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Kubo e a Espada Mágica

novembro 13, 2016

kubo-and-the-two-strings-poster-the-garden-of-eyesNOTA: 8,5

A produtora de animações Laika, fundada em 2005, não é das mais conhecidas por aqui. Claro que, se falamos dos longas ParaNorman, Boxtrolls e Coraline, ninguém se lembra de que foi dali que saíram. Mas isso perde importância a partir do momento que diretores e roteiristas consigam contar boas histórias. E assim foi com Coraline (o único que assisti da lista), e assim é, também, com este Kubo e a Espada Mágica.

A começar, é preciso dizer que, assim como Coraline (e A Fuga das Galinhas, Wallace & Gromit, O Fantástico Sr. Raposo e A Noiva Cadáver), o filme é todo feito em stop motion, a antiga técnica de construir bonecos e fotografá-los quadro a quadro para depois juntá-los, dando a ideia de movimento. E essa técnica dá ainda mais créditos ao filme, como irei dizer mais abaixo.

A história de Kubo é situada no Japão medieval, quando o país ainda era território de imperadores e samurais e, claro, de intermináveis disputas. Assim, encontramos a mãe de Kubo em uma tempestade em alto-mar, carregando seu pequeno bebê – cujo olho esquerdo havia sido roubado – e uma guitarra mágica. Ela salva o Kubo e leva-o para viver escondido em uma caverna em um penhasco, próximo a uma aldeia.

Lá Kubo cuida dela e faz performances inacreditáveis no vilarejo munido apenas da guitarra mágica e origamis de papel. Com melodias simples, Kubo, por meio da mágica herdada de sua mãe, faz com que as dobraduras ganhem vida e “atuem” nas histórias que ele conta. Essas histórias são pedaços da vida passada de Hanzo, grande herói e pai de Kubo, que ele jamais conheceu.

A única regra para o garoto é não estar fora da caverna quando o sol se põe, pois o maligno Rei da Lua quer roubar seu olho remanescente. A história se desenrola quando Kubo é descoberto pelo Rei da Lua e suas filhas gêmeas e, com a ajuda de um Macaco e um Homem-Besouro, deve encontrar uma lendária armadura que possa derrotar a todos.

Com um enredo simples de herói-que-se-encontra (escrito por Marc Haimes e Chris Butler), Kubo e a Espada Mágica enche os olhos com a fotografia de Frank Passingham e os efeitos especiais, tornando a experiência com a guitarra mágica (e seus origamis) ainda mais interessante. Reparem, por exemplo, na cor das mãos dos personagens, especialmente o de um vendedor de peixes logo no início da projeção.

E por falar neles, à parte de Kubo, as demais pessoas no longa são bastante unidimensionais, e confesso que fiquei incomodada com o fato de que duas delas saíram de cena tão drasticamente (e ao mesmo tempo). Mesmo Kubo, apesar de estar em perigo e ter medo, nunca se mostra tão assustado ou surpreso, o que tira um pouco o brilho para nós. Também senti falta de um maior desenvolvimento dos desejos do vilão, e o porquê a obsessão com os olhos do menino, e não com sua mágica. Além disso, apesar de viver aventuras perigosas, tudo se resolve de maneira excessivamente fácil.

(Spoilers). Não me convence, por exemplo, que Kubo tenha encontrado a armadura tão facilmente, já que seu pai passou grande parte da vida buscando os fragmentos. Foi só o fato do origami tê-lo ajudado? Pois o homem-besouro e o macaco tampouco sabiam onde estavam os pedaços, e o papel deles na busca foi apenas de manter Kubo vivo. Tampouco se explica a transformação de um personagem importante no Macaco. Quero dizer: porque não escapar voando, como Kubo? Por que dar vida ao Macaco, se era o mesmo personagem? Enfim, algumas coisas ficaram no ar.

Mas Kubo tem seus méritos. Como a mágica é usada no filme me agradou muito, bem como alguns conceitos belíssimos (as lanternas que se transformam em pássaros ou o barco-folha). A trilha sonora não é digna de nota, mas já mencionei o quanto a fotografia é bonita? Por fim, assistam até o fim dos créditos, pois os realizadores tiveram a ideia de mostrar como foi a construção de um dos monstros e como ele foi manuseado/digitalizado. Muito interessante.

Ah, e apenas deixando bem claro: é uma GUITARRA, não uma espada mágica – como a tradução em português erroneamente coloca (no original, é Kubo and the Two Strings, ou seja, “as cordas mágicas”, o que faz muito mais sentido).

Título Original: Kubo and the Two Strings
Direção: Travis Knight
Gênero: Animação, aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Marc Haimes e Chris Butler
Trilha Sonora: Dario Marianelli
Fotografia: Frank Passingham
Tempo de Duração: 101 minutos
Com: Art Parkinson (Kubo), Charlize Theron (Macaco), Matthew McConaughey (Besouro), Rooney Mara (Irmãs Gêmeas) e Ralph Fiennes (Rei da Lua).

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Harry Potter e as Relíquias da Morte p. 2

julho 11, 2011

O fim de uma era

Menos cativante do que a primeira parte, o desfecho da saga de Harry Potter leva fãs às lágrimas e encerra definitivamente as aventuras do jovem bruxo

NOTA: 9

Então acabou. Dez longos anos depois, a saga cinematográfica do bruxinho finalmente teve um desfecho, desnecessário dizer, cercado por suspense e intensa exploração midiática. Os fãs de Harry Potter que aguardaram ansiosamente esta última parte de As Relíquias da Morte certamente terão motivos de sobra para chorar do começo ao fim do filme. Afinal, seguindo o ritmo da primeira parte, o roteirista Steve Kloves e o diretor David Yates transpuseram o livro de J. K. Rowling frame a frame.

Está tudo ali? Sim, absolutamente tudo. Diálogos, cenários, personagens, memórias, batalhas, vitórias e mortes, condensadas em 125 minutos de projeção. Se é suficiente? Lamento dizer, mas creio que não. Apesar de ter se saído admiravelmente bem nos dois últimos filmes da franquia (apesar do meio-fracasso de Harry Potter e a Ordem da Fênix), ambos roteirista e cineasta escorregam ao dar vida à última parte do livro em questão. São erros grotescos e reprováveis? De forma alguma. Pequenos deslizes – que nada têm a ver com a adaptação em si – mas que tiram um pouco do brilho e do fôlego que esse momento final deveria ter.

Encontramos Harry, Hermione e Rony exatamente no mesmo ponto em que os deixamos ano passado: na casa de Gui e Fleur, após terem escapado da mansão dos Malfoy e das garras de Belatriz Lestrange. Convencido de que uma das horcruxes está no cofre de Belatriz em Gringotes, o jovem bruxo pede a ajuda de Grampo, duende que ele ajudou a salvar das mãos de Lorde Voldemort. Com um plano mirabolante de transformar Hermione em Belatriz por meio da poção polissuco (em um momento divertido e bastante inspirado da maravilhosa Helena Bonham Carter), os quatro se arriscam para encontrar a taça que pertencera a Helga Hufflepuff. Nem tudo sai como o planejado, e eles acabam encurralados. Para fugir, uma única opção: o dragão que guardava o cofre. Um dragão extremamente convincente, diga-se, de aspecto doentio, mais lembrando uma lagarta cega do que um animal realmente perigoso (o que só aumenta o terror de seu rastro).

Do lombo do animal os garotos se dirigem a Hogwarts, onde certamente poderiam encontrar a Horcrux relacionada à Ravena Ravenclaw. Rapidamente (e no sentido mais literal possível) os três garotos aparatam em Hogsmeade, a vila bruxa, e acionam o alarme que avisaria caso Potter aparecesse por lá. Ajudados por Aberforth Dumbledore, irmão do ex-diretor da escola, eles entram em Hogwarts para encontrar Neville, Luna, Gina e todos os outros membros da AD escondidos e sob a forte pressão do novo diretor, que é ninguém menos do que Severo Snape. A partir do momento em que Harry pisa na escola, é imediatamente avisado que os Comensais da Morte sabem de sua presença e inicia-se, sem mais delongas, a batalha final.

Desde a chegada dos amigos à destruição da taça por Rony e Hermione (e seu tão aguardado primeiro beijo em frente às câmeras); a conversa com o fantasma da Corvinal; a confusão dentro da Sala Precisa e a destruição do diadema-Horcrux até o início do ataque do exército de Voldemort, tudo parece passar como um borrão. A rapidez com que os fatos são contados dá breves tréguas, e a primeira delas é na morte de Snape – certamente uma das cenas mais chocantes desse longa, não só pela morte do personagem em si, mas pela brutalidade com a qual acontece. Não vemos Snape ser atacado diretamente mas, pior do que isso, ouvimos as mordidas da cobra, os gemidos de dor, o corpo batendo contra a parede…

O clímax do personagem, quando Harry vê os segredos tão bem guardados do professor de Poções que ele acreditava odiá-lo, é o momento que levará os fãs às lágrimas compulsivas. Comprovando que Alan Rickman é o homem perfeito para viver o professor de Poções, a atuação do veterano é tocante. Mesmo quando sibila as palavras devagar, como se as mastigasse antes de cuspir, o ator demonstra o olhar digno de compaixão. É uma pena notar que outros atores tão bem qualificados quanto Rickman apareçam menos – caso de Jason Isaacs, Maggie Smith, Mark Williams, David Thewlis e a própria Bonham Carter.

O roteiro retoma o ritmo alucinado quando Harry decide ir à Floresta Proibida enfrentar Voldemort de uma vez por todas – e faz nova pausa para a conversa entre o garoto e Alvo Dumbledore dentro de sua imaginação, quando estava no limiar entre a vida e a morte. Tudo torna a acontecer em um novo piscar de olhos: a morte de Belatriz pelas mãos da Sra. Weasley (uma cena que não levou mais de 2 minutos); a morte de Nagini pelas mãos de Neville e a morte de metade dos personagens (não precisamos de tanto spoiler assim, certo?) até a cena em que Harry finalmente derrota Voldemort e volta para a escola triunfante, entre seus amigos mortos e feridos.

São momentos memoráveis? Sem dúvida. E emocionantes também. Até os mínimos detalhes foram lembrados. É importante frisar, portanto, que Harry Potter e as Relíquias da Morte p. 2 será um prato cheio para quem esperou tanto tempo pelo fim. A batalha é tensa, nos deixa pregados na cadeira, as mortes são dolorosas e apresentadas de maneira bonita. A parte técnica é um dos grandes méritos deste longa (ainda mais quando visto em Imax, o que recomendo fortemente). O design de produção é impecável – a Sala Precisa e seus entulhos é um dos cenários mais fascinantes de toda a saga –, a trilha sonora é grandiosa, mas sabe os momentos certos de silêncio, os CGIs são convincentes e bem feitos e o roteiro consegue espaço para inserir algumas linhas de humor. Além, é claro, de sermos agraciados com um Voldemort mais cruel e irascível do que nunca, cujo sorriso sedento é um indício de medo – méritos absolutos do magnífico Ralph Fiennes, que coroa a personalidade do vilão de maneira primorosa.

O que aconteceu, então? Bem, em primeiro lugar, acredito que o defeito não esteja no filme, mas no livro. Sim, pois como disse nos parágrafos acima, a produção não esqueceu nada, os diálogos foram praticamente transpostos para as telas. O defeito do fim da história é o fim da história em si: ainda que tenham conseguido mostrar a morte do vilão de maneira um pouco menos estúpida, tudo acaba bem demais, rápido demais. Não há uma comemoração grandiosa como a batalha que a precede prometia. Não há a promessa de elevar Harry ao degrau mais alto de admiração. Ele é um herói, mas não parece (é nessas horas que me lembro: isso não é Tolkien e nem O Senhor dos Anéis).

O epílogo do livro é vergonhoso e anti-climático. Por sorte, o filme conseguiu fazer a sequência um pouco menos dolorosa – o que não quer dizer que não tenha sido de qualquer jeito. A maquiagem que envelheceu os atores não foi suficiente para esconder os traços de garotos que todos conservaram e funciona somente sob um determinado ângulo (muito de perto, quando era possível ver algumas rugas de expressão). Para piorar, ficou evidente que os atores mirins, interpretando os filhos dos casais, não tinham a menor intimidade com os protagonistas.

Claro que Daniel Radcliffe – o único jovem ator que pareceu melhor do que nunca ao transpor as angústias e dores de Harry – Emma Watson e Rupert Grint (menos inspirados do que na primeira parte) dão uma força aos pequenos, tornando tudo um pouco menos constrangedor. Não pretendo tirar o entusiasmo dos fãs ardorosos, mas esse epílogo é, para mim, um dos piores desfechos de histórias dos últimos tempos.

De todo modo, boa ou ruim, a saga acabou. Confesso que me emocionei com algumas cenas e fiquei com vontade de assistir outra vez logo depois que saí do cinema. A história de Harry Potter acompanhou a minha geração e ver isso tudo terminar é, de certa forma, ver um fim para as aventuras do bruxinho e para as nossas fantasias. É como se a maioridade nos atingisse como um golpe de machado. E não nos resta nada a não ser seguir adiante.

Titulo Original: Harry Potter and the Deatlhy Hallows p. 2
Direção: David Yates
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Steve Kloves
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Fotografia: Eduardo Serra
Tempo de Duração: 125 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), Tom Felton (Draco Malfoy), Bonnie Wright (Gina Weasley), Evanna Lynch (Luna Lovegood), Helena Bonham Carter (Belatriz Lestrange), Robbie Coltrane (Rúbeo Hagrid), Bonnie Wright (Gina Wesley), Warwick Davis (Grampo/Filius Flitwick), Ciarán Hinds (Aberforth Dumbledore), Maggie Smith (Minerva McGonagall), Ralph Fiennes (Lord Voldemort), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Domhnall Gleeson (Bill Weasley), George Harris (Kingsley Schacklebolt), John Hurt (Olivaras), Jason Isaacs (Lúcio Malfoy), David Legeno (Fenrir Greyback), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Helen McCrory (Narcisa Malfoy), Peter Mullan (Yaxley), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Clémence Poésy (Fleur Delacour), Alan Rickman (Severo Snape), Timothy Spall (Pedro Pettigrew), Natalia Tena (Ninfadora Tonks), David Thewlis (Remo Lupin), Julie Walters (Molly Weasley), Mark Williams (Arthur Weasley), Jamie Campbell Bower (Gellert Grindelwald), Gary Oldman (Sirius Black), Emma Thompson (Sibila Trelawney), Jim Broadbent (Horácio Slughorn), Kelly Macdonald (Dama Cinzenta), David Bradley (Argo Filch), Miriam Margolyes (Pomona Sprout), Geraldine Somerville (Lilian Potter), Adrian Rawlins (Tiago Potter), Devon Murray (Simas Finnigan), Jessie Cave (Lilá Brown), Luke Newberry (Teddy Lupin), Josh Herdman (Gregory Goyle), Afshan Azad (Padma Patil), Chris Rankin (Percy Weasley), Alfie Enoch (Dino Thomas), Benedict Clarke (Severo Snape – jovem), Shefali Chowdhury (Parvati Patil), Scarlett Byrne (Pansy Parkinson), Will Dunn (Tiago Sirius Potter).

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Harry Potter e as Relíquias da Morte p. 1

novembro 22, 2010

O começo do fim

Primeira parte do sétimo filme do bruxinho já arrecadou US$ 300 milhões nos Estados Unidos e presenteia os fãs com riqueza de detalhes

NOTA: 10

Assistir a Harry Potter e as Relíquias da Morte p. 1 na estreia logo após ter terminado (mesmo) de ler o livro em questão talvez tenha sido uma das coisas mais acertadas que já fiz. Para um fã dos filmes do bruxinho, as duas últimas partes da saga são realmente um marco do cinema e também de muitas vidas que praticamente cresceram junto com Harry. Aos não familiarizados com a história de J. K. Rowling talvez tenha ficado impossível acompanhar Harry, Rony e Hermione em busca das Horcruxes – objetos que contém os pedaços da alma de Lord Voldemort.

Apesar de já ter anunciado seu objetivo no sexto filme, o roteirista Steve Kloves fez uma adaptação ambiciosa do último livro da série. Lord Voldemort está mais forte do que nunca, e agora que Harry fez 17 anos a proteção de sua mãe perdeu a validade ele se encontra na estranha posição de fugitivo – de Voldemort e do Ministério da Magia, tomado pelo bruxo das trevas e seus Comensais da Morte. Mais do que sombrio, diria que Harry Potter 7.1 é um filme tenso e triste. Os atores quase nunca sorriem e suas fugas quase-mal-sucedidas causam nervosismo.

Mas é também um filme que trata do encontro à vida adulta. As cenas nas quais eles se despedem do conforto da vida que levavam enquanto estudavam em Hogwarts são belas e carregadas de melancolia. Ver as cenas de Hermione apagando a memória dos pais enquanto seu rosto some das fotografias, e de Harry olhando para o minúsculo armário no qual dormiu por onze anos são tocantes. O que realmente parece surpreender (apesar de não ser nenhuma novidade) é o elenco que dele faz parte.

E, pela primeira vez em todos estes anos, o mérito é todo do jovem elenco, principalmente de Rupert Grint e Emma Watson, que encenam Rony e Hermione com muita segurança e carga dramática. Muitas das cenas mais emocionantes, inclusive, são protagonizadas por eles. A cena em que Rony vai embora do acampamento é forte e Grint parece ter encontrado o ponto exato para tornar a cena comovente. Em outra cena, agoniante como a passagem no livro –  a tortura de Hermione pelas mãos de Belatriz Lestrange -, Watson faz um trabalho memorável rivalizando de igual para igual com a veterana Helena Bonham Carter.

A maioria dos outros personagens têm aparições tão curtas que reforçam a ideia do elenco de suporte do filme tão grandioso que só tem a acrescentar. Assim, Ralph Fiennes, Jason Isaacs, Bill Nighy, Jonh Hurt e Rhys Ifans que têm papeis relativamente maiores, dão o já costumeiro brilho aos personagens que interpretam tão bem. Andy Linden como o bicheiro Mundungo Fletcher se saiu muito bem e até mesmo os atores que fizeram Harry, Ron e Hermione no Ministério da Magia imitaram com fidelidade as atuações dos três jovens atores.

Os artefatos mostrados neste filme também são interessantes de observar: a mágica bolsinha de contas de Hermione, e até mesmo Monstro e Dobby aparecem mais bem feitos do que nos filmes anteriores. Por isso, a cena protagonizada pelo elfo é certamente a mais comovente. Algumas cenas são marcantes, como o divertido momento em que Radcliffe interpreta diferentes versões de si mesmo através da poção polissuco, a perseguição no Ministério e estrunchamento de Rony, tudo tratado com muita naturalidade, o que confere ainda mais verossimilhança e realismo ao mundo descrito.

O roteiro de Kloves é fiel ao extremo, quase transcrevendo diálogos e transpondo para a tela detalhes que só mesmo os fãs dos livros notarão. Algumas pequenas passagens me impressionaram mais, e tornaram o longa muito mais belo aos meus olhos. David Yates e Kloves poderiam ter colocado mensagens subliminares em alguns destes momentos com os dizeres “aos fãs, com carinho”: quando Remo e Tonks quase anunciam a gravidez; Ron e Hermione dormindo de mãos quase dadas, como se tivessem se soltado durante a noite; a menina fazendo carinho no cabelo de Harry depois que eles decidiram ir a Godric’s Hollow; ou, o mais impressionante de tudo, o fato de os Comensais aparecerem instantaneamente quando Xenofílio Lovegood fala o nome de Você-Sabe-Quem. Tudo isso tirado do livro, sem mais nem menos.

Um dos momentos mais belos, talvez, seja a cena em que Harry e Hermione dançam juntos ternamente como dois irmãos, mostrando a doçura do relacionamento que desenvolveram apesar de suas frustradas tentativas; adolescentes perdidos no ermo em uma missão desesperada. A poética fábula animada dos três irmãos e as relíquias da morte é, além de lúdica e necessária para justificar o título do livro/filme, de um bom gosto imenso, comprovando o acerto de Stuart Craig em toda a produção visual do filme.

A decisão de dividir o livro em duas partes, ao contrário do que a maioria dos críticos têm dito, foi  (ao meu ver) concebida como uma homenagem aos fãs que acompanharam Harry durante dez longos anos. Kloves fez questão de inserir na narrativa os fatos principais de cada capítulo, fazendo uma ou outra mudança necessária – a perspectiva de outros personagens além da de Harry, por exemplo, são extremamente necessárias para o filme funcionar como um todo, além de algumas explicações não tão necessárias, mas bem pontuadas.

Talvez Yates não tenha introduzido nenhuma marca sua. Talvez isso seja ruim para o cinema, mas certamente era o desfecho que os fãs mereciam e esperavam. Ver o capítulo final tomando forma é triste e não havia melhor maneira de presentear o público do que com essa imensa riqueza de detalhes.

Titulo Original: Harry Potter and the Deathly Hallows part one
Direção: David Yates
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (Reino Unido/Estados Unidos): 2010
Roteiro: Steve Kloves, baseado no livro de J. K. Rowling
Trilha sonora: Alexander Desplat
Fotografia: Eduardo Serra
Tempo de Duração: 146 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), Tom Felton (Draco Malfoy), Bonnie Wright (Gina Weasley), Evanna Lynch (Luna Lovegood), Helena Bonham Carter (Belatriz Lestrange), James Campbell Bower (Gellert Grindelwald), Robbie Coltrane (Rúbeo Hagrid), Warwick Davis (Grampo), Hazel Douglas (Batilda Bagshot), Ralph Fiennes (Lord Voldemort), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Brendan Gleeson (Alastor Olho-Tonto Moody), Domhnall Gleeson (Bill Weasley), Richard Griffiths (Válter Dursley), George Harris (Kingsley Schacklebolt), Guy Henry (Pio Thicknesse), Frances de la Tour (Madame Maxime), John Hurt (Olivaras), Rhys Ifans (Xenofílio Lovegood), Jason Isaacs (Lúcio Malfoy), Andy Linden (Mundungo Fletcher), David Legeno (Fenrir Greyback), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Toby Jones (voz de Dobby), Simon McBurney (voz de Monstro), Helen McCrory (Narcisa Malfoy), Nick Moran (sequestrador), Peter Mullan (Yaxley), Bill Nighy (Rufo Scrimgeour), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Clémence Poésy (Fleur Delacour), Alan Rickman (Severo Snape), Fiona Shaw (Petúnia Dursley), Timothy Spall (Pedro Pettigrew), Imelda Staunton (Dolores Umbridge), Natalia Tena (Ninfadora Tonks), David Thewlis (Remo Lupin), Julie Walters (Molly Weasley), Mark Williams (Arthur Weasley).

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Fúria de Titãs

julho 21, 2010
A fúria de um homem 

Com sérias falhas no roteiro, o aguardado filme sobre Perseu deixa a desejar no quesito história, mas agrada pelas cenas de ação e paisagens fantásticas

NOTA: 7

Falar de um remake como Fúria de Titãs é complicado. Sou amante e estudiosa voraz de história e mitologia (especialmente a grega). Aceitar produções com estes temas é raro, porque sempre – e eu digo sempre! – haverá falhas históricas. E é claro que o novo filme de Louis Leterrier não é diferente. A nova versão é uma homenagem ao clássico de 1981 com Laurence Olivier (reparem na coruja prateada que Sam Worthinton ergue em determinado momento), mas com efeitos especiais que representam fielmente o mundo fantástico da Grécia dos séculos VIII a V – em um clima que me lembra muito o do jogo God of War com menos sangue.

Considerando a carreira do diretor, realmente não é de se espantar que Fúria de Titãs pareça uma mistura “frankestein” de Carga Explosiva (2002) com pitadas de erros grotescos como os cometidos em O Incrível Hulk (2008). Assim como em todas as produções anteriores das quais participou, Leterrier preza pelas grandes sequências de ação e pelo visual embasbacante, sem se preocupar tanto com a história. Bem, neste caso, este foi seu maior erro (achar que o espectador não se incomodaria ou pior, não perceberia).

Não que o filme seja ruim. Não. É até bem divertido! Mas existe um compromisso do diretor e de toda a equipe em ser o mais fiel possível aos estudos e análises já feitos, particularmente quando se fala de uma história tão específica da mitologia grega. Afinal, o público se deleita quando uma produção consegue transportar as imaginações e fantasias para a tela. Em Fúria de Titãs as falhas no roteiro e na cronologia histórica pululam durante toda a projeção.

Para a grande maioria, os errinhos do roteiro feito a três mãos por Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi passarão batidos – para mim, causaram estranheza em vários momentos, quando franzia a sobrancelha e pensava “isso não é bem assim”. De qualquer maneira, não vou entrar no mérito de comparar cada frame com a mitologia, porque isso simplesmente não teria fim.

A belíssima introdução do universo culmina quando o narrador (Homero?) introduz a guerra de Zeus contra os titãs (Titanomaquia), na qual os ciclopes forjam armas (raio, capacete que torna invisível e o tridente) para ajudar os deuses. Com a vitória olímpica, os Titãs são encerrados no Tártaro junto com Cronos e instaura-se a Era de Ouro, da supremacia de Zeus sobre todos os outros seres. Zeus, Hades e Poseidon dividem a terra entre si: o primeiro, com os raios, toma posse dos céus; o segundo, com o capacete, é o rei do submundo e o terceiro, igual em poderes que os irmãos, torna-se o rei dos mares e oceanos.

Na época de Perseu a guerra havia mudado dos céus para a terra, quando os homens declaram guerra ao Olimpo por duvidar dos poderes dos deuses. Para acabar com a rebelião, Hades propõe uma aliança a Zeus, na qual ele amedrontará os homens de tal maneira que eles voltem a rezar e a acreditar. Zeus, tolinho, aceita.

Filho da mortal Dânae e de Zeus – que se transforma no marido para possuí-la (na lenda ele se metamorfoseia em chuva de ouro, mas ok) -, Perseu é atirado ao mar dentro de um caixão junto com a mãe. No filme: pelo pai, enfurecido com a traição. Na lenda: pelo avô Acrísio, que temia a profecia de que seria morto pelo neto. De qualquer maneira ele é resgatado por Díctis, um pescador da ilha de Serifo, próxima a Argos. Criado por Díctis e sua mulher, Perseu encontra amor, mesmo sabendo ser adotado. Quando os homens destroem uma imensa estátua em homenagem a Zeus, Perseu vê toda sua família morrer naufragada pelas mãos de Hades.

Enfurecido e impotente, Perseu é levado pela esquadra dos argonautas até a cidade, onde ele deveria ser incluído entre os escravos. A família real de Argos, porém, desafiando a superioridade dos deuses, ousa dizer que a princesa Andrômeda é mais bela do que Afrodite. Com incríveis efeitos especiais, o poderoso Hades aparece e amaldiçoa tanto a rainha que proferiu a blasfêmia – e vejam como é curioso o imediatismo com o qual ela foi punida – quanto os cidadãos de toda Grécia. Ele soltaria o Kraken, terrível monstro marinho, para destruir a cidade caso Andrômeda não fosse sacrificada. As intenções do rei do submundo ficam bem claras: destruir tanto o reino dos homens quanto dos deuses e clamar para si a supremacia da Terra.

É nesta hora que Hades revela a semi-divindade de Perseu – para a incredulidade do próprio, que tem raiva dos deuses e prefere ser tratado como homem. Perseu entra no exército de Argos em uma missão para impedir Hades de dominar o mundo. Eles não sabem exatamente como, mas partem em uma caçada quase impossível para impedir o Kraken. Bem, para quem conhece minimamente a mitologia sabe que grande parte disso é pura pataquada. Hades nunca tentou dominar o mundo (ele não é um vilão!), os homens nunca desafiaram os deuses desta maneira e Perseu nunca negou sua divindade. Mas até aí, tudo bem que haja uma ou outra adaptação para tornar o filme mais comercial. Por incrível que pareça, as lacunas mitológicas – ainda que haja muitas – não são o que fazem de Fúria de Titãs um filme mediano.

É a maneira como é contado. O roteiro até é bem entrelaçado mas, como eu mencionei antes, Leterrier tem a característica de não se importar com a história (vide a atrocidade que ele cometeu no Hulk de Edward Norton). Portanto, as cenas de ação são muito mais substanciais do que todo o resto. Claro, não há como ignorar a belíssima direção de arte de Patricio M. Farrell e James Foster – que incutem grande força em momentos como todas as aparições de Hades, no Pégaso negro, nas três bruxas do destino, na ágil Medusa e no próprio Kraken, que de tão colossal é quase impossível mensurar seu tamanho.

Alguns erros grotescos, contudo, tiram toda a seriedade do filme. Logo nas cenas iniciais, vemos o caixão no qual Perseu é atirado com sua mãe ao mar. Sua mãe, de cabelos pretos. Quando há um flashback na história para contar como ela engravidou de Zeus, qual não é a surpresa quando vemos a rainha loira?! Sim, eles esqueceram de usar a mesma pessoa para interpretar…a mesma personagem. É uma fatalidade e, ainda assim, não me impressiona quando eu lembro quem é o diretor. Ah, sim. Quase me esqueci. Durante todo o filme não há aparição de um titã sequer. Deuses, monstros, homens, bestas, seres mitológicos, sim, aos montes. Titã mesmo, nenhumzinho.

O longa ganha força graças às atuações de Sam Worthintong e do sempre magnânimo Ralph Fiennes, que dão profundidade e emoção a Perseu e Hades. Para contrabalancear o que há de bom, há personagens absolutamente descartáveis para a história, para a lenda, para a vida do herói e para todo o resto: a ninfa Io (é um mistério para mim porque ela acompanha Perseu até determinado momento, depois é “tirada” da história para retornar em um final piegas) e o feiticeiro do deserto (que nem sequer tem um nome, tão bizarra e artificial é sua participação).

Para encerrar a análise, durante vários momentos no filme senti que nem precisava ver o final para saber que Perseu se renderia à sua parte divina e voltaria às graças de Zeus – que ele não casaria com Andrômeda, isso sim foi novidade. Afinal, eles são os ascendentes de metade dos heróis gregos (entre eles Hércules). Sim, fiquei impressionada com as locações (o Estige, por exemplo, é muito bem feito), mas infelizmente o conjunto da obra deixou muito a desejar. Worthington pouco pode fazer com um Perseu tacanho e limitado intelectualmente. Uma pena. Essa lenda é daquelas que poderia render o melhor filme de todos os tempos.

Tìtulo Original: Clash of the Titans
Direção: Louis Leterrier
Gênero: Épico
Ano de Lançamento (EUA/Reino Unido): 2010
Roteiro: Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi, baseado em roteiro de Beverley Cross
Trilha Sonora: Stephen Coleman
Fotografia: Peter Menzies Jr.
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Sam Worthington (Perseu), Ralph Fiennes (Hades), Liam Neeson (Zeus), Danny Huston (Poseidon), Izabella Miko (Atena), Tamer Hassan (Ares), Nathalie Cox (Ártemis), Luke Evans (Apolo), Nina Young (Hera), Mads Mikkelsen (Draco), Gemma Arterton (Io)Polly Walker (Cassiopéia) e Jason Flemyng (Acrísio)

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Harry Potter e o Enigma do Príncipe

outubro 13, 2009

Sombrio e maduro

Nova franquia do bruxinho surpreende os não-leitores com filmagem sombria e atuação madura dos protagonistas

NOTA: 8

Para quem gosta da série dos livros de J. K. Rowling, esta talvez não seja a coluna ideal para se ler. Afinal, além de não ser leitora do fenômeno Harry Potter, considero a própria história do bruxinho mero compêndio de fantasias maiores e mais bem elaboradas – mas isso não vem ao caso.

O que importa, de fato, é que a série de filmes sobre Harry e seus amigos vem ganhando mais notoriedade até mesmo entre o público mais velho, à medida que o tom da narrativa se torna mais denso e sombrio.

Encontramos Harry no sexto ano do colégio Hogwarts de magia, alguns meses após ter perdido a única família que tinha, seu padrinho Sirius Black – como bem se sabe, assassinado por Bellatrix Lestrange no final do longa anterior.

Mas o início deste filme, diferentemente dos outros, assusta até quem já conhece a história. Vemos os Comensais da Morte sobrevoando uma Londres nublada – que, vá lá, não é novidade, mas colabora para a atmosfera ameaçadora. Os cruéis servos de Voldemort passam a atacar os “trouxas”, pessoas comuns, causando furor entre toda a população.

E assim reencontramos Daniel Radcliffe, crescido e com cara de menino-homem, às voltas com as lições de Dumbledore para combater Voldemort, as aulas de magia de Snape e do novo professor, Horácio Slughorn e, inesperadamente, às voltas como novas paixões. Porque, paralelo à história do menino bruxo que luta contra o Lorde das Trevas, está o adolescente que cresceu em busca de novas experiências.

Todo o filme, aliás, é uma forte evidência de que os hormônios estão à flor da pele tanto para Harry quanto para todos os seus colegas. Ron, Hermione e até a já mocinha Gina Weasly exasperam a juventude da idade. O tom, contudo, não está para brincadeiras.

Muito mais sombrio, com tons de cinza e sem muita vivacidade, o mundo da magia está abalado com a revelação de que Você-Sabe-Quem está realmente de volta. E cabe a Harry, ao lado de Dumbledore, tentar descobrir peças importantes na vida de Voldemort enquanto ele ainda era apenas o estudante Tom Riddle. É possível ver o mal em ação, recrutando novos servos, como Draco Malfoy – que, se ainda não havia se revelado como um possível servidor de Voldemort, aqui é preparado para uma missão especial e surpreendente.

O diretor David Yates e o roteirista Steven Kloves acertaram por um lado, mas deixaram uma ponta solta: para aqueles que não leram o livro, a informação sobre o “enigma do príncipe” fique solta no ar. Quem, afinal, é o príncipe mestiço? Qual é este tal enigma tão crucial que precisa ser desvendado?

A resposta vem de maneira bruta e súbita, sem muitas explicações, em um momento de tensão que não permitia interrupções na história dessa maneira. Mas, ainda assim, mesmo confuso para os não-familiarizados com a trama, é latente o medo que envolve o mundo da magia.

Talvez o longa tenha sido salvo, mais uma vez, pelas excelentes atuações de nomes de peso – como Helena Bonham Carter, o maravilhoso Ralph Fiennes, Alan Rickman, Jim Broadbent e o hipponga Michael Gambon. Também é interessante reencontrar alguns itens fantásticos (literalmente) utilizados nos outros filmes, como a capa que deixa invisível e o Mapa do Maroto (o mapa de Hogwarts, que segue os passos de quem se quer observar.

Assim, neste clima de temores e cheio de expectativas negativas, Yates e Kloves preparam os próximos longas que encerram a saga – o último livro, Harry Potter e as Relíquias da Morte, será dividido em duas partes e lançado em 2010 e 2011. Nada mais a fazer, só nos resta esperar o fim dos tempos e a batalha épica do bem contra o mal.

Título Original: Harry Potter and the Half-Blood Prince
Direção: David Yates
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Roteiro: Steve Kloves, baseado em livro de J. K. Rowling
Trilha Sonora: Nicholas Hooper
Fotografia: Bruno Delbonnel
Tempo de Duração: 133 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Ron Weasley), Ralph Fiennes (Lord Voldemort), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Bonnie Wright (Gina Weasley), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Alan Rickman (Severo Snape), Helena Bonham Carter (Bellatrix Lestrange), Jim Broadbent (Horácio Slughorn), Timothy Spall (Pedro Pettigrew), David Thewlis (Remo Lupin), Maggie Smith (Minerva McGonagall), Tom Felton (Draco Malfoy), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Katie Leung (Cho Chang), Evanna Lynch (Luna Lovegood), Mark Williams (Arthur Weasley) e Julie Walters (Molly Weasley).

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A Duquesa

junho 29, 2009

Poderosa duquesa

Com delicadeza, Keira Knightley retrata uma das mulheres mais poderosas e influentes da burguesia inglesa do século XIX

NOTA: 8,5

Keira Knightley me impressiona a cada filme que faz. O primeiro Piratas do Caribe, ainda que bobo e irrelevante (apesar de ser ótimo divertimento) revelou uma mocinha com cara de princesa que se transforma em uma verdadeira rebelde em busca do amor, ainda que por meios “ilegais”, digamos (para quem não lembra, ela apóia pirataria do queridinho William Turner e do amado Jack Sparrow). Seu rosto ficou impresso na guerreira Guinevere de Rei Arthur, na também rebelde campesina de Orgulho e Preconceito, na sedutora mulher de Desejo e Reparação, na concubina igualmente sedutora de Paixão Proibida e, agora, para celebrar uma carreira fértil, ela presenteia o público como a duquesa de Devonshire. Seu problema pode estar justamente no fato de se tornar um rosto de época, velho. Acredito que se ela fizesse alguns papéis atuais, logo perderia esse estigma.

Mas a beleza e o talento dessa menina de vinte e poucos anos são incontestáveis. Com a mesma suavidade e graça com que interpretou Elizabeth Bennet em Orgulho…, Knightley demonstra a riqueza, o poder, a influência e a sedução desta que foi uma das mulheres mais importantes da corte inglesa à época do Rei Henrique II.

Baseado na vida de Georgiana Cavendish, Keira interpreta uma moça de família nobre (filha do 1º Conde Spencer), em busca de um bom marido. Ela se casa com o Duque de Devonshire e, acreditando estar no caminho certo para um casamento fértil e saudável, acaba descobrindo em William um homem frio e inexpressivo. Um covarde, muito bem interpretado (como sempre, diga-se de passagem) por Ralph Fiennes. Frustrada, a duquesa enriquece por trás da solidão do marido, e se torna símbolo da moda da Inglaterra no século XVIII.

Georgiana conhece uma mulher na corte, Lady Elizabeth, e acaba se tornando sua amiga, um pouco por falta da companhia feminina, e muito pela ausência do marido. Incapaz de conceber um filho homem, a duquesa, em sua benevolência, aceita Bess – que já possuía três meninos do casamento com outro homem – em sua casa como convidada permanente; mas se arrepende ao descobrir que ela e o duque William haviam se apaixonado.

Georgiana aprofunda sua participação política e social e se torna uma importante socialite, sempre presente em peças teatrais de renome, sendo um exemplo da moda a ser seguido. Ela era a mulher por trás do fantasma que era o Duque de Devonshire. Sua presença era o suficiente para que alguns eventos pudessem ser realizados, e ela foi muito amada pelo povo britânico.

Sem escapatória, Georgiana tenta de todas as maneiras proibir ou impedir que Lady Bess lhe tome o marido, e acaba encontrando o amor no jovem Charles Grey. O duque, entretanto, não aceita o fato de Georgiana ter um amante, e ameaça cortar a relação da duquesa com as filhas. Desesperada, ela cede à exigência de fidelidade do marido e abandona a possível felicidade amorosa que teria com Grey.

Ela retorna às filhas e, vencida, dá a benção a Bess e William para que fossem felizes juntos e, ainda assim, vivessem os três sob o mesmo teto. É inacreditável a força com que Keira interpreta esta grande mulher, impondo toda a bondade inata e a devoção à família que Georgiana teve até o fim de seus dias.

A história de uma mulher infeliz, ainda que tão importante, somente mostra que o poder e a riqueza não são nada para uma mulher se ela não tem a quem amar. A Duquesa é um filme bonito, mas não alegre, que nos faz relembrar como a sociedade era triste, rígida, hierarquicamente estúpida, conservadora e machista. Georgiana foi uma mulher que, acima de tudo, fracassou como esposa e como amante. Ela não pode dar ao duque um filho homem, e isso aniquilou sua vida – mas jamais sua reputação! Ela era corajosa, forte como poucas, capaz de suportar um ménage à trois sem o seu consentimento durante anos.

Mesmo sem despertar grandes sentimentos catárticos, é uma comoção observar como os tempos eram diferentes, e que as mulheres não tinham direito a nada, nem mesmo a serem felizes. Não querendo louvar os tempos de hoje, longe de mim. Não sou feminista a esse ponto. Acho que cada época convive com os problemas que lhe cabe.

A Duquesa, em resumo, é um filme bonito, triste e interessante. A fotografia é excelente,o figurino é deslumbrante (realmente digno de Oscar) e muito bem dirigido. Um belo roteiro, interpretado por bons atores. Se não é uma obra-prima na enorme lista dos melhores filmes de época, fica logo abaixo dos maiores, exatamente por tratar da simplicidade da vida cotidiana, de como as coisas realmente funcionavam, longe da ostentação e da putaria – ou, neste caso, bem perto dela.

Titulo Original: The Duchess
Direção: Saul Dibb
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália/França/Inglaterra): 2008
Roteiro: Jeffrey Hatcher, Anders Thomas Jensen e Saul Dibb, baseado em livro de Amanda Foreman
Trilha Sonora: Rachel Portman
Fotografia: Gyula Pados
Tempo de Duração: 110 minutos
Com: Keira Knightley (duquesa Goergiana Cavendish), Ralph Fiennes (duque William Cavendish), Charlotte Rampling (Lady Spencer), Dominic Cooper (Charles Grey) e Hayley Atwell (Elizabeth “Bess” Foster).