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Abraços Partidos

março 29, 2010
Desconstrução 

Como sempre magnânimo, Almodóvar presenteia o público pela primeira vez com filme sob a ótica de um homem

NOTA: 9

Ele é um dos meus diretores preferidos, considerado (não só por mim) como um dos maiores de sua geração: revolucionário, vanguardista. Ela tem se mostrado, a cada filme no qual atua, uma atriz de peso, consistente, responsável por grande parte do sucesso da película. Juntos, eles fazem uma das duplas mais poderosas do cinema mundial – hollywoodiano e europeu. Pedro Almodóvar e Penélope Cruz, juntos há exatos 10 anos (completados quando do lançamento deste aqui), vem evoluindo na parceria a cada nova produção.

Apesar de não ser um filme absolutamente genial, o novo Abraços Partidos é visto – repito, não só por mim – como uma das obras-primas do diretor. Almodóvar criou um padrão que pode ser discernido a quilômetros de distância. A paleta de cores está sempre saturada com cores berrantes, as figuras femininas são fortes, verdadeiros estereótipos da mulher espanhola (muito baseadas na figura de sua mãe), os homens são meros objetos de entretenimento, descartáveis; o diretor conquistou o mérito de retratar fielmente seu povo. Até mesmo o polêmico Má Educação – que conta a história de um travesti – é uma clara e chocante imagem das mulheres.

Esse último longa, contudo, é uma contradição do ponto de vista narrativo e considerando a trajetória do cineasta. Abraços Partidos conta a história do escritor, roteirista e diretor Mateo Blanco, agora cego, que assinava todos seus textos com o pseudônimo de Harry Caine.

Nos primeiros minutos, vemos uma cena tipicamente almodovariana: Mateo usa de sua cegueira para atrair uma linda jovem loira. A câmera, acompanhando o corpo e as curvas da moça como se fosse os olhos do personagem, e o que acontece depois – tudo indica a essência do cineasta. Isso passado, vemos que Mateo tem por companhia a amiga Judit e o filho desta, Diego. Ao ser constantemente questionado pelo menino sobre a historia que mudou a vida de todos, Mateo decide contar a ele a verdade.

Voltamos há 14 anos atrás, quando o roteirista estava encarregado na produção de um filme em que Lena era a atriz principal. Apesar de não ser das mais competentes, Mateo decide dar uma chance à amadora, encantado principalmente com sua beleza. Mergulhando em uma história sombria – uma vez que Lena estava comprometida, ainda que a contragosto, com o produtor do filme em questão – esses personagens estão envoltos em obscuridade, mistério, paixões dilacerantes, ciúmes e (claro) morte.

De tom clássico, percebemos muitos elementos da construção do diretor, diluídos pela força dos próprios personagens. Desta vez, há somente um relance do poder das mulheres – quando, em raros momentos, vemos “o filme dentro do filme”. O tom dramático está, curiosamente, concentrado na figura de Mateo/Harry. Após descobrir que, ao ficar cego em um trágico acidente, o protagonista passa a atender somente pelo pseudônimo, como a morte e o renascimento de uma pessoa.

Com a habilidade costumeira, Almodóvar traça o perfil deste grupo de pessoas intimamente relacionadas, em cenas belíssimas como se fossem quadros – e aqui a influência de Carlos Saura torna-se evidente até mesmo no modo de narrar a estória. A estética de Abraços Partidos talvez seja um de seus maiores méritos, uma vez que grande parte do público não tenha se identificado com a “falta de Almodóvar” nesta produção.

Um misto de incredulidade e familiaridade são os sentimentos que norteiam o espectador. Afinal, com Almodóvar todas as histórias são – ou parecem ser – possíveis. Até mesmo a mais folhetinesca soa tão verdadeira quanto a nossa própria realidade.

É possível reencontrar atores tão queridos (e maravilhosos) quanto os personagens que interpretaram nas décadas de colaboração, como a própria Penélope que, em uma única cena, realiza o sonho de todos os homens se despindo despudoradamente; Blanca Portillo, como sempre dando show de atuação; Lola Dueñas, em um papel tão cômico quanto pequeno para sua grandeza, entre outros não tão famosos.

Titulo Original: Los Abrazos Rotos
Direção: Pedro Almodóvar
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Espanha): 2009
Roteiro: Pedro Almodóvar
Trilha Sonora: Alberto Iglesias
Fotografia: Rodrigo Prieto
Tempo de Duração: 128 minutos
Com: Lluís Homar (Mateo Blanco/Harry Caine), Penélope Cruz (Lena), Blanca Portillo (Judit García), José Luis Gómez (Ernesto Martel), Tamar Novas (Diego), Rubén Ochandiano (Ray X/Ernesto Jr.), Marta Aledo (Maribel) e Lola Dueñas (leitora de lábios).

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Dúvida

março 22, 2010
A verdade prevalece

Progressismo versus conservadorismo, longa de J. P. Shanley aborda a questão da pedofilia dentro da Igreja na década de 60
 

NOTA: 9

Imaginem a junção de talentos do calibre de Phillip Seymour Hoffman e Meryl Streep aliados a um roteiro consistente e a uma fotografia interessante, propositadamente envelhecida. Pois se não conseguiram visualizar, o elenco já é motivo suficiente para querer assistir Dúvida.

É 1964. Na época, as escolas ainda eram comandadas por igrejas que determinavam grande parte da vida dos alunos, tanto ideológica quanto socialmente. Este belíssimo longa de John Patrick Shanley inicia com um sermão visivelmente emocionado do padre Brendan Flynn, interpretado com a maestria habitual de Hoffman. No discurso sobre a solidão que a dor de guardar um segredo provoca, o padre lança uma primeira dúvida aos espectadores. Estaria ele fazendo uma confissão, como se o filme falasse de trás para frente?

Logo vemos que o padre Flynn é um homem apaixonado e sensível às necessidades e próprios sentimentos de seus fiéis, e que o momento do sermão poderiam ser o único que aproximassem as almas de todos. Esta não é, contudo, a grande dúvida a qual se refere o filme. Em um momento fora de contexto, a inocente irmã James vê o padre Flynn discretamente colocando uma camiseta no armário do estudante Donald Miller, o primeiro negro a ser aceito na tradicional escola.

Temerosa, ela resolve contar o caso à sua superior, a madre e reitora Aloysius, e ambas se fixam na ideia de que o padre dava “atenção em demasia” ao garoto – insinuando, mesmo sem ter provas, que ele cometia pedofilia não só com este, mas com diversos meninos da escola. O grande mérito do roteiro de Shanley, talvez, seja exatamente calcar constantes dúvidas no espectador, do começo ao fim do longa.

Justamente por ser um padre progressista e diferente dos demais, nos momentos que mostram Flynn a sós com Donald vemos um carinho muito grande do padre com o garoto, mas que jamais insinuasse abuso; mais como uma relação de pai e filho. A sensação é de que vemos Donald extasiado com os belos discursos de Flynn, um brilho nos olhos que demonstrava muito mais idolatria do que perversidade ou temor.

Ao contrário, porém, a madre Aloysius se mostra uma mulher extremamente conservadora, rígida nos valores e moralista, sempre tentando disciplinar os alunos com frieza e distanciamento. Preconceituosa e intolerante, sua convicção é a sua maior arma, e ela usa do poder que tem para convencer até mesmo o espectador de que Flynn é um lobo em pele de cordeiro. Ela passa a acusar diretamente o padre, ameaçando até mesmo sua carreira como pregador e educador – o que o enfurece, e inevitavelmente confunde-nos.

A tendência é acreditarmos no padre Flynn, e isso acontece por muitos motivos. O espectador tem a nítida sensação de que a madre Aloysius é cega pela dúvida e se deixa levar pelo instinto de algo que ela gostaria muito que fosse verdade, mas que vemos como um insulto, um absurdo. A empatia imediata que temos com Flynn se deve principalmente pelos ideais liberais que ele professava – aqueles que conhecem o “trabalho” milenar da igreja não confiam nela e jamais comprariam os valores repressores de Aloysius. A característica autoritária da madre fica ainda mais óbvia quando vemos a dificuldade que ela tem de encarar com leveza e naturalidade atos de carinho e mostras de afeto até mesmo entre suas colegas irmãs.

Apesar de acreditarmos piamente na bondade do padre Flynn e condenar as ações e vociferações da madre, ainda assim o brilhantismo de Hoffman constantemente induz à dúvida. Em um momento específico, enquanto ouve calmamente as acusações de Aloysius, Flynn dá uma resposta simples, até mesmo ingênua – não fosse o olhar de soslaio, de ligeiro desprezo, como se insinuasse ele mesmo uma dúvida se a freira havia ou não engolido sua suposta mentira.

Todos os detalhes do longa levam-nos a pensar ora uma coisa, ora outra, tendendo mais à real motivação de altruísmo do padre. A bela cena na qual Flynn suplica a Aloysius para que esquecesse o assunto nos convence de que o padre é somente um homem tentando fazer o bem. Nossa oscilação é representada pela irmã James, que apesar de assustada com a condenação do padre, não se sente segura o suficiente para inocentá-lo.

Outro belo momento é a cena de Aloysius com a mãe de Donald, com a atuação absolutamente tocante de Viola Davis – que nos convence definitivamente da idolatria que o menino tinha pelo padre, como a um pai. O importante para a mãe, diz ela mesma, é que o filho possa entrar na faculdade, mesmo que isso implique a convivência com um homem que não respeita a fé que professa. Um choque para nós e um muito maior para a madre que tentava empurrá-la contra Flynn.

Dúvida, enfim, mostra-se mais um confronto de dogmas e muito mais uma visão do que cada espectador pode extrair do que uma resolução para o dilema que Shanley sugere. A trilha sonora de Howard Shore (o mesmo gênio que criou toda a música de O Senhor dos Anéis) colabora com o mesmo tom opressor da paleta de cores que tende para o cinza triste. Os poucos momentos de descontração são encaixados nos momentos exatos e acabam sendo bem aceitos.

Ao final da projeção, a certeza que temos é de que “a resignação é uma confissão” (como diz Aloysius). O visível arrependimento da madre talvez tenha sido a única ponta solta da direção, uma vez que não temos compaixão pela personagem, e não nos comovemos com sua resignação. Mesmo assim, fica-se com a sensação de que “o bem prevaleceu” e a verdade veio à tona – o que, certamente, é um alívio para o espectador.

Titulo Original: Doubt
Direção: John Patrick Shanley
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: John Patrick Shanley, baseado em peça teatral de sua autoria
Trilha Sonora: Howard Shore
Fotografia: Roger Deakins
Tempo de Duração: 104 minutos
Com: Meryl Streep (Aloysius Beauvier), Philip Seymour Hoffman (Brendan Flynn), Amy Adams (irmã James), Joseph Foster (Donald Miller), Viola Davis (Sra. Miller), Alice Drummond (irmã Veronica), Audrie J. Neenan (irmã Raymond).

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Busca Implacável

março 15, 2010
Chuck Bond ou James Norris?

Frenético, Busca Implacável lida com a visão de um homem misto de James Bond com Chuck Norris que tenta resgatar a filha seqüestrada

NOTA:

Uma vez ouvi dizer que os filmes mais complicados de se escrever sobre eram exatamente aqueles que não são nem excelentes e nem horríveis. Nesses casos, há muito que ser dito, para o bem ou para o mal. Em um filme regular ou somente bom, nos limitamos a comentar as atuações e o roteiro, já que nada de inovador é mostrado com a direção. É o caso deste Busca Implacável, de Pierre Morel, último filme do diretor, e talvez o único famoso.

É a história de Bryan Mills, um ex-agente da CIA que, após se aposentar, decide compensar o tempo que deixou de dar à família. Por ter sido um agente excepcional, o casamento com Lenore foi abalado, e aqui já o encontramos separado, dedicando-se exclusivamente à filha que teve com ela, Kim – interpretada pela mesma atriz que fez Shanon em Lost. A menina de 17 anos, até um pouco boba demais, tem uma ligação forte com o pai, e pode-se notar isso em momentos de muito afeto e ternura que demonstram um com o outro.

Bryan se esforça para encontrá-la sempre que pode, um verdadeiro paizão. A trama começa quando Kim decide viajar com uma amiga, Amanda, para um mochilão na Europa. Superprotetor, Bryan resiste até o último momento em deixá-la ir, mas acaba demovido por Lenore. As duas acompanhariam a turnê do U2, passando por diversas cidades, entre elas Paris, Madri e Londres.

Nada de muito especial acontece até o momento do turning point. Confesso que foram esses primeiros trinta minutos (e o trailer destas cenas) que me fizeram assistir até o final. Ao chegar a Paris, as meninas conhecem um rapaz, Peter, que divide o táxi com elas até o apartamento em que ficariam. Logo de cara Amanda delata que estão sozinhas em casa, e o rapaz convida-as a uma festa de faculdade. Ladainha pura. Mal as meninas entram no prédio, Peter faz uma ligação que já acelera os corações.

Quando Kim decide finalmente ligar para o pai dizendo que está tudo bem, vemos as cenas angustiantes do trailer. Ela vê dois homens entrando no apartamento e seqüestrando Amanda. Frio e calculista como um verdadeiro James Bond, Bryan aconselha a filha a se esconder debaixo da cama do quarto mais próximo e aguardar. “Agora preste atenção. Eles vão te encontrar, e eles vão te levar”.

Suspense terrível, Bryan ouve do outro lado da linha líderes albaneses sequestrando Kim. O bandido pega no telefone e ouvimos a sentença de morte mais deliciosamente vingativa do filme: “Eu não sei quem você é, eu não sei o que você quer. Se você quer resgate, eu não tenho dinheiro. Mas o que eu tenho são algumas habilidades especiais; habilidades adquiridas em uma longa carreira. Habilidades que me fazem um pesadelo para gente como você (…) Se você não soltar a minha filha, eu vou te procurar, eu vou te achar. E eu vou te matar”.

É então que a versão Chuck Norris de Neeson entra em ação – neste ponto, pensei “ah, vai acabar tudo bem, afinal, ele é o Qui-Gon-Jynn!” (para os não-geeks, o mestre de Obi Wan Kenobi/Ewan McGregor de Star Wars). Como era de se esperar de um agente da CIA, Bryan demove o mundo para resgatar sua filha. Ele vai a Paris e encontra um antigo amigo corrupto, e ameaça até mesmo a família dele para que a menina seja salva. Com agilidade e esperteza típicas de um veterano – tanto no sentido figurado quanto pelo próprio ator, já acostumado com esse tipo de papel – Bryan vai conseguindo pistas, disparando tiros e socos até encontrar a garota.

Os diálogos são curtos e diretos, dando bem a ideia de que este não é só um agente da CIA, mas é um pai desesperado. Um homem que não hesita em abusar da violência e o que é pior: mostrando-nos que em alguns casos ela não é gratuita. Talvez este seja o grande mérito do filme. Recentes acontecimentos aqui no Brasil me dão agora a certeza de que algumas pessoas não podem sair impunes (rest in peace, Glauco e Raoni).

Mesmo sabendo que a viagem das meninas não é tão absurda quanto o pai-coruja quer acreditar, o que acontece a elas é realmente assustador. Por já ter vivido experiências semelhantes (como contado nos posts de O Albergue Espanhol e Ele Não Está TÃO Afim de Você), e também por saber que essas coisas são reais e realmente acontecem, sei que quando chegamos sozinhos em algum país diferente, temos a tendência de conversar com todos, ir a lugares muitas vezes duvidosos e dar atenção a quem não mereceria se estivéssemos em casa. É um filme emocionante e chocante, com sequências de ação nervosas, mostrando que o roteiro de Luc Besson cumpriu bem seu papel até aqui.

Talvez o defeito tenha ficado para o modo como Morel terminou o filme. A partir de um determinado momento, sentimos que ali deveria ser o final, e não a maneira como ele realmente acaba. Enquanto o longa inteiro teve ritmo frenético, a escolha por acabar com o mesmo tom da primeira meia hora simplesmente não combinou. Fiquei com a sensação de que não foi a melhor solução, e de que ficou tudo bem muito de repente.

Além disso, apesar de ser uma verdade incontestável as atrocidades que jovens turistas passam na mão de sequestradores e contrabandistas na Europa, esta é uma visão que denuncia com muita parcialidade, exatamente por Kim ter sido salva pelas mãos de um ex-agente da CIA. Se este filme não fosse hollywoodiano, talvez não tivesse acabado nada bem. Não é uma visão cética, denunciante do que realmente acontece, mas sim uma visão moralista e, como eu disse acima, absolutamente parcial.

Título Original: Taken
Direção: Pierre Morel
Gênero: Ação
Ano de Lançamento (França): 2008
Roteiro: Robert Mark Kamen e Luc Besson
Trilha Sonora: Nathaniel Mechaly
Fotografia: Michel Abramowicz
Tempo de Duração: 93 minutos
Com: Liam Neeson (Bryan Mills), Maggie Grace (Kim), Famke Janssen (Lenore), Katie Cassidy (Amanda), Arben Bajraktaraj (Marko), Xander Berkeley (Stuart), Nicolas Giraud (Peter), Nabil Massad (Sheik Raman), Leland Orser (Sam), Olivier Rabourdin (Jean-Claude).

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Oscar 2010

março 8, 2010
Os finalmentes 

Surpresas, fiascos, acertos e algumas alfinetadas no maior evento de Hollywood

Como todos já devem ter reparado, este é um blog de críticas de cinema, que analisa filmes antigos e novos, carreiras de atores e diretores dentre outras coisas. O Oscar é, feliz ou infelizmente, o grande evento do ano que coroa as nossas expectativas a respeito do que é bom ou não, ou do que merece ser premiado.

 

Nós, espectadores, infelizmente não temos participação ou influência alguma nos resultados finais da Academia. Pois se tivéssemos, alguns troféus que foram entregues ontem à noite no Kodak Teather teriam sido trocados de mãos.

Este post é meramente ilustrativo, somente para comentar o fiasco que a cada ano o Oscar tem se mostrado ser. Este ano, por mais que muita gente boa estivesse na lista de concorrentes, nunca estive tão desanimada para com os resultados. Excluindo toda a breguice típica do evento, confesso que estava torcendo para três longas, e dois deles foram eleitos. E da seleção de atores, somente um deles correspondeu àquilo que eu esperava. Comentarei a seguir somente as categorias principais.

O austríaco Christopher Waltz foi o primeiro dos vencedores que eu queria ver, vencedor de “Melhor Ator Coadjuvante” pelo excelente papel do Bastardos Inglórios de Tarantino. Ele já era favorito pela crítica, mas teve sua recompensa merecida. O vencedor da categoria seguinte foi Up, por “Melhor Animação”, o que não foi nenhuma surpresa, uma vez que também era favorito de crítica e público.

A grande revelação da noite foi a quantidade de Oscars que Guerra ao Terror ganhou 6 de 9 estatuetas, superando o favorito Avatar. O filme de Kathryn Bigelow levou as estatuetas de “Melhor Roteiro Original”, “Melhor Edição de Som”, “Melhor Mixagem de Som”, “Melhor Edição/Montagem”, “Melhor Direção” (feito histórico em 82 anos de premiação, pois ela foi a primeira mulher a vencer) e “Melhor Filme” – este último, sim, foi a maior surpresa!

Apesar de não achar que Avatar merecia levar o grande prêmio da noite, é sem dúvida um choque tanto para James Cameron quanto para todos que acreditaram (assim como eu) que a revolução tecnológica do longa seria capaz de mudar a mente da Academia. Ledo engano. 

Algumas boas notícias: prêmio de “Melhor Atriz Coadjuvante” para Mo’Nique de Precious, “Melhor Trilha Sonora” para Up e, sem dúvida a melhor notícia de todas, “Melhor Filme Estrangeiro” para O Segredo dos Seus Olhos. Vibrei! As obviedades: “Melhor Direção de Arte”, “Melhor Fotografia” e “Melhores Efeitos Visuais” para Avatar – o que, convenhamos, não faria sentido algum se não ganhasse.

O Oscar de “Melhor Ator” para Jeff Bridges por Coração Louco me foi indiferente – justamente por ainda não ter visto o filme -, apesar de achar justo, uma vez que ele é um ótimo ator, com carreira de peso. O único absurdo da noite realmente foi o prêmio de “Melhor Atriz” para Sandra Bullock. Apesar de ser favorita, não podemos jamais esquecer que ela é a Miss Simpatia, a mocinha de Velocidade Máxima e outros fiascos. É equivalente a dar um Oscar para Adam Sandler – oi, isso jamais deveria acontecer.

Um parêntesis sobre o meu desgosto com Sandra Bullock. Ela é antipática, falsa. Pode até trabalhar direitinho – mas isso não significa de modo algum que ela é uma atriz de peso. A consideração final resume bem: ela foi a primeira pessoa a ganhar (e receber!) o Framboesa de “Pior Atriz” e o Oscar de “Melhor Atriz”. Contradição?!

Sim, eu sei que a Academia precisa de rotatividade entre os vencedores – senão, nada mais justo do que premiar Al Pacino a cada produção que ele participasse. Mas Sandra Bullock? Definitivamente. É evidente que a atriz que mais merecia vencer, nunca iria: Gabourey Sidibe, por Precious. Mas sei que isso já é esperar muito de Hollywood.

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Wall•E

março 3, 2010
Outter Space

Uma das mais belas produções da Disney Pixar, Wall•E é realista e sutil, porém subestimado

NOTA: 10

Protelei muito. Depois dos maravilhosos antecessores Procurando Nemo, Carros e Ratatouille, duvidei que os estúdios Pixar tinham algo mais a oferecer. Isso frequentemente acontece, e ainda bem que podemos nos redimir e mudar de opinião. Pois se Wall•E não é o longa mais famoso, deveria ganhar muito mais créditos do que ganhou na época de seu lançamento.

Recordo-me de ouvir diversas críticas negativas a respeito da história, de que era tudo muito parado, com poucas falas. Claro, para a revolução tecnológica que vivemos de três em três meses (quando não menos), um filme de animação feito para o grande público que seja poético, sutil e recheado com onomatopéias realmente não parece muito atraente.

Não se deixe enganar, caro leitor. Wall•E é uma das produções mais belas do Walt Disney digital, com roteiro comparável ao do também subestimado Corcunda de Notre Dame – que falam de coisas que as pessoas geralmente não gostam de falar, como as próprias responsabilidades com o mundo, sejam elas ecológicas ou sociais (para quem não se lembra, o antigo desenho de 1996 trata do preconceito e aceitação de um deficiente físico).

A história gira em torno do robozinho que dá nome ao filme, de olhos tristes e cativantes, habitante de uma Terra abandonada no ano 2700 para cumprir sua missão: compactar e organizar todo o lixo criado pelos homens, que agora inunda o planeta – o que se mostra uma função absolutamente inútil.

Apesar de ter olhinhos caídos, Wall•E é um lobo solitário, que tem por companhia a si mesmo, uma infindável coleção de objetos humanos (o que me lembrou de imediato a coleção de Ariel, de A Pequena Sereia, um clássico 2D) e uma simpática baratinha (sim, é possível), com os quais aparentemente se dá muito bem. Uma cena encantadora, inclusive, é a emoção que Wall•E sente ao assistir a uma cópia em VHS de Alô, Dolly (1969), parte de sua “biblioteca pessoal’.

A primeira meia hora do longa limita-se a contar o dia-a-dia do robô, em planos sem diálogo, mas com cores quentes que lembram a ferrugem e poeira que se encontra nosso planeta. A trilha sonora ajuda a compor o momento melancólico, com músicas como “La Vie en Rose” (com Louis Armstrong) e o tema de 2001: Uma Odisséia no Espaço. É neste contexto que um novo robô chega a Terra, para buscar um possível “tesouro”. Uma robô, para ser mais exata: EVA.

A mágica de Wall•E está no encontro dos dois robozinhos, que deixam de lado suas funções básicas (obedecer aos criadores) para buscar e encontrar a própria individualidade. A beleza de ver dois seres “inanimados”, duas máquinas, ganharem vida e se permitirem sentir emoções humanas é o ponto crucial da animação. A antropomorfização da Pixar nunca foi tão bem sucedida quanto no olhar choroso de Wall•E – que remete diretamente ao sucesso que os olhinhos do Gato de Botas de Shrek 2 fizeram, mas sem o apelo cômico do filme da Dream Works.

Além de ser plasticamente belíssimo, o novo filme de Andrew Stanton é realista em muitos sentidos. Desde colocar os humanos como seres obesos e egoístas, que não conseguem perceber uns aos outros por não desgrudarem de suas televisões particulares, até o emprego da câmera como se fosse manipulada manualmente (em uma cena, o “cameraman” tem que ajustar rapidamente o foco após ser atingido por carrinhos de supermercado).

Como toda obra de arte, o filme sutilmente faz referências às suas inspirações. Além do que já foi citado anteriormente, o robô AUTO, da nave humana Axioma, lembra de imediato o terrível manipulador HAL 9000 do clássico de Stanley Kubrick.

A alma que Stanton empregou tanto em Wall•E como em EVA demonstra a beleza das relações de duas “pessoas” que podem não se gostar a primeira vista, mas são conquistadas pela doçura e gentileza uma da outra. Além disso, as vozes criadas por Ben Burtt (o gênio por trás de Star Wars) são totalmente verossímeis, conferindo aos personagens ainda mais personalidade (com outras palavras, são fofos!).

Apesar da Pixar investir em filmes infantis, Wall•E acabou se tornando um filme mais adulto, que lida com preconceitos, diferenças, aceitações – nem sempre bem-sucedidas. Isso é só mais um mérito do estúdio da Disney, e uma ousadia mais do que acertada do diretor.

Título Original: Wall•E
Direção: Andrew Stanton
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: Andrew Stanton
Trilha Sonora: Thomas Newman
Direção de Arte: Ralph Eggleston
Tempo de Duração: 97 minutos
Com: Ben Burtt (Wall•E/M-O), Elissa Knight (EVA), Jeff Garlin (Capitão), Fred Willlard (Shelby Forthright), John Razenberger (John), Kathy Najimy (Mary) e Sigourney Waever (AUTO)