Posts Tagged ‘patrick stewart’

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Logan

março 20, 2017

NOTA: 8,5

Já ouvi de algumas pessoas que o novo filme protagonizado por Hugh Jackman e seu animalesco Wolverine lembram as cenas cruas e sangrentas de Deadpool – na minha opinião, um dos (senão o) melhor filme do gênero. O que eu tenho a dizer sobre isso é: até que enfim! Até que enfim podemos ver o Wolverine em seu estado natural, dilacerando pessoas e coberto de sangue do início ao fim da projeção.

E não é daqueles tipos de violência gratuita, uma vez que o mutante é um dos heróis mais encarniçados de todo o universo X e merecia que sua vida fosse mostrada tal qual. A história deste Logan gira em torno de um envelhecido Wolverine, que trabalha dia e noite como motorista de uma limusine alugada, propenso ao alcoolismo e com uma doença que se agrava dia a dia, dividindo um galpão abandonado com outro mutante e ninguém menos que o professor Charles Xavier – que, desde o início, aparece meio senil e dopado com drogas que impedem perigosas convulsões.

Logan é o responsável por essa família desajustada, tudo o que restou do famoso grupo dos X-Men – ao que tudo indica, dizimado da história. Soma-se o fato de que há 25 anos não havia o nascimento de um mutante, Logan parece abandonado a sua própria sorte, sendo reconhecido de vez em quando por admiradores pouco respeitosos e engraçadinhos que parecem não saber com quem estão lidando.

Em um desses encontros, o grandalhão recebe a missão de cuidar de uma garotinha, uma mutante criada em laboratório e cujos poderes se assimilam muito aos dele próprio. Fugitiva do lugar que a criou e a outras crianças como ela, Laura precisa chegar a um paraíso para os mutantes, e só o conseguirá com a ajuda de Wolvie. Mesmo relutante, ele percebe que nenhuma das crianças conseguirá sobreviver sem sua intervenção. Assim, em uma missão praticamente suicida, Logan leva a garota através dos Estados Unidos em uma espécie de road movie, que significa o perigo e a morte para todos que cruzarem seus caminhos.

Triste, cheio de referências e tenso na medida, Logan tem algumas pitadinhas de humor bem colocadas e atuações intensas. O próprio Hugh Jackman, tão acostumado ao papel que o lançou ao estrelato, tem de sair de sua zona de conforto para encarnar um personagem amargo, ainda mais mal-humorado e ao mesmo tempo fragilizado. Portanto, mesmo que apareça rosnando, sabemos que seu estado de saúde não é mais o mesmo, e que todos aqueles músculos e sua dita capacidade de regeneração não o estão ajudando em nada.

Louvável também são as atuações da estreante Dafne Keen, cuja pequenez de corpo provoca ainda mais admiração quando ela demonstra seu poder físico, vindo de olhares intensos e uma intenção assassina. Já Sir Patrick Stewart, maravilhoso como sempre, traz um Xavier frágil, velhinho e que necessita atenção especial. Sua voz, alquebrada, é um sinal de sua debilidade, remorso e nostalgia, tudo ao mesmo tempo.

E embora seja uma boa película de ação, Logan não é excepcional. É, sim, um bom filme, especialmente quando traz a redenção desse personagem na telona. Mas o roteiro é simples, com uma história batida – até mesmo para os X-Men – e uma ou outra falha que chegam a ser absurdas. Um exemplo é a cena da granada que explode dentro de um pequeno caminhão, aos pés de duas pessoas – e uma delas sai da explosão com apenas alguns arranhões, ao invés de sair de lá sem as duas pernas.

Claro que há coisas louváveis, como a fotografia, a edição e a sonoplastia, que valorizam muito as cenas de combate, mostrando o sangue jorrando, partes do corpo voando e o barulho de carne sendo cortada com facas. Tudo isso faz com que o sofrimento seja plausível, e a vulnerabilidade de Logan ainda maior. Cada porrada que ele recebe é tão palpável que quase sentimos na pele. Há, ainda, detalhes incríveis como as feias cicatrizes que ele carrega, e de onde saem suas garras (e que podem ser vistas em uma cena muito rápida quando ele está no banheiro limpando sangue das mãos).

Fazia tempo que nós, fãs, esperávamos por algo assim, então posso dizer que, com certeza, esse é o melhor filme do herói feito até agora. Claro que não é dizer muito, comparando com o fiasco de Origins e o mediano Imortal, mas fica a indicação.

Título Original: Logan
Direção: James Mangold
Gênero: Ação, drama, ficção científica
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Scott Frank, James Mangold e Michael Green
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Fotografia: John Mathieson
Tempo de Duração: 137 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan), Patrick Stewart (prof. Charles Xavier), Dafne Keen (Laura), Boyd Holbrook (Pierce), Stephen Merchant (Caliban), Elizabeth Rodriguez (Gabriela), Richard E. Grant (Dr. Rice), Eriq La Salle (Will Munson), Elise Neal (Kathryn Munson), Quincy Fouse (Nate Munson).

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X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

fevereiro 22, 2016

x_men__days_of_future_past___poster__update__by_superdude001-d6sbixcNOTA: 10

Revisitando o mundo criado por Matthew Vaughn em X-Men: Primeira Classe – e que já havia sido explorado na trilogia sobre os mutantes –, o diretor Bryan Singer novamente pega a batuta do projeto para dar continuidade à história de Erik Lensherr e Charles Xavier em seu recrutamento de jovens com mutações genéticas.

No entanto, Dias de Um Futuro Esquecido funciona como continuação e prequela dos longas originais, já que traz os atores também originais nos papeis de Magneto e Xavier (Ian McKellen e Patrick Stewart, respectivamente). A narrativa está situada em um futuro pós-apocalíptico, no qual os mutantes lutam pela sobrevivência em um mundo que não permite sua existência. Eles são cassados e exterminados pelas aterrorizantes Sentinelas, espécie de robôs ultramodernos capazes de detectar a presença dos mutantes e absorver os poderes de seus inimigos.

Uma improvável união entre os senhores Magneto e Xavier – então desesperados para salvar os mutantes que ainda resistem –, usa os poderes de Kitty Pride para enviar Wolverine ao passado para impedir que a então jovem Mística assassine o empresário Bolivar Trask – cuja morte incentivaria a criação das Sentinelas.

Para conseguir, Wolverine deve encontrar as versões jovens de Magneto e Xavier, protagonizadas, como antes, por Michael Fassbender e James McAvoy. Retornando, portanto, aos incidentes ocorridos após Primeira Classe, encontramos a equipe de Xavier dispersa, tentando lidar com as próprias mutações, usando soros e tomando medidas para que parecessem “normais”.

Sem jamais deixar que o público se sinta traído por trazer novamente figuras como a de Tempestade, o roteiro de Simon Kinberg é astuto o suficiente para também introduzir personagens novos (como Mercúrio) e de conduzir a história de maneira eficaz. Assim, conforme o clímax da trama se aproxima, vemos os personagens do passado lidando com versões diferentes de seus inimigos do futuro, o que aumenta nossa sensação de urgência.

Contando com cenas de ação de tirar o fôlego, os personagens se movem em câmera de maneira fluida: nenhuma cena dá dor de cabeça, e sempre sabemos quem está fazendo o quê. Singer também confere personalidade a cada herói, mostrando, nas batalhas do futuro, uma química especial entre aqueles sobreviventes, já que a agilidade com que lutam e a mescla de poderes nos faz supor que aqueles personagens já travaram centenas de batalhas contra as Sentinelas – e perderam todas.

A fotografia de Newton Thomas Sigel – cujo ápice é o estádio de futebol “fora de lugar” – também merece destaque, bem como o senso de humor. Com gags pontuais que diluem momentaneamente a tensão, o riso é provocado por acrescentar detalhes não-humanos a fatos reais, como a bala curva que matou Kennedy e até mesmo a já famosa cena em “stop-motion” de Mercúrio.

Ao mesmo tempo, o filme conta com um elenco de peso, que sempre encontra uma brecha para explorar novas facetas de seus já tão conhecidos personagens – especialmente Hugh Jackman, que aparece mais do que familiarizado com Wolverine, mas nunca a ponto de ser monótono. Ao mesmo tempo em que contrastamos a magnitude das Sentinelas, que deixam Magneto e Xavier vulneráveis e até mesmo frágeis, encontramos esses mesmos personagens em suas versões jovens e infinitamente poderosos. Se o Xavier de McAvoy consegue encontrar e levar equilíbrio aos demais, o Magneto de Fassbender é imprevisível, explosivo e ameaçador.

O elenco coadjuvante, composto por Jennifer Lawrence como Mística e o ótimo Peter Dinklage como Trask, colaboram para trazer peso emocional e profundidade aos respectivos personagens, levando-nos a realmente acreditar que, por mais absurda que sejam as ações daquelas pessoas, há sempre uma razão ou um conflito interno que os guiam.

Assim, o longa de Singer se firma como um dos melhores filmes do gênero de todos os tempos, superando a Marvel em todos os quesitos, e até mesmo algumas produções do ano de seu lançamento. Servindo também como gatilho para o último filme da trilogia, Dias de Um Futuro Esquecido dificilmente o será, com o perdão do trocadilho.

Título Original: X-Men: Days of Future Past
Direção: Bryan Singer
Gênero: Ação, aventura, ficção-científica
Ano de Lançamento (EUA): 2014
Roteiro: Simon Kinberg
Trilha Sonora: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Tempo de Duração: 132 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), James McAvoy (Charles Xavier jovem), Michael Fassbender (Erik Lensherr/Magneto jovem), Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística), Halle Berry (Tempestade), Nicholas Hoult (Dr. Hank McCoy/Fera), Anna Paquin (Vampira), Ellen Page (Kitty Pride), Peter Dinklage (Dr. Bolivar Trask), Shawn Ashmore (Bobby/Homem de Gelo), Omar Sy (Bispo), Evan Peters (Peter/Mercúrio), Josh Helman (Major Bill Stryker), Daniel Cudmore (Colosso), Bingbing Fan (Blink), Adan Canto (Sunspot), Booboo Stewart (Warpath), Ian McKellen (Magneto velho), Patrick Stewart (Charles Xavier velho), Famke Janssen (Jean Grey), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Lucas Till (Havok), Evan Jonigkeit (Toad).

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X-Men 3: O Confronto Final

junho 3, 2011

O fim de uma era

Com outro diretor, a saga dos X-Men tem continuidade com trama complexa e profunda, trazendo novos personagens e dilemas

NOTA: 9

Fechando o ciclo dos filmes dos mutantes, este X-Men 3 – O Confronto Final é um belo exemplo de como as sequências podem (e devem) se favorecer. Isso é, sem dúvida, um mérito do diretor Brett Ratner, que entrou no lugar de Bryan Singer (responsável pelos dois primeiros filmes) para concluir a saga dos mutantes. Entrelaçando os roteiros com bastante habilidade, Ratner aproveita o mote do último longa para criar uma nova trama e um conflito psicológico ainda maior para os heróis. Situando a trupe de Magneto não como a inimiga mas como o outro lado da moeda, o diretor cria mais pontos de conflito ideológico do que propriamente físico.

A história começa a partir do ponto em que fomos deixados no fim de X-Men 2 Unlimited – ou seja, com a suposta morte de Jean Grey para salvar os amigos. Mas não exatamente daí. Voltamos vinte anos no tempo, quando Erik e Charles foram juntos (talvez ainda como aliados) conhecer a pequena Jean, uma jovem assustada que não tinha total controle de seu poder telecinético. Nada de novo – já sabemos que Xavier recruta mutantes para sua escola de “superdotados”. Avançamos dez anos (ainda não chegamos ao tempo real do longa) e vemos o também jovem Warren Worthington III que, com medo de ser descoberto pelo pai, Warren II, se esforça para arrancar as enormes asas de anjo que sua mutação lhe dá, em uma cena que inspira pena e angústia.

Anos se passam e vemos que Warren II passou a vida financiando um projeto capaz de “curar” a mutação genética através dos incríveis poderes de um menino – que tem a capacidade de anular os poderes de outros mutantes que se aproximam dele (como na excelente cena em que Hank McCoy o visita e, por um momento, vislumbra sua pele “normal”) -, os cientistas criam um composto químico capaz de curar essas “anomalias”. Em outras palavras, uma arma biológica. É a premissa para a raça humana exterminar definitivamente os homo superiors. Ciente de que uma guerra se aproxima e de que os mutantes só precisam aceitar quem são para vencê-la, Magneto convoca a Irmandade e reúne um verdadeiro exército para sequestrar o garoto e acabar com os humanos.

Impelidos a impedir Magneto da guerra iminente, os X-Men devem lidar também com o ressurgimento de Jean como a Fênix – o alter ego da mutante classe 5 (ou nível ômega), dos mais poderosos do mundo e que foi suprimido durante toda sua vida graças à intervenção de Charles – e com as sombrias ações que culminariam na morte (em cenas extremamente fortes e tocantes) de dois personagens centrais e fundamentais para a escola de Xavier. O único capaz de controlar a situação é Wolverine, graças ao seu fator regenerativo. Obrigado a por fim no poder ilimitado de Jean, Logan é novamente colocado como um dos personagens centrais da trama – o que fica claro na belíssima cena final – “Você morreria por eles?”, pergunta Jean. “Não, não por eles. Por você”, responde ele.

Um personagem que neste filme aparece como secundário também busca o consolo de uma vida normal a partir da cura. Assim, seguindo a linha dos anteriores, Ratner aborda a questão de que os jovens, sejam eles como forem, buscam se encaixar na sociedade. O ponto crucial da história dos X-Men é e sempre foi, portanto, a aceitação. E essa é a premissa que norteou a direção com bastante coerência durante a produção dos três filmes. Poderíamos facilmente substituir “mutação genética” por homossexualismo, religião ou raça – e a cena em que Mística salva Magneto da cura é fascinante por isso (“Minha querida, você não é mais uma de nós”, diz ele ao abandoná-la).

Embora haja uma mudança dos quadrinhos ao cinema, os personagens certamente adaptados foram para responder às questões levantadas pela própria saga, e não somente para satisfazer os fãs mais ardorosos. E isto é, certamente, mais um mérito tanto do roteiro quanto da direção, que soube condensar os personagens e suas histórias – e não modificar – para dar-lhes novas formas e caras. A trilogia dos mutantes é um compêndio de diversas histórias, versões e personagens mas que, dentro de seu próprio universo (o cinematográfico), é extremamente coerente e coesa.

Essa premissa norteia até mesmo as cenas de ação que, mesmo entre tantos poderes sobrenaturais e magníficos, são realistas e verossímeis. Os efeitos especiais (excetuando um errinho ou outro), a fotografia (minha cena favorita é já no terceiro ato, quando Jean libera a Fênix e seu cabelo parece pegar fogo) e a trilha sonora são contidos e se encaixam de maneira orgânica na narrativa, conferindo o tom épico e triste que o fim da saga merecia. E, mesmo sabendo que essa franquia não vai ser retomada do ponto em que parou, Ratner faz questão de, como nos filmes anteriores, deixar nas cenas adicionais (após os créditos) uma promessa de que nem tudo tem um fim definitivo (uma ótima cena, inclusive).

Titulo Original: X-Men: The Last Stand
Direção: Brett Ratner
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2006
Roteiro: Zak Penn e Simon Kinberg
Trilha Sonora: John Powell
Fotografia: James Muro e Philippe Rousselot
Tempo de Duração: 103 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), Patrick Stewart (professor Charles Xavier), Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto), Anna Paquin (Marie D’Acanto/Vampira), Famke Janssen (Jean Grey/Fênix), Halle Berry (Ororo Munroe/Tempestade), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Kelseu Grammer (Dr. Hank McCoy/Fera), Rebecca Romijn-Stamos (Raven Darkholme/Mística), Shawn Ashmore (Bobby Drake/Homem de Gelo), Ellen Page (Kitty Pride/Lince Negra), Ben Foster (Warren Worthington III/Anjo), Olivia Williams (Dra. Moira McTaggert), Vinnie Jones (Cain Marko/Fanático), Ken Leung (Maxwell Jordan / Quill), Daniel Cudmore (Peter Rasputin/Colossus), Aaron Stanford (John Allerdyce/Pyro), Shauna Kain (Theresa Rourke/Siryn), Mei Melançon (Elizabeth Braddock/Psylocke), Vince Murdocco (Ômega Vermelho), Michael Murphy (Warren Worthington, Sr.), Kea Wong (Jubilation Lee/Jubileu), Desiree Zurowski (Elaine Grey), Josef Sommer (Presidente dos EUA), Haley Ramm (Jean Grey pequena), Cayden Boyd (Warren Worthington III pequeno).

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X-Men 2

dezembro 10, 2010

A guerra continua

O segundo filme da saga X-Men é mais uma bem-sucedida adaptação dos quadrinhos para o cinema

NOTA: 8,5

Voltar alguns anos (não muitos) para falar da mesma tecnologia que temos hoje só que ainda não tão perfeita – ou dos roteiros de HQs ainda em evolução – é um exercício bastante curioso. Reassistir a trilogia dos heróis mais famosos da Marvel (me refiro a X-Men e suas sequências, X-Men 2 e X-Men 3 – Confronto Final) é analisar o início do gênero dos quadrinhos no cinema e perceber, embora isso não seja exatamente uma revelação, que a saga de Bryan Singer foi construída de maneira coerente com o mundo dos mutantes.

Obviamente adaptando algumas das histórias de seus personagens principais, Singer já tem êxito pelo simples fato de ter coesão com sua própria adaptação – que segue linha do tempo e respeita a noção de “sequência”, tomando o ponto de partida deste segundo filme justamente no final do primeiro – quando Erik foi preso em uma cadeia toda feita de plástico, para que fosse impedido de escapar.

Muito bem amarrada com o filme anterior, a história de X-Men 2 gira novamente em torno da briga entre mutantes e humanos, ainda mais acentuada pelo fato de que a natureza do verdadeiro inimigo é indefinida – uma vez que há mocinhos e bandidos de ambos os lados. O cientista militar Will Stryker é um dos que escolhe “lados”, mostrando claramente que deseja guerra contra os mutantes –e, mesmo assim, tem como assistente uma poderosa mutante com os mesmos poderes de Wolverine, incluindo gigantes unhas de adamantium. Tratando com delicadeza a complexidade de seus personagens, Singer constrói caráteres e sentimentos por vezes dúbios e subitamente voláteis, de modo que acompanhamos os pontos de clímax com verdadeira ansiedade.

Além dos mutantes que já conhecemos – Wolverine, Ciclpe, Tempestade, Jean Grey, Vampira e, claro, o professor Charles Xavier -, o diretor apresenta aqueles que formarão no futuro a verdadeira equipe dos X-Men. Curiosamente, ele o faz de maneira que o espectador desavisado jamais desconfie que “monstros” azuis e inicialmente hostis pudessem ser personagens cruciais para a escola de Xavier. Assim, vemos uma criatura invadindo a Casa Branca por meio do teletransporte (executado de maneira brilhante pela direção de arte) e realizando a desesperada e quase bem-sucedida tentativa de assassinar o Presidente dos EUA.

Esta criatura – um homem azul, com rabo, orelhas pontiagudas, dentes afiados, o corpo todo marcado e um rosto peculiarmente assustador – mostra-se uma pessoa muito católica. Quando o vemos na Igreja rezando fervorosamente, Singer põe mais uma vez por terra a ideia de que mutantes não são humanos – ou são incapazes de agir e sentir como tais. Essa ideia é curiosa pois os mutantes podem ser traduzidos como qualquer minoria (comunistas, muçulmanos, judeus, negros, só para ficar em alguns exemplos).

Enquanto isso, temos a história paralela de Wolverine (que se converteu no grande protagonista da série), que no filme anterior saíra para procurar respostas de seu passado que ele não se recorda. Costurando a história com muita maestria, o diretor já começa a dar mostras de que os poderes de Jean Grey estão ficando cada vez mais difíceis de controlar – o que sabemos ser o mote do último filme.

Há mais belíssimas cenas de ação e efeitos especiais, como as da sempre pragmática (e fabulosa) Mística e seus poderes imbatíveis, o Cérebro que permite a Xavier encontrar qualquer mutante em qualquer parte do mundo (extremamente fiel aos quadrinhos), a maravilhosa cena na qual Magneto consegue por fim escapar da prisão, e as angustiantes cenas de Jason, filho de Stryker, que tem o poder de invadir e manipular mentes.

Em busca de suas próprias verdades, Wolverine se depara com os desejos pessoais de Stryker de tê-lo feito inteiro de adamantium (na forte cena na qual Logan entra no laboratório em que foi criado). Para deter o intento do cientista de aniquilar com os mutantes, os seguidores de Xavier devem se aliar aos de sua própria espécie, culminando em excelentes momentos de tensão e atuação – quando vemos todos, alunos de Xavier e Magneto, em uma única nave tendo que se aturar por uma causa maior, é curioso reparar nos diálogos.

“Adoramos o que fez com seu cabelo”, diz o veterano a Vampira, ou quando ele ainda ensina um jovem a não negar sua natureza mutante – tentando angariá-lo para sua própria causa -, Noturno questiona Mística o porquê de ela não usar seus poderes para aparentar humana o tempo todo (uma coisa que ele certamente desejaria poder fazer). A resposta é sensível e inteligente: “Porque não deveríamos ter que fazer isso.”

Intercalando alguns momentos de ação frenética com alívio cômico – principalmente na figura de Wolverine -, é possível observar estes mutantes usando seus incríveis poderes para coisas banais do cotidiano (como gelar uma garrafa de refrigerante instantaneamente ou simplesmente atravessar paredes). Ainda há as explosões apaixonadas entre Logan e Jean – que percebe a estranheza da moça – e a tentativa frustrada de Mística de se fazer passar por ela.

Narrativa inteligente e bem costurada, mas ao mesmo tempo ágil como uma história de heróis deve ser, X-Men 2 lida de maneira clara e delicada com a tristeza da perda, o amor não correspondido, a vingança, a luta por uma causa aparentemente perdida e a expectativa (do público, é claro) de retorno: a premissa para o filme seguinte.

Titulo Original: X2: X-Men United
Direção: Bryan Singer
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2003
Roteiro: Michael Dougherty, Daniel P. Harris e Bryan Singer
Trilha Sonora: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Siegel
Tempo de Duração: 134 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), Patrick Stewart (professor Charles Xavier), Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto), Anna Paquin (Marie D’Acanto/Vampira), Famke Janssen (Dra. Jean Grey), Halle Berry (Ororo Munroe/Tempestade), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Alan Cumming (Kurt Wagner/Noturno), Brian Cox (Will Stryker), Bruce Davison (Senador Robert Kelly), Rebecca Romijn-Stamos (Mística), Shawn Ashmore (Bobby Drake/Homem de Gelo), Kelly Hu (Lady Letal), Aaron Stanford (John Allerdyce/Pyro), Katie Stuart (Kitty Pride/Lince Negra), Kea Wong (Jubileu), Daniel Cudmore (Peter Rasputin/Colossus) e Shauna Kain (Theresa Cassidy/Syrin).

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X-Men Estendido

setembro 22, 2010
“A evolução somos nós” 

Primeira adaptação dos quadrinhos para o cinema, X-Men tem versão estendida, com cenas excluídas e inseridas no meio da narrativa

NOTA: 8

Dia desses estive na locadora para alugar um filme que já tinha visto. É, algo que eu já tinha visto, mas queria rever – por isso minha lista não se renova com tanta frequência. Vi lá o DVD de X-Men Estendido, ou seja, com cenas adicionais e deletadas do longa original de Bryan Singer. Aluguei.

Fiquei imaginando se eles fariam como a versão estendida de Donnie Brasco, que inseriu as cenas deletadas com tanta maestria que mal era possível notar a diferença entre um e outro – mas, ao final, ter a nítida sensação de que a história estava mais completa.

Como já conhecia o filme, estava esperando cenas totalmente reveladoras sobre a história ou sobre os personagens – que, para quem não sabe, são muito bem construídos e analisados ao longo da projeção. Para minha surpresa, as cenas excluídas foram encaixadas no meio da narrativa junto com as cenas originais, quebrando totalmente o ritmo – sim, eles repetem a mesma sequência com as duas cenas.

Além de ser uma maneira estranha de lançar uma edição especial estendida, é extremamente incômodo e burro o fato de repetirmos uma mesma sequência com uma ou outra mudança – o filme fica duas vezes mais longo! A maneira, por exemplo, como Marie (a Vampira) conhece Bobby (ou Homem de Gelo) na escola de Xavier é diferente. Apesar de serem divertidas de assistir, não dá para notar muita diferença.

Apesar de não haver nenhuma mudança absurda de roteiro, o filme continua sendo interessante como da primeira vez que o vi. Para quem não conhece, X-Men é a adaptação dos quadrinhos da Marvel, com enfoque em dois personagens “principais” (ou mais populares): Wolverine e Vampira. As duas sequências também seguem a mesma lógica, acompanhando as escolhas e dúvidas de ambos.

A história, situada dentro do contexto marveliano, retrata a batalha entre os mutantes (liderados por Magneto e sua gangue) e os humanos (liderados pelo Senador Robert Kelly). Com um discurso calcado na lógica, o Senador afirma que os mutantes são uma ameaça ao mundo humano e devem ser “contidos”. Magneto, em contrapartida, tenta defender sua própria espécie e é radicalmente contra o segregacionismo – sendo ele próprio vítima do nazismo, mostrado nas tocantes cenas iniciais.

Entre a faca e o fogo estão os mutantes da escola de Charles Xavier, que buscam maneiras diplomáticas de mostrar aos humanos que os mutantes podem (e devem) controlar seus poderes e usá-los para o bem. Synger, contudo, não se baseia no maniqueísmo e explora muito bem o conflito entre os três lados.

O roteiro bem construído explora os personagens mais importantes, como Ciclope, Jean Grey, Tempestade e Mística – em atores muito bem caracterizados, como Hugh Jackman com seu humor cínico e o sempre brilhante Ian McKellen – e seus próprios conflitos internos, enquanto tentam lidar com seus poderes em mutação e evolução constantes.

Assim, quando vemos o relacionamento entre Jean e Scott, ou a amizade e respeito entre Charles e Erik, temos a certeza de que Singer se preocupou com a adaptação que iria transportar para as telas.  O diretor fez questão de mostrar alguns dos poderes mais incríveis destes mutantes – algumas brilhantes mostras são a tempestade de Ororo, a luta contra Mística, o modo como Magneto controla o solo que ele caminha e balas de revólver, a intensidade dos raios de Ciclope, e a força das garras de Wolverine, entre muitos outros exemplos interessantes.

Ainda assim, é inegável que existam muitos pontos falhos – só o fato da Vampira ser retratada como uma menina, e não como uma adulta, já diz tudo. É claro que para quem quiser saber a verdadeira história da Vampira, basta dar um Google.

Neste caso, totalmente fora do contexto dos quadrinhos e inserido no contexto criado pelo diretor, é interessante ver a relação de admiração entre ela e Logan. Quase uma relação de pai e filha – poderia ter sido com a Mística ou com o Magneto? Não faria o menor sentido, e acho que todos concordam. E também não faria sentido inserir Gambit aqui.

X-Men não é o melhor filme do gênero, mas certamente é um belo exemplo de estilo do diretor e o ensaio para os filmes posteriores, que continuariam a saga em uma teia mais complexa e dramática – e muito mais interessante!

Titulo Original: X-Men
Direção: Bryan Singer
Gênero: Ação
Ano de Lançamento (EUA): 2000
Roteiro: David Hayter, Tom DeSanto e Bryan Singer, baseados em histórias de Stan Lee e Jack Kirby
Trilha Sonora: Michael Kamen
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Tempo de Duração: 104 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), Patrick Stewart (professor Charles Xavier), Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto), Anna Paquin (Marie D’Acanto/Vampira), Famke Janssen (Dra. Jean Grey), Halle Berry (Ororo Munroe/Tempestade), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Bruce Davison (Senador Robert Kelly), Rebecca Romijn-Stamos (Mística), Ray Park (Toad), Tyler Mane (Dentes-de-Sabre), Shawn Ashmore (Bobby Drake/Homem de Gelo).