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Blade Runner 2049

outubro 19, 2017

NOTA: 6

Já é um fato: quanto mais eu leio, ouço e penso sobre o novo Blade Runner, menos gosto das conclusões tiradas (ou deixadas ao léu) pelo diretor Dennis Villeneuve. Responsável pelo mediano Sicario, pelo bom Os Prisioneiros e pelo excelente A Chegada (do qual ainda falarei aqui), o cineasta já demonstrou que gosta de trazer questões filosóficas complicadas envolvendo a essência humana (linguagem, alma, memória), muitas das quais bem trabalhadas. Outras, nem tanto. É o caso da “continuação” do clássico-cult de 1982.

O original, dirigido por Ridley Scott, foi criado em um universo distópico, num futuro ciberpunk, uma Los Angeles não tão distante de hoje. O diretor desenvolve questões como: o que nos torna humanos? São os sentimentos? São as memórias? Esse questionamento foi tão imaginativo e interessante que ficou gravado a fogo em nossas memórias, com as excelentes atuações de Daryl Hannah e Rutger Hauer.

Criado neste mesmo universo, mas 30 anos depois, Blade Runner 2049 mantém a mesma atmosfera sombria que caracterizou seu filme-mãe. O andróide KD6-3.7 – ou somente K – é um policial que caça os replicantes antigos para aposentá-los (leia-se: exterminá-los). Ele vive com sua namorada, a inteligência artificial Joi, que se materializa em forma de um holograma. Tanto K quanto Joi foram criados pela empresa de Niander Wallace, um personagem inescrupuloso que cria replicantes para serem escravos dos humanos. Ao lado dele está Luv, sua assistente androide fria e calculista. Digo que Wallace é um personagem (e não um homem ou robô), porque sua verdadeira natureza é desconhecida – e voltarei nisso mais adiante. Enquanto K persegue os humanoides, auxiliado pela tenente de sua divisão, ele tenta lidar com uma forte memória que o persegue, sempre auxiliado pela fiel Joi.

Vou dividir o texto entre as coisas positivas e negativas que encontrei. Os pontos positivos do filme são realmente muito poucos, mas que praticamente fazem a película funcionar: a magistral e sempre diversa fotografia de Roger Deakins – responsável por algumas das cenas mais famosas do Cinema, passando por Um Sonho de Liberdade, todos os filmes dos irmãos Coen, Uma Mente Brilhante, Dúvida, Skyfall e até a animação Rango. Se tem algo aqui que indubitavelmente não falha é a atmosfera que Deakins imprime, ora com suas paisagens cinzentas, chuvosas, abandonadas e tristes, ora com vislumbres de terras desoladas, desérticas, cobertas de areia e esquecidas pelo tempo. Os sets de filmagem são realmente muito bons, e a paleta de cores nos ajuda a entender onde o filme quer nos levar – quando é amarelada e quente, é ali onde está o que realmente importa.

Embora muito sintética e artificial, no sentido de ter muitos instrumentos digitais, a trilha sonora de Hans Zimmer – que está se convertendo em figurinha carimbada das grandes produções de Hollywood, e provando porque deve ser o sucessor de John Williams – traz elementos austeros e quase alienígenas, que não soam exatamente “do nosso mundo”. O que isso quer dizer, em termos cinematográficos, é como nosso protagonista se sente com relação a ele mesmo e a tudo que o cerca.

Os pontos positivos acabam por aí. A partir do momento em que passamos a tentar desvendar a trama, a coisa embola e surgem mais dúvidas e contestações do que o próprio diretor (imagino) queira ter levantado. A impressão que dá, realmente, é que o roteiro de Hampton Fancher e Michael Green quis trazer a mesma quantidade de informações e questionamentos filosóficos que Ridley no passado, e o que conseguiu foi uma salada de ideias mal desenvolvidas, personagens pouco profundos e que não conectam com o público, pecando por falta de carisma.

Além disso, o filme é excessivamente longo e tem sérios problemas de ritmo – e eu não digo isso porque tenho preguiça de filmes longos. Vamos falar de …E o Vento Levou, aquele épico com quase três horas de duração? Enfim. Há demasiadas cenas de flashback, no qual K revive alguns diálogos que havíamos visto há pouco. Isso, para mim, é como se Villeneuve não acreditasse na capacidade do público de seguir sua história – que não é complexa; apenas longa. Ao invés de usar esses momentos de presunção masturbatória, teria sido melhor explicar as várias pontas soltas que o roteiro deixa (mais sobre em seguida).

Há, também, excesso de momentos desnecessários, como o próprio encontro entre K e outro personagem em um hotel abandonado. Após um curto diálogo no qual não entram em acordo, os dois começam uma perseguição de gato-e-rato totalmente inexplicável (com direito a explosões e tudo, a lá Michael Bay) e que termina em uma sala de entretenimento com um holograma do Elvis. Ali, acabada a argumentação, parte-se para aquilo que se tornou a especialidade dos filmes vazios de Hollywood: socos. Podem reparar. Quando não há nada mais a ser dito, é aí aonde se chega.

De qualquer maneira, Blade Runner 2049 traz algumas questões que Ridley colocou sobre aquilo que nos faz humanos. Neste caso, estamos falando da memória. Mas há tantas incongruências no desenvolvimento do enredo que é impossível fechar os olhos a isso e ficar pirando no que resta de bom (que, como viram, é pouco). Além disso, a trama é extremamente enviesada. A cena mais mal formulada de todo o filme é justamente uma das mais importantes, quando K visita um personagem e descobre algo fundamental sobre sua memória. A partir desse momento, K passa a acreditar em uma coisa distinta do que foi levado a crer toda sua vida. E com essa nova descoberta, o longa implica que K é de fato essa coisa que ele passa a acreditar.

Nós, obviamente, entramos na onda. Não somente acompanhamos a descoberta do próprio personagem, como todos os sinais que o filme nos dá são de que ele está na pista certa. Ao mesmo tempo, a tal revelação deixa uma sensação ambígua que pode nos induzir a uma conclusão, enquanto o filme nos está forçando a pensar uma coisa oposta – pelo enredo, pela ação dos personagens etc. Imaginem, portanto, o choque do espectador ao se ver enganado. O que deveria ser uma grata surpresa é a revelação daquela dúvida que surgiu uma hora antes, e que foi pouco a pouco desconstruída pela narrativa para depois ser trazida à tona novamente – como se a revelação fosse causar qualquer comoção. Não causa.

Não só isso, mas parece que K – aquele a quem acompanhamos durante mais de metade da projeção – é apenas uma alavanca para uma história mais importante, de um personagem mais importante: Deckard. Não é spoiler para ninguém que Harrison Ford faz parte do elenco. O que acontece com a narrativa, no entanto, é uma guinada brusca para desvendar o caso mal resolvido envolvendo Deckard – e não K. O até então protagonista passa a não importar mais. Ele acreditou naquilo que quis acreditar – e isso eu até posso entender. Mas certamente não da maneira como foi colocado.

Coisa semelhante acontece com Luv. A assistente de Wallace é um personagem odioso, mas justamente porque emana ódio em todas as suas relações – exceto com o chefe (ou talvez não; incógnita). Ela mata indiscriminadamente e faz questão de ser “a melhor”. Por quê? Para que? Melhor do que quem? Por que esse ódio tão irascível? É contra sua própria espécie? É contra os humanos? Inveja? Não se sabe. Wallace, também, deixa muito a desejar. Embora o desempenho de Jared Leto esteja de acordo com o personagem – alguém que se crê mais do que deus – o personagem é raso como um pires. O fato de ser androide ajudaria a entender suas motivações, mas nem isso se sabe. Apenas supomos que ele é um humano, pois deu a Luv o apelido pelo qual ela atende – ele a chama, carinhosamente, de “amor” (luv = love).

Para finalizar, grande parte da violência é completamente injustificável – e olhem que eu curto filmes violentos. A ação não se sustenta por si só. É justamente nesse contraste, na presunção, na extensão onde não deveria e em tudo o que ficou não dito, há discordância, confusão e mil elucubrações das coisas que podem ser ou não –, mas que não aparecem no longa. E se não aparecem, só significa uma coisa: a história está mal contada. Se eu preciso investigar, assistir curtas-metragens (como estão dizendo por aí) para complementar uma história, é porque ela é fraca. O que eu vejo na telona deveria ser suficiente. Deveria bastar. Se quiser fazer com que eu pense no mistério, como em A Origem, o roteiro precisa ser mais sólido. Continuo, até agora, sem entender as motivações de diversos personagens. E, por isso, Blade Runner 2049, para mim, deixa muito a desejar.

Título Original: Blade Runner 2049
Direção: Dennis Villeneuve
Gênero: Mistério, sci-fi e thriller
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green, baseado no livro de Phillip K. Dick
Trilha Sonora: Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch
Fotografia: Roger Deakins
Tempo de Duração: 164 minutos
Com: Ryan Gosling (K), Dave Bautista (Sapper Morton), Robin Wright (tenente Joshi), Ana de Armas (Joi), Sylvia Hoeks (Luv), Jared Leto (Niander Wallace), Harrison Ford (Rick Deckard) e Sean Young/Loren Peta (Rachael).

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La La Land

abril 3, 2017

NOTA: 7,5

Quando me disseram que Hollywood havia lançado um novo musical, e que era uma homenagem ao clássico Cantando na Chuva (e tinha Ryan Gosling no elenco), eu fui obrigada a duas coisas: primeiro assistir a este, e depois aquele, no cinema. Talvez tenha sido um erro. Pois La La Land não chega nem aos pés do filme que quer homenagear – ou, melhor dizendo, plagiar.

Mas não quero fazer uma crítica estritamente comparativa. Pois, por mais que eu não tenha amado, o longa de Damien Chazelle (responsável pelo excelente Whiplash e pelo bom 10 Cloverfield Lane), tem seus méritos. Filmada em CinemaScope, a história acompanha o pianista Sebastian e a aspirante a atriz Mia, que se conhecem na “terra dos sonhos”, Los Angeles. O mais curioso da projeção talvez seja sua atemporalidade, uma vez que mostra figurino e ambientes vintage, mas traz celulares e equipamentos modernos, impossibilitando situá-la no tempo.

A fotografia de Linus Sandgren também colabora para criar a ideia de uma cidade sempre feliz, toda colorida e vibrante. O filme escorrega, porém, ao usar mais de uma vez a técnica do holofote para dar foco a um personagem, o que torna o recurso cansativo e óbvio.

Traçando a história com a velha dinâmica eu-te-odeio-agora-eu-te-amo, o casal mostra a maioria de suas intenções com dois ou três números memoráveis. O que é surpreendente, considerando suas mais de duras horas de duração. Pois, ainda que seja vendido como um musical – e orgulhe-se extremamente disso –, La La Land jamais chega a alcançar aquilo que almeja ser: um reflexo autônomo dos grandes filmes do gênero que fizeram tanto sucesso na década de 60.

A atuação dos atores principais certamente colabora com a projeção. Emma Stone é capaz de entregar um personagem sensível e complexo, uma vez que consegue transmitir suas angústias e paixões com a mesma emoção – e a cena de sua primeira audição, na qual está totalmente entregue e é interrompida, talvez seja a melhor de toda sua carreira. Ryan Gosling, por sua vez, também é eficaz ao entregar o amor de Sebastian ao jazz, embora possa fazer pouco mais do que isso.

Mas a inabilidade de ambos é perceptível: Gosling toca piano bem e dança razoavelmente, mas sua voz não é das melhores; Emma é afinada e sua voz é bonita, mas seu talento para a dança é nulo. Assim, quando vemos a cena mais famosa do longa (na qual Emma está de vestido amarelo) é impossível não lembrarmos da distância que eles estão de Fred Astaire e Debbie Reynolds, para mencionar apenas duas pessoas.

Para completar, a trilha sonora de Justin Hurwitz – que deveria ser composta por canções memoráveis – tem uma única música que consegue prender a atenção do espectador. E ela é tão martelada durante todo o filme que, ao final, já estamos cansados de escutá-la e quase nem lembramos sua razão de ser. Além disso, Chazelle se equivoca ao colocar a cidade de Los Angeles como mero cenário para seus personagens, uma vez que seu nome aparece dobrado no título do filme. A cidade, que também é personagem, não foi tratada como tal, e as sequências que envolvem planos maiores são sequências de homenagens, uma colagem barata que não traz nada de realmente novo.

E embora comova com seu argumento final, a resolução de repassar os momentos mais importantes da trama inteira com um personagem ao invés de outro é confuso – muita gente só percebeu da metade para o fim – e repetitivo, ao invés de surgir como o recurso dramático que se esperava. No fim das contas, La La Land é bonitinho e agrada, mas deixa a clara sensação de que é apenas uma miscelânea de cenas de filmes melhores, com músicas desinteressantes e coreografias pobres, limitadas pela falta de habilidade (ou ensaio) de seus protagonistas.

Título Original: La La Land
Direção: Damien Chazelle
Gênero: Comédia, drama, musical
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Damien Chazelle
Trilha Sonora: Justin Hurwitz
Fotografia: Linus Sandgren
Tempo de Duração: 128 minutos
Com: Ryan Gosling (Sebastian), Emma Stone (Mia), Callie Hernandez (Tracy), Jessica Rothe (Alexis), Sonoya Mizuno (Caitlin), Rosemarie DeWitt (Laura), J. K. Simmons (Bill), Jason Fuchs (Carlo), John Legend (Keith).