Posts Tagged ‘francis ford coppola’

h1

Clássicos p. 1

janeiro 20, 2011

Último adeus

Dizem que sou a cara do meu tio, mas também poderiam dizer que sou a cara dos meus irmãos, do primo, do avô, do ascendente mais distante daquele pedacinho minúsculo de terra do outro lado do oceano, há quilômetros de distância, afinal a família é toda a mesma, por gerações e gerações continuará sendo sempre a mesma, aquela do moleque que empina pipa na rua batida de terra, que suja os sapatos brancos e os colarinhos dos alinhados, mas ninguém poderia dizer que eu sou filho do meu pai, aquele carcamano grisalho, de poucas palavras e olhos vívidos, de queixo saliente e fala precisa, quase venenosa, sempre palpitando na vida da famiglia que ele construiu quando chegou aqui, e depois abarcou o resto que se foi despejando dos navios imigrantes feito ratos no bueiro, abarcou a todos, os pais, os avós, os tios, os primos, todos, e todos obedeciam o que ele falava, porque ele era o chefe da famiglia, e era ele quem decidia por todos o que deveríamos fazer, mas ninguém nunca poderia dizer que eu, o caçula, tomaria conta de todos depois que o velho carcamano morresse, ah, não, porque pensar na morte do velho Don era pensar no inconcebível, como a famiglia se sustentaria sem ele era impensável, e ninguém botou fé em mim, o caçula, o pirralho, que a velharada toda mandava e sentava o pau e sentava a lenha e sentava a cinta, e o pai não ligava, na verdade achava que era isso mesmo, que eu tinha que apanhar para aprender a ser homem de verdade, a ser o chefe, porque o chefe bate e tem que bater sem ter dó de quem apanha, e o apanhado nem precisa estar merecendo apanhar, às vezes bastava só uma palavra, um gesto de mal educação, de afronta, e a famiglia inteira se voltava contra ele, e as mortes vieram uma, duas, três, o primogênito, meu irmão mais velho, que foi meter o bedelho e a língua comprida na famiglia alheia acabou cheio de tiros no peito, assassinado sem mais, o corpo largado no meio da estrada, e ninguém teve coragem de dar a notícia ao velho, porque ninguém sabia se o velho ia fazer como os reis de antigamente que mandavam matar os portadores das más notícias, mas o pai não matou mais ninguém, chorou apenas e se aposentou, foi morrer de velho lá nas terras de longe, e apesar de ninguém ter acreditado que eu daria um bom chefe eu vim e mostrei a todos que mandava igual o pai, mandava matar inclusive aquele que não obedecia as minhas regras dentro da famiglia, o meu próprio irmão, que foi levado pro meio do mar para parecer acidente e é claro que eu não me orgulho disso hoje, mas na época achei que era necessário, apesar dos gritos e dos choros incessantes da mãe e da irmã, mas isso não importa, porque as mulheres não têm que se meter nos assuntos dos chefes, afinal o chefe sou eu, e quem decide as vidas de todos agora sou eu, e ainda que esteja velho e não saiba mais o que fazer com a famiglia, minha própria filha se envolveu com o maledeto, aquele que vai ser o próximo chefe quando eu morrer, mas não queria, nunca quis que ela se envolvesse porque quem está dentro não consegue sair eu sei, já tentei, fui puxado pra dentro de novo, e exigem de mim a postura que meu pai tinha, a de homem sereno e intocável mas eu não sou como ele, não, não sou, e minha filha, minha linda menina, se envolveu com a canalha do meu sucessor, e boa coisa disso não veio, é claro, eu previ, preciso me confessar, preciso me redimir os pecados da carne da alma dos fios de cabelo que o velho pai tinha, iguaizinhos os meus, me lembro bem de seus olhos bondosos cuidando da famiglia como eu jamais pude cuidar, trouxe tristezas pra mãe, matei meu irmão sem dó nem piedade, só porque ele fez uma afronta à famiglia, uma coisa que não consigo me lembrar, porque tudo que importava era a segurança da minha filha, já que minha mulher, que ainda é minha mulher apesar de não ser mais minha, se recusa a dividir a cama comigo, se recusa a carregar filhos meus, até mesmo aborto a filha da puta já fez, não pude admitir nem nunca vou, e não admiti que minha filha fizesse o que fez, mas não pude evitar, ela está tão linda, crescida, mulher feita, e se envolveu com aquele carcamano, desgraçado que tirou-a de mim, ela era tudo que me restava, e sem ela já não sou mais pai, nem chefe da famiglia nem velho, restará de mim apenas uma vaga lembrança que não chega aos pés do meu velho pai, que falta ele faz, como queria que ele tivesse vivido para ver como governei, mandei, matei, como fui cego e precisei de seus conselhos, minha filha querida, que falta ela faz, como pude ser tão idiota a ponto de deixar isso acontecer, minha criança, me desculpe, que falta você faz, desculpe o seu velho pai, não pude evitar, minha filha, desculpe o seu velho, me desculpe…

———————–

Esse texto foi inspirado em muitas coisas, ultimamente no meu primo Luis Vassallo, que escreveu um dos livros mais tocantes que eu li nos últimos tempos. Com o texto, inauguro hoje a seção Clássicos do Projetor, que faz um paralelo (pode ser longínquo, não sei se atingi meu objetivo) de filmes e literatura. Em cada mês vou fazer um post mergulhando nos filmes que eu considero os clássicos, os melhores e farei relatos mais íntimos, da maneira que eu mesma vejo esses filmes – que são, geralmente, aqueles que compartilham suas histórias como se nós fôssemos parte dela.

Para quem não sacou a brincadeira, o texto foi total e inteiramente baseado naquele que eu considero o melhor filme do mundo, a trilogia de O Poderoso Chefão, do Coppola. Claro que tudo que eu disser será insuficiente, porque a trilogia é o retrato de todas as famílias italianas radicadas nas Américas, em maior ou menor grau; é o retrato de uma época, das características italianas mais latentes, aquelas que reconhecemos nos nossos pais, irmãos, tios e primos. A fala alta, rápida, gesticulada e alegre, típica.

Não seria justo, afinal, eu tentar escrever qualquer crítica que fosse sobre os Chefões. Seria injustiça com quem lê, com quem fez, até mesmo comigo, que escrevo, porque me faltariam elogios – e aí seria uma apologia e não uma crítica, certo?

Portanto, espero que gostem!

Títulos Originais: The Godfather I, The Godfather II e Godfather III
Direção: Francis Ford Coppola
Gêneros: Drama
Anos de Lançamento (EUA): 1972, 1974 e 1990
Roteiros: Mario Puzo e Francis Ford Coppola, baseado em livro de Mario Puzo
Trilhas sonoras: Nino Rota; Nino Rota e Carmine Coppola e Carmine Coppola
Fotografias: Gordon Willis
Tempos de Duração: 171 minutos, 220 minutos e 172 minutos
Com: Marlon Brando (Don Vito Corleone), Al Pacino (Michael Corleone), James Caan (Santino Corleone), Richard S. Castellano (Peter Clemenza), Robert Duvall (Tom Hagen), Richard Cont (Don Emilio Barzini), Al Lettieri (Virgil ‘The Turk’ Sollozzo), Diane Keaton (Kay Adams), Talia Shire (Connie Corleone Rizzi), Gianni Russo (Carlo Rizzi), John Cazale (Fredo Corleone), Robert De Niro (Vito Corleone jovem), Michael V. Gazzo (Frankie Pentangeli), Richard Bright (Al Neri), Gastone Moschin (Don Fanucci), Andy Garcia (Vincent Mancini), Eli Wallach (Don Altobello), Joe Mantegna (Joey Zasa), George Hamilton (B.J. Harrison), Bridget Fonda (Grace Hamilton), Sofia Coppola (Mary Corleone), Franc D’Ambrosio (Anthony Vito Corleone).

Anúncios
h1

Tetro

dezembro 16, 2010

Corleone modernos

Com bela fotografia e bem longe das produções hollywoodianas, novo filme financiado pelo próprio Coppola mostra nova visão sobre velho tema

NOTA: 7

“Buenos Aires” – anuncia o letreiro. O bairro de La Boca, as construções coloridas (mostradas aqui em preto & branco), a parte mais simples da capital portenha e todas as suas nuances de gentes e raças, a melancolia que predomina na baixa estação turística, a tristeza atemporal do cotidiano…

Não há data que nos identifique no tempo da projeção. Satisfatório saber que a modernidade ainda permite escapes temporais, de modo que uma representação de nossa própria época possa ser tida como antiga. E tudo isso pode-se notar nos primeiros minutos de Tetro, novo longa do diretor Francis Ford Coppola depois de Velha Juventude (que teve marketing praticamente nulo no Brasil).

Angelo Tetrocini, que agora prefere ser chamado somente de Tetro, tem uma conturbada história de vida, especialmente com seu pai – um maestro famoso e competitivo. Cansado de viver sob a sombra do velho (e de ser constantemente posto à prova por ele), Angelo se divorcia de toda sua família e vai para Buenos Aires, esperando cura e redenção. Com ele, um amontoado desconexo de folhas de papel rabiscadas, que revisitam seu passado e os momentos cruciais da vida que ele insistiu em deixar para trás.

Assim, em Buenos Aires, Angelo (ou melhor, Tetro), encontra em Miranda um porto seguro para recomeçar a vida. Mas eis que Bennie, seu irmão mais novo, surge para visitá-lo e cobrar uma promessa não cumprida da época em que partiu de voltar para buscá-lo. Quando menos esperava, Angelo se viu novamente às voltas com o passado que tanto o assombrava.

Recusando-se a chamar o menino de “irmão” e o impedindo de sequer mencionar a família que ambos deixaram para trás (já que Bennie resolveu seguir os passos de seu modelo), Tetro cria um mistério para o rapaz, que se sente cada vez mais tentado a investigar as angústias e dúvidas do irmão.

Recorrendo de parábolas e metalinguagem, Bennie, auxiliado por Miranda (a sempre ótima Maribel Verdú), consegue que os fragmentos do livro inacabado de Tetro virem uma peça de teatro e concorram a um conceituado prêmio da Patagônia, presidido pela também misteriosa Alone. Apesar disso, Tetro não quer a fama que tanto o distanciou do pai.

Em um momento de visível tensão, Carlo diz ao filho “só pode haver um gênio nessa família.” Nas palavras do próprio diretor, “isso foi dito na minha família, não para mim, não por mim”, o que denota que a problemática família Coppola está mais uma vez sob as lentes críticas do diretor.

Dividindo o presente em p&b e o passado em um tom sépia amarelado e vivo, o filme conta com interessante efeito plástico, fotografia excelente (como na cena em que a sombra de Tetro conversa com um cabisbaixo Bennie, ou dos flashes de luz que remontam à cena da mariposa), filmagem ousada – típica de quem já está fora de Hollywood e arrisca novas formas -, boas atuações e trilha sonora toda baseada no tango argentino. Ainda assim, Tetro talvez não tenha o efeito que Coppola desejou com a revelação final, revelando somente uma nova forma para revisitar temas tão batidos como vingança, ódio, loucura, redenção e descoberta dentro do próprio seio familiar.

Épico e dramático como uma ópera, mas sem causar a ânsia do gênero (portanto, sem os conceitos básicos que distinguem esse tipo de narrativa), Tetro é bonito, bem feito, com roteiro amarradinho e interessante, mas que nem de longe empolga ou emociona como o clássico familiar que consagrou a carreira do diretor mais de 30 anos atrás.

Titulo Original: Tetro (ou Segreti di Famiglia)
Direção: Francis Ford Coppola
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina/Estados Unidos/Espanha/Itália): 2009
Roteiro: Maurício Kartun e Francis Ford Coppola
Trilha sonora: Osvald Golijov
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Tempo de Duração: 127 minutos
Com: Vincent Gallo (Angelo Tetrocini), Alden Ehrenreich (Bennie), Maribel Verdú (Miranda), Silvia Pérez (Silvana), Carmen Maura (Alone), Rodrigo de La Serna (José), Erica Rivas (Ana), Mike Amigorena (Abelardo), Lucas di Conza (jovem Tetro), Adriana Mastrángelo (Ángela) e Klaus Maria Brandauer (Carlo/Alfie).