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Frozen

fevereiro 19, 2016

frozen-poster1NOTA: 8

Embora não seja um filme novo, uma das últimas animações de princesas dos estúdios Disney continua dando o que falar tanto entre o público adulto – que adota o cenário para criar festas infantis, fantasias etc – quanto pelos pequenos que recebem as sugestões dos pais, vestindo-se como as princesas Elsa e Anna, e comprando toneladas de produtos. Sendo ainda hoje um enorme sucesso, Frozen conquistou o coração de gerações de entusiastas das animações.

Por que isso acontece? Por que as irmãs princesas da Noruega (suponho) cativam de tal maneira o público em geral? Bem, além de ser um digno filme de princesas, com sidekicks engraçadinhos e canções pegajosas, a razão está no próprio conceito do filme. O roteiro de Jennifer Lee, Chris Buck e Shane Morris – baseados no conto “A Rainha da Neve”, de Hans Christian Andersen – conta a história das irmãs princesas de Arendelle que, quando pequenas, adoravam se divertir com os poderes da mais velha, Elsa, capaz de criar gelo e neve.

Um pequeno acidente com Anna faz com que os reis e pais das meninas precisem tomar medidas drásticas: eles curam-na com o poder dos trolls de pedra, que retiram de sua mente as memórias sobre os poderes de Elsa. Esta, tendo que esconder até mesmo da irmã seus perigosos poderes, com medo de feri-la, fecha-se em seu quarto durante anos (ou isso parece) e afasta a amizade de Anna. Quando os pais das princesas morrem em um naufrágio, Elsa se prepara para ser a nova rainha de Arendelle.

A festa da coroação é um momento de alegria para Anna, que não recebia público no castelo desde quando podia se lembrar. Já Elsa, preocupada com a crescente manifestação de seus poderes incontroláveis, quer apenas escondê-los. Mesmo assim, um incidente faz com que Elsa tenha de fugir do castelo, causando enorme desolação no país. Anna, tentando a irmã, recebe a ajuda de Kristoff – um simples vendedor de gelo – e Hans, um príncipe local com quem prometeu se casar.

O que torna Frozen especial é como a relação entre as duas irmãs e o conceito de amor são tratados. A dicotomia das duas irmãs – marcada pelos traços físicos característicos de cada uma – faz com que suas personalidades se oponham e complementem ao mesmo tempo, ensinando não só como deve ser uma saudável relação fraternal, mas também que devemos enfrentar nossos medos de frente, não importa quão terríveis eles possam ser.

Com um design fantástico, Frozen é bem feito ao ponto de variar nos tons de azul do gelo – de longe é escuro e de perto mais claro –, de mostrar as sardas no ombro da ruiva Anna e de nunca nos cansar com a soberba fotografia de Michael Giaimo. Além disso, os diálogos são reveladores, indicando uma postura muito mais moderna do estúdio com relação aos temas que permeiam nosso dia a dia. O humor também é pontual e feito de maneira precisa, sem deixar que os personagens soem fora de contexto.

Com um clímax extremamente diferente dos filmes de princesas que vemos por aí, Frozen trata o público de maneira inteligente, sabendo que a polêmica do “amor verdadeiro” causaria um impacto positivo tanto nos adultos como nas crianças, que agora podem ter modelos de princesas mais reais (embora ainda fantásticas), que não precisam e não devem ter a aprovação masculina para serem quem são.

Ainda assim, embora seja uma obra de qualidade, é inevitável a comparação com outros longas da Disney, como é o caso de Enrolados – cujo design é tão similar ao de Frozen que parecem ser ambientados em um mesmo universo (e talvez sejam) – e que deixa menos ao desejar no quesito enredo. Enquanto Enrolados cria uma fábula, Frozen parte do meio da história, sem jamais explicar como Elsa conseguiu aqueles poderes e porque eles são tão incontroláveis. Se a falta de amor fosse a explicação, Elsa não teria esse problema quando criança, já que sua irmã Anna e seus pais estavam sempre presentes.

Outro problema é a criação do boneco de neve Olaf, que serve de alívio cômico e deveria, também, servir como elo entre as duas irmãs – o que ocorre em uma única tentativa frustrada de convencer Elsa a abandonar o exílio. Confesso que gostaria de ter um pouco mais de ação de Olaf (e menos cantoria) que o simbolizasse como a juventude perdida das princesas.

Mesmo com alguns tropeços, Frozen se firma como um ótimo filme, trazendo ainda mais certeza à Disney de que apostar em seu sempre mutável público jovem – apostando na modernidade que este representa – é a escolha mais certa a se fazer. Agora só falta esperar por um filme de temática LGBT, o que não duvido que possa acontecer em breve.

Título Original: Frozen
Direção: Chris Buck e Jennifer Lee
Gênero: Animação, aventura, comédia
Ano de Lançamento (Estados Unidos): 2013
Roteiro: Jennifer Lee, Chris Buck e Shane Morris, baseado no conto de Hans Christian Andersen
Trilha sonora: Christopher Beck
Fotografia: Michael Giaimo
Tempo de duração: 102 minutos
Com: Kristen Bell (Anna), Idina Menzel (Elsa), Jonathan Groff (Kristoff), Josh Gad (Olaf), Santino Fontana (Hans), Alan Tudyk (Duque), Ciarán Hinds (trolls Vovô e Pabbie), Livvy Stubenrauch (Anna criança), Eva Bella (Elsa criança), Spencer Ganus (Elsa adolescente).

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Universidade Monstros

julho 16, 2013

universidade-monstros-poster2NOTA: 9,5

Já faz muito tempo que a Pixar se firmou como um dos estúdios mais bem-sucedidos do mercado cinematográfico. Os sucessos lançados ao longo de 25 anos de carreira falam por si só e, embora haja um ou outro escorregão nessa trajetória, o fato é que suas animações são esperadas por um público tão vasto que abrange pessoas de todas as idades (o que não deixa de ser surpreendente). Por isso, mesmo não superando os grandes clássicos como Toy Story e Procurando Nemo, a nova produção da Disney-Pixar é admirável.

A história de Universidade Monstros é absolutamente previsível, uma vez que todos os eventos desse filme devem levar àquilo que vimos no adorável Monstros S.A., de 2001. E ainda que o roteiro possa lembrar qualquer outro filme norte-americano de high school, confesso que fiquei bem impressionada. Acompanhamos – do jardim de infância à universidade – a vida do jovem Mike Wazowski, um monstrinho verde, com um único olho e muito pequeno se comparado aos colegas de sala. Sua única ambição na vida é se tornar um assustador da fábrica Monstros S.A.

Mas Mike tem um problema: ele não é assustador. Sua aparência fofinha, a voz esganiçada (em português ou no original) e seu tamanho diminuto fazem de Mike motivo de riso quando decide entrar no curso para formação de assustadores na universidade. Lá ele conhece e rivaliza com o grandalhão James T. Sullivan, filho do grande (e assustador) Sullivan, cuja reputação é levada em alta conta pelos professores e demais alunos. Mas ninguém é mais assustador ali do que a diretora Dean Hardscrabble (um trocadilho interessante, inclusive).

Uma disputa faz com que Mike e Sulley sejam expulsos das aulas de susto e, juntos, devem fazer o impossível para reconquistar sua credibilidade com a diretora. Eles se aliam ao grupo nerd, o mais improvável, para vencer uma dura competição. Se ganhar todas as provas, usando suas habilidades e inteligência, o grupo ganha prestígio na universidade e Mike e Sulley podem voltar às aulas de susto.

Sim, esse é o enredo (escrito a seis mãos por Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird), e as possibilidades do que pode ou não acontecer se estreitam a ponto de se tornarem transparentes como água. Mas só até certo ponto. Estamos, afinal, falando da Pixar (embora haja muito de Disney). Ainda que contenha uma história cujo final já sabemos, o que os leva até lá é interessante. É previsível na medida em que sabemos que tudo vai dar certo, já que eles eventualmente conseguem empregos como assustadores na fábrica. Mas surpreende pelo como.

Sem contar que, tratando-se do estúdio em questão, não esperava mais do que gráficos magníficos. Texturas quase palpáveis, ambientes grandiosos (como a sala dos sustos, que mais parece uma catedral) e, o mais importante, personagens com características e personalidades únicas. Além disso, há inúmeras referências ao longa anterior – como era de se esperar. Mas são referências divertidas e inusitadas (como o primeiro companheiro de quarto de Mike, ou a peça de teatro, encenada ao final de Monstros S.A., que aqui aparece em frases e de maneira muito sutil).

A história é mirabolante, mas adorável como seus personagens. A mensagem também é bonita e positiva, de que devemos aceitar quem somos e nossas habilidades, sem nos preocuparmos com o que os outros vão pensar de nós – um dilema eterno para todos, creio eu.

Título Original: Monsters University
Direção: Dan Scanlon
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird
Trilha sonora: Randy Newman
Tempo de duração: 107 minutos
Com: Billy Cristal/Sérgio Stern (Mike Wasowski), John Goodman/Mauro Ramos (James Sullivan), Steve Buscemi/Márcio Simões (Randall), Helen Mirren/Mariangela Cantú (Dean Hardscrabble), Joel Murray/Samir Murad (Don Carlton), Sean Hayes/Marcos Souza (Terri Perry), Dave Foley/Sérgio Cantú (Terry Perry), Julia Sweeney/Aline Ghezzi (Sherri Squibbles), Alfred Molina/Reinaldo Pimenta (professor Knight), Bob Peterson/Manolo Rey (Roz), John Ratzenberger/ Cláudio Galvan (Yeti), Frank Oz/Marco Ribeiro (Jeff Fungus).

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O Corcunda de Notre Dame

abril 8, 2010
Passo em falso?

Criado para discutir religião e preconceito, O Corcunda de Notre Dame é um clássico indiscutível, artisticamente impecável e tem narrativa emocionante

NOTA: 10

Essa não é a primeira vez que publico animações da Walt Disney (que podem ser conferidas aqui e aqui). Ao contrário da maioria dos desenhos do estúdio, O Corcunda de Notre Dame é um clássico renegado pelo público e, ainda assim, um dos melhores longas animados produzidos ao longo da década passada. A história de Quasimodo é um profundo mergulho na realidade, e um grande distanciamento de histórias alegres como A Pequena Sereia e Aladdin (ambos produzidos no início dos anos 90).

Baseada no livro homônimo do escritor Victor Hugo, a narrativa é contada através dos olhos do cigano Clopin – uma espécie de sobrevivente da época. Paris, 1482. Vindas, em sua maioria, da Espanha, as caravanas de ciganos invadiam as grandes capitais. Enfastiado com a ideia, o filme toma lugar justamente na proibição do pedante juiz Claude Frollo de permitir que mais grupos se estabelecessem na cidade. Ao tentar barrá-los, ele acidentalmente mata uma mulher que carregava um pacote.

Ao descobrir-lhe o pano, vê um bebê deformado e, com repulsa, tenta afogá-lo no Rio Senna – e é impedido a tempo pelo arquidiácono da Catedral de Notre Dame. Este ordena a Frollo que cuide do garoto a fim de tentar salvar sua própria alma. O juiz aceita, e batiza o menino de Quasimodo (em latim, significa “quase inteiro”). Nestes primeiros 15 minutos, um telespectador desavisado (leia-se, crianças), tomaria um choque com a brutalidade e realidade com que é a tratada a questão.

O rapaz cresce deformado e corcunda, se escondendo dos olhos inclementes do povo, em uma enorme consciência de si mesmo, no porão da majestosa Catedral de Notre Dame. Ele é o sineiro da igreja, e tem por companhia apenas três amigos imaginários: as gárgulas Victor, Hugo e Laverne (esta última, uma referência à cantora LaVerne do grupo Andrews Sisters).

Quasimodo ocupa a maior parte do seu tempo imaginando como seria a vida pública, longe das paredes mofadas, e esculpindo uma miniatura em madeira da vila que vê dali de cima. Em um destes momentos (enquanto ele canta “Out There”), é possível reconhecer ao longe, e com muita atenção, personagens clássicos do estúdio, como a Bela passeando pelas ruas, Pumba sendo carregado com uma maçã na boca, e até mesmo o Tapete de Aladdin sendo estendido.

Apesar de Frollo proibir o corcunda de sair – “para protegê-lo” -, ele é instigado pelas gárgulas (ou sua consciência) e decide tomar parte no Festival dos Tolos, uma das maiores festas de rua da cidade. Quasimodo salta para dentro da multidão e se deixa confundir com ela. A sequência é muito bem feita. A partir do momento em que ele põe os pés no chão do festival, tudo torna-se mais alegre e colorido. Um belo efeito de câmera mostra, refletido no chão, a imagem de Clopin, o bobo da corte, que depois sobe para sua imagem “real”, como se ele mesmo se estivesse mirando.

Aturdido pelo movimento e sempre tentando se esquivar de possíveis olhares, ele acaba tropeçando na tenda da bela Esmeralda. Sem medo, ela acalma-o, e ele volta anestesiado para junto da massa. Um estereótipo até cansativo – quando não preconceituoso – a cigana é feiticeira, seduzindo a todos como por mágica. Ao entrar no palco para se apresentar, ela pula, dança e encanta os homens presentes. Um deles o juiz Frollo, que se maravilha com a beleza e a destreza da moça.

No Festival dos Tolos elege-se um que se faça o “rei”. Vendo a estranha aparência de Quasimodo, Clopin escolhe-o como o representante e, em um frame sutil, o corcunda até chora de emoção por tão amistoso recebimento. Quando o homem tenta tirar-lhe a “máscara que esconde sua feiúra” e não consegue, todos se impressionam com a deformidade de Quasimodo. Em um momento absolutamente comovente, ele é amarrado como a um animal, para ser ridicularizado por todos. Esmeralda, com pena, é a única que se aproxima para salvá-lo. O mundo chora a tristeza de Quasimodo.

Frollo, contudo, reconhece-o e, vendo que Esmeralda deu-lhe certa atenção, proíbe-o ainda mais severamente de deixar a igreja, além de iniciar uma perseguição feroz aos ciganos. Fugindo dos guardas, a mulher entra na Notre Dame e a sequência paralisa o espectador. Os desenhistas da Disney alcançaram o intento de transformar este em um filme mais artístico: a vista da catedral (exterior e interior) é deslumbrante. Para quem conhece os vitrais roxos e arredondados, ver uma representação tão bem feita como essa é de dar nó na garganta.

A partir daí, inicia-se uma história paralela a de Quasimodo: o romance entre Esmeralda e o capitão da guarda, Febo. Surpreendendo-na dentro da igreja, ele também se encanta com sua beleza e permite que ela escape. Ela encontra o esconderijo de Quasimodo e ele a ajuda a fugir. Apesar do limite que separa os dois amantes, eles se apaixonam e lutam um pelo outro.

No meio deste turbilhão, o corcunda é o anti-herói, o único que pode ajudar Esmeralda e Febo, e também o único que pode parar a loucura de Frollo. Realista e triste, e ainda assim, com toques de humor e fantasia típicos da Disney, em O Corcunda de Notre Dame há muito mais do que as crianças podem supor. De maneira sutil, é levantado o embate entre paganismo cigano x cristianismo não-fanático. A complexidade de Frollo é muito bem trabalhada nesse sentido, quando do momento em que ele tenta se convencer de que o amor pagão o atingiu por feitiçaria, já que “os ciganos não são capazes de amar” – justamente por estar apaixonado por Esmeralda, ele acredita que a solução para esquecê-la é matá-la.

Algumas cenas merecem destaque, como o lindo pôr-do-sol colorido que Quasimodo admira do cimo de sua torre, ou o angustiante episódio no qual Febo vê Frollo ateando fogo a uma casa (com os moradores dentro). As últimas cenas também são tocantes. Como em A Bela e a Fera, o vilão tem um fim trágico. A catarse final – ver Paris em chamas, com rios de lava caindo como cachoeiras flamejantes de toda Notre Dame – redime o espectador com os personagens e eles próprios também.Por fim, mesclando a alegria do final feliz e a tristeza do anti-herói (que salva o mundo mas fica sem a garota que ama), Quasimodo tem sua redenção por intermédio de uma menininha que o abraça, como que pedindo desculpas por toda a comunidade. E ao final, lágrimas. Indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro de 1997 pela trilha sonora, O Corcunda de Notre Dame é um filme que emociona.

Titulo Original: The Huntchback of Notre Dame
Direção: Gary Trousdale e Kirk Wise
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 1996
Roteiro: Irene Mecchi, Tab Murphy, Jonathan Roberts, Bob Tzudiker e Noni White, baseado em livro de Victor Hugo
Trilha Sonora: Alan Menken e Stephen Schwartz
Tempo de Duração: 91 minutos
Com: Tom Hulce/Marcelo Coutinho (Quasímodo), Demi Moore/Mônica Rossi (Esmeralda), Tony Jay/Leonardo José (Claude Frollo), Kevin Kline/Dário de Castro (Febo), Charles Kimbrough/Renato Rabelo (Victor), Jason Alexander/Mauro Ramos (Hugo), Mary Wickes/Nelly Amaral (Laverne) e Paul Kandel/Cláudio Galvan (Clopin)

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Wall•E

março 3, 2010
Outter Space

Uma das mais belas produções da Disney Pixar, Wall•E é realista e sutil, porém subestimado

NOTA: 10

Protelei muito. Depois dos maravilhosos antecessores Procurando Nemo, Carros e Ratatouille, duvidei que os estúdios Pixar tinham algo mais a oferecer. Isso frequentemente acontece, e ainda bem que podemos nos redimir e mudar de opinião. Pois se Wall•E não é o longa mais famoso, deveria ganhar muito mais créditos do que ganhou na época de seu lançamento.

Recordo-me de ouvir diversas críticas negativas a respeito da história, de que era tudo muito parado, com poucas falas. Claro, para a revolução tecnológica que vivemos de três em três meses (quando não menos), um filme de animação feito para o grande público que seja poético, sutil e recheado com onomatopéias realmente não parece muito atraente.

Não se deixe enganar, caro leitor. Wall•E é uma das produções mais belas do Walt Disney digital, com roteiro comparável ao do também subestimado Corcunda de Notre Dame – que falam de coisas que as pessoas geralmente não gostam de falar, como as próprias responsabilidades com o mundo, sejam elas ecológicas ou sociais (para quem não se lembra, o antigo desenho de 1996 trata do preconceito e aceitação de um deficiente físico).

A história gira em torno do robozinho que dá nome ao filme, de olhos tristes e cativantes, habitante de uma Terra abandonada no ano 2700 para cumprir sua missão: compactar e organizar todo o lixo criado pelos homens, que agora inunda o planeta – o que se mostra uma função absolutamente inútil.

Apesar de ter olhinhos caídos, Wall•E é um lobo solitário, que tem por companhia a si mesmo, uma infindável coleção de objetos humanos (o que me lembrou de imediato a coleção de Ariel, de A Pequena Sereia, um clássico 2D) e uma simpática baratinha (sim, é possível), com os quais aparentemente se dá muito bem. Uma cena encantadora, inclusive, é a emoção que Wall•E sente ao assistir a uma cópia em VHS de Alô, Dolly (1969), parte de sua “biblioteca pessoal’.

A primeira meia hora do longa limita-se a contar o dia-a-dia do robô, em planos sem diálogo, mas com cores quentes que lembram a ferrugem e poeira que se encontra nosso planeta. A trilha sonora ajuda a compor o momento melancólico, com músicas como “La Vie en Rose” (com Louis Armstrong) e o tema de 2001: Uma Odisséia no Espaço. É neste contexto que um novo robô chega a Terra, para buscar um possível “tesouro”. Uma robô, para ser mais exata: EVA.

A mágica de Wall•E está no encontro dos dois robozinhos, que deixam de lado suas funções básicas (obedecer aos criadores) para buscar e encontrar a própria individualidade. A beleza de ver dois seres “inanimados”, duas máquinas, ganharem vida e se permitirem sentir emoções humanas é o ponto crucial da animação. A antropomorfização da Pixar nunca foi tão bem sucedida quanto no olhar choroso de Wall•E – que remete diretamente ao sucesso que os olhinhos do Gato de Botas de Shrek 2 fizeram, mas sem o apelo cômico do filme da Dream Works.

Além de ser plasticamente belíssimo, o novo filme de Andrew Stanton é realista em muitos sentidos. Desde colocar os humanos como seres obesos e egoístas, que não conseguem perceber uns aos outros por não desgrudarem de suas televisões particulares, até o emprego da câmera como se fosse manipulada manualmente (em uma cena, o “cameraman” tem que ajustar rapidamente o foco após ser atingido por carrinhos de supermercado).

Como toda obra de arte, o filme sutilmente faz referências às suas inspirações. Além do que já foi citado anteriormente, o robô AUTO, da nave humana Axioma, lembra de imediato o terrível manipulador HAL 9000 do clássico de Stanley Kubrick.

A alma que Stanton empregou tanto em Wall•E como em EVA demonstra a beleza das relações de duas “pessoas” que podem não se gostar a primeira vista, mas são conquistadas pela doçura e gentileza uma da outra. Além disso, as vozes criadas por Ben Burtt (o gênio por trás de Star Wars) são totalmente verossímeis, conferindo aos personagens ainda mais personalidade (com outras palavras, são fofos!).

Apesar da Pixar investir em filmes infantis, Wall•E acabou se tornando um filme mais adulto, que lida com preconceitos, diferenças, aceitações – nem sempre bem-sucedidas. Isso é só mais um mérito do estúdio da Disney, e uma ousadia mais do que acertada do diretor.

Título Original: Wall•E
Direção: Andrew Stanton
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: Andrew Stanton
Trilha Sonora: Thomas Newman
Direção de Arte: Ralph Eggleston
Tempo de Duração: 97 minutos
Com: Ben Burtt (Wall•E/M-O), Elissa Knight (EVA), Jeff Garlin (Capitão), Fred Willlard (Shelby Forthright), John Razenberger (John), Kathy Najimy (Mary) e Sigourney Waever (AUTO)

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A Bela Adormecida

janeiro 20, 2010
Era uma vez…

Animação da Disney ganha edição especial de 50º aniversário com remasterização de som e imagem, transformando o clássico em ainda mais clássico 


NOTA:
9,5

Ainda não tive tempo suficiente para comentar todos os relançamentos da Disney – só o fiz com a remasterização em Blu-ray de A Branca de Neve e os Sete Anões. Mas, como todo clássico merece segundas, terceiras e quartas análises, é bom relembrar os primeiros e famosos sucessos da fabriqueta do Dr. Walt.

Feito em 1959, esta foi uma das primeiras animações do estúdio, oito anos após o sucesso de Cinderela (de 1951). Esta história foi baseada no conto-de-fadas escrito pelo francês Charles Perrault em 1697 – que, por sua vez, baseou sua história no conto de 1624 Sole, Luna e Talia extraído do livro Pentamerone, de Giambattista Basile.

O filme é um conto sobre um reino na França que vive sob as cercanias do castelo da bruxa Malévola. Com o nascimento da princesa herdeira, as três fadas Flora, Fauna e Primavera são convidadas para agraciar a menina com dons que a façam a mais bela e graciosa princesa de todos os tempos.

Ofendida e enciumada, Malévola aparece no batismo de Aurora para dar também suas graças à princesa. Os reis temeram que o pior pudesse acontecer vindo de tão terrível bruxa, e ela de fato não deixa por menos: impõe à pequena uma maldição que deveria tirar-lhe a vida em seu 16º aniversário, quando furaria o dedo em uma roca. Primavera, que ainda não havia dado seu dom, tenta o máximo reverter a maldição, dizendo que, ao invés de morrer, a princesa dormiria por 100 anos, e seria despertada com um beijo de verdadeiro amor.

Os reis, tementes de que a profecia se tornasse realidade, mandaram queimar todas as rocas do reino. As fadas, contudo, estavam preocupadas com o ambiente em que a menina iria crescer. Com o consentimento dos pais, elas levam Aurora para ser criada como sobrinha de três camponesas, sob o nome de Rosa.

O conto é uma história de amor clássica, na qual o príncipe deve acordar a princesa adormecida com um beijo do amor verdadeiro – ao estilo de Branca de Neve. Porém, com mais ação e suspense que a primeira animação da Disney, A Bela Adormecida é bonito, emocionante e muito bem feito.

Além de ter uma belíssima e bem trabalhada fotografia, a trilha sonora foi totalmente composta a partir de canções adaptadas do balê Sleeping Beauty, de Tchaikovsky. Por isso, o longa concorreu ao Oscar como “Melhor Ttrilha Sonora de Filme Musical”, além de uma indicação ao Grammy na categoria “Melhor Álbum de Trilha Sonora Original para Cinema/Televisão”.

Com uma produção caríssima (a mais cara desde Pinóquio, de 1940), A Bela Adormecida foi o primeiro longa-metragem animado a ser filmado em bitola 70 mm e a usar largamente os recursos do widescreen.


Titulo Original:
The Sleeping Beauty
Direção: Clyde Geronimi
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 1959
Roteiro: Charles Perrault, Erdman Penner, Joe Rinaldi,Winston Hibler, Bill Peet, Ted Sears, Ralph Wright, Milt Banta
Trilha Sonora: Piotr Ilitch Tchaikovsky
Tempo de Duração: 75 minutos
Com: Maria Alice Barreto (Princesa Aurora/Rosa diálogos), Norma Maria (Princesa Aurora/Rosa canções), Maurício Sherman (Príncipe Filipe diálogos), Osny Silva (Príncipe Filipe canções), Heloísa Helena (Malévola), Nancy Wanderley (Flora), Joyce de Oliveira (Primavera), Nádia Maria (Fauna), Hamilton Ferreira (Rei Humberto), Roberto de Cleto (Rei Estevão) e Selma Lopes (rainha, mãe de Aurora).

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Up – Altas Aventuras

dezembro 16, 2009

Nas alturas…

Cotado como um dos melhores filmes do ano, Up – Altas Aventuras retrata, de maneira belíssima e singela, a reviravolta na vida de um velhinho

NOTA: 9,5

Cotado como um dos melhores filmes de 2009, indicado ao prêmio de Melhor Animação ao Globo de Ouro – e, portanto, um dos favoritos ao Oscar do ano que vem – a nova animação da Pixar realmente deu o que falar.

E não foi por pouca coisa: com 10 minutos iniciais de emocionar até o mais durão dos machões, a história da vida de Carl Fredericksen desliza diante de nossos olhos despreparados – e, ao final, embotados – com beleza e delicadeza impressionantes. A falta proposital de diálogos torna ainda tudo mais poético – e nos deixamos embalar com a deliciosa trilha sonora, que dá o tom exato à narrativa.

Não fossem estes 10 minutos, aliás, o longa seria bem diferente. Pois a história de Carl e do pequeno Russel começa justamente no ponto em que já conhecemos os motivos do velhinho ser considerado rabugento e ranzinza [uma das mais magníficas cenas, inclusive, é aquela na qual ele desce as escadas por meio de uma cadeirinha elétrica instalada no corrimão, ao som da inconfundível e maravilhosa ópera Carmen, de George Bizet].

Ex-vendedor de balões aposentado – e, com a morte da esposa Ellie, viúvo – Carl, aos 78 anos, está à beira de ser despejado da casa que construiu com a amada para viver em um asilo – por um motivo cômico e triste, ao mesmo tempo. Desesperado com a tentativa pública de ter que se desfazer de sua tão querida morada – na qual todos os objetos de Ellie permanecem na mesmíssima posição desde sua morte -, ele bola o plano perfeito.

Um belo dia, pouco antes de ser “levado” pelos enfermeiros do asilo, Carl recebe a visita de Russel, o enérgico escoteiro de 8 anos que tenta de todas as formas vender suas coisinhas ao antipático senhor. O que ninguém esperava, contudo, é que Carl fosse de fato ser levado nuvens acima: amarrado em milhares de balões de gás coloridos, ele desaparece da cidade.

Seu desejo é realizar o antigo sonho de Ellie de conhecer a América do Sul e viver perto de uma grande e bela cachoeira, imaginada por anos a fio como a paisagem idílica do paraíso. O que o Sr. Fredericksen não esperava era a companhia de Russel, inoportuno – e assustadíssimo – que sem querer fica “preso” na casa voadora. O vovô, totalmente contra sua vontade, é obrigado a aceitar o novo passageiro.

A viagem de Carl e Russel “termina” quando aterrissam em um lugar diferente, desabitado e aparentemente perigoso. Os balões já murchavam, outros estouravam, e a casa começava a perder estabilidade. Os dois aventureiros passam a encontrar muitas criaturas bizarras, como o belo pássaro pré-histórico, todo colorido, e o divertido cachorrinho falante, Dug.

Quando disse que não fossem os minutos iniciais Up poderia ser diferente, se refere ao fato de que, após analisar a tecnologia e o roteiro, constatamos que, juntos, ambos fazem a diferença – e que, consequentemente, sozinhos, talvez não fizessem! O roteiro do longa falha em algumas coisas, assim como a tecnologia não me impressionou tanto quanto em filmes mais antigos do estúdio, como Procurando Nemo.

A locação tão sonhada de Carl e Ellie é, em si, feia. Rochosa e arisca, muito diferente daquilo que imaginamos como um local perfeito e paradisíaco. Além disso, a própria relação entre Carl e Russel é um pouco forçada, uma vez que os personagens não tem tantas coisas em comum que pudessem cativar um ao outro, exceto por pequenos detalhes. Para arrematar, o vilão tem um final tão previsível quanto todos os outros filmes de bandido x mocinho da Disney – o que, por si só, desaponta um pouco.

Embora com algumas ressalvas, pode-se afirmar com segurança que Up é um dos melhores filmes da Pixar, concorrendo com outras estrelas como Monstros S. A. e Wall-E. Estes dois últimos, assim como a história de Carl Fredericksen, abordam histórias não-convencionais ao público infantil, e atraem pela originalidade da trama.

Se o primeiro lidava com a perda de uma pessoa querida pela maturidade, o segundo lida com o amor incondicional [coisa que as crianças, mesmo, só vão entender quando deixam de ser crianças], o terceiro trata da triste e solitária vida de um senhor que está cansado de tudo aquilo, principalmente por conta da morte de sua querida esposa – voltando ao tema da morte de familiares tratada com tanta destreza pelo clássico 2D O Rei Leão.

E é claro que as gags de Up são infalíveis. O cenário, apesar de ter desapontado um pouquinho, é deslumbrante, e a maneira como se construíram os detalhes digitais dos personagens é um espetáculo a parte. O melhor de tudo, mesmo, talvez seja a dublagem e sonoplastia que os diretores optaram por usar.

Primeiro, ver Chico Anysio como Carl é fascinante. A habilidade que este homem tem para conferir tanta emoção e humanidade ao personagem é de fato impressionante! A voz do doberman líder é, também, uma das melhores gags do longa, que fazem eco com o excelente A Era do Gelo 3.

Sinceramente, são estes os filmes que valem a pena: que levam das lágrimas ao riso em poucos minutos – e que, quando saímos do cinema, temos vontade de voltar para mais uma sessão.

Título Original: Up
Direção: Pete Docter
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Roteiro: Pete Docter, Bob Peterson e Thomas McCarthy
Trilha Sonora: Michael Giacchino
Direção de Arte: Ralph Eggleston
Tempo de Duração: 96 minutos
Com: Edward Asner/Chico Anysio [Carl Fredericksen], Jordan Nagai/Eduardo Drummond [Russel], Christopher Plummer/Jomery Pozolli [Charles Muntz], Bob Petersen/Nizo Neto [Dug], Delroy Lindo/Reginaldo Primo [Beta], Jerome Ranft/Marco Ribeiro [Gamma], Bob Peterson/Duda Ribeiro [Alpha] e John Ratzenberger/Anderson Coutinho [Tom/mestre de obras].

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Branca de Neve e Os Sete Anões

setembro 16, 2009

Bonequinha de neve

Relançamento em Blu-ray de um dos maiores clássicos da Disney, A Branca de Neve e Os Sete Anões tem músicas e imagens melhoradas

NOTA: 9,5

Quando pequena, eu era viciada em todos os desenhos feitos pela Disney. Tinha a fita da maioria e assistia pelo menos uma vez por dia a algum deles. Havia alguns, entretanto, que não figuravam entre os meus favoritos e acabaram de fora dos top 5. Bambi, Branca de Neve e Os Sete Anões e A Dama e o Vagabundo eram algumas das (poucas) animações que eu simplesmente não conseguia passar da metade. O meu negócio, admito, era com princesas.

Sim, eu sei que Branca de Neve é uma princesinha que vive sob o jugo da malvada madrasta e rainha. Mas alguma coisa na história simplesmente não me cativava. Por conta do traço do desenho mais antigo, a história mais curta e menos “viva”, não me emocionava muito.

O tempo passa e muda nossas cabeças, felizmente. Com o relançamento do clássico remasterizado pela gigante, tive a oportunidade de relembrar, que digam o que digam, a Disney foi e continua sendo a maior patrocinadora de cérebros no gênero das animações (e se tornará ainda mais, com a recente compra da Marvel).

Primeiro longa-metragem animado do mundo, Branca de Neve e Os Sete Anões foi lançado em 1937 e levou três anos para ser concluído, além de ter ganhado um Oscar especial * o mais curioso, acompanhado de sete mini-estatuetas, em homenagem aos anões. A famigerada trilha sonora foi a primeira gravação feita para um filme, e também a primeira a ser usada para ajudar no andamento da história.

Acumulando muitos fatos curiosos nos seus arquivos, o desenho é uma recriação do conto-de-fadas homônimo dos irmãos alemães Grimm. Se em minha infância não fui muito ligada à estória, a remasterização com imagem e som renovados veio para me provar que clássicos são clássicos, e que Branca de Neve e Os Sete Anões será sempre um filme agradável de assistir, um não importa a época ou a idade.

Título Original: Snow White and the Seven Dwarfs
Direção: David Hand
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 1937
Roteiro: Dorothy Ann Blank, Richard Creedon, Merrill De Maris, Otto Englander, Earl Hurd, Dick Rickard, Ted Sears e Webb Smith, baseado em estória de Jacob Ludwig Carl Grimm e Wilhelm Carl Grimm
Trilha Sonora: Frank Churchill, Leigh Harline, Paul J. Smith e Larry Morey
Fotografia: Maxwell Morgan
Direção de Arte: Ken Anderson, Tom Codrick, Hugh Hennesy, John Hubley, Harold Miles, Kendall O’Connor, Charles Philippi, Hazel Sewell, Terrell Stapp, McLaren Stewart e Gustaf Tenngre
Tempo de Duração: 83 minutos
Com: Adriana Caselotti (Branca de Neve), Harry Stockwell (Príncipe), Lucille La Verne (Rainha Má), Moroni Olsen (Espelho mágico), Billy Gilbert (Atchim), Pinto Colvig (Soneca / Zangado), Otis Harlan (Feliz), Scotty Mattraw (Dengoso), Roy Atwell (Mestre), Stuart Buchanan (Caçador).