Posts Tagged ‘charlize theron’

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A Estrada

janeiro 4, 2017

the_road_movie_poster_by_karezoidNOTA: 3,5

Se tem uma coisa que não suporto em qualquer filme é a imbecilização de personagens. Crianças muito pequenas que se comportam como adultos – e trazem questões completamente fora de contexto para a trama, como no terrível A Culpa é do Fidel –, crianças maiores (de 8-10 anos) que são retratadas como incapazes, e até mesmo de adultos capazes que são infantilizados e reduzidos a um espectro deprimente (como no chatinho Minhas Tardes com Margueritte).

O caso de A Estrada é o segundo. Mas já chego lá. O filme se passa em um mundo pós-apocalíptico, retratado basicamente em tons de cinza (em contraste óbvio com o passado feliz e de cores quentes), completamente devastado, sem árvores ou animais. Os únicos que restam são grupos de homens que tentam sobreviver e outros grupos de homens que sobrevivem à custa destes, perseguindo-os e devorando-os. Então temos o Homem que, tendo perdido tudo, tenta proteger o Menino dos horrores desse cenário.

Retratado como uma espécie de road movie – já que os personagens estão sempre se movendo, buscando o litoral –, A Estrada nos mostra toda a sujeira, tristeza, fome e sede que esse tipo de mundo pode trazer. A eterna busca por comida, a eterna fuga de pessoas que podem fazê-los algum mal. Bem, para quem assiste a qualquer série sobre zumbis, esses temas são já batidos. The Walking Dead faz um trabalho fenomenal em retratar a crueza desse universo, no qual o principal problema são sempre os homens (vivos).

Apesar de apresentar o que seria um pai tentar proteger seu filho pequeno de maneira tão selvagem, o filme falha de maneira estrepitosa ao colocar um menino que é claramente mais velho do que o roteiro precisava que ele fosse. Portanto, vemos o Pai (por sinal, um excelente Viggo Mortensen, como de costume) arrastando, jogando e literalmente carregando o moleque por praticamente toda a projeção.

Este, por sua vez, nascido depois da catástrofe – e, pensamos, muito mais capaz de se adaptar ao mundo novo do que seu velho pai –, é posto como um menino frágil, tão frágil que não é capaz de salvar a própria vida quando se vê em perigo. Tão frágil que não consegue aceitar que as atitudes violentas que o Pai tem são unicamente porque ele os está protegendo, evitando que sejam mortos, comidos, queimados, enfim. Tão frágil que é capaz de se iludir com a “boa natureza humana”, quando tudo que jamais conheceu foi o horror e a carnificina.

Em certo momento, o menino implora para que o pai, atingido por uma flecha, não mate o atirador. Completamente inverossímil quando se trata das relações em um mundo pós-apocalíptico, A Estrada é decepcionante. Colocando o garoto numa posição de vulnerabilidade forçada, parece que a única intenção da projeção é arrancar lágrimas com a inocência infantil do menino. Que, nota-se, não é um garotinho de cinco anos, mas um menino de dez, que deveria ser capaz de segurar uma arma quando seu Pai, o único protetor que ele tem, assim pede.

Inverossímil até mesmo ao retratar as crianças – e nesse ponto estou totalmente de acordo com o filósofo Thomas Hobbes –, o filme de John Hillcoat falha em entender que elas são as primeiras a pegar as regras do jogo e a atuar de acordo com ele (e quem assistiu ao episódio do esconderijo das mulheres nesta temporada de The Walking Dead, se lembrará da menininha impiedosa que quase comete um assassinato injusto, simplesmente porque aquele era o costume da tribo). Claro, existe uma inocência infantil que sempre estará lá, não importa quão terrível seja o presente. Mas limitar a capacidade do menino de reagir, como se ele tivesse qualquer problema que não a idade, é um absurdo.

Como se isso não fosse suficiente, o filme também coloca situações completamente risíveis, nas quais se destrói por completo tudo que vínhamos construindo até então (e que já não era muito). Em determinado momento, o pai pega uma lata de Coca-Cola (claramente visível) de uma geladeira velha e dá ao garoto. Ele a abre, com o famosos “tsss” gasoso, bebe e diz “é realmente bom”, oferecendo-a ao pai. Você poderia pensar que é uma propaganda, mas é só mais uma cena. Juro que faltou só o urso polar.

E há mais dessas cenas, infelizmente. Talvez a pior de todas (depois da propaganda da Coca), talvez seja justamente a final, aquela que poderia melhorar um pouco a situação, mas tampouco consegue. O roteiro cheio de buracos de Joe Penhall é tão piegas que faria chorar somente aos Clint Eastwoods da Academia. Me limito a dizer que é tudo conveniente demais para ser aceitável. Um filme que deveria ser cru e dolorido como Biutiful, acabou se transformando em uma maquininha sentimentalóide – e não há nada mais frustrante em uma produção do que a crença de que o espectador é que é o imbecil.

Título Original: The Road
Direção: John Hillcoat
Gênero: Aventura, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Roteiro: Joe Penhall
Trilha Sonora: Nick Cave
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Tempo de Duração: 111 minutos
Com: Viggo Mortensen (Homem), Kodi Smith-McPhee (Menino), Charlize Theron (Mulher), Robert Duvall (cego), Guy Pearce (veterano), Michael Kenneth-William (ladrão).

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Kubo e a Espada Mágica

novembro 13, 2016

kubo-and-the-two-strings-poster-the-garden-of-eyesNOTA: 8,5

A produtora de animações Laika, fundada em 2005, não é das mais conhecidas por aqui. Claro que, se falamos dos longas ParaNorman, Boxtrolls e Coraline, ninguém se lembra de que foi dali que saíram. Mas isso perde importância a partir do momento que diretores e roteiristas consigam contar boas histórias. E assim foi com Coraline (o único que assisti da lista), e assim é, também, com este Kubo e a Espada Mágica.

A começar, é preciso dizer que, assim como Coraline (e A Fuga das Galinhas, Wallace & Gromit, O Fantástico Sr. Raposo e A Noiva Cadáver), o filme é todo feito em stop motion, a antiga técnica de construir bonecos e fotografá-los quadro a quadro para depois juntá-los, dando a ideia de movimento. E essa técnica dá ainda mais créditos ao filme, como irei dizer mais abaixo.

A história de Kubo é situada no Japão medieval, quando o país ainda era território de imperadores e samurais e, claro, de intermináveis disputas. Assim, encontramos a mãe de Kubo em uma tempestade em alto-mar, carregando seu pequeno bebê – cujo olho esquerdo havia sido roubado – e uma guitarra mágica. Ela salva o Kubo e leva-o para viver escondido em uma caverna em um penhasco, próximo a uma aldeia.

Lá Kubo cuida dela e faz performances inacreditáveis no vilarejo munido apenas da guitarra mágica e origamis de papel. Com melodias simples, Kubo, por meio da mágica herdada de sua mãe, faz com que as dobraduras ganhem vida e “atuem” nas histórias que ele conta. Essas histórias são pedaços da vida passada de Hanzo, grande herói e pai de Kubo, que ele jamais conheceu.

A única regra para o garoto é não estar fora da caverna quando o sol se põe, pois o maligno Rei da Lua quer roubar seu olho remanescente. A história se desenrola quando Kubo é descoberto pelo Rei da Lua e suas filhas gêmeas e, com a ajuda de um Macaco e um Homem-Besouro, deve encontrar uma lendária armadura que possa derrotar a todos.

Com um enredo simples de herói-que-se-encontra (escrito por Marc Haimes e Chris Butler), Kubo e a Espada Mágica enche os olhos com a fotografia de Frank Passingham e os efeitos especiais, tornando a experiência com a guitarra mágica (e seus origamis) ainda mais interessante. Reparem, por exemplo, na cor das mãos dos personagens, especialmente o de um vendedor de peixes logo no início da projeção.

E por falar neles, à parte de Kubo, as demais pessoas no longa são bastante unidimensionais, e confesso que fiquei incomodada com o fato de que duas delas saíram de cena tão drasticamente (e ao mesmo tempo). Mesmo Kubo, apesar de estar em perigo e ter medo, nunca se mostra tão assustado ou surpreso, o que tira um pouco o brilho para nós. Também senti falta de um maior desenvolvimento dos desejos do vilão, e o porquê a obsessão com os olhos do menino, e não com sua mágica. Além disso, apesar de viver aventuras perigosas, tudo se resolve de maneira excessivamente fácil.

(Spoilers). Não me convence, por exemplo, que Kubo tenha encontrado a armadura tão facilmente, já que seu pai passou grande parte da vida buscando os fragmentos. Foi só o fato do origami tê-lo ajudado? Pois o homem-besouro e o macaco tampouco sabiam onde estavam os pedaços, e o papel deles na busca foi apenas de manter Kubo vivo. Tampouco se explica a transformação de um personagem importante no Macaco. Quero dizer: porque não escapar voando, como Kubo? Por que dar vida ao Macaco, se era o mesmo personagem? Enfim, algumas coisas ficaram no ar.

Mas Kubo tem seus méritos. Como a mágica é usada no filme me agradou muito, bem como alguns conceitos belíssimos (as lanternas que se transformam em pássaros ou o barco-folha). A trilha sonora não é digna de nota, mas já mencionei o quanto a fotografia é bonita? Por fim, assistam até o fim dos créditos, pois os realizadores tiveram a ideia de mostrar como foi a construção de um dos monstros e como ele foi manuseado/digitalizado. Muito interessante.

Ah, e apenas deixando bem claro: é uma GUITARRA, não uma espada mágica – como a tradução em português erroneamente coloca (no original, é Kubo and the Two Strings, ou seja, “as cordas mágicas”, o que faz muito mais sentido).

Título Original: Kubo and the Two Strings
Direção: Travis Knight
Gênero: Animação, aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Marc Haimes e Chris Butler
Trilha Sonora: Dario Marianelli
Fotografia: Frank Passingham
Tempo de Duração: 101 minutos
Com: Art Parkinson (Kubo), Charlize Theron (Macaco), Matthew McConaughey (Besouro), Rooney Mara (Irmãs Gêmeas) e Ralph Fiennes (Rei da Lua).

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Vidas que Se Cruzam

junho 14, 2010
Desapaixonadamente

Primeira produção do roteirista Guillermo Arriaga, Vidas que Se Cruzam usa dos mesmos e já gastos recursos narrativos das parcerias com Alejandro Iñárritu 

NOTA: 6

Não necessariamente um bom cineasta é um bom roteirista, e vice-versa. A trilogia do cineasta mexicano Alejandro Iñárritu, em parceria com o roteirista Guillermo Arriaga inclui os três absolutos sucessos de crítica e público (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel), despertou o interesse do mundo pelas narrativas desconstruídas e desconexas, de múltiplas histórias paralelas que se entrelaçam no final, fechando os arcos dramáticos com elegância e beleza. E neste quesito, os dois primeiros longas são ainda mais bem-sucedidos.

A estreia de Arriaga na direção (e também como roteirista) traça o mesmo caminho das produções com as quais colaborou anteriormente. Vidas que Se Cruzam é a trajetória de pessoas de diferentes idades que se esbarram em diferentes momentos de suas vidas. Este é, contudo, um filme muito difícil de analisar, uma vez que a narrativa gira em um único epicentro – e infelizmente disso não posso passar, para não estragar a surpresa desejada pelo diretor.

O que se pode, sim, comentar, é a qualidade da construção narrativa de Arriaga – conhecido, como bem se sabe pelas obras anteriores – como alguém com incrível capacidade de entrelaçar pessoas e histórias em situações-chave. O curioso desta produção independente, contudo, é que esta mesma habilidade foi desperdiçada com um roteiro que, ao mesmo tempo em que soa original, é extremamente clichê. Digo isso pois, apesar de desejar manter o suspense até os momentos finais da grande revelação, o espectador é capaz de conectar os fatos dos personagens antes mesmo que eles estejam concluídos – e o que é pior, sem a menor emoção.

Não pelas atuações de Charlize Theron (que, por falar em bela, aparece totalmente nua logo nos cinco primeiros minutos de projeção) e da jovem Jennifer Lawrence, pela bela fotografia – que mescla a história de uns e outros com cores quentes e frias, para denotar os sentimentos de paixão e frieza, ou de consideração e desconsideração pela própria vida – ou ainda da triste trilha sonora feita pelas mãos hábeis de Hans Zimmer. Mas a história contada, em si, não é digna de nota. Outras atuações, como a de Danny Pino e Kim Basinger, apesar da dramaticidade dos personagens, ficaram diluídas em meio ao turbilhão sem nexo de acontecimentos.

Se desconstruída para uma narrativa comum (ou, como preferirem, com “começo, meio e fim”), Vidas que Se Cruzam não conta nenhuma história realmente comovente ou diferente de tudo que já foi visto e revisto muitas vezes no cinema. O impacto que fica é a maneira como Arriaga decide contar essa história – o que definitivamente não é mais novidade para ninguém. Inclusive, antes mesmo de começar o filme, já imaginamos que a história fosse ser feita exatamente do jeitinho que foi (sem entender quem são aquelas pessoas e porque tomam determinadas atitudes), para depois juntar todas as peças.

Infelizmente, a história de Sylvia não é emocionante. Seus motivos nunca ficaram claros e muito menos são justificáveis – o que faz com que tenhamos uma antipatia imediata pela personagem. O drama de sua vida não sofre uma reviravolta tão mais brusca na idade adulta quanto foi na infância, e sua redenção me pareceu forçada e até besta. Em determinado momento durante o filme, escrevi que a ordem cronológica pouco importava, já que a história era sem sal de qualquer jeito.

Claro que Arriaga teve o cuidado de retratar uma faceta da sociedade que é desgraçada, de famílias despedaçadas por falta de atenção. Mas este é daqueles filmes que, uma vez visto, nunca mais se terá o interesse de ver novamente (já que o final responde a todas as perguntas que levantamos durante a trama). Apesar de ter feito uma estreia razoável, a impressão que tive é de que Arriaga não teve fôlego suficiente para exercer duas importantes funções (o que é realmente difícil de acontecer).

Também é o típico filme “nhé”, que não deixa nenhuma sensação após assisti-lo, nem mesmo vontade de criticar. Não há exatamente uma crítica a ser feita. Todos os elementos de filmes considerados bons estavam ali? Sim, estavam. Mas, como em qualquer arte, é necessário paixão. E ironicamente foi isso que mais fez falta.

PS: Achei que o trailer dá mais conteúdo ao filme do que ele realmente tem. Fica a dica.

Tìtulo Original: The Burning Plain
Direção: Guillermo Arriaga
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina/EUA): 2009
Roteiro: Guillermo Arriaga
Trilha Sonora: Omar Rodriguez-Lopez e Hans Zimmer
Fotografia: Robert Elswit e John Toll
Tempo de Duração: 107 minutos
Com: Charlize Theron (Sylvia), Kim Basinger (Gina), Jennifer Lawrence (Mariana), José Maria Yazpik (Carlos), Joaquim de Almeida (Nick), Tessa Ia (Maria), Diego J. Torres (Cristobal), J. D. Pardo (Santiago jovem) e Danny Pino (Santiago adulto).