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Três Anúncios para um Crime

fevereiro 28, 2018

NOTA: 9

Talvez um dos menos ambiciosos e mais polêmicos dessa temporada do Oscar 2018, o novo filme escrito e dirigido por Martin McDonagh é também um dos mais honestos e engraçados. Passado em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos (Ebbing, no Missouri), Três Anúncios para um Crime retrata o típico norte-americano – do qual já falei também em Eu, Tonya -, aquele que é tão fora da casinha que dá até medo.

Mãe e vendedora em uma loja, Mildred Hayes decide alugar por um ano três outdoors que ficam nas aforas da cidade (daí o nome do filme em inglês). O conteúdo dos anúncios, entretanto, nada tem a ver com a venda de produtos. Mildred decide chamar na chincha a polícia de Ebbing por ter supostamente abandonado o caso de estupro e assassinato de sua filha. Enfurecidos, o policial Jason Dixon e o xerife William Willoughby tentam convencer a mulher a retirar os anúncios, uma vez que conseguiram ganhar publicidade da mídia local e causar sensação entre os habitantes do povoado – criando rixas entre quem está a favor de quem.

Mas o que se segue é uma sequência de gente maluca fazendo maluquices, uma mais bizarra do que a outra. A capacidade de McDonagh de contar uma boa história aqui se faz clara, uma vez que ele nos apresenta situações realistas e cheias de ironia que, além de me perguntar se esse tipo de gente realmente existe a cada instante, me deixavam sentada na ponta da cadeira.

Não é um thriller ou um filme de ação emocionante, mas o diretor consegue nos deixar suspensos a cada sequência, imaginando o que irá acontecer a seguir – e, para mim, a grata surpresa é que eu nunca conseguia adivinhar. Essa característica de brincar com o absurdo, mesclando um humor ímpar com situações improváveis é uma receita de sucesso que ele já havia explorado no ótimo Na Mira do Chefe, e aqui se faz ainda melhor. E por mais louca que toda aquela gente pareça ser, o elenco formidável consegue transmitir uma miríade de sentimentos que tornam aqueles personagens totalmente verossímeis.

Então temos a mãe, enlouquecida pelo luto e pelo descaso da polícia, o ex-marido violento e sua nova namorada que parece mais perdida que cachorro em dia de mudança, o filho retraído, o dono da agência de publicidade que desafia a autoridade, a autoridade composta por um idiota e um homem sensato que logo sai de cena e alguns outros personagens curiosos que compõem um leque de complexidade humana vasto e rico.

Enquanto entendemos a dor de Mildred, sofremos com ela e por ela, mas também pelo filho que lhe restou, devastado também pela perda da irmã e tendo que lidar com uma mãe fora do controle. E se em um primeiro momento era difícil compreender os dois policiais, ao longo da projeção suas ambições e características psicológicas se vão revelando pouco a pouco, de maneira brilhante e objetiva. O final aberto também é um recurso utilizado com eficácia aqui, já que, como disse, tudo pode acontecer.

O arco mais notável é, certamente, o do personagem mais odiável, vivido por Sam Rockwell com carisma e (nem acredito que estou dizendo isso) muita eficiência. Nunca fui fã do ator pois ele sempre interpreta o mesmo tipo (ele mesmo) e o seu Dixon não é muito diferente dos demais. A diferença é que o policial foi escrito de maneira magistral, com nuances que desvelamos devagar, acompanhando a trajetória daquele homem como quem vê as peças de um relógio se encaixando. Passamos por todas as fases: ódio por sua estupidez, pena de sua óbvia incapacidade mental e júbilo porque talvez todas as observações feitas anteriormente fossem somente um pré-conceito. O mais interessante do longa é isso: os personagens, como nós, têm espaço para rir, chorar, sentir pena, compaixão, medo etc.

Mais do que apenas uma figura extremamente poderosa, a estrela do filme, Mildred, é um personagem tridimensional, e Frances McDormand está absolutamente fantástica. Usando sempre moletons – talvez algo que já seja sua marca característica – ela não tem medo do olhar público e vai até o fim para defender sua causa. Uma das cenas mais tocantes, contudo, é aquela na qual Mildred é interrogada por William na delegacia e ambos são interrompidos por um forte acesso de tosse do xerife. E se McDormand certamente merece o prêmio de Melhor Atriz, fica difícil escolher entre o carisma do William de Woody Harrelson ou a estupidez fingida de Sam Rockwell. Ambos estão excelentes (mas Rockwell um pouco mais).

Aliás, Três Anúncios para um Crime levanta uma série de assuntos em pauta atualmente, que com certeza terão destaque durante as premiações da Academia. Os temas de estupro e abuso são o que engatam o longa, sim, mas há também uma clara colocação contra o racismo, infelizmente ainda presente na sociedade. Então, ver um dos atores da magnífica série The Wire participar como o novo chefe de polícia é uma sacada não só genial de escolha de elenco, mas da própria construção do personagem. O nome dele? Abercrombie. Maravilhoso! (lembrando que a marca homônima vira e mexe é acusada de racismo).

É a presença e força de Mildred, no entanto, que guiam toda a narrativa. Uma mulher forte e independente, que sabe colocar todos os pingos nos “is”, e que não tem pudores de recorrer ao que quer que seja para lidar com abusadores escrotos – sejam eles homens ou mulheres. É um personagem que fala diretamente com as mulheres de hoje, e é impossível não mencionar o movimento que está acontecendo em Hollywood desde outubro passado, o #metoo – hashtag utilizada por celebridades e agora pelo mundo todo para expôr situações de abusos e assédio sexual.

É de uma contemporaneidade incrível e é por essa razão que Três Anúncios para um Crime é a minha aposta para Melhor Filme do Oscar deste ano. Um timing mais do que perfeito para a Academia apoiar a causa, e não sem razão. Um filme ótimo com um contexto atual é tudo que se precisa para ser um vencedor, apesar daquele CGI de veado.

Título Original: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Direção: Martin McDonagh
Gênero: Crime, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Martin McDonagh
Trilha Sonora: Carter Burwell
Fotografia: Bem Davis
Tempo de Duração: 1h55
Com: Frances McDormand (Mildred Hayes), Sam Rockwell (Jason Dixon), Woody Harrelson (William Willoughby), Lucas Hedges (Robbie Hayes), Caleb Landry Jones (Red Welby), Kerry Condon (Pamela), Amanda Warren (Denise), Peter Dinklage (James), John Hawkes (Charlie), Samara Weaving (Penelope), Zeljko Ivanek (sargento), Darrell Britt-Gibson (Jerome), Sandy Martin (Dixon mãe), Clarke Peters (chefe Abercrombie).

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X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

fevereiro 22, 2016

x_men__days_of_future_past___poster__update__by_superdude001-d6sbixcNOTA: 10

Revisitando o mundo criado por Matthew Vaughn em X-Men: Primeira Classe – e que já havia sido explorado na trilogia sobre os mutantes –, o diretor Bryan Singer novamente pega a batuta do projeto para dar continuidade à história de Erik Lensherr e Charles Xavier em seu recrutamento de jovens com mutações genéticas.

No entanto, Dias de Um Futuro Esquecido funciona como continuação e prequela dos longas originais, já que traz os atores também originais nos papeis de Magneto e Xavier (Ian McKellen e Patrick Stewart, respectivamente). A narrativa está situada em um futuro pós-apocalíptico, no qual os mutantes lutam pela sobrevivência em um mundo que não permite sua existência. Eles são cassados e exterminados pelas aterrorizantes Sentinelas, espécie de robôs ultramodernos capazes de detectar a presença dos mutantes e absorver os poderes de seus inimigos.

Uma improvável união entre os senhores Magneto e Xavier – então desesperados para salvar os mutantes que ainda resistem –, usa os poderes de Kitty Pride para enviar Wolverine ao passado para impedir que a então jovem Mística assassine o empresário Bolivar Trask – cuja morte incentivaria a criação das Sentinelas.

Para conseguir, Wolverine deve encontrar as versões jovens de Magneto e Xavier, protagonizadas, como antes, por Michael Fassbender e James McAvoy. Retornando, portanto, aos incidentes ocorridos após Primeira Classe, encontramos a equipe de Xavier dispersa, tentando lidar com as próprias mutações, usando soros e tomando medidas para que parecessem “normais”.

Sem jamais deixar que o público se sinta traído por trazer novamente figuras como a de Tempestade, o roteiro de Simon Kinberg é astuto o suficiente para também introduzir personagens novos (como Mercúrio) e de conduzir a história de maneira eficaz. Assim, conforme o clímax da trama se aproxima, vemos os personagens do passado lidando com versões diferentes de seus inimigos do futuro, o que aumenta nossa sensação de urgência.

Contando com cenas de ação de tirar o fôlego, os personagens se movem em câmera de maneira fluida: nenhuma cena dá dor de cabeça, e sempre sabemos quem está fazendo o quê. Singer também confere personalidade a cada herói, mostrando, nas batalhas do futuro, uma química especial entre aqueles sobreviventes, já que a agilidade com que lutam e a mescla de poderes nos faz supor que aqueles personagens já travaram centenas de batalhas contra as Sentinelas – e perderam todas.

A fotografia de Newton Thomas Sigel – cujo ápice é o estádio de futebol “fora de lugar” – também merece destaque, bem como o senso de humor. Com gags pontuais que diluem momentaneamente a tensão, o riso é provocado por acrescentar detalhes não-humanos a fatos reais, como a bala curva que matou Kennedy e até mesmo a já famosa cena em “stop-motion” de Mercúrio.

Ao mesmo tempo, o filme conta com um elenco de peso, que sempre encontra uma brecha para explorar novas facetas de seus já tão conhecidos personagens – especialmente Hugh Jackman, que aparece mais do que familiarizado com Wolverine, mas nunca a ponto de ser monótono. Ao mesmo tempo em que contrastamos a magnitude das Sentinelas, que deixam Magneto e Xavier vulneráveis e até mesmo frágeis, encontramos esses mesmos personagens em suas versões jovens e infinitamente poderosos. Se o Xavier de McAvoy consegue encontrar e levar equilíbrio aos demais, o Magneto de Fassbender é imprevisível, explosivo e ameaçador.

O elenco coadjuvante, composto por Jennifer Lawrence como Mística e o ótimo Peter Dinklage como Trask, colaboram para trazer peso emocional e profundidade aos respectivos personagens, levando-nos a realmente acreditar que, por mais absurda que sejam as ações daquelas pessoas, há sempre uma razão ou um conflito interno que os guiam.

Assim, o longa de Singer se firma como um dos melhores filmes do gênero de todos os tempos, superando a Marvel em todos os quesitos, e até mesmo algumas produções do ano de seu lançamento. Servindo também como gatilho para o último filme da trilogia, Dias de Um Futuro Esquecido dificilmente o será, com o perdão do trocadilho.

Título Original: X-Men: Days of Future Past
Direção: Bryan Singer
Gênero: Ação, aventura, ficção-científica
Ano de Lançamento (EUA): 2014
Roteiro: Simon Kinberg
Trilha Sonora: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Tempo de Duração: 132 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), James McAvoy (Charles Xavier jovem), Michael Fassbender (Erik Lensherr/Magneto jovem), Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística), Halle Berry (Tempestade), Nicholas Hoult (Dr. Hank McCoy/Fera), Anna Paquin (Vampira), Ellen Page (Kitty Pride), Peter Dinklage (Dr. Bolivar Trask), Shawn Ashmore (Bobby/Homem de Gelo), Omar Sy (Bispo), Evan Peters (Peter/Mercúrio), Josh Helman (Major Bill Stryker), Daniel Cudmore (Colosso), Bingbing Fan (Blink), Adan Canto (Sunspot), Booboo Stewart (Warpath), Ian McKellen (Magneto velho), Patrick Stewart (Charles Xavier velho), Famke Janssen (Jean Grey), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Lucas Till (Havok), Evan Jonigkeit (Toad).