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Rogue One: Uma História Star Wars

dezembro 22, 2016

ysos4yfgbut5v2uvrqdh6wNOTA: 8,5

Quem espera “mais uma história” sobre o universo de Star Wars será surpreendido antes mesmo de o filme começar. Acostumada a escutar a tão característica fanfarra da 20th Century Fox e a trilha sonora marcante de John Williams que dava abertura à saga, foi com certa surpresa que iniciei a sessão desta nova produção do diretor Gareth Edwards. Pulando até mesmo o icônico letreiro que introduzia a estória, Rogue One: Uma História Star Wars já se estabelece como um ponto fora da curva antes mesmo de sua primeira cena.

Servindo ao mesmo tempo como elo e redenção do Episódio IV, Rogue One também tem como temática a esperança. Acompanhamos a história de personagens totalmente diferentes dos vistos no Episódio VII – O Despertar da Força. Conhecemos Galen Erson (o sempre maravilhoso Madds Mikelsen), um engenheiro do Império Galático e responsável por uma superarma. Quando o império aparece na porta de sua casa para “reclamar” o pai de volta ao trabalho, ele urge para que Jyn, sua filha, fuja e se esconda.

Resgatada e criada por um companheiro de Galen – coisa que ficamos sabendo por uma breve explicação mais adiante, já que não vemos isso acontecer –, Jyn se torna uma moça fria e independente que apenas tenta sobreviver, sem se importar com a guerra lá fora (“é só não olhar para cima”, diz ela em certo momento). Presa pelas forças imperiais, ela é resgatada pela Aliança Rebelde, já que esta precisa de sua ajuda para chegar ao homem que a salvou quando criança: Saw Guerrera, um extremista que não vê amigos no Império ou na Aliança, e luta por conta própria com seus guerrilheiros na cidade-templo de Jheda. Sua importância logo fica clara: Guerrera recebeu uma mensagem secreta enviada por Galen (que Jyn acreditava estar morto) através do piloto desertor do Império, Bhodi Rook (em uma ótima atuação de Riz Ahmed).

Ao mesmo tempo, acompanhamos a trajetória do capitão Cassian Andor, um rapaz que viveu toda sua vida em prol da Rebelião – como ele mesmo menciona algumas vezes. Quando Cassian descobre, por meio da misteriosa mensagem de Galen, que há uma maneira de destruir a tal arma, um pequeno grupo decide ir, a contragosto do Conselho, atrás dos planos da arma, escondidos em Scarif. Ao lado de personagens secundários eficazes – o monge cego Chirrut Îmwe e seu companheiro Baze Malbus, e o dróide imperial reprogramado a favor “da causa”, K-2SO – os heróis devem se infiltrar no território inimigo e retransmitir os planos de lá.

Misturando com naturalidade cenas de ação intensa com diálogos explicativos – e que não soam expositivos –, Rogue One se mostra muito mais eficiente do que o precedente. Além de ter um objetivo mais claro, o longa não se perde em teorias. A experiência se torna ainda mais rica quando observamos a reconstrução exata daquele universo concebido no fim dos anos 70, com seus aparelhos analógicos, tecnologia limitada e imagens com aspecto antigo. É sabido, inclusive, que algumas cenas deletadas do Ep. IV foram usadas aqui (algumas dos pilotos e dentro da cidade, que no filme de 77 corresponderiam a Tattooine).

Edwards mostra domínio sobre o universo e sua franquia, não só passando por vários planetas e luas que não participavam da “história principal” da família Skywalker mas, também, dando constantes piscadelas para o espectador, espalhando easter eggs dos mais variados em diferentes momentos (e que são muito divertidos quando descobertos. Meus favoritos são o holograma da dançarina e o suco azul). Também é interessante ver como a Força é utilizada aqui como motivo religioso, uma vez que nenhum dos personagens é de fato um Jedi. Assim, Chirrut e Baze constroem um arco interessante a respeito da fé na Força.

E se Diego Luna se mostra confiante no personagem, trazendo dores de um passado que não é mostrado, Felicity Jones parece sempre um pouco apática, embora seja compreensível, já que a própria Jyn era, a princípio, apática com relação à rebelião. Forest Whitaker, embora breve, marca presença com seu Saw Guerrera, e John Mendelsohn traz características marcantes ao vilão Orson Krennic. Uma boa surpresa é Alan Tudyk como a voz de K-2SO, sempre sarcástico e estranhamente humano para um robô imperial – cujo estranhamento é proposital e ainda mais divertido.

É necessário dizer, no entanto, que um dos pontos mais estranhos de Rogue One são as aparições de dois personagens “impossíveis”: sobre um não direi, pois é spoiler. O outro é Grand Moff Tarkin, “interpretado” por Peter Cushing. Devo colocar entre aspas pois Cushing faleceu em 1994, e o CGI que se emprega para trazê-lo de volta é tão escancarado que nos desconcentra por completo. Por mais interessantes que sejam suas aparições e seus personagens, o CGI fica demasiado óbvio quando colocado ao lado de pessoas reais. E em uma das cenas com Krennic, é possível contrastar a testa brilhante e colorida deste com a pele opaca e sem vida de Tarkin.

A fotografia de Greig Fraser, que mistura tons vibrantes com uma atmosfera sombria, é excelente, e eu me surpreenderia se não fosse indicada ao Oscar. Há um momento, entre vários, no qual vemos um personagem à contraluz, esperando para ser recebido por um superior, e podemos ver claramente essa dualidade de luz e sombras. As paisagens são construídas com muita eficácia, e ver a superarma em ação é assustador (além de belo, já que sua explosão é massiva e se espalha como um cogumelo de bomba atômica, uma onda de fogo e fumaça), dando ainda mais urgência e realismo à missão da Aliança Rebelde.

Embora se passe em um mundo fictício e em uma época não-existente na História, Rogue One consegue traçar paralelos extremamente atuais: em uma cena, em particular, vemos guerreiros terroristas (com roupas que lembravam os islâmicos) e um grupo de soldados imperiais (os Stormtroopers) atacando-se em meio a uma área civil, com pessoas correndo e gritando. É impossível não pensar em Aleppo.

A importância da causa é tamanha que até mesmo a cética Jyn se une a ela – mesmo que, lá no fundo, fosse para reencontrar-se com seu pai. A missão de entregar os planos da arma para os membros do conselho era tão importante que entendemos o desespero no qual os rebeldes, ao verem a aproximação dos inimigos, saem em carreira desabalada a fim de salvaguardar o que era de mais importante, muito mais do que suas próprias vidas.

Ainda que a última cena seja um pouco absurda – aquele personagem teoricamente estava em missão diplomática no começo do Ep. IV, e não faz sentido que estivesse ali, na frente da batalha – Rogue One é um filme redondo, que faz com que nos importemos com aqueles personagens, mesmo que seus começos e fins nunca mais sejam mais explorados no Cinema.

Título Original: Rogue One
Direção: Gareth Edwards
Gênero: Ação, aventura, sci-fi
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Chris Weitz e Tony Gilroy, baseados em personagens criados por George Lucas
Trilha Sonora: Michael Giacchino
Fotografia: Greig Fraser
Tempo de Duração: 134 minutos
Com: Felicity Jones (Jyn Erso), Diego Luna (Cassian Andor), Alan Tudyk (K-2SO), Donnie Yen (Chirrut Îmwe), Wen Jiang (Baze Malbus), Ben Mendelsohn (Orson Krennic), Forest Whitaker (Saw Guerrera), Riz Ahmed (Bhodi Rook), Madds Mikkelsen (Galen Erso), Jimmy Smits (Bail Organa), James Earl Jones (Darth Vader), Valene Kane (Lyra Erso).

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