Posts Tagged ‘mitologia grega’

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Percy Jackson e o Ladrão de Raios

outubro 19, 2010

Mitologia às avessas

Roteiro sofrível e atuações medianas, a história do Perseu moderno deixa muito a desejar

NOTA: 3,5

Como começar um texto criticando um filme visivelmente feito para crianças? Será que as referências que tenho atrapalharam meu julgamento? Ou será que até mesmo as crianças chegaram a notar as falhas de Percy Jackson e o Ladrão de Raios? Apesar da interessante premissa, não posso deixar de me ressentir que um filme sobre mitologia grega tenha sido tratado de maneira tão…boba. Mas ok, afinal, o filme foi baseado no primeiro livro da série homônima de Rick Riordan que, tal qual Harry Potter, criou um herói infantil (bem inferior e menos complexo, devo alertar).

Como já cheguei a afirmar na crítica de Fúria de Titãs (que, curiosamente, também é uma adaptação mediana da história do herói Perseu), a mitologia grega pode ter várias interpretações mas há pelo menos uma versão de cada mito que se sobrepõe às demais. Assim, qualquer mudança mínima nas características de qualquer um dos deuses olímpicos já soa afrontosa.

Logo nas primeiras cenas, vemos um raivoso encontro de Poseidon e Zeus, no qual o deus supremo afirma que seus raios foram roubados pelo filho do deus dos mares – e caso ele não os devolva em quinze dias, “haverá guerra”. Bem, para aqueles que conhecem a mitologia grega, uma ameaça dessas nem chega a ser grande novidade, não é? De qualquer maneira, a história acompanha a trajetória de Percy (sim, um Perseu “moderno”), um menino de 17 anos (no filme, pois no livro, também tal qual Harry, ele começa suas aventuras aos 12) que vive com a mãe e o padastro malvado – pois é.

Amparado por um elenco razoável que tem Sean bem como Zeus, Pierce Brosnan como Quíron e Uma Thurman como a Medusa (que vou discutir mais adiante), Percy Jackson descobre sua natureza de maneira um pouco forçada. Aliás, perdoem-me. Não é só isso que é forçado no filme. Posso afirmar que absolutamente tudo é superficial.

Percy é motivo de admiração do amigo e protetor de muletas, Grover Underwood, pois consegue ficar horas debaixo d’água. Para quem é mais espertinho, não precisaria de diálogos para descobrir a natureza do personagem. Assim, a artificialidade (e a vergonha alheia) surge no momento em que todos sabem (até o espectador) o que o rapaz é, menos ele. Essa obviedade do roteiro não é exatamente uma surpresa, considerando que Chris Columbus é o diretor (ele dirigiu outros filmes infantis como os dois primeiros filmes de Harry Potter e também Esqueceram de Mim).

Não vou me alongar muito: Percy Jackson e o Ladrão de Raios é um filme extremamente ingênuo. Sem adivinhar que poderia ser tão infantil, a fotografia e direção de arte são até boas, mas o roteiro impõe Percy como um menino sem habilidade alguma que, de uma hora para outra, vira o herói que seu nome precedia – há cena mais constrangedora do que a que ele descobre ser disléxico e só conseguir ler as paredes do museu? Para piorar, Grover é um personagem metido a engraçado e irritantemente previsível. Fora os clichês de tratar o menino como um Hércules da modernidade, há ainda muitas, muitas incoerências.

Nada, para mim, é pior do que ensinar falsos conceitos. Já que se trata de um filme infantil, porque tratar a criança como incapaz de compreender um roteiro mais bem feito, ou ainda correr o risco de os pequenos não se identificarem com os jovens personagens? Apesar de haver uma breve aula sobre a origem dos semideuses e de apresentar alguns dos seres mitológicos mais conhecidos, o filme comete o ato falho de tratar o espectador como imbecil. Qualquer que seja ele, adulto ou criança.

Porque, afinal, o acampamento dos mestiços (situado próximo à cidade, mas que ninguém nunca encontrou, claro) é medieval? Porque, por exemplo, as crianças são ensinadas a lutar com espadas e armaduras da Grécia Antiga, ou ainda se assa carnes em espetos e não em fogões? Digo, porque querer atualizar o tema da relação entre os mortais e os imortais se a premissa continua sendo encontrar gags que façam as crianças dar uma risadinha? Poderia haver muito mais coerência e divertir da mesma maneira. A ideia de que os deuses ainda se misturam com mortais é realmente interessante, mas muitíssimo mal explorada.

Além disso, não é explicado o motivo pelo qual Percy é o filho dileto de Poseidon, uma vez que o deus é um dos maiores garanhões da mitologia grega – em determinado momento, um dos personagens diz que “é raro um dos três grandes deuses ter filhos” o que, como bem sabemos, é uma mentira deslavada. O espectador não é obrigado a conhecer a fundo o contexto histórico-filosófico da narrativa que está sendo apresentada mas, como eu já disse por aqui, quando um filme desta magnitude se propõe a desbancar a série de J. K. Rowling e falar de mitologia, deveria ser mais atenciosa. Está bem, algumas coisas são realmente legais, como o tênis alado que Luke presenteia Percy ou a Hidra de sete cabeças. Mas a Medusa de Uma Thurman, com corpo de mulher e cabelos de cobra desmoraliza tudo até então.

Alguns fatos que me irritaram (e é culpa do livro, não do filme) foram a insistência em fazer a deusa Atena, conhecidamente uma das deusas virgens do Olimpo ter, continuamente, procriado – uma das amigas de Percy, Annabeth Chase, é a filha de Atena e, pela alma de Homero, isso é um absurdo! – e do deus Hades ser retratado como um motoqueiro/metaleiro, casado com uma promíscua Perséfone. Tal como tratar Jesus Cristo como um assassino, é desvalorizar a ideia que os antigos tinham de suas divindades.

A trilha sonora, se não fosse tão óbvia, até seria interessante. O desfecho do longa, piegas e moralista (com crianças dando lições em adultos literalmente gigantes) prova uma coisa, somente: que ambos escritor e diretor não leram O Senhor dos Anéis suficientemente para entender que pode-se ser sutil ao inferir a ideia de  heroísmo mesmo na menor das pessoas. Ah, sim: a ideia de que o buraco para a entrada do Inferno se situe bem embaixo da placa de Hollywood me parece mais uma jogada de marketing barato do que realmente uma grande sacada.

Se estivéssemos na época dos Olimpianos o filme teria uma severa punição, com direito permanência eterna no Tártaro.

Titulo Original: Percy Jackson and the Olimpians: The Lightning Thief
Direção: Chris Columbus
Gênero: Fantasia, Aventura
Ano de Lançamento (Canadá/EUA): 2010
Roteiro: Craig Titley
Trilha Sonora: Christophe Beck
Fotografia: Stephen Goldblatt
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Logan Lerman (Percy Jackson), Brandon T. Jackson (Grover Underwood), Alexandra Daddario (Annabeth), Jake Abel (Luke), Sean Bean (Zeus), Pierce Brosnan (Sr. Brunner/Quíron), Steve Coogan (Hades), Rosario Dawson (Perséfone), Melina Kanakaredes (Atena), Catherine Keener (Sally Jackson), Uma Thurman (Medusa), Maria Olsen (Sra. Dodds/Fúria), Dimitri Lekkos (Apolo), Ona Grauer (Ártemis), Stefanie von Pfetten (Deméter), Conrad Coates (Hefesto), Erica Cerra (Hera), Dylan Neal (Hermes), Luke Camilleri (Dionísio), Serinda Swan (Afrodite) e Ray Winstone (Ares).

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Fúria de Titãs

julho 21, 2010
A fúria de um homem 

Com sérias falhas no roteiro, o aguardado filme sobre Perseu deixa a desejar no quesito história, mas agrada pelas cenas de ação e paisagens fantásticas

NOTA: 7

Falar de um remake como Fúria de Titãs é complicado. Sou amante e estudiosa voraz de história e mitologia (especialmente a grega). Aceitar produções com estes temas é raro, porque sempre – e eu digo sempre! – haverá falhas históricas. E é claro que o novo filme de Louis Leterrier não é diferente. A nova versão é uma homenagem ao clássico de 1981 com Laurence Olivier (reparem na coruja prateada que Sam Worthinton ergue em determinado momento), mas com efeitos especiais que representam fielmente o mundo fantástico da Grécia dos séculos VIII a V – em um clima que me lembra muito o do jogo God of War com menos sangue.

Considerando a carreira do diretor, realmente não é de se espantar que Fúria de Titãs pareça uma mistura “frankestein” de Carga Explosiva (2002) com pitadas de erros grotescos como os cometidos em O Incrível Hulk (2008). Assim como em todas as produções anteriores das quais participou, Leterrier preza pelas grandes sequências de ação e pelo visual embasbacante, sem se preocupar tanto com a história. Bem, neste caso, este foi seu maior erro (achar que o espectador não se incomodaria ou pior, não perceberia).

Não que o filme seja ruim. Não. É até bem divertido! Mas existe um compromisso do diretor e de toda a equipe em ser o mais fiel possível aos estudos e análises já feitos, particularmente quando se fala de uma história tão específica da mitologia grega. Afinal, o público se deleita quando uma produção consegue transportar as imaginações e fantasias para a tela. Em Fúria de Titãs as falhas no roteiro e na cronologia histórica pululam durante toda a projeção.

Para a grande maioria, os errinhos do roteiro feito a três mãos por Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi passarão batidos – para mim, causaram estranheza em vários momentos, quando franzia a sobrancelha e pensava “isso não é bem assim”. De qualquer maneira, não vou entrar no mérito de comparar cada frame com a mitologia, porque isso simplesmente não teria fim.

A belíssima introdução do universo culmina quando o narrador (Homero?) introduz a guerra de Zeus contra os titãs (Titanomaquia), na qual os ciclopes forjam armas (raio, capacete que torna invisível e o tridente) para ajudar os deuses. Com a vitória olímpica, os Titãs são encerrados no Tártaro junto com Cronos e instaura-se a Era de Ouro, da supremacia de Zeus sobre todos os outros seres. Zeus, Hades e Poseidon dividem a terra entre si: o primeiro, com os raios, toma posse dos céus; o segundo, com o capacete, é o rei do submundo e o terceiro, igual em poderes que os irmãos, torna-se o rei dos mares e oceanos.

Na época de Perseu a guerra havia mudado dos céus para a terra, quando os homens declaram guerra ao Olimpo por duvidar dos poderes dos deuses. Para acabar com a rebelião, Hades propõe uma aliança a Zeus, na qual ele amedrontará os homens de tal maneira que eles voltem a rezar e a acreditar. Zeus, tolinho, aceita.

Filho da mortal Dânae e de Zeus – que se transforma no marido para possuí-la (na lenda ele se metamorfoseia em chuva de ouro, mas ok) -, Perseu é atirado ao mar dentro de um caixão junto com a mãe. No filme: pelo pai, enfurecido com a traição. Na lenda: pelo avô Acrísio, que temia a profecia de que seria morto pelo neto. De qualquer maneira ele é resgatado por Díctis, um pescador da ilha de Serifo, próxima a Argos. Criado por Díctis e sua mulher, Perseu encontra amor, mesmo sabendo ser adotado. Quando os homens destroem uma imensa estátua em homenagem a Zeus, Perseu vê toda sua família morrer naufragada pelas mãos de Hades.

Enfurecido e impotente, Perseu é levado pela esquadra dos argonautas até a cidade, onde ele deveria ser incluído entre os escravos. A família real de Argos, porém, desafiando a superioridade dos deuses, ousa dizer que a princesa Andrômeda é mais bela do que Afrodite. Com incríveis efeitos especiais, o poderoso Hades aparece e amaldiçoa tanto a rainha que proferiu a blasfêmia – e vejam como é curioso o imediatismo com o qual ela foi punida – quanto os cidadãos de toda Grécia. Ele soltaria o Kraken, terrível monstro marinho, para destruir a cidade caso Andrômeda não fosse sacrificada. As intenções do rei do submundo ficam bem claras: destruir tanto o reino dos homens quanto dos deuses e clamar para si a supremacia da Terra.

É nesta hora que Hades revela a semi-divindade de Perseu – para a incredulidade do próprio, que tem raiva dos deuses e prefere ser tratado como homem. Perseu entra no exército de Argos em uma missão para impedir Hades de dominar o mundo. Eles não sabem exatamente como, mas partem em uma caçada quase impossível para impedir o Kraken. Bem, para quem conhece minimamente a mitologia sabe que grande parte disso é pura pataquada. Hades nunca tentou dominar o mundo (ele não é um vilão!), os homens nunca desafiaram os deuses desta maneira e Perseu nunca negou sua divindade. Mas até aí, tudo bem que haja uma ou outra adaptação para tornar o filme mais comercial. Por incrível que pareça, as lacunas mitológicas – ainda que haja muitas – não são o que fazem de Fúria de Titãs um filme mediano.

É a maneira como é contado. O roteiro até é bem entrelaçado mas, como eu mencionei antes, Leterrier tem a característica de não se importar com a história (vide a atrocidade que ele cometeu no Hulk de Edward Norton). Portanto, as cenas de ação são muito mais substanciais do que todo o resto. Claro, não há como ignorar a belíssima direção de arte de Patricio M. Farrell e James Foster – que incutem grande força em momentos como todas as aparições de Hades, no Pégaso negro, nas três bruxas do destino, na ágil Medusa e no próprio Kraken, que de tão colossal é quase impossível mensurar seu tamanho.

Alguns erros grotescos, contudo, tiram toda a seriedade do filme. Logo nas cenas iniciais, vemos o caixão no qual Perseu é atirado com sua mãe ao mar. Sua mãe, de cabelos pretos. Quando há um flashback na história para contar como ela engravidou de Zeus, qual não é a surpresa quando vemos a rainha loira?! Sim, eles esqueceram de usar a mesma pessoa para interpretar…a mesma personagem. É uma fatalidade e, ainda assim, não me impressiona quando eu lembro quem é o diretor. Ah, sim. Quase me esqueci. Durante todo o filme não há aparição de um titã sequer. Deuses, monstros, homens, bestas, seres mitológicos, sim, aos montes. Titã mesmo, nenhumzinho.

O longa ganha força graças às atuações de Sam Worthintong e do sempre magnânimo Ralph Fiennes, que dão profundidade e emoção a Perseu e Hades. Para contrabalancear o que há de bom, há personagens absolutamente descartáveis para a história, para a lenda, para a vida do herói e para todo o resto: a ninfa Io (é um mistério para mim porque ela acompanha Perseu até determinado momento, depois é “tirada” da história para retornar em um final piegas) e o feiticeiro do deserto (que nem sequer tem um nome, tão bizarra e artificial é sua participação).

Para encerrar a análise, durante vários momentos no filme senti que nem precisava ver o final para saber que Perseu se renderia à sua parte divina e voltaria às graças de Zeus – que ele não casaria com Andrômeda, isso sim foi novidade. Afinal, eles são os ascendentes de metade dos heróis gregos (entre eles Hércules). Sim, fiquei impressionada com as locações (o Estige, por exemplo, é muito bem feito), mas infelizmente o conjunto da obra deixou muito a desejar. Worthington pouco pode fazer com um Perseu tacanho e limitado intelectualmente. Uma pena. Essa lenda é daquelas que poderia render o melhor filme de todos os tempos.

Tìtulo Original: Clash of the Titans
Direção: Louis Leterrier
Gênero: Épico
Ano de Lançamento (EUA/Reino Unido): 2010
Roteiro: Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi, baseado em roteiro de Beverley Cross
Trilha Sonora: Stephen Coleman
Fotografia: Peter Menzies Jr.
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Sam Worthington (Perseu), Ralph Fiennes (Hades), Liam Neeson (Zeus), Danny Huston (Poseidon), Izabella Miko (Atena), Tamer Hassan (Ares), Nathalie Cox (Ártemis), Luke Evans (Apolo), Nina Young (Hera), Mads Mikkelsen (Draco), Gemma Arterton (Io)Polly Walker (Cassiopéia) e Jason Flemyng (Acrísio)