Posts Tagged ‘robert duvall’

h1

A Estrada

janeiro 4, 2017

the_road_movie_poster_by_karezoidNOTA: 3,5

Se tem uma coisa que não suporto em qualquer filme é a imbecilização de personagens. Crianças muito pequenas que se comportam como adultos – e trazem questões completamente fora de contexto para a trama, como no terrível A Culpa é do Fidel –, crianças maiores (de 8-10 anos) que são retratadas como incapazes, e até mesmo de adultos capazes que são infantilizados e reduzidos a um espectro deprimente (como no chatinho Minhas Tardes com Margueritte).

O caso de A Estrada é o segundo. Mas já chego lá. O filme se passa em um mundo pós-apocalíptico, retratado basicamente em tons de cinza (em contraste óbvio com o passado feliz e de cores quentes), completamente devastado, sem árvores ou animais. Os únicos que restam são grupos de homens que tentam sobreviver e outros grupos de homens que sobrevivem à custa destes, perseguindo-os e devorando-os. Então temos o Homem que, tendo perdido tudo, tenta proteger o Menino dos horrores desse cenário.

Retratado como uma espécie de road movie – já que os personagens estão sempre se movendo, buscando o litoral –, A Estrada nos mostra toda a sujeira, tristeza, fome e sede que esse tipo de mundo pode trazer. A eterna busca por comida, a eterna fuga de pessoas que podem fazê-los algum mal. Bem, para quem assiste a qualquer série sobre zumbis, esses temas são já batidos. The Walking Dead faz um trabalho fenomenal em retratar a crueza desse universo, no qual o principal problema são sempre os homens (vivos).

Apesar de apresentar o que seria um pai tentar proteger seu filho pequeno de maneira tão selvagem, o filme falha de maneira estrepitosa ao colocar um menino que é claramente mais velho do que o roteiro precisava que ele fosse. Portanto, vemos o Pai (por sinal, um excelente Viggo Mortensen, como de costume) arrastando, jogando e literalmente carregando o moleque por praticamente toda a projeção.

Este, por sua vez, nascido depois da catástrofe – e, pensamos, muito mais capaz de se adaptar ao mundo novo do que seu velho pai –, é posto como um menino frágil, tão frágil que não é capaz de salvar a própria vida quando se vê em perigo. Tão frágil que não consegue aceitar que as atitudes violentas que o Pai tem são unicamente porque ele os está protegendo, evitando que sejam mortos, comidos, queimados, enfim. Tão frágil que é capaz de se iludir com a “boa natureza humana”, quando tudo que jamais conheceu foi o horror e a carnificina.

Em certo momento, o menino implora para que o pai, atingido por uma flecha, não mate o atirador. Completamente inverossímil quando se trata das relações em um mundo pós-apocalíptico, A Estrada é decepcionante. Colocando o garoto numa posição de vulnerabilidade forçada, parece que a única intenção da projeção é arrancar lágrimas com a inocência infantil do menino. Que, nota-se, não é um garotinho de cinco anos, mas um menino de dez, que deveria ser capaz de segurar uma arma quando seu Pai, o único protetor que ele tem, assim pede.

Inverossímil até mesmo ao retratar as crianças – e nesse ponto estou totalmente de acordo com o filósofo Thomas Hobbes –, o filme de John Hillcoat falha em entender que elas são as primeiras a pegar as regras do jogo e a atuar de acordo com ele (e quem assistiu ao episódio do esconderijo das mulheres nesta temporada de The Walking Dead, se lembrará da menininha impiedosa que quase comete um assassinato injusto, simplesmente porque aquele era o costume da tribo). Claro, existe uma inocência infantil que sempre estará lá, não importa quão terrível seja o presente. Mas limitar a capacidade do menino de reagir, como se ele tivesse qualquer problema que não a idade, é um absurdo.

Como se isso não fosse suficiente, o filme também coloca situações completamente risíveis, nas quais se destrói por completo tudo que vínhamos construindo até então (e que já não era muito). Em determinado momento, o pai pega uma lata de Coca-Cola (claramente visível) de uma geladeira velha e dá ao garoto. Ele a abre, com o famosos “tsss” gasoso, bebe e diz “é realmente bom”, oferecendo-a ao pai. Você poderia pensar que é uma propaganda, mas é só mais uma cena. Juro que faltou só o urso polar.

E há mais dessas cenas, infelizmente. Talvez a pior de todas (depois da propaganda da Coca), talvez seja justamente a final, aquela que poderia melhorar um pouco a situação, mas tampouco consegue. O roteiro cheio de buracos de Joe Penhall é tão piegas que faria chorar somente aos Clint Eastwoods da Academia. Me limito a dizer que é tudo conveniente demais para ser aceitável. Um filme que deveria ser cru e dolorido como Biutiful, acabou se transformando em uma maquininha sentimentalóide – e não há nada mais frustrante em uma produção do que a crença de que o espectador é que é o imbecil.

Título Original: The Road
Direção: John Hillcoat
Gênero: Aventura, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Roteiro: Joe Penhall
Trilha Sonora: Nick Cave
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Tempo de Duração: 111 minutos
Com: Viggo Mortensen (Homem), Kodi Smith-McPhee (Menino), Charlize Theron (Mulher), Robert Duvall (cego), Guy Pearce (veterano), Michael Kenneth-William (ladrão).

h1

Joe Kidd

julho 27, 2009

Bang-bang

Em sua melhor forma, Clint Eastwood participa de um dos melhores finais de filmes do velho oeste

NOTA: 8

Imortalizado alguns anos antes pelas lentes de Sergio Leone, Clint Eastwood encena, em 1972, mais um clássico do western. Não exatamente por ser o melhor filme do gênero, mas simplesmente por aparecer, mais uma vez, na pele de bandido-mocinho do velho oeste. 

Assistir ao Clint antigo é ver a promissora carreira de um dos maiores atores e diretores da atualidade. Apesar do longa de John Sturges não possuir tão belos movimentos de cenas e closes usados por Leone, ainda assim é um prazer observar o talento incontestável de Eastwood (bem como sua beleza) e do antagonista Robert Duvall.

Clint é Joe Kidd, um matador contratado pelo fazendeiro Frank Harlan para “promover a justiça”. No típico cenário faroeste norte-americano, Joe é um recém-chegado na cidade de Sinola, Novo México, que deve impedir que o revolucionário mexicano Luis Chama atrapalhe os negócios de Harlan. Incorruptível, Kidd se nega a prestar serviços ao fazendeiro.

Ao saber que Chama passou também por seu rancho trazendo destruição e desespero, o cowboy – que possui relacionamentos amigáveis com os mexicanos – decide ajudar Harlan. O bando de Chama captura cinco mexicanos e os faz reféns, incluindo a bela Helen Sanchez. Garanhão incorrigível, Kidd se apaixona pela moça; mas Harlan é mais astuto, e o joga na cadeia a fim de impedir qualquer movimento.

Por uma questão (sempre!) de honra, Joe foge da cadeia e procura ele mesmo derrotar tanto o bando de Chama quanto Harlan, salvando os reféns e restaurando a ordem no vilarejo. Quando Kidd volta à cidade, certo de ter conseguido a paz, Harlan está esperando por ele em uma armadilha. Kidd usa todo seu engenho para terminar o longa com uma das cenas mais extravagantes do gênero.

Em um final obviamente catártico, é indiscutível que a paz e Joe finalmente se encontrarão. Se ele é o mocinho ou o bandido, fica difícil dizer. Quem se preocupa, contudo, com esses detalhes, quando Clint olha de soslaio por debaixo da aba do chapéu e tira a arma da cintura com a mesma rapidez com que faz as mulheres se apaixonarem por ele?

Se não é o melhor filme de bang-bang, é pelo menos um clássico memorável. Vale a pena ainda que for para conhecer mais da vasta carreira do ator.

Título Original: Joe Kidd
Direção: John Sturges
Gênero: Western
Ano de Lançamento (EUA): 1972
Roteiro: Elmore Leonard
Trilha Sonora: Lalo Schifrin
Fotografia: Bruce Surtees
Tempo de Duração: 88 minutos
Com: Clint Eastwood [Joe Kidd], Robert Duvall [Frank Harlan], John Saxon [Luis Chama], Don Stroud [Lamarr Simms], Stella Garcia [Helen Sanchez], Joaquín Martínez [Manolo], Ron Soble [Ramón], Pepe Callahan [Naco], Clint Ritchie [deputado Calvin].