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Punho de Ferro

abril 24, 2017

NOTA: 3,5

Preparem-se para o textão.

Quem acompanha as séries produzidas pela parceria Marvel + Netflix, já sabe que qualidade é um sinônimo. As duas primeiras temporadas de Demolidor, e as primeiras temporadas tanto de Jessica Jones quanto de Luke Cage foram um tiro atrás da outra – e com isso quero dizer que galera tombava morta de tão maravilhadas que ficaram. Embora a última peque pela falta de ação – quando comparada com as outras duas – e fraco desenvolvimento do vilão, é inegável que esse é o trio-parada-dura da Marvel na telinha. Elas trouxeram não só o melhor de cada personagem (o que não significa que fossem só coisas boas), mas também ótimos designs de produção, trilhas sonoras grandiosas, fotografias excelentes e, mais importante do que isso, roteiros impecáveis. Juntas, essas séries redefiniram o conceito de superheróis na TV e remodelaram o futuro da Marvel.

Ao comparar, portanto, estes três pesos-pesados com a mais recente, Punho de Ferro, é com enorme pesar que exponho o tamanho do buraco que a Marvel cavou. Cheia de problemas estruturais, a série não consegue manter o nível das anteriores e, o que é pior, ameaça a boa engrenagem da série dos Defensores que está por vir.

Mas vamos começar do começo. Danny Rand é um menino bilionário cujos melhores amigos da infância são Joy e Ward Meachum. Seus pais são amigos e atenciosos com os filhos. Até que um acidente de avião deixa Danny órfão e sozinho no meio das montanhas do Tibet. Ele é resgatado por monges mestres de kung-fu e é treinado na arte durante 15 anos. Enquanto isso, Joy e Ward crescem para ver o pai, Harold, morrer de câncer precocemente e passar a empresa ao nome deles. Até que um dia Danny decide voltar a Nova York para… bem, não entendi direito para quê diabos ele queria voltar.

E é isso uma das coisas que faz Punho de Ferro ser tão ruim. Foram tantas mudanças de rumo que os produtores pareciam não fazer ideia do personagem com o qual estavam lidando. Sem propósito definido e sem personalidade que cative a audiência, o herói parece seguir o roteiro somente para encaixar as peças que faltam. Sua participação é tão insignificante que nem parece que é ele o personagem principal.

As primeiras coisas absurdas acontecem já no primeiro episódio, quando Danny, de volta a NY, não consegue convencer os irmãos Meachum de que ele não estava morto. A resolução só vem dali dois episódios – quando o mais óbvio teria sido, já no primeiro encontro, dizer as lembranças em comum entre os três e contar toda a verdade sobre o que havia acontecido com ele. Não. Os roteiristas forçaram um melodrama desnecessário.

Ainda nos primeiros episódios, vemos várias referências a uma águia sobrevoando a cidade, o que dá a entender que há alguma relação entre Danny e o animal. Esse detalhe é completamente abandonado dali até o último episódio, quando a águia retorna sem explicação nenhuma e com uma resolução frágil para um enigma que poderia ter sido muito melhor trabalhado.

Não bastassem os erros de construção de roteiro, nós não nos familiarizamos com Danny em nenhum nível. Tudo o que sabemos sobre ele são as cenas do acidente de avião (repetidas dezenas de vezes, sem acrescentar nada de novo, exceto em duas delas), seu suposto treinamento em K’un L’un e que ele voltou para NY como o Punho de Ferro. Fora isso, não vemos nada acontecer. Não vemos Danny treinar. Não o vemos crescer, sofrer, amadurecer. Não sabemos quem é o verdadeiro Danny Rand.

Por incrível que pareça, sabemos de tudo que passou no misterioso templo tibetano porque Danny nos conta. É, tipo “eu fiz isso, lutei assim, derrotei fulano e me tornei o Punho de Ferro”. Ah, jura? Mas o que é o Punho de Ferro? Qual o significado espiritual, emocional e físico de ser o inimigo jurado do Tentáculo? É só isso? Não teve nenhum conflito interno? Não conhecemos absolutamente nada que separa o passado distante do personagem com o presente.

E essa é uma das razões pela qual Danny é tão imaturo, agindo como aquela criança de dez anos que vimos sofrer o tal acidente de avião. Não há profundidade emocional. A maior profundidade a que ele chega é amar sua nova amiguinha, Colleen Wing – que ele stalkeia sem dó nem piedade e ganha a simpatia da moça na marra. Medo. Só porque ele é loirinho e bonitinho ela cedeu? Qualé!

Mal desenvolvido, mal aproveitado e mal treinado, o ator ainda confessou que aprendeu a maior parte das cenas de luta 15 minutos antes de cada gravação. Nota-se. Muito. É evidente sua falta de preparo. Ao invés de fazer como em Demolidor – personagem que usa uma máscara nas cenas mais importantes, e cujo dublê fica obviamente camuflado – Finn Jones faz ele mesmo as cenas, evidenciando sua debilidade como lutador e expondo a série ao ridículo, uma vez que as lutas tiveram de ser suavizadas para que ele pudesse executá-las. Com exceção de dois ou três momentos, todas as sequências com Danny são sofríveis.

Até mesmo seus colegas de cena parecem manejar melhor as armas do que ele. Como, então, o argumento da série de que ele é o melhor lutador de kung-fu do universo Marvel se sustenta? Não, evidente que não. Comparada com a ação de suas primas-irmãs, Punho de Ferro parece brincadeira de criança. Embora tenha personagens que, dado o devido desenvolvimento, poderiam ter sido interessantes (a próprio Colleen, Davos e Bakuto, para mencionar os mais próximos do herói), temos um único arco que realmente funciona (o dos irmãos Meachum) e três personagens dignos de nota: Hardol, Ward e Claire Temple – dessa vez ela não só salvou o herói várias vezes como talvez a série também. O resto é completamente desperdiçado.

Eu nem quero começar a falar em como eles destruíram a imagem que tínhamos da implacável Madame Gao e sua influência em NY. Quem se lembra de que até mesmo Wilson Fisk tinha receio de Gao? Bem, aqui ela aparece no início como uma ameaça, e até mesmo com poderes sobrenaturais (que obviamente não são explicados e depois são abandonados) e, posteriormente, é utilizada como “aquela que explica para os espectadores o que está acontecendo”. Porque precisa ter alguém assim, né? Em uma série boa, pergunta se tem quem explique o que está acontecendo *rolling eyes emoticon*. Pior do que isso. Ela passa de inimiga a senhorinha fofa e indefesa. Ao invés de temer Gao, começamos a simpatizar com ela! É um rolling eyes infinito, sério.

Punho de Ferro foi escrito às pressas, sem revisão e sem critérios, com o objetivo único de fazer referências aos outros heróis e linkar as cinco séries. Os personagens são débeis, faltos de profundidade e perde-se demasiado tempo em diálogos expositivos e sem sentido. A trilha sonora é muitas vezes incompatível com o que está acontecendo e o CGI é evidente (o que tira ainda mais a magia das cenas). A melhor cena de ação, acreditem ou não, é aquela vista em um VHS antigo, de um antigo Punho de Ferro que guardava as portas de K’un L’un e protegia a cidade da invasão do Tentáculo. Seja lá o que isso queira realmente dizer.

Título Original: Iron Fist
Direção: John Dahl, Farren Blackburn, Uta Briesewitz, Deborah Chow, Andy Goddard, Peter Hoar, RZA, Miguel Sapochnik, Tom Shankland, Stephen Surjik, Kevin Tancharoen e Jet Wilkinson
Gênero: Ação, aventura, crime
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Scott Buck, Gil Kane, Roy Thomas, Dwain Worrell, Tamara Becher, Pat Charles, Quinton Peeples, Scott Reynolds, Ian Stokes e Cristine Chambers
Trilha Sonora: Trevor Morris
Fotografia: Manuel Billeter e Christopher LaVasseur
Tempo de Duração: 13 episódios de 55 min cada
Com: Finn Jones (Danny Rand), Jessica Henwick (Colleen Wing), Jessica Stroup (Joy Meachum), Tom Pelphrey (Ward Meachum), David Wenham (Harold Meachum), Wai Ching Ho (Madame Gao), Rosario Dawson (Claire Temple), Ramón Rodríguez (Bakuto), Sacha Dhawan (Davos), Toby Nichols (jovem Danny Rand), Carrie-Anne Moss (Jeri Hogarth).

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Em Transe

maio 2, 2013

trance-poster-new-movie (2)A falha da psicanálise

Com roteiro confuso e atores mal-utilizados, novo filme de Danny Boyle quer ser algo mas não consegue

NOTA: 7,5

Danny Boyle é um diretor competente. Seus últimos longas, embora não sejam considerados excelentes, têm seu estilo e personalidade. São produções são de qualidade, ainda que muita gente possa não gostar. Os dois últimos filmes para cinema foram concorreram ao Oscar – sendo que Quem Quer Ser Um Milionário venceu na categoria de melhor filme.

A mais nova película do cineasta, Em Transe, é uma mistura de thriller de ação com mistério psicanalítico. O protagonista Simon, vivido pelo sempre ótimo James McAvoy, é um viciado em quadros e jogos de cartas. O primeiro vício lhe deu um emprego, de leiloeiro. O segundo, uma dívida. Para conseguir pagá-la, ele recorre ao charmoso bandido Franck.

No meio do ato, Simon sofre uma amnésia e, quando acorda no hospital, a pintura em questão havia sumido. Para poder recuperá-la, Franck decide submeter Simon a um tratamento de hipnose com a Dra. Elizabeth, que logo nas primeiras sessões descobre a encrenca na qual se havia metido.

Entrando cada vez mais na mente de Simon, a médica começa a descobrir segredos da gangue, e a realidade começa a se confundir com as experiências psíquicas. Em momentos que remetem à filmes como A Origem e Amnésia – ambos do diretor Christopher Nolan –, mas sem jamais conseguir atingir clímax ou intensidade parecidos, Boyle mergulha sem muito sucesso em um mundo de imaginação, fantasia e desejo.

Uma confusão de cenas que jogam o espectador de um lado a outro sem chegar a lugar algum, tensão quase inexistente e diálogos um tanto constrangedores marcam os dois primeiros terços da produção. Felizmente – para nós e para Boyle – o terceiro ato recupera o fôlego e consegue esclarecer todos os pontos que haviam ficado soltos durante a primeira hora de projeção. Confuso, o roteiro de Joe Ahearne e John Hodge só se faz entender nos minutos finais, o que não necessariamente melhora a trama. É um filme de ação disfarçado terrivelmente de drama.

As atuações tampouco são notáveis, ainda que McAvoy mostre seu talento sempre que o personagem permite – pouco. O que é surpreendente, já que o enredo deveria levar o espectador a sentir a intensidade e fatalidade na vida daquelas pessoas, e até mesmo raiva por algumas delas. Mas nem isso. A única coisa que Boyle arranca da plateia é uma exclamação de alívio, por ter conseguido sair do cinema com a sensação de que entendemos algo.

Titulo Original: Trance
Direção: Danny Boyle
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (UK): 2013
Roteiro: Joe Ahearne e John Hodge
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Tempo de Duração: 103 minutos
Com: James McAvoy (Simon), Vincent Cassel (Franck), Rosario Dawson (Elizabeth), Danny Sapani (Nate), Matt Cross (Dominic), Wahab Sheikh (Riz), Mark Poltimore (Francis Lemaitre), Tuppence Middleton (mulher ruiva do carro vermelho).

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Percy Jackson e o Ladrão de Raios

outubro 19, 2010

Mitologia às avessas

Roteiro sofrível e atuações medianas, a história do Perseu moderno deixa muito a desejar

NOTA: 3,5

Como começar um texto criticando um filme visivelmente feito para crianças? Será que as referências que tenho atrapalharam meu julgamento? Ou será que até mesmo as crianças chegaram a notar as falhas de Percy Jackson e o Ladrão de Raios? Apesar da interessante premissa, não posso deixar de me ressentir que um filme sobre mitologia grega tenha sido tratado de maneira tão…boba. Mas ok, afinal, o filme foi baseado no primeiro livro da série homônima de Rick Riordan que, tal qual Harry Potter, criou um herói infantil (bem inferior e menos complexo, devo alertar).

Como já cheguei a afirmar na crítica de Fúria de Titãs (que, curiosamente, também é uma adaptação mediana da história do herói Perseu), a mitologia grega pode ter várias interpretações mas há pelo menos uma versão de cada mito que se sobrepõe às demais. Assim, qualquer mudança mínima nas características de qualquer um dos deuses olímpicos já soa afrontosa.

Logo nas primeiras cenas, vemos um raivoso encontro de Poseidon e Zeus, no qual o deus supremo afirma que seus raios foram roubados pelo filho do deus dos mares – e caso ele não os devolva em quinze dias, “haverá guerra”. Bem, para aqueles que conhecem a mitologia grega, uma ameaça dessas nem chega a ser grande novidade, não é? De qualquer maneira, a história acompanha a trajetória de Percy (sim, um Perseu “moderno”), um menino de 17 anos (no filme, pois no livro, também tal qual Harry, ele começa suas aventuras aos 12) que vive com a mãe e o padastro malvado – pois é.

Amparado por um elenco razoável que tem Sean bem como Zeus, Pierce Brosnan como Quíron e Uma Thurman como a Medusa (que vou discutir mais adiante), Percy Jackson descobre sua natureza de maneira um pouco forçada. Aliás, perdoem-me. Não é só isso que é forçado no filme. Posso afirmar que absolutamente tudo é superficial.

Percy é motivo de admiração do amigo e protetor de muletas, Grover Underwood, pois consegue ficar horas debaixo d’água. Para quem é mais espertinho, não precisaria de diálogos para descobrir a natureza do personagem. Assim, a artificialidade (e a vergonha alheia) surge no momento em que todos sabem (até o espectador) o que o rapaz é, menos ele. Essa obviedade do roteiro não é exatamente uma surpresa, considerando que Chris Columbus é o diretor (ele dirigiu outros filmes infantis como os dois primeiros filmes de Harry Potter e também Esqueceram de Mim).

Não vou me alongar muito: Percy Jackson e o Ladrão de Raios é um filme extremamente ingênuo. Sem adivinhar que poderia ser tão infantil, a fotografia e direção de arte são até boas, mas o roteiro impõe Percy como um menino sem habilidade alguma que, de uma hora para outra, vira o herói que seu nome precedia – há cena mais constrangedora do que a que ele descobre ser disléxico e só conseguir ler as paredes do museu? Para piorar, Grover é um personagem metido a engraçado e irritantemente previsível. Fora os clichês de tratar o menino como um Hércules da modernidade, há ainda muitas, muitas incoerências.

Nada, para mim, é pior do que ensinar falsos conceitos. Já que se trata de um filme infantil, porque tratar a criança como incapaz de compreender um roteiro mais bem feito, ou ainda correr o risco de os pequenos não se identificarem com os jovens personagens? Apesar de haver uma breve aula sobre a origem dos semideuses e de apresentar alguns dos seres mitológicos mais conhecidos, o filme comete o ato falho de tratar o espectador como imbecil. Qualquer que seja ele, adulto ou criança.

Porque, afinal, o acampamento dos mestiços (situado próximo à cidade, mas que ninguém nunca encontrou, claro) é medieval? Porque, por exemplo, as crianças são ensinadas a lutar com espadas e armaduras da Grécia Antiga, ou ainda se assa carnes em espetos e não em fogões? Digo, porque querer atualizar o tema da relação entre os mortais e os imortais se a premissa continua sendo encontrar gags que façam as crianças dar uma risadinha? Poderia haver muito mais coerência e divertir da mesma maneira. A ideia de que os deuses ainda se misturam com mortais é realmente interessante, mas muitíssimo mal explorada.

Além disso, não é explicado o motivo pelo qual Percy é o filho dileto de Poseidon, uma vez que o deus é um dos maiores garanhões da mitologia grega – em determinado momento, um dos personagens diz que “é raro um dos três grandes deuses ter filhos” o que, como bem sabemos, é uma mentira deslavada. O espectador não é obrigado a conhecer a fundo o contexto histórico-filosófico da narrativa que está sendo apresentada mas, como eu já disse por aqui, quando um filme desta magnitude se propõe a desbancar a série de J. K. Rowling e falar de mitologia, deveria ser mais atenciosa. Está bem, algumas coisas são realmente legais, como o tênis alado que Luke presenteia Percy ou a Hidra de sete cabeças. Mas a Medusa de Uma Thurman, com corpo de mulher e cabelos de cobra desmoraliza tudo até então.

Alguns fatos que me irritaram (e é culpa do livro, não do filme) foram a insistência em fazer a deusa Atena, conhecidamente uma das deusas virgens do Olimpo ter, continuamente, procriado – uma das amigas de Percy, Annabeth Chase, é a filha de Atena e, pela alma de Homero, isso é um absurdo! – e do deus Hades ser retratado como um motoqueiro/metaleiro, casado com uma promíscua Perséfone. Tal como tratar Jesus Cristo como um assassino, é desvalorizar a ideia que os antigos tinham de suas divindades.

A trilha sonora, se não fosse tão óbvia, até seria interessante. O desfecho do longa, piegas e moralista (com crianças dando lições em adultos literalmente gigantes) prova uma coisa, somente: que ambos escritor e diretor não leram O Senhor dos Anéis suficientemente para entender que pode-se ser sutil ao inferir a ideia de  heroísmo mesmo na menor das pessoas. Ah, sim: a ideia de que o buraco para a entrada do Inferno se situe bem embaixo da placa de Hollywood me parece mais uma jogada de marketing barato do que realmente uma grande sacada.

Se estivéssemos na época dos Olimpianos o filme teria uma severa punição, com direito permanência eterna no Tártaro.

Titulo Original: Percy Jackson and the Olimpians: The Lightning Thief
Direção: Chris Columbus
Gênero: Fantasia, Aventura
Ano de Lançamento (Canadá/EUA): 2010
Roteiro: Craig Titley
Trilha Sonora: Christophe Beck
Fotografia: Stephen Goldblatt
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Logan Lerman (Percy Jackson), Brandon T. Jackson (Grover Underwood), Alexandra Daddario (Annabeth), Jake Abel (Luke), Sean Bean (Zeus), Pierce Brosnan (Sr. Brunner/Quíron), Steve Coogan (Hades), Rosario Dawson (Perséfone), Melina Kanakaredes (Atena), Catherine Keener (Sally Jackson), Uma Thurman (Medusa), Maria Olsen (Sra. Dodds/Fúria), Dimitri Lekkos (Apolo), Ona Grauer (Ártemis), Stefanie von Pfetten (Deméter), Conrad Coates (Hefesto), Erica Cerra (Hera), Dylan Neal (Hermes), Luke Camilleri (Dionísio), Serinda Swan (Afrodite) e Ray Winstone (Ares).

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À Prova de Morte

agosto 31, 2010
Violento e elegante 

Produção de Quentin Tarantino que demorou três anos para chegar ao Brasil evidencia (novamente) a precisão do diretor como conhecedor e amante da sétima arte

NOTA: 9

Ok, eu saí de férias e releguei o blog. Mas isso é passado e eu voltarei a postar regularmente. Você, querido leitor, não abandone este às moscas e volte para as novidades dessa semana – sim, haverão! Comecemos, pois, com o primeiro da lista, que eu ia postar antes de viajar mas calhei de não ter tempo – sabem como é, nas férias a gente esquece do mundo! A ele, portanto:

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Em pouco mais de um ano de postagem, À Prova de Morte foi o primeiro filme que eu vi no cinema e não fiz abolustamente nenhuma anotação – não por falta de vontade, mas de papel e caneta. O bloquinho ficou em casa e, meio desesperada (como a gente se acostuma!), assisti ao novo filme de Quentin Tarantino com coceira nas mãos, que sentiam a falta dos rabiscos. 

Mas o mais curioso de tudo é que ainda agora as anotações não me fazem falta (que eu sei ser crime passional para os críticos mais puritanos). O filme de Tarantino é daqueles tão marcantes que as anotações se fariam redundantes de tudo que ainda roda no meu cérebro – praticamente o filme todo. Apesar de ter demorado quase três anos para estrear em terras brasilis, a nova produção de um dos mais polêmicos cineastas da nossa era é uma apologia aos filmes trash dos anos 70, e foi originalmente feito para ser um projeto duplo (chamado de Grindhouse) – encaixado com Planeta Terror,  produção do amigo e parceiro, Robert Rodríguez, além de trailers falsos feitos por amigos de ambos.

A película de Rodríguez saiu antes, e Tarantino teve de preencher os 87 minutos originais com mais 17 minutos extras – que são visivelmente notáveis durante a projeção com sua marca registrada: diálogos intermináveis e absurdos, neste caso de garotas fúteis e aparantemente importantes para o enredo. As intervenções que soariam originais ao projeto aqui soam um pouco artificiais – manchas e riscos na tela, cortes brutos como se anunciassem algo diferente que estava por vir. Bem, apesar de ser um projeto original o de resgatar a cultura trash do cinema, há sempre quem desaprove o estilo tarantinesco de se expressar.

Eu estou particularmente acostumada com as extrapolias do diretor, e não me incomodo em vê-lo arriscando em coisas mais ousadas. Mostrando logo no primeiro plano que este é um filme seu – a podolatria em evidência -, Tarantino usa de todos os recursos que o consagraram, com planos característicos seus, marcas de bebida e cigarros imaginárias, referências a séries e filmes que só ele conhece e trilha sonora impecável (que tem até o mestre Morricone em seus acordes) – além, é claro, dos já mencionados diálogos, que, de tão absurdos, por vezes soam geniais.

Além disso, Tarantino é um tipo de diretor que não esconde suas taras e manias. Se os pés são partes que aparecem com frequência em sua filmografia, em À Prova de Morte ele faz questão de explorar o corpo de suas musas com idolatria quase juvenil, com closes surpreendentes em bundas, peitos, caras e bocas. Mas mais do que isso, estamos falando aqui de um dos cineastas mais entendidos de cinema ainda vivos. Tarantino sabe exatamente o que está fazendo, e é isso que – ao meu ver – o torna tão admirável. Suas produções são sempre uma manifestação de sua esquizofrenia genial misturadas ao seu grande conhecimento sobre a sétima arte.

Fugindo do conceito de três atos, portanto, o diretor divide o filme em duas partes – que podemos até dizer, desconexas. Na primeira, ele enfoca a vida de DJ Jungle Julia, Arlene e Shanna, três amigas que são tipicamente garotas do interior, bobinhas e que sentem que a vida medíocre das pequenas cidades “lhes pertence”. Assim, com fotografia que resgata o passado – mais cinza e monocromática, suja, ambientada em bares de madeira e neon, com juquebox e caminhoneiros bêbados típicos da década de 70 – Tarantino compõe a imagem das mulheres vitimizadas pela sociedade. A parte seguinte, mais limpa e colorida, indica a força feminina e preconiza o desfecho brutal e vitorioso da narrativa.

Um dos momentos mais gloriosos é certamente a quádrupla angulação, um recurso que o diretor usa para mostrar um choque violento entre dois carros de todos os ângulos possíveis – no caso, de todas as personagens. A cena da perseguição final e sua conclusão são também esplêndidas, dando emoção e suspense. Durante os 20 minutos de corrida do inferno com Zoë Bell – dublê profissional e que faz papel dela mesma – dependurada no capô de um carro, me peguei segurando no braço da poltrona, tensa com a ação. Certamente essa era a intenção de Tarantino – após o trágico fim do primeiro ato, impossível não imaginar o pior.

Ah, sim. A história? Stuntman Mike é um homem simpático que esconde por trás de seu sorriso amável e sua personalidade calma um serial killer intrigante. Bem caracterizado como sempre, Kurt Russel encarna o tipo de assassino com gostos e prazeres incompreensíveis – como matar belas garotas com sua possante máquina à prova de morte. De fato, à primeira vista À Prova de Morte não parece realmente um grande filme. Quando digo, contudo, que Tarantino é um diretor ímpar que sabe como ninguém usar os recursos e estilos do cinema, é com exemplos como este que me refiro.

Título Original: Death Proof
Direção: Quentin Tarantino
Gênero: Terror
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Roteiro: Quentin Tarantino
Trilha Sonora: Vários
Fotografia: Quentin Tarantino
Tempo de Duração: 113 minutos
Com: Kurt Russel (Stuntman Mike), Vanessa Ferlito(Arlene), Jordan Ladd (Shanna), Rose McGowan (Pam), Sydney Tamia Poitier (Jungle Julia), Tracie Thoms (Kim), Rosario Dawson (Abernathy), Mary Elizabeth Winstead (Lee), Zoë Bell.