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Com amor, Van Gogh

fevereiro 26, 2018

NOTA: 8

Realizado como uma produção polonesa, o longa metragem animado sobre a morte do aclamado pintor Vincent Van Gogh – reconhecido como tal somente post-mortem -, demorou seis anos para ficar pronto e contou com a colaboração de 125 artistas. Pintado quadro a quadro com a mesma técnica utilizada pelo mestre holandês, Com amor, Van Gogh é uma poesia visual, no qual cada plano é uma obra de arte.

O filme começa sua história um ano após o suicídio do artista. O carteiro da pequena cidade onde vivia – e que frequentemente levava as cartas de Vincent a seu irmão, Theo – pede ao filho, Armand, que entregue pessoalmente a última carta aos parentes do falecido.

Assim, ainda que relutante, Armand empreende uma viagem para recontar morte do pintor e os mistérios acerca de seu suposto homicídio. O filme nos leva por uma trama bem contada a respeito dos eventos que ocorreram alguns antes dias antes e que conduzem Armand a uma investigação detetivesca sobre os verdadeiros motivos que levaram alguém pacato como Vincent à morte. Além de conhecermos os personagens que se relacionaram com ele durante sua estadia em Auvers-sur-Oise, na França – como seu médico Paul Gachet e sua filha, Marguerite, e os donos do albergue onde se hospedava -, descobrimos mais sobre a vida por trás do gênio do pós-impressionismo.

Vincent era uma pessoa problemática, sofrendo de psicose, alucinação e, posteriormente, depressão. E como era muito comum, Van Gogh era um artista frequentemente menosprezado, considerado louco e fracassado, embora tivesse amigos como o também pintor Paul Gauguin – a amizade terminou quando Van Gogh, em um acesso de raiva numa discussão, cortou a própria orelha esquerda fora. Também podemos compreender a inspiração por trás de alguns de seus quadros mais famosos.

Com um roteiro enxuto e objetivo, escrito por Dorota Kobiela, Hugh Welchman, que também dirigem a produção, e Jacek Dehnel, Com amor, Van Gogh é, em certa medida, uma homenagem e um pedido de desculpas, como se a humanidade pedisse perdão por não haver compreendido quem foi esse homem internamente conturbado, embora gentil e pacífico aos olhos dos demais.

Sua morte, ainda que inesperada e mesmo tendo ocorrido em outra época, ajuda a discutir o tema do suicídio e da depressão, trazendo mais uma vez à tona temas tão importantes e recorrentes na nossa sociedade hoje. O longa é inacreditavelmente bem feito e os personagens foram pintados manualmente com base na atuação de atores reais, frame a frame, transformando a projeção em uma sequência de obras vivas. E embora a história em si seja simples e óbvia (uma vez que a vida e a morte do pintor são amplamente conhecidas), a evolução de Armand como homem descrente a alguém motivado pela busca da verdade é interessante e bem contada.

A fotografia de Lukasz Zal e Tristan Oliver ajuda a realçar as cores das pinturas, mostrando que nem só de animação digital vive o século XXI. E ainda que a história não seja lá grande coisa – que, realmente, não é – a arte em si é o grande personagem, fazendo uma história banal ser uma experiência espetacular.

Título Original: Loving Vincent
Direção: Dorota Kobiela e Hugh Welchman
Gênero: Animação, biografia e crime
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Dorota Kobiela, Hugh Welchman e Jacek Dehnel
Trilha Sonora: Clint Mansell
Fotografia: Lukasz Zal e Tristan Oliver
Tempo de Duração: 1h34
Com: Douglas Booth (Armand Roulin), Chris O’Dowd (Joseph Roulin), Helen McCrory (Louise Chevalier), Eleanor Tomlinson (Adeline Ravoux), Aidan Turner (o barqueiro), Saoirse Ronan (Marguerite Gachet), Jerome Flynn (Dr. Gachet), Robert Gulaczyk (Vincent Van Gogh), Cezary Lukaszewicz (Theo Van Gogh).

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Dunkirk

fevereiro 24, 2018

NOTA: 8,5

Existem alguns filmes que já não são feitos para serem assistidos de uma tela de televisão, por mais modernos e equipados que os aparatos sejam. Foi assim com Avatar, Gravidade e é assim com Dunkirk. Para aqueles que tiveram a possibilidade de assistir a mais nova produção de Christopher Nolan nos cinemas, Dunkirk foi uma experiência única.

Na história do Cinema há vários longas que trataram a guerra da maneira mais real possível, sendo o primeiro deles O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg – especialmente da fantástica sequência inicial –, e o recente Até o Último Homem, de Mel Gibson, que traz uma faceta tão brutal da guerra que nem mesmo eu, grande fã do gênero, havia ainda me deparado. É assim, também, em certa medida, este novo Dunkirk.

Bem menos emotivo que os dois primeiros, a obra de Nolan, escrita e dirigida por ele mesmo, aborda a intensidade e crueza da guerra de uma forma diferente. Acompanhamos a trajetória de um grupo numeroso de soldados belgas, franceses e britânicos que ficaram encurralados em uma praia de Dunquerque (França), sem resgate e cercados pelo exército alemão durante a Segunda Guerra.

Entremeando imagens fortes com um design de som impecável – que pode ser um longo período sem diálogos ou o incessante tique-taque que começa a soar logo no início da projeção –, o longa tem seu mérito em contar a história através da força e resiliência de seus personagens, e não necessariamente em seus diálogos. Usando um recurso que já o havia aclamado antes (em Amnésia), Nolan conta a história em diferentes perspectivas, misturando as linhas do tempo de acordo com os pontos de vista de um soldado que está em terra, outro que está no ar e outro no mar.

Por terra: enquanto Tommy, que está em terra, precisa se esconder do iminente ataque alemão que está empurrando cerca de 300 mil soldados cada vez mais para o insondável oceano; ele encontra outros companheiros igualmente desesperados para embarcar para fora dali – o que invariavelmente nunca acontece, porque aquilo é a guerra, e um barco jamais teria chances de escapar tendo toda a frota alemã fuzilando os ares com aviões de caça. Tommy e os outros pulam de uma armadilha para outra, nunca conseguindo um lugar seguro.

Por mar: ao mesmo tempo, o comandante naval Bolton recebe a notícia de que o primeiro-ministro solicitou aos barcos civis que pudessem ir ao resgate assim o fizessem, aumentando as chances dos soldados de não serem completamente esmagados. Então acompanhamos a história do pequeno barco do Sr. Dawson, que parte com o filho, Peter, e um amigo deste, George. Apesar dos incidentes dentro da embarcação, Dawson decide seguir em frente até Dunquerque.

Por ar: as batalhas acima das nuvens tampouco são fáceis, e vemos os pilotos Farrier e Collins cruzarem o Canal da Mancha em aviões Spitfire para empurrar os caças alemães para longe da costa, permitindo que os soldados em terra tentassem por fim embarcar.

Essas três linhas do tempo não são exibidas em ordem cronológica, o que exige esforço do espectador para colocar todas as peças do quebra-cabeça em ordem – o que obviamente acontece, pois Nolan é um bom contador de histórias e, no fim, faz com que todas as peças se encaixem naturalmente. É realmente notável o uso que o diretor faz do design e edição de som para esse filme. Já havíamos visto em A Origem como ele usa uma única música de Edith Piaf para conduzir o fio narrativo e, aqui, ao invés de uma música, é uma série de sons realistas – que também contam com a ajuda da magnífica trilha de Hans Zimmer, o John Williams de sua geração.

A fotografia de Hoyte Van Hoytema (responsável também pelo belíssimo Ela e por Interestelar) é também bastante boa, investindo praticamente 100% na paleta dessaturada, que aponta para a quantidade de morte e tragédia envolvidas. É um filme duro e violento. Cru e brutal como a guerra, e de uma imersão total. Assisti-lo no cinema me provocou imensa tensão, e só consegui relaxar ao perceber que o tique-taque havia finalmente acabado. A guerra havia acabado. Alguns de nossos personagens são resgatados e levados para casa, tratados como heróis. Outros não têm a mesma sorte.

Dunkirk é, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes da carreira de Nolan – embora não meu favorito –, com um roteiro objetivo e inteligente e um elenco igualmente bom, que desenvolve os personagens de maneira tridimensional com o pouco diálogo disponível. Vê-lo no cinema foi uma experiência ótima e, por enquanto, irrepetível, e imagino que não seja o mesmo que assisti-lo em uma tela pequena, com uma abrangência de sons limitada. Mas vale a pena mesmo assim. É uma nova maneira de storytelling, um novo jeito de se olhar para o gênero de filmes de guerra. E isso por si só já é extremamente interessante, considerando a enorme quantidade de bons filmes sobre o tema que existem por aí.

Título Original: Dunkirk
Direção: Christopher Nolan
Gênero: Ação e drama histórico
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Christopher Nolan
Trilha Sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Tempo de Duração: 1h46
Com: Fionn Whitehead (Tommy), Aneurin Barnard (Gibson), Mark Rylance (Mr. Dawson), Barry Keoghan (George), Tom Glynn-Carney (Peter), Tom Hardy (Farrier), Jack Lowden (Collins), Kenneth Branagh (comandante Bolton), James D’Arcy (coronel Winnant), Matthew Marsh (vice-almirante), Cillian Murphy (soldado do barco), Adam Long (sub-tenente) e Harry Styles (Alex).