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Victoria & Abdul

fevereiro 27, 2018

NOTA: 8,5

Se há uma coisa que Dame Judi Dench sabe fazer bem é interpretar personagens históricos. Desde sua primeira aparição como Catarina rainha da França na década de 60, ela já encarnou dezenas de figuras do passado, incluindo a amante de Henry V no épico de 89 com Kenneth Branagh, as rainhas Vitória e Elizabeth I da Inglaterra (em Mrs. Brown e Shakespeare Apaixonado), Lady Catherine de Bourgh em Orgulho & Preconceito e Miss Matty Jenkyns na excelente série Cranford. Ela retorna, aos 83 anos de idade, para reinterpretar a rainha Vitória em seus últimos dias, no ótimo e subestimado Victoria & Abdul.

Dirigido por Stephen Frears – responsável, também, pelos bons Philomena e a A Rainha, com Helen Mirren – o longa conta uma história um tanto quanto inusitada e, talvez, até mesmo desconhecida aos não britânicos: a incorporação de funcionários indianos aos serviços palaciais, incluindo o cargo de secretário pessoal. Isso só foi possível, é claro, graças ao domínio de quase 100 anos do Reino Unido sobre a Índia.

A ocasião é o jubileu de ouro da Rainha, que atrai para a Inglaterra dois jovens funcionários de classe baixa. Um deles, Abdul Karim, de modos mais arrojados, encontra o favor da monarca ao tratá-la não como uma personalidade intocável, mas como uma pessoa normal. Enquanto essa relação soa de extremo mau gosto aos demais serviçais reais – por ele ser um estrangeiro, indiano, de cor, muçulmano e, nas palavras dos próprios personagens, um “comum” –, a rainha se sente cada vez mais próxima ao jovem rapaz, passando a maior parte do tempo ao seu lado, aprendendo a falar o idioma urdu, redecorando alas do palácio de acordo com a moda indiana e trazendo-o ao seu círculo de relações pessoais – o que na época era absolutamente impensável.

Aos poucos, a Rainha deve quebrar o casulo de vidro com o qual a cercam, como se ela fosse somente governante e não mais um ser humano, e tratando-a como uma velha senil incapaz de tomar decisões por conta própria. Lembrando que a Era Vitoriana foi um dos períodos de maior avanço econômico do Reino Unido, tendo passado vitoriosamente por uma Revolução Industrial e saído não só mudado, como positivamente fortalecido.

Vemos, então, uma senhora de idade que precisa de companhia, e anseia por alguém com quem compartilhar novas experiências, por mais tolas que sejam. A fragilidade física não chega a comprometer o caráter forte daquela mulher notável que, após perder seu amado marido Albert, nunca mais se sentiu totalmente completa. E Victoria & Abdul é muito hábil em mostrar tudo isso, toda a complexidade de um personagem tão poderoso e ao mesmo tempo tão vulnerável.

O roteiro de Lee Hall – baseado nos documentos recentemente encontrados do verdadeiro Abdul Karim – consegue captar esses momentos de intimidade entre a rainha e seu novo secretário, deixando dúvidas até mesmo sobre um envolvimento romântico. O elenco de apoio também faz um bom trabalho, especialmente os dois rapazes indianos, Ali Fazal e Adeel Akthar, que expressam tanto a incerteza da posição conquistada quanto à falta de protocolo tão característica da família real britânica.

Objetiva e cativante, a relação de Victoria & Abdul foi um deleite de se ver. Mas mais do que isso, Victoria & Abdul é divertido. Com pitadas do melhor humor britânico, que aparece em pequenas doses nos lugares certos, o filme brilha até mesmo entre aqueles indicados ao Oscar de Melhor Filme – e é uma pena que este não tenha entrado já que é uma história mais merecedora do que alguns dos concorrentes ali.

Além do desempenho sempre na mosca da magnífica Judi Dench, que representa com perfeição a Vitória aos 81 anos, a própria história contada parece relevante nos dias de hoje, quando não só a família real está passando por grandes mudanças de protocolo com a jovem princesa americana, mas também por colocar, novamente, temas como o racismo à mesa, fazendo questão de ressaltar alguns períodos não tão gloriosos de sua História.

Título Original: Victoria & Abdul
Direção: Stephen Frears
Gênero: Biografia e drama histórico
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Lee Hall
Trilha Sonora: Thomas Newman
Fotografia: Danny Cohen
Tempo de Duração: 1h51
Com: Judi Dench (rainha Vitória), Ali Fazal (Abdul Karim), Tim Pigott-Smith (Sir Henry Ponsonby), Eddie Izzard (príncipe Bertie), Adeel Akhtar (Mohammed), Michael Gambon (Lorde Salisbury), Paul Higgins (Dr. Reid), Olivia Williams (Lady Churchill), Fenella Woolgar (Miss Phipps) e Simon Callow (Puccini).

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Eu, Tonya

fevereiro 26, 2018

NOTA: 8

Pouca gente se lembra de Tonya Harding – nem necessariamente deveria. A competidora de patinação no gelo pelos Estados Unidos nas Olimpíadas de Inverno de 1994 – a grande promessa de sua carreira – conseguiu apenas a oitava colocação, após o qual abandonou a carreira de patinação. Talvez essa seja a razão pela qual Eu, Tonya, filme dirigido por Craig Gillespie e roteirizado por Steven Rogers não tenha tido chance para o pódio de Melhor Filme do Oscar 2018. O longa é um filme bem-sucedid0 sobre um grande fracasso, que foi a vida de Tonya enquanto patinadora.

Protagonizada com grande carisma pela australiana Margot Robbie, Tonya é representada como uma menina pouco convencional para o esporte: roqueira, extravagante, bocuda e informal, ela raramente conseguia a aprovação dos juízes das competições, por mais que sua patinação fosse boa, por ser um pontinho fora da curva. Sua esquisitice e a falta de pertencimento à categoria – que requer uma seriedade que Tonya pareceu nunca ter – garantiram-lhe poucos prêmios.

Isso sem contar, é claro, sua abominável mãe, que agiu com ela como um monstro ou uma escravizadora, obrigando-a a ser mais do que perfeita, criticando cada má conduta – que podia ir de um giro errado a uma distração na vida de adolescente – e nunca, nunca elogiando os méritos da menina. E, nesse sentido, Allison Janney está brilhante, encarnando uma pessoa odiável, incapaz de demonstrar o mínimo amor pela filha. Mas isso não é lá muito importante, porque o filme não se deixa abalar pela onda de negatividade que deve ter sido essa mulher na vida de Tonya. Não! Tal como a patinadora, o filme faz questão de ir empurrando a mãe para debaixo do tapete, de modo que sua presença se vá fazendo cada vez menos essencial em tela e na vida da esportista.

Quem foi ganhando cada vez mais relevância foi o namorado e depois marido Jeff Gillooly, um abusador de primeiríssima mão que, quando não espancava a namorada, torturava-a com violência psicológica da mais alta qualidade: “volta comigo ou eu me mato”. Esse relacionamento, embora mais insalubre, impossível, tampouco impediu Tonya de treinar, quebrar recordes eventualmente ganhar prêmios importantes. Ela foi a primeira mulher americana a conseguir realizar o salto triple axel (com três piruetas e meia). Em 1991, ela levou a medalha de prata no Campeonato Mundial e era uma das favoritas para as competições futuras.

Obviamente tudo foi para o saco quando o Gillooly e um amigo seu, Shawn Eckhardt – um imbecil completo, com mania de grandeza e a encarnação de uma figura que assustadoramente aparece com frequência demais: o redneck estadunidense – decidem organizar um boicote à patinadora favorita, Nancy Kerrigan, após Tonya ter recebido ameaças contra sua vida. De acordo com a versão de Gillooly, a intenção era uma, mas a coisa saiu do controle quando seu amigo cretino decide agredir fisicamente Kerrigan, impossibilitando-a de competir por completo.

Passando por inquéritos policiais, piores momentos (se é que era possível) com o marido e sofrendo de ansiedade, Tonya entra na pista de gelo, em 1994, sob muita pressão, e acaba em oitavo lugar. Seu sonho havia terminado, e ela foi proibida judicialmente de jamais voltar a patinar.

Encarnando Tonya em diversos momentos da vida, da adolescência aos quarentões – embora a menos convincente seja a adolescente, já que nem mesmo o aparelho falso ou a equipe de maquiagem conseguiram tirar os 27 anos que Robbie já tem –, a atriz se mostra confiante. Como demonstrou em O Lobo de Wall Street, ela sabe usar o humor para contar histórias fortes, e aqui não é diferente.

Com mais pitadas de comédia do que se poderia imaginar a princípio, Eu, Tonya, parece ser uma fotocópia realista do escracho de sua biografada – a qual Robbie também interpreta já mais velha e ex-boxeadora, relembrando o “incidente” do passado e a vida ao lado de Gillooly. É um filme interessante não só para quem é fã do esporte. E mais, a maquiagem e o CGI empregados para fazer com que fosse Margot, e não Tonya, a deslizar pelo gelo são eficientes, imergindo o espectador na história.

Há alguns momentos interessantes de cortes de cenas e fotografia inspirados, e a trilha sonora é bacana, mas pouco marcante. Ainda assim, é uma pena que esteja concorrendo somente como Melhor Atriz, quando também deveria ter sido dada uma chance a Sebastian Stan como coadjuvante e ao próprio filme. Eu, Tonya, poderia perfeitamente entrar no lugar de A Forma da Água, novo filme de Guillermo Del Toro que está sendo amplamente superestimado pela crítica (e do qual falarei em posts futuros).

Título Original: I, Tonya
Direção: Craig Gillespie
Gênero: Biografia, comédia e drama
Ano de Lançamento (EUA): 2018
Roteiro: Steven Rogers
Trilha Sonora: Peter Nashel
Fotografia: Nicolas Karakatsanis
Tempo de Duração: 2h
Com: Margot Robbie (Tonya Harding), Sebastian Stan (Jeff Gillooly), Allison Janney (Lavona Harding), Julianne Nicholson (Diane Rawlinson), Paul Walter Hauser (Shawn Eckhardt), Bobby Cannavale (Martin Maddox), Caitlin Carver (Nancy Kerrigan).

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Com amor, Van Gogh

fevereiro 26, 2018

NOTA: 8

Realizado como uma produção polonesa, o longa metragem animado sobre a morte do aclamado pintor Vincent Van Gogh – reconhecido como tal somente post-mortem -, demorou seis anos para ficar pronto e contou com a colaboração de 125 artistas. Pintado quadro a quadro com a mesma técnica utilizada pelo mestre holandês, Com amor, Van Gogh é uma poesia visual, no qual cada plano é uma obra de arte.

O filme começa sua história um ano após o suicídio do artista. O carteiro da pequena cidade onde vivia – e que frequentemente levava as cartas de Vincent a seu irmão, Theo – pede ao filho, Armand, que entregue pessoalmente a última carta aos parentes do falecido.

Assim, ainda que relutante, Armand empreende uma viagem para recontar morte do pintor e os mistérios acerca de seu suposto homicídio. O filme nos leva por uma trama bem contada a respeito dos eventos que ocorreram alguns antes dias antes e que conduzem Armand a uma investigação detetivesca sobre os verdadeiros motivos que levaram alguém pacato como Vincent à morte. Além de conhecermos os personagens que se relacionaram com ele durante sua estadia em Auvers-sur-Oise, na França – como seu médico Paul Gachet e sua filha, Marguerite, e os donos do albergue onde se hospedava -, descobrimos mais sobre a vida por trás do gênio do pós-impressionismo.

Vincent era uma pessoa problemática, sofrendo de psicose, alucinação e, posteriormente, depressão. E como era muito comum, Van Gogh era um artista frequentemente menosprezado, considerado louco e fracassado, embora tivesse amigos como o também pintor Paul Gauguin – a amizade terminou quando Van Gogh, em um acesso de raiva numa discussão, cortou a própria orelha esquerda fora. Também podemos compreender a inspiração por trás de alguns de seus quadros mais famosos.

Com um roteiro enxuto e objetivo, escrito por Dorota Kobiela, Hugh Welchman, que também dirigem a produção, e Jacek Dehnel, Com amor, Van Gogh é, em certa medida, uma homenagem e um pedido de desculpas, como se a humanidade pedisse perdão por não haver compreendido quem foi esse homem internamente conturbado, embora gentil e pacífico aos olhos dos demais.

Sua morte, ainda que inesperada e mesmo tendo ocorrido em outra época, ajuda a discutir o tema do suicídio e da depressão, trazendo mais uma vez à tona temas tão importantes e recorrentes na nossa sociedade hoje. O longa é inacreditavelmente bem feito e os personagens foram pintados manualmente com base na atuação de atores reais, frame a frame, transformando a projeção em uma sequência de obras vivas. E embora a história em si seja simples e óbvia (uma vez que a vida e a morte do pintor são amplamente conhecidas), a evolução de Armand como homem descrente a alguém motivado pela busca da verdade é interessante e bem contada.

A fotografia de Lukasz Zal e Tristan Oliver ajuda a realçar as cores das pinturas, mostrando que nem só de animação digital vive o século XXI. E ainda que a história não seja lá grande coisa – que, realmente, não é – a arte em si é o grande personagem, fazendo uma história banal ser uma experiência espetacular.

Título Original: Loving Vincent
Direção: Dorota Kobiela e Hugh Welchman
Gênero: Animação, biografia e crime
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Dorota Kobiela, Hugh Welchman e Jacek Dehnel
Trilha Sonora: Clint Mansell
Fotografia: Lukasz Zal e Tristan Oliver
Tempo de Duração: 1h34
Com: Douglas Booth (Armand Roulin), Chris O’Dowd (Joseph Roulin), Helen McCrory (Louise Chevalier), Eleanor Tomlinson (Adeline Ravoux), Aidan Turner (o barqueiro), Saoirse Ronan (Marguerite Gachet), Jerome Flynn (Dr. Gachet), Robert Gulaczyk (Vincent Van Gogh), Cezary Lukaszewicz (Theo Van Gogh).

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Dunkirk

fevereiro 24, 2018

NOTA: 8,5

Existem alguns filmes que já não são feitos para serem assistidos de uma tela de televisão, por mais modernos e equipados que os aparatos sejam. Foi assim com Avatar, Gravidade e é assim com Dunkirk. Para aqueles que tiveram a possibilidade de assistir a mais nova produção de Christopher Nolan nos cinemas, Dunkirk foi uma experiência única.

Na história do Cinema há vários longas que trataram a guerra da maneira mais real possível, sendo o primeiro deles O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg – especialmente da fantástica sequência inicial –, e o recente Até o Último Homem, de Mel Gibson, que traz uma faceta tão brutal da guerra que nem mesmo eu, grande fã do gênero, havia ainda me deparado. É assim, também, em certa medida, este novo Dunkirk.

Bem menos emotivo que os dois primeiros, a obra de Nolan, escrita e dirigida por ele mesmo, aborda a intensidade e crueza da guerra de uma forma diferente. Acompanhamos a trajetória de um grupo numeroso de soldados belgas, franceses e britânicos que ficaram encurralados em uma praia de Dunquerque (França), sem resgate e cercados pelo exército alemão durante a Segunda Guerra.

Entremeando imagens fortes com um design de som impecável – que pode ser um longo período sem diálogos ou o incessante tique-taque que começa a soar logo no início da projeção –, o longa tem seu mérito em contar a história através da força e resiliência de seus personagens, e não necessariamente em seus diálogos. Usando um recurso que já o havia aclamado antes (em Amnésia), Nolan conta a história em diferentes perspectivas, misturando as linhas do tempo de acordo com os pontos de vista de um soldado que está em terra, outro que está no ar e outro no mar.

Por terra: enquanto Tommy, que está em terra, precisa se esconder do iminente ataque alemão que está empurrando cerca de 300 mil soldados cada vez mais para o insondável oceano; ele encontra outros companheiros igualmente desesperados para embarcar para fora dali – o que invariavelmente nunca acontece, porque aquilo é a guerra, e um barco jamais teria chances de escapar tendo toda a frota alemã fuzilando os ares com aviões de caça. Tommy e os outros pulam de uma armadilha para outra, nunca conseguindo um lugar seguro.

Por mar: ao mesmo tempo, o comandante naval Bolton recebe a notícia de que o primeiro-ministro solicitou aos barcos civis que pudessem ir ao resgate assim o fizessem, aumentando as chances dos soldados de não serem completamente esmagados. Então acompanhamos a história do pequeno barco do Sr. Dawson, que parte com o filho, Peter, e um amigo deste, George. Apesar dos incidentes dentro da embarcação, Dawson decide seguir em frente até Dunquerque.

Por ar: as batalhas acima das nuvens tampouco são fáceis, e vemos os pilotos Farrier e Collins cruzarem o Canal da Mancha em aviões Spitfire para empurrar os caças alemães para longe da costa, permitindo que os soldados em terra tentassem por fim embarcar.

Essas três linhas do tempo não são exibidas em ordem cronológica, o que exige esforço do espectador para colocar todas as peças do quebra-cabeça em ordem – o que obviamente acontece, pois Nolan é um bom contador de histórias e, no fim, faz com que todas as peças se encaixem naturalmente. É realmente notável o uso que o diretor faz do design e edição de som para esse filme. Já havíamos visto em A Origem como ele usa uma única música de Edith Piaf para conduzir o fio narrativo e, aqui, ao invés de uma música, é uma série de sons realistas – que também contam com a ajuda da magnífica trilha de Hans Zimmer, o John Williams de sua geração.

A fotografia de Hoyte Van Hoytema (responsável também pelo belíssimo Ela e por Interestelar) é também bastante boa, investindo praticamente 100% na paleta dessaturada, que aponta para a quantidade de morte e tragédia envolvidas. É um filme duro e violento. Cru e brutal como a guerra, e de uma imersão total. Assisti-lo no cinema me provocou imensa tensão, e só consegui relaxar ao perceber que o tique-taque havia finalmente acabado. A guerra havia acabado. Alguns de nossos personagens são resgatados e levados para casa, tratados como heróis. Outros não têm a mesma sorte.

Dunkirk é, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes da carreira de Nolan – embora não meu favorito –, com um roteiro objetivo e inteligente e um elenco igualmente bom, que desenvolve os personagens de maneira tridimensional com o pouco diálogo disponível. Vê-lo no cinema foi uma experiência ótima e, por enquanto, irrepetível, e imagino que não seja o mesmo que assisti-lo em uma tela pequena, com uma abrangência de sons limitada. Mas vale a pena mesmo assim. É uma nova maneira de storytelling, um novo jeito de se olhar para o gênero de filmes de guerra. E isso por si só já é extremamente interessante, considerando a enorme quantidade de bons filmes sobre o tema que existem por aí.

Título Original: Dunkirk
Direção: Christopher Nolan
Gênero: Ação e drama histórico
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Christopher Nolan
Trilha Sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Tempo de Duração: 1h46
Com: Fionn Whitehead (Tommy), Aneurin Barnard (Gibson), Mark Rylance (Mr. Dawson), Barry Keoghan (George), Tom Glynn-Carney (Peter), Tom Hardy (Farrier), Jack Lowden (Collins), Kenneth Branagh (comandante Bolton), James D’Arcy (coronel Winnant), Matthew Marsh (vice-almirante), Cillian Murphy (soldado do barco), Adam Long (sub-tenente) e Harry Styles (Alex).

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Blade Runner 2049

outubro 19, 2017

NOTA: 6

Já é um fato: quanto mais eu leio, ouço e penso sobre o novo Blade Runner, menos gosto das conclusões tiradas (ou deixadas ao léu) pelo diretor Dennis Villeneuve. Responsável pelo mediano Sicario, pelo bom Os Prisioneiros e pelo excelente A Chegada (do qual ainda falarei aqui), o cineasta já demonstrou que gosta de trazer questões filosóficas complicadas envolvendo a essência humana (linguagem, alma, memória), muitas das quais bem trabalhadas. Outras, nem tanto. É o caso da “continuação” do clássico-cult de 1982.

O original, dirigido por Ridley Scott, foi criado em um universo distópico, num futuro ciberpunk, uma Los Angeles não tão distante de hoje. O diretor desenvolve questões como: o que nos torna humanos? São os sentimentos? São as memórias? Esse questionamento foi tão imaginativo e interessante que ficou gravado a fogo em nossas memórias, com as excelentes atuações de Daryl Hannah e Rutger Hauer.

Criado neste mesmo universo, mas 30 anos depois, Blade Runner 2049 mantém a mesma atmosfera sombria que caracterizou seu filme-mãe. O andróide KD6-3.7 – ou somente K – é um policial que caça os replicantes antigos para aposentá-los (leia-se: exterminá-los). Ele vive com sua namorada, a inteligência artificial Joi, que se materializa em forma de um holograma. Tanto K quanto Joi foram criados pela empresa de Niander Wallace, um personagem inescrupuloso que cria replicantes para serem escravos dos humanos. Ao lado dele está Luv, sua assistente androide fria e calculista. Digo que Wallace é um personagem (e não um homem ou robô), porque sua verdadeira natureza é desconhecida – e voltarei nisso mais adiante. Enquanto K persegue os humanoides, auxiliado pela tenente de sua divisão, ele tenta lidar com uma forte memória que o persegue, sempre auxiliado pela fiel Joi.

Vou dividir o texto entre as coisas positivas e negativas que encontrei. Os pontos positivos do filme são realmente muito poucos, mas que praticamente fazem a película funcionar: a magistral e sempre diversa fotografia de Roger Deakins – responsável por algumas das cenas mais famosas do Cinema, passando por Um Sonho de Liberdade, todos os filmes dos irmãos Coen, Uma Mente Brilhante, Dúvida, Skyfall e até a animação Rango. Se tem algo aqui que indubitavelmente não falha é a atmosfera que Deakins imprime, ora com suas paisagens cinzentas, chuvosas, abandonadas e tristes, ora com vislumbres de terras desoladas, desérticas, cobertas de areia e esquecidas pelo tempo. Os sets de filmagem são realmente muito bons, e a paleta de cores nos ajuda a entender onde o filme quer nos levar – quando é amarelada e quente, é ali onde está o que realmente importa.

Embora muito sintética e artificial, no sentido de ter muitos instrumentos digitais, a trilha sonora de Hans Zimmer – que está se convertendo em figurinha carimbada das grandes produções de Hollywood, e provando porque deve ser o sucessor de John Williams – traz elementos austeros e quase alienígenas, que não soam exatamente “do nosso mundo”. O que isso quer dizer, em termos cinematográficos, é como nosso protagonista se sente com relação a ele mesmo e a tudo que o cerca.

Os pontos positivos acabam por aí. A partir do momento em que passamos a tentar desvendar a trama, a coisa embola e surgem mais dúvidas e contestações do que o próprio diretor (imagino) queira ter levantado. A impressão que dá, realmente, é que o roteiro de Hampton Fancher e Michael Green quis trazer a mesma quantidade de informações e questionamentos filosóficos que Ridley no passado, e o que conseguiu foi uma salada de ideias mal desenvolvidas, personagens pouco profundos e que não conectam com o público, pecando por falta de carisma.

Além disso, o filme é excessivamente longo e tem sérios problemas de ritmo – e eu não digo isso porque tenho preguiça de filmes longos. Vamos falar de …E o Vento Levou, aquele épico com quase três horas de duração? Enfim. Há demasiadas cenas de flashback, no qual K revive alguns diálogos que havíamos visto há pouco. Isso, para mim, é como se Villeneuve não acreditasse na capacidade do público de seguir sua história – que não é complexa; apenas longa. Ao invés de usar esses momentos de presunção masturbatória, teria sido melhor explicar as várias pontas soltas que o roteiro deixa (mais sobre em seguida).

Há, também, excesso de momentos desnecessários, como o próprio encontro entre K e outro personagem em um hotel abandonado. Após um curto diálogo no qual não entram em acordo, os dois começam uma perseguição de gato-e-rato totalmente inexplicável (com direito a explosões e tudo, a lá Michael Bay) e que termina em uma sala de entretenimento com um holograma do Elvis. Ali, acabada a argumentação, parte-se para aquilo que se tornou a especialidade dos filmes vazios de Hollywood: socos. Podem reparar. Quando não há nada mais a ser dito, é aí aonde se chega.

De qualquer maneira, Blade Runner 2049 traz algumas questões que Ridley colocou sobre aquilo que nos faz humanos. Neste caso, estamos falando da memória. Mas há tantas incongruências no desenvolvimento do enredo que é impossível fechar os olhos a isso e ficar pirando no que resta de bom (que, como viram, é pouco). Além disso, a trama é extremamente enviesada. A cena mais mal formulada de todo o filme é justamente uma das mais importantes, quando K visita um personagem e descobre algo fundamental sobre sua memória. A partir desse momento, K passa a acreditar em uma coisa distinta do que foi levado a crer toda sua vida. E com essa nova descoberta, o longa implica que K é de fato essa coisa que ele passa a acreditar.

Nós, obviamente, entramos na onda. Não somente acompanhamos a descoberta do próprio personagem, como todos os sinais que o filme nos dá são de que ele está na pista certa. Ao mesmo tempo, a tal revelação deixa uma sensação ambígua que pode nos induzir a uma conclusão, enquanto o filme nos está forçando a pensar uma coisa oposta – pelo enredo, pela ação dos personagens etc. Imaginem, portanto, o choque do espectador ao se ver enganado. O que deveria ser uma grata surpresa é a revelação daquela dúvida que surgiu uma hora antes, e que foi pouco a pouco desconstruída pela narrativa para depois ser trazida à tona novamente – como se a revelação fosse causar qualquer comoção. Não causa.

Não só isso, mas parece que K – aquele a quem acompanhamos durante mais de metade da projeção – é apenas uma alavanca para uma história mais importante, de um personagem mais importante: Deckard. Não é spoiler para ninguém que Harrison Ford faz parte do elenco. O que acontece com a narrativa, no entanto, é uma guinada brusca para desvendar o caso mal resolvido envolvendo Deckard – e não K. O até então protagonista passa a não importar mais. Ele acreditou naquilo que quis acreditar – e isso eu até posso entender. Mas certamente não da maneira como foi colocado.

Coisa semelhante acontece com Luv. A assistente de Wallace é um personagem odioso, mas justamente porque emana ódio em todas as suas relações – exceto com o chefe (ou talvez não; incógnita). Ela mata indiscriminadamente e faz questão de ser “a melhor”. Por quê? Para que? Melhor do que quem? Por que esse ódio tão irascível? É contra sua própria espécie? É contra os humanos? Inveja? Não se sabe. Wallace, também, deixa muito a desejar. Embora o desempenho de Jared Leto esteja de acordo com o personagem – alguém que se crê mais do que deus – o personagem é raso como um pires. O fato de ser androide ajudaria a entender suas motivações, mas nem isso se sabe. Apenas supomos que ele é um humano, pois deu a Luv o apelido pelo qual ela atende – ele a chama, carinhosamente, de “amor” (luv = love).

Para finalizar, grande parte da violência é completamente injustificável – e olhem que eu curto filmes violentos. A ação não se sustenta por si só. É justamente nesse contraste, na presunção, na extensão onde não deveria e em tudo o que ficou não dito, há discordância, confusão e mil elucubrações das coisas que podem ser ou não –, mas que não aparecem no longa. E se não aparecem, só significa uma coisa: a história está mal contada. Se eu preciso investigar, assistir curtas-metragens (como estão dizendo por aí) para complementar uma história, é porque ela é fraca. O que eu vejo na telona deveria ser suficiente. Deveria bastar. Se quiser fazer com que eu pense no mistério, como em A Origem, o roteiro precisa ser mais sólido. Continuo, até agora, sem entender as motivações de diversos personagens. E, por isso, Blade Runner 2049, para mim, deixa muito a desejar.

Título Original: Blade Runner 2049
Direção: Dennis Villeneuve
Gênero: Mistério, sci-fi e thriller
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green, baseado no livro de Phillip K. Dick
Trilha Sonora: Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch
Fotografia: Roger Deakins
Tempo de Duração: 164 minutos
Com: Ryan Gosling (K), Dave Bautista (Sapper Morton), Robin Wright (tenente Joshi), Ana de Armas (Joi), Sylvia Hoeks (Luv), Jared Leto (Niander Wallace), Harrison Ford (Rick Deckard) e Sean Young/Loren Peta (Rachael).

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Punho de Ferro

abril 24, 2017

NOTA: 3,5

Preparem-se para o textão.

Quem acompanha as séries produzidas pela parceria Marvel + Netflix, já sabe que qualidade é um sinônimo. As duas primeiras temporadas de Demolidor, e as primeiras temporadas tanto de Jessica Jones quanto de Luke Cage foram um tiro atrás da outra – e com isso quero dizer que galera tombava morta de tão maravilhadas que ficaram. Embora a última peque pela falta de ação – quando comparada com as outras duas – e fraco desenvolvimento do vilão, é inegável que esse é o trio-parada-dura da Marvel na telinha. Elas trouxeram não só o melhor de cada personagem (o que não significa que fossem só coisas boas), mas também ótimos designs de produção, trilhas sonoras grandiosas, fotografias excelentes e, mais importante do que isso, roteiros impecáveis. Juntas, essas séries redefiniram o conceito de superheróis na TV e remodelaram o futuro da Marvel.

Ao comparar, portanto, estes três pesos-pesados com a mais recente, Punho de Ferro, é com enorme pesar que exponho o tamanho do buraco que a Marvel cavou. Cheia de problemas estruturais, a série não consegue manter o nível das anteriores e, o que é pior, ameaça a boa engrenagem da série dos Defensores que está por vir.

Mas vamos começar do começo. Danny Rand é um menino bilionário cujos melhores amigos da infância são Joy e Ward Meachum. Seus pais são amigos e atenciosos com os filhos. Até que um acidente de avião deixa Danny órfão e sozinho no meio das montanhas do Tibet. Ele é resgatado por monges mestres de kung-fu e é treinado na arte durante 15 anos. Enquanto isso, Joy e Ward crescem para ver o pai, Harold, morrer de câncer precocemente e passar a empresa ao nome deles. Até que um dia Danny decide voltar a Nova York para… bem, não entendi direito para quê diabos ele queria voltar.

E é isso uma das coisas que faz Punho de Ferro ser tão ruim. Foram tantas mudanças de rumo que os produtores pareciam não fazer ideia do personagem com o qual estavam lidando. Sem propósito definido e sem personalidade que cative a audiência, o herói parece seguir o roteiro somente para encaixar as peças que faltam. Sua participação é tão insignificante que nem parece que é ele o personagem principal.

As primeiras coisas absurdas acontecem já no primeiro episódio, quando Danny, de volta a NY, não consegue convencer os irmãos Meachum de que ele não estava morto. A resolução só vem dali dois episódios – quando o mais óbvio teria sido, já no primeiro encontro, dizer as lembranças em comum entre os três e contar toda a verdade sobre o que havia acontecido com ele. Não. Os roteiristas forçaram um melodrama desnecessário.

Ainda nos primeiros episódios, vemos várias referências a uma águia sobrevoando a cidade, o que dá a entender que há alguma relação entre Danny e o animal. Esse detalhe é completamente abandonado dali até o último episódio, quando a águia retorna sem explicação nenhuma e com uma resolução frágil para um enigma que poderia ter sido muito melhor trabalhado.

Não bastassem os erros de construção de roteiro, nós não nos familiarizamos com Danny em nenhum nível. Tudo o que sabemos sobre ele são as cenas do acidente de avião (repetidas dezenas de vezes, sem acrescentar nada de novo, exceto em duas delas), seu suposto treinamento em K’un L’un e que ele voltou para NY como o Punho de Ferro. Fora isso, não vemos nada acontecer. Não vemos Danny treinar. Não o vemos crescer, sofrer, amadurecer. Não sabemos quem é o verdadeiro Danny Rand.

Por incrível que pareça, sabemos de tudo que passou no misterioso templo tibetano porque Danny nos conta. É, tipo “eu fiz isso, lutei assim, derrotei fulano e me tornei o Punho de Ferro”. Ah, jura? Mas o que é o Punho de Ferro? Qual o significado espiritual, emocional e físico de ser o inimigo jurado do Tentáculo? É só isso? Não teve nenhum conflito interno? Não conhecemos absolutamente nada que separa o passado distante do personagem com o presente.

E essa é uma das razões pela qual Danny é tão imaturo, agindo como aquela criança de dez anos que vimos sofrer o tal acidente de avião. Não há profundidade emocional. A maior profundidade a que ele chega é amar sua nova amiguinha, Colleen Wing – que ele stalkeia sem dó nem piedade e ganha a simpatia da moça na marra. Medo. Só porque ele é loirinho e bonitinho ela cedeu? Qualé!

Mal desenvolvido, mal aproveitado e mal treinado, o ator ainda confessou que aprendeu a maior parte das cenas de luta 15 minutos antes de cada gravação. Nota-se. Muito. É evidente sua falta de preparo. Ao invés de fazer como em Demolidor – personagem que usa uma máscara nas cenas mais importantes, e cujo dublê fica obviamente camuflado – Finn Jones faz ele mesmo as cenas, evidenciando sua debilidade como lutador e expondo a série ao ridículo, uma vez que as lutas tiveram de ser suavizadas para que ele pudesse executá-las. Com exceção de dois ou três momentos, todas as sequências com Danny são sofríveis.

Até mesmo seus colegas de cena parecem manejar melhor as armas do que ele. Como, então, o argumento da série de que ele é o melhor lutador de kung-fu do universo Marvel se sustenta? Não, evidente que não. Comparada com a ação de suas primas-irmãs, Punho de Ferro parece brincadeira de criança. Embora tenha personagens que, dado o devido desenvolvimento, poderiam ter sido interessantes (a próprio Colleen, Davos e Bakuto, para mencionar os mais próximos do herói), temos um único arco que realmente funciona (o dos irmãos Meachum) e três personagens dignos de nota: Hardol, Ward e Claire Temple – dessa vez ela não só salvou o herói várias vezes como talvez a série também. O resto é completamente desperdiçado.

Eu nem quero começar a falar em como eles destruíram a imagem que tínhamos da implacável Madame Gao e sua influência em NY. Quem se lembra de que até mesmo Wilson Fisk tinha receio de Gao? Bem, aqui ela aparece no início como uma ameaça, e até mesmo com poderes sobrenaturais (que obviamente não são explicados e depois são abandonados) e, posteriormente, é utilizada como “aquela que explica para os espectadores o que está acontecendo”. Porque precisa ter alguém assim, né? Em uma série boa, pergunta se tem quem explique o que está acontecendo *rolling eyes emoticon*. Pior do que isso. Ela passa de inimiga a senhorinha fofa e indefesa. Ao invés de temer Gao, começamos a simpatizar com ela! É um rolling eyes infinito, sério.

Punho de Ferro foi escrito às pressas, sem revisão e sem critérios, com o objetivo único de fazer referências aos outros heróis e linkar as cinco séries. Os personagens são débeis, faltos de profundidade e perde-se demasiado tempo em diálogos expositivos e sem sentido. A trilha sonora é muitas vezes incompatível com o que está acontecendo e o CGI é evidente (o que tira ainda mais a magia das cenas). A melhor cena de ação, acreditem ou não, é aquela vista em um VHS antigo, de um antigo Punho de Ferro que guardava as portas de K’un L’un e protegia a cidade da invasão do Tentáculo. Seja lá o que isso queira realmente dizer.

Título Original: Iron Fist
Direção: John Dahl, Farren Blackburn, Uta Briesewitz, Deborah Chow, Andy Goddard, Peter Hoar, RZA, Miguel Sapochnik, Tom Shankland, Stephen Surjik, Kevin Tancharoen e Jet Wilkinson
Gênero: Ação, aventura, crime
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Scott Buck, Gil Kane, Roy Thomas, Dwain Worrell, Tamara Becher, Pat Charles, Quinton Peeples, Scott Reynolds, Ian Stokes e Cristine Chambers
Trilha Sonora: Trevor Morris
Fotografia: Manuel Billeter e Christopher LaVasseur
Tempo de Duração: 13 episódios de 55 min cada
Com: Finn Jones (Danny Rand), Jessica Henwick (Colleen Wing), Jessica Stroup (Joy Meachum), Tom Pelphrey (Ward Meachum), David Wenham (Harold Meachum), Wai Ching Ho (Madame Gao), Rosario Dawson (Claire Temple), Ramón Rodríguez (Bakuto), Sacha Dhawan (Davos), Toby Nichols (jovem Danny Rand), Carrie-Anne Moss (Jeri Hogarth).

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La La Land

abril 3, 2017

NOTA: 7,5

Quando me disseram que Hollywood havia lançado um novo musical, e que era uma homenagem ao clássico Cantando na Chuva (e tinha Ryan Gosling no elenco), eu fui obrigada a duas coisas: primeiro assistir a este, e depois aquele, no cinema. Talvez tenha sido um erro. Pois La La Land não chega nem aos pés do filme que quer homenagear – ou, melhor dizendo, plagiar.

Mas não quero fazer uma crítica estritamente comparativa. Pois, por mais que eu não tenha amado, o longa de Damien Chazelle (responsável pelo excelente Whiplash e pelo bom 10 Cloverfield Lane), tem seus méritos. Filmada em CinemaScope, a história acompanha o pianista Sebastian e a aspirante a atriz Mia, que se conhecem na “terra dos sonhos”, Los Angeles. O mais curioso da projeção talvez seja sua atemporalidade, uma vez que mostra figurino e ambientes vintage, mas traz celulares e equipamentos modernos, impossibilitando situá-la no tempo.

A fotografia de Linus Sandgren também colabora para criar a ideia de uma cidade sempre feliz, toda colorida e vibrante. O filme escorrega, porém, ao usar mais de uma vez a técnica do holofote para dar foco a um personagem, o que torna o recurso cansativo e óbvio.

Traçando a história com a velha dinâmica eu-te-odeio-agora-eu-te-amo, o casal mostra a maioria de suas intenções com dois ou três números memoráveis. O que é surpreendente, considerando suas mais de duras horas de duração. Pois, ainda que seja vendido como um musical – e orgulhe-se extremamente disso –, La La Land jamais chega a alcançar aquilo que almeja ser: um reflexo autônomo dos grandes filmes do gênero que fizeram tanto sucesso na década de 60.

A atuação dos atores principais certamente colabora com a projeção. Emma Stone é capaz de entregar um personagem sensível e complexo, uma vez que consegue transmitir suas angústias e paixões com a mesma emoção – e a cena de sua primeira audição, na qual está totalmente entregue e é interrompida, talvez seja a melhor de toda sua carreira. Ryan Gosling, por sua vez, também é eficaz ao entregar o amor de Sebastian ao jazz, embora possa fazer pouco mais do que isso.

Mas a inabilidade de ambos é perceptível: Gosling toca piano bem e dança razoavelmente, mas sua voz não é das melhores; Emma é afinada e sua voz é bonita, mas seu talento para a dança é nulo. Assim, quando vemos a cena mais famosa do longa (na qual Emma está de vestido amarelo) é impossível não lembrarmos da distância que eles estão de Fred Astaire e Debbie Reynolds, para mencionar apenas duas pessoas.

Para completar, a trilha sonora de Justin Hurwitz – que deveria ser composta por canções memoráveis – tem uma única música que consegue prender a atenção do espectador. E ela é tão martelada durante todo o filme que, ao final, já estamos cansados de escutá-la e quase nem lembramos sua razão de ser. Além disso, Chazelle se equivoca ao colocar a cidade de Los Angeles como mero cenário para seus personagens, uma vez que seu nome aparece dobrado no título do filme. A cidade, que também é personagem, não foi tratada como tal, e as sequências que envolvem planos maiores são sequências de homenagens, uma colagem barata que não traz nada de realmente novo.

E embora comova com seu argumento final, a resolução de repassar os momentos mais importantes da trama inteira com um personagem ao invés de outro é confuso – muita gente só percebeu da metade para o fim – e repetitivo, ao invés de surgir como o recurso dramático que se esperava. No fim das contas, La La Land é bonitinho e agrada, mas deixa a clara sensação de que é apenas uma miscelânea de cenas de filmes melhores, com músicas desinteressantes e coreografias pobres, limitadas pela falta de habilidade (ou ensaio) de seus protagonistas.

Título Original: La La Land
Direção: Damien Chazelle
Gênero: Comédia, drama, musical
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Damien Chazelle
Trilha Sonora: Justin Hurwitz
Fotografia: Linus Sandgren
Tempo de Duração: 128 minutos
Com: Ryan Gosling (Sebastian), Emma Stone (Mia), Callie Hernandez (Tracy), Jessica Rothe (Alexis), Sonoya Mizuno (Caitlin), Rosemarie DeWitt (Laura), J. K. Simmons (Bill), Jason Fuchs (Carlo), John Legend (Keith).