre o aperfeiçoamento.

O ator Bem Kingsley se sai incrivelmente bem como o Mandarim, em uma espetacular mistura de influências – que vão dos vilões de Bill Nighy aos mocinhos de Liam Neeson – entre muitos outros. O roteiro, escrito a quatro mãos por Black e Drew Pearce, escorrega na hora de definir com precisão os contextos histórico e político. A impressão que fica é a de que esses elementos – como aconteceu com muito mais força nos outros filmes da Marvel – são simples subterfúgios, que não interferem em nada para a vitória dos heróis.

Por outro lado, é necessário reconhecer o feito de que este, muito mais do que qualquer outro longa da editora (mas muito, muito menos do que a trilogia Batman, de Christopher Nolan), parece ter saído das páginas de um gibi. Aliás, me equivoco. O filme inteiro parece uma história em quadrinho. Tanto a fotografia como o enquadramento e a edição – sem contar nas piadas e alívios cômicos que, para mim, funcionaram muito bem – deixam Homem de Ferro 3 com cara daquilo que nasceu para ser. Reunindo todos os elementos de uma HQ das antigas – emoção, tensão, romance, surpresa e final feliz – pode-se dizer que o filme é exitoso.

A trilha sonora, embora não seja marcante, funciona bem. Entretanto, como na maioria dos filmes lançados recentemente, o 3D é desnecessário; uma perda de tempo, dinheiro e investimento. Como disse acima, mesmo que o roteiro cometa alguns deslizes, o longa dá a entender – ainda que seja muito improvável – que essa foi a última aventura do herói, com um sentido de finalização da trilogia. Ao final dos créditos, entretanto, e como é de praxe, sabemos que a Marvel jamais deixará um personagem tão carismático como Tony Stark descansar em paz. Ele retornará, com certeza.

Titulo Original: Iron Man 3
Direção: Shane Black
Gênero: Ação
Ano de Lançamento (EUA/China): 2013
Roteiro: Drew Pearce e Shane Black, baseados nas histórias de Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber e Jack Kirby
Trilha sonora: Brian Tyler
Fotografia: John Toll
Tempo de Duração: 130 minutos
Com: Robert Downey Jr. (Tony Stark/ Homem de Ferro), Guy Pearce (Aldrich Killian), Ben Kingsley (Mandarim), Gwyneth Paltrow (Pepper Pots), Rebecca Hall (Maya Hansen), Paul Bettany (Jarvis), Don Cheadle (James Rhodes), Jon Favreau (Happy Hogan), William Sadler (Sal Kennedy), James Badge Dale (Eric Savin), Dale Dickey (Mrs. Davis), Ty Simpkins (Harley), Marco Sanchez (vice-presidente).

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janeiro 22, 2013

021415_600¡La alegria ya viene!

Explorando a campanha política que derrubou o ditador chileno Pinochet, o novo filme de Pablo Larráin encara com sensibilidade a dureza da época

NOTA: 9,5

O general Augusto Pinochet foi dos maiores ditadores e assassinos da história da América Latina. Após dar um golpe de Estado que levou o então presidente socialista Salvador Allende a suicidar-se, foi eleito com cargo vitalício de 1973 a 1990. O novo filme de Pablo Larráin situa-se em 1988, quando o governo convocou um plebiscito para que o povo decidisse se seu governo deveria continuar ou não.

Logo nos minutos iniciais, fica claro que a medida foi falsamente articulada pelo próprio ditador, para mostrar ao mundo sua justiça e senso de democracia. A oposição esquerdista do Chile, obviamente preocupada com essa medida arbitrária de repressão, fica em dúvida se deve ou não participar do plebiscito, já que era praticamente uma causa perdida.

É aqui que entra um grupo de publicitários e artistas que estavam decididos a dirigir a campanha do “Não”, entre eles, o jovem René Saavedra. Contrário a essa ideia está Lucho, chefe de René e dono da empresa de publicidade na qual ele trabalha – e que, coincidentemente, havia sido aceito no grupo que coordenaria a campanha do “Sim”.

Tem início, então, um árduo trabalho de, mais do que simplesmente proteger o conteúdo produzido – ambos os lados teriam um telejornal de 15 minutos para expor suas ideias –, mas de manter a segurança daqueles a sua volta (amigos e familiares). Pois conforme a campanha opositora deixa de ser ingênua e passa a realmente tocar as pessoas, o grupo de René passa também a sofrer com a pressão de ser um opositor do governo.

Se no início temos a impressão de que René é infantilizado pela ideia da alegria que permeia a campanha – indo contra colocar nos vídeos imagens tristes e de gente sofrendo –, conforme vai crescendo e ganhando adeptos, aumenta o senso de humor e piada em torno da figura de Pinochet.

O êxito foi conseguir trazer ao grupo de votantes as idosas, que tinham medo de que o país voltasse a ser a miséria que era antes do ditador, e os jovens descrentes da mudança. A campanha do Sim, por sua vez, de ameaçadora passou a copiar as ideias do Não, obrigando a oposição a lutar (mais uma vez) contra a perseguição e a censura.

A fotografia de Estefania Larráin, impressa em uma película antiga, como se datada da época, consegue captar a tensão dos momentos de reunião ou durantes as manifestações. A direção de Pablo é bastante coerente, especialmente pelo uso da câmera na mão, com a qual segue os personagens como se fosse uma espiã – em especial nas cenas relacionadas aos “comunistas”. Além disso, para dar veracidade total, Larráin usa cenas da verdadeira campanha e de pessoas que apoiaram-na fora do Chile (como Richard Dreyfuss e Jane Fonda).

É um filme sensível e bonito, que retrata a dureza da época com a mesma leveza da própria campanha do Não, misturando toques de humor, humanismo e esperança. É um filme esclarecedor sobre a história do Chile, que inclusive faz parte de uma trilogia – o antes e o depois da ditadura. É tudo o que o norte-americano Argo poderia ter sido e não foi.

Titulo Original: No
Direção: Pablo Larráin
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Chile/França/EUA): 2012
Roteiro: Pedro Peirano
Trilha sonora: Sebastián Marín
Fotografia: Estefania Larráin
Tempo de Duração: 110 minutos
Com: Gael García Bernal (René Saavedra), Alfredo Castro (Lucho Guzmán), Antonia Zegers (Veronica Carvajal), Luis Gnecco (José Tomás Urrutia), Marcial Tagle (Costa), Néstor Cantillana (Fernando Arancibia), Jaime Vadell (Ministro Fernández), Pascal Montero (Simón).

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Harry Potter e as Relíquias da Morte p. 2

julho 11, 2011

O fim de uma era

Menos cativante do que a primeira parte, o desfecho da saga de Harry Potter leva fãs às lágrimas e encerra definitivamente as aventuras do jovem bruxo

NOTA: 9

Então acabou. Dez longos anos depois, a saga cinematográfica do bruxinho finalmente teve um desfecho, desnecessário dizer, cercado por suspense e intensa exploração midiática. Os fãs de Harry Potter que aguardaram ansiosamente esta última parte de As Relíquias da Morte certamente terão motivos de sobra para chorar do começo ao fim do filme. Afinal, seguindo o ritmo da primeira parte, o roteirista Steve Kloves e o diretor David Yates transpuseram o livro de J. K. Rowling frame a frame.

Está tudo ali? Sim, absolutamente tudo. Diálogos, cenários, personagens, memórias, batalhas, vitórias e mortes, condensadas em 125 minutos de projeção. Se é suficiente? Lamento dizer, mas creio que não. Apesar de ter se saído admiravelmente bem nos dois últimos filmes da franquia (apesar do meio-fracasso de Harry Potter e a Ordem da Fênix), ambos roteirista e cineasta escorregam ao dar vida à última parte do livro em questão. São erros grotescos e reprováveis? De forma alguma. Pequenos deslizes – que nada têm a ver com a adaptação em si – mas que tiram um pouco do brilho e do fôlego que esse momento final deveria ter.

Encontramos Harry, Hermione e Rony exatamente no mesmo ponto em que os deixamos ano passado: na casa de Gui e Fleur, após terem escapado da mansão dos Malfoy e das garras de Belatriz Lestrange. Convencido de que uma das horcruxes está no cofre de Belatriz em Gringotes, o jovem bruxo pede a ajuda de Grampo, duende que ele ajudou a salvar das mãos de Lorde Voldemort. Com um plano mirabolante de transformar Hermione em Belatriz por meio da poção polissuco (em um momento divertido e bastante inspirado da maravilhosa Helena Bonham Carter), os quatro se arriscam para encontrar a taça que pertencera a Helga Hufflepuff. Nem tudo sai como o planejado, e eles acabam encurralados. Para fugir, uma única opção: o dragão que guardava o cofre. Um dragão extremamente convincente, diga-se, de aspecto doentio, mais lembrando uma lagarta cega do que um animal realmente perigoso (o que só aumenta o terror de seu rastro).

Do lombo do animal os garotos se dirigem a Hogwarts, onde certamente poderiam encontrar a Horcrux relacionada à Ravena Ravenclaw. Rapidamente (e no sentido mais literal possível) os três garotos aparatam em Hogsmeade, a vila bruxa, e acionam o alarme que avisaria caso Potter aparecesse por lá. Ajudados por Aberforth Dumbledore, irmão do ex-diretor da escola, eles entram em Hogwarts para encontrar Neville, Luna, Gina e todos os outros membros da AD escondidos e sob a forte pressão do novo diretor, que é ninguém menos do que Severo Snape. A partir do momento em que Harry pisa na escola, é imediatamente avisado que os Comensais da Morte sabem de sua presença e inicia-se, sem mais delongas, a batalha final.

Desde a chegada dos amigos à destruição da taça por Rony e Hermione (e seu tão aguardado primeiro beijo em frente às câmeras); a conversa com o fantasma da Corvinal; a confusão dentro da Sala Precisa e a destruição do diadema-Horcrux até o início do ataque do exército de Voldemort, tudo parece passar como um borrão. A rapidez com que os fatos são contados dá breves tréguas, e a primeira delas é na morte de Snape – certamente uma das cenas mais chocantes desse longa, não só pela morte do personagem em si, mas pela brutalidade com a qual acontece. Não vemos Snape ser atacado diretamente mas, pior do que isso, ouvimos as mordidas da cobra, os gemidos de dor, o corpo batendo contra a parede…

O clímax do personagem, quando Harry vê os segredos tão bem guardados do professor de Poções que ele acreditava odiá-lo, é o momento que levará os fãs às lágrimas compulsivas. Comprovando que Alan Rickman é o homem perfeito para viver o professor de Poções, a atuação do veterano é tocante. Mesmo quando sibila as palavras devagar, como se as mastigasse antes de cuspir, o ator demonstra o olhar digno de compaixão. É uma pena notar que outros atores tão bem qualificados quanto Rickman apareçam menos – caso de Jason Isaacs, Maggie Smith, Mark Williams, David Thewlis e a própria Bonham Carter.

O roteiro retoma o ritmo alucinado quando Harry decide ir à Floresta Proibida enfrentar Voldemort de uma vez por todas – e faz nova pausa para a conversa entre o garoto e Alvo Dumbledore dentro de sua imaginação, quando estava no limiar entre a vida e a morte. Tudo torna a acontecer em um novo piscar de olhos: a morte de Belatriz pelas mãos da Sra. Weasley (uma cena que não levou mais de 2 minutos); a morte de Nagini pelas mãos de Neville e a morte de metade dos personagens (não precisamos de tanto spoiler assim, certo?) até a cena em que Harry finalmente derrota Voldemort e volta para a escola triunfante, entre seus amigos mortos e feridos.

São momentos memoráveis? Sem dúvida. E emocionantes também. Até os mínimos detalhes foram lembrados. É importante frisar, portanto, que Harry Potter e as Relíquias da Morte p. 2 será um prato cheio para quem esperou tanto tempo pelo fim. A batalha é tensa, nos deixa pregados na cadeira, as mortes são dolorosas e apresentadas de maneira bonita. A parte técnica é um dos grandes méritos deste longa (ainda mais quando visto em Imax, o que recomendo fortemente). O design de produção é impecável – a Sala Precisa e seus entulhos é um dos cenários mais fascinantes de toda a saga –, a trilha sonora é grandiosa, mas sabe os momentos certos de silêncio, os CGIs são convincentes e bem feitos e o roteiro consegue espaço para inserir algumas linhas de humor. Além, é claro, de sermos agraciados com um Voldemort mais cruel e irascível do que nunca, cujo sorriso sedento é um indício de medo – méritos absolutos do magnífico Ralph Fiennes, que coroa a personalidade do vilão de maneira primorosa.

O que aconteceu, então? Bem, em primeiro lugar, acredito que o defeito não esteja no filme, mas no livro. Sim, pois como disse nos parágrafos acima, a produção não esqueceu nada, os diálogos foram praticamente transpostos para as telas. O defeito do fim da história é o fim da história em si: ainda que tenham conseguido mostrar a morte do vilão de maneira um pouco menos estúpida, tudo acaba bem demais, rápido demais. Não há uma comemoração grandiosa como a batalha que a precede prometia. Não há a promessa de elevar Harry ao degrau mais alto de admiração. Ele é um herói, mas não parece (é nessas horas que me lembro: isso não é Tolkien e nem O Senhor dos Anéis).

O epílogo do livro é vergonhoso e anti-climático. Por sorte, o filme conseguiu fazer a sequência um pouco menos dolorosa – o que não quer dizer que não tenha sido de qualquer jeito. A maquiagem que envelheceu os atores não foi suficiente para esconder os traços de garotos que todos conservaram e funciona somente sob um determinado ângulo (muito de perto, quando era possível ver algumas rugas de expressão). Para piorar, ficou evidente que os atores mirins, interpretando os filhos dos casais, não tinham a menor intimidade com os protagonistas.

Claro que Daniel Radcliffe – o único jovem ator que pareceu melhor do que nunca ao transpor as angústias e dores de Harry – Emma Watson e Rupert Grint (menos inspirados do que na primeira parte) dão uma força aos pequenos, tornando tudo um pouco menos constrangedor. Não pretendo tirar o entusiasmo dos fãs ardorosos, mas esse epílogo é, para mim, um dos piores desfechos de histórias dos últimos tempos.

De todo modo, boa ou ruim, a saga acabou. Confesso que me emocionei com algumas cenas e fiquei com vontade de assistir outra vez logo depois que saí do cinema. A história de Harry Potter acompanhou a minha geração e ver isso tudo terminar é, de certa forma, ver um fim para as aventuras do bruxinho e para as nossas fantasias. É como se a maioridade nos atingisse como um golpe de machado. E não nos resta nada a não ser seguir adiante.

Titulo Original: Harry Potter and the Deatlhy Hallows p. 2
Direção: David Yates
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Steve Kloves
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Fotografia: Eduardo Serra
Tempo de Duração: 125 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), Tom Felton (Draco Malfoy), Bonnie Wright (Gina Weasley), Evanna Lynch (Luna Lovegood), Helena Bonham Carter (Belatriz Lestrange), Robbie Coltrane (Rúbeo Hagrid), Bonnie Wright (Gina Wesley), Warwick Davis (Grampo/Filius Flitwick), Ciarán Hinds (Aberforth Dumbledore), Maggie Smith (Minerva McGonagall), Ralph Fiennes (Lord Voldemort), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Domhnall Gleeson (Bill Weasley), George Harris (Kingsley Schacklebolt), John Hurt (Olivaras), Jason Isaacs (Lúcio Malfoy), David Legeno (Fenrir Greyback), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Helen McCrory (Narcisa Malfoy), Peter Mullan (Yaxley), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Clémence Poésy (Fleur Delacour), Alan Rickman (Severo Snape), Timothy Spall (Pedro Pettigrew), Natalia Tena (Ninfadora Tonks), David Thewlis (Remo Lupin), Julie Walters (Molly Weasley), Mark Williams (Arthur Weasley), Jamie Campbell Bower (Gellert Grindelwald), Gary Oldman (Sirius Black), Emma Thompson (Sibila Trelawney), Jim Broadbent (Horácio Slughorn), Kelly Macdonald (Dama Cinzenta), David Bradley (Argo Filch), Miriam Margolyes (Pomona Sprout), Geraldine Somerville (Lilian Potter), Adrian Rawlins (Tiago Potter), Devon Murray (Simas Finnigan), Jessie Cave (Lilá Brown), Luke Newberry (Teddy Lupin), Josh Herdman (Gregory Goyle), Afshan Azad (Padma Patil), Chris Rankin (Percy Weasley), Alfie Enoch (Dino Thomas), Benedict Clarke (Severo Snape – jovem), Shefali Chowdhury (Parvati Patil), Scarlett Byrne (Pansy Parkinson), Will Dunn (Tiago Sirius Potter).

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Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

junho 29, 2011

Dubiedade

Focado no desenvolvimento psicológico dos personagens – e falhando em alguns pontos nesse quesito – o terceiro filme de Harry Potter conta com as experientes diretrizes de Alfonso Cuarón

NOTA: 9

De certa maneira a minha geração está muito ligada à saga de Harry Potter: crescemos na mesma época (teoricamente o personagem-título tem mais ou menos a minha idade) e, portanto, nossas dúvidas adolescentes foram as mesmas. Antes mesmo de ler qualquer um dos livros, já tinha assistido a quase todos os filmes (à exceção do 7.1), acompanhando o crescimento dos atores e de seus personagens e também o desenvolvimento da trama nas telonas. Quando Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban estreou, não foi difícil notar a mudança: havíamos chegado (todos) a um outro nível de profundidade. O terceiro livro (bem como o longa) abandona as aventuras e narrativa infantis para se aprofundar em um universo mais amplo: o das relações humanas. Se há um mérito na história da escritora J. K. Rowling é a maneira como ela conduziu o arco dramático dos personagens, “crescendo” em assuntos mais sérios conforme eles foram ficando mais velhos.

Seguindo a narrativa ansiosa do livro, o roteiro novamente escrito por Steve Kloves forma a ideia inicial de que a comunidade bruxa está apavorada com a fuga do assassino em massa Sirius Black. Mais ainda, Harry está apavorado com a ideia de que Black possa vir atrás dele para matá-lo. Sem saber nada da identidade do homem, o menino descobre que o ex-prisioneiro foi condenado por matar uma dúzia de não-bruxos (ou trouxas, na linguagem do livro), o jovem Pedro Pettigrew e, principalmente, por revelar a Voldemort o esconderijo de seus melhores amigos, Tiago e Lilian Potter. Ao mesmo tempo, portanto, em que se vê às voltas com o responsável pela morte de seus pais estar procurando liquidá-lo, Harry ainda deve se preocupar com as aulas na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

No trem a caminho da escola o protagonista se depara com os dementadores, guardas da prisão que estavam à procura de Black (em uma cena bastante interessante), e com o novo professor Remo Lupin – que substituiu o engraçado Gilderoy Lockhart de Kenneth Branagh do filme anterior. Interpretado com delicadeza por David Thewlis, Lupin é o responsável por ajudar Harry a produzir um feitiço que combata os guardas e também por atuar o mais próximo de uma figura paterna.

Mesmo sem querer, Harry é forçado a encarar Sirius Black cara a cara e, para sua surpresa (e para aqueles que não conhecem a história), descobrir a verdadeira identidade do homem. A performance de Gary Oldman colabora para a intensidade do momento – o olhar amalucado, o sorriso enviesado – e é interessante como ambos os atores dão uma entonação dúbia aos personagens, para manter (com sucesso) o suspense. As pequenas aparições de Alan Rickman e Timothy Spall enriquecem ainda mais a cena.

Por sua vez, Michael Gambon substitui Richard Harris com facilidade e consideráveis melhorias, já que neste episódio Alvo Dumbledore exigia mais energia e carisma, um quê faceiro e meio hippongo. A pequena participação de Emma Thompson como a etérea Sibila Trelawney e de Julie Christie como Madame Rosemerta dão lustro e profundidade psicológica aos personagens, somente exemplificando como o elenco adulto foi pensado minuciosamente para enriquecer a trama. O trio de protagonistas se mostrava, então, cada vez mais confiante nos papéis de Harry, Rony e Hermione.

Ao mesmo tempo, a direção perspicaz do mexicano Alfonso Cuarón faz questão de deixar alguns indícios dos temas aos quais está habituado (sendo ele responsável pelo excelente E Sua Mãe Também), evidenciados na cena em que Harry brinca com a varinha debaixo das cobertas receando ser descoberto, ou quando o carrasco alisa o machado maliciosamente enquanto olha os três protagonistas caminharem. Há momentos, é claro, nos quais o cineasta explora seus próprios talentos: planos-sequência interessantes, a passagem do tempo bem pontuada e uma sequência tarantinesca (minha favorita) na qual um dos personagens se transforma em lobisomem – aproximando a câmera da lua, depois um close no rosto do homem enquanto a claridade ilumina o olhar vidrado e maníaco.

Por esse e outros motivos Prisioneiro de Azkaban é mais sombrio do que os longas anteriores, visivelmente mais infantis, dando também mais urgência à narrativa. Isso se torna ainda mais evidente na sequência frenética e desesperada na qual os meninos tentam salvar a vida de Sirius e Bicuço (um cavalo-águia desenhado com muito mais qualidade do que o troll do primeiro filme e o elfo do segundo) até os momentos finais.

Apesar de estabelecer relações interessantes – uma vez que a própria narrativa do livro se voltava muito mais a elas do que ao vilão (este é, inclusive, o único capítulo de toda a saga no qual o embate final não se dá com Voldemort) – o roteiro tem diversas pontas soltas. E não me refiro às adaptações do livro à tela, já que isso era de se esperar. Algumas delas são, inclusive, absolutamente necessárias – a começar por colocar Harry sempre sozinho para descobrir os mistérios que o cercam, desde a natureza de Black até o paradeiro de Pettigrew, e por limar a preocupação latente que ele tem com o quadribol (não teria o menor cabimento incluir o campeonato intercasas com tantas coisas mais importantes e urgentes para serem discutidas). Além disso, há a súbita atração entre Rony e Hermione que sutilmente começa a crescer – obviamente sendo pensada para os filmes vindouros.

Mesmo assim o roteirista nunca se dá ao trabalho de explicar a motivação de alguns personagens – ainda que eles sejam delineados de modo psicologicamente compreensível. Há uma nesga de ambiguidade nos caráteres de Lupin e Sirius e uma visível rivalidade entre eles e o professor Snape. Mas por que, afinal? Me parece fundamental que a perseguição e a desconfiança de um para com os outros tivesse fundamento – o que nunca aparece.

Entretanto, Kloves se sai extremamente bem nas cenas em que mescla suspense ao clima taciturno – aquela na qual Harry usa o Mapa do Maroto para caminhar nos corredores escuros, sob a trilha igualmente sombria, é particularmente boa. Junto com a fotografia (puxando para o verde-acinzentado) a música deste longa foi composta pensando em cada momento – ora são tons divertidos, ora tons crescentes e inquietantes (até mesmo o uso do coral é instigante). O design de som também foi bastante eficiente ao incluir um efeito (utilizado até hoje) para cada vez que as varinhas são usadas.

Falhas aqui e ali, alguns personagens capengas, mas só. O resto compensa: atuações, a direção magnânima de Cuarón, a trilha de John Williams (the man!) e a produção como um todo conferem a este capítulo mais densidade em todos os sentidos. Não é um filme excelente, confesso, mas é um dos mais bem desenvolvidos da série e, certamente, o meu preferido – não nego, contudo, que a participação dos atores adultos tenha contribuído consideravelmente, sendo o próprio Oldman um dos meus atores prediletos.

Titulo Original: Harry Potter and the Prisoner of Azkaban
Direção: Alfonso Cuarón
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2004
Roteiro: Steve Kloves
Trilha Sonora: John Williams
Fotografia: Michael Seresin
Tempo de Duração: 139 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Maggie Smith (prof. Minerva McGonagall), David Thewlis (prof. Remo Lupin), Julie Christie (Madame Rosemerta), Tom Felton (Draco Malfoy), Robbie Coltrane (Rúbeo Hagrid), Julie Walters (Molly Weasley), Mark Williams (Arthus Weasley), Bonnie Wright (Gina Weasley), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Chris Rankin (Percy Weasley), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Alan Rickman (prof. Severo Snape), Gary Oldman (Sirius Black),Timothy Spall (Pedro Pettigrew), Emma Thompson (prof. Sibila Trelawney), Warwick Davis (prof. Flitwick), David Bradley (Argo Filch), Emily Dale (Katie Bell), Pam Ferris (Guida), Richard Griffiths (Válter Dursley), Harry Melling (Duda Dursley) Fiona Shaw (Petúnia Dursley), Robert Hardy (Cornélio Fudge), Joshua Herdman (Gregory Goyle), Jamie Waylett (Vincent Crabbe), Lee Ingleby (Stan Shunpike), Miriam Margolies (Prof. Sprout), Luke Youngblood (Lino Jordan), Alfred Enoch (Dino Thomas), Devon Murray (Simas Finnigan), Danielle Taylor (Angelina Johnson).